Evaldo Augusto Torres Alves /editor
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Política

Pesquisa Ibope indica Serra e Dilma empatados


Pesquisa Ibope indica Serra e Dilma empatados às vésperas da largada
Ambos tem 39% das intenções de voto, segundo sondagem encomendada pela Associação Comercial de SP

Daniel Bramatti
do Estadão

SÃO PAULO - Às vésperas do início oficial das campanhas eleitorais, a petista Dilma Rousseff e o tucano José Serra aparecem empatados na corrida presidencial. Ambos tem 39% das intenções de voto, segundo pesquisa Ibope encomendada pela Associação Comercial de São Paulo.

A pesquisa, feita após Serra ganhar destaque em 20 anúncios de 30 segundos do PSDB, exibidos em rede nacional de rádio e televisão, confirma o cenário captado nos últimos dias pelo instituto Datafolha, que também apontou um empate técnico: Serra com 39% e Dilma com 38%.

Há pouco mais de uma semana, o Ibope havia divulgado a primeira pesquisa em que a candidata do PT aparecia como líder isolada, com cinco pontos porcentuais de vantagem em relação ao adversário. Desde então, Serra subiu quatro pontos porcentuais, e Dilma oscilou negativamente um ponto. A candidata do PV, Marina Silva, oscilou de 9% para 10%.

O empate entre os dois persiste na simulação de segundo turno - ambos aparecem com 43%. Dilma está à frente, porém, no quesito expectativa de vitória. Para 45% dos entrevistados, ela será a próxima presidente da República. Outros 34% preveem que Serra será o vencedor.

Gêneros e regiões. O candidato do PSDB voltou a se distanciar de Dilma no eleitorado feminino - nesse segmento, lidera por 46% a 39%. A pesquisa Ibope feita entre os dias 18 e 21 de junho mostrava, pela primeira vez, um empate entre os dois principais adversários entre as mulheres. Entre os homens, é a petista quem leva vantagem, por 48% a 39%.

O tucano também se descolou da adversária na região Sudeste, onde voltou a ocupar a liderança isolada, com 41% a 34%. No Norte/Centro-Oeste, Serra virou o jogo: perdia por 40% a 34%, e agora lidera por 43% a 35%. No Sul, o tucano vence por 45% a 37%. Dilma está à frente apenas no Nordeste (50% a 30%). Oscilações significativas nos resultados regionais não são incomuns. Como o número de entrevistas é relativamente pequeno em cada região, as margens de erro são grandes.

Palanque eletrônico. O Ibope mediu o impacto da propaganda partidária exibida recentemente, e que foi utilizada pelos candidatos como plataforma para se promover. Um terço dos entrevistados lembraram ter visto propagandas de Serra nas duas semanas anteriores ao levantamento. No caso de Dilma, esse índice foi de 27%.

Todos os dados se referem ao cenário em que são apresentados aos entrevistados apenas os nomes dos três principais candidatos. Quando os chamados "nanicos" são incluídos no levantamento, Serra e Dilma empatam em 36%, e Marina fica com 8%.

A pesquisa ainda incluiu os nomes de Ciro Moura (PTC) e Mário de Oliveira (PT do B), que desistiram de concorrer às vésperas do prazo final para as convenções partidárias. Ontem, o PSL anunciou que Américo de Souza também não será mais candidato, o que reduziu o número de presidenciáveis para dez.

Na pesquisa espontânea, aquela em que os eleitores manifestam sua preferência antes de ler a lista de candidatos, Dilma lidera com 22% das intenções de voto. Serra vem a seguir, com 17%. Ainda há 12% de eleitores que citam o presidente Luiz Inácio Lula da Silva como seu nome favorito, apesar de ele não ser candidato.

A três meses do primeiro turno, pouco mais da metade da população afirma ter "muito interesse" ou "interesse médio" pelas eleições. Nada menos que 44% admitem ter pouco ou nenhum interesse pela questão.

Dados técnicos

O Ibope ouviu 2.002 eleitores em 140 municípios de todo o País entre os dias 27 e 30 de junho. A pesquisa foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número 17.245/2010. A margem de erro do levantamento é de dois pontos porcentuais para mais ou para menos.

O CNJ e os precatórios
do Estadão

Apesar da entrada em vigor da Emenda Constitucional 62, que desde dezembro do ano passado estabeleceu regras mais objetivas ? mas nem por isso justas ? para pagamento dos precatórios, como são conhecidas as dívidas e obrigações do poder público reconhecidas oficialmente pela Justiça, alguns Estados e municípios continuaram atrasando os depósitos, o que levou advogados de vários credores a recorrer à medida extrema prevista pela Constituição, requerendo intervenção federal por descumprimento de decisões do Judiciário.

Para poupar de mais problemas os milhares de cidadãos e empresas que legitimamente esperam há anos dispor do dinheiro a que têm direito, por determinação judicial, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) decidiu instituir um Cadastro de Entidades Devedoras Inadimplentes e criar um comitê gestor, integrado por um juiz estadual, um juiz federal e um juiz trabalhista, para auxiliar os presidentes de tribunais no controle dos pagamentos.

A iniciativa foi tomada pelo conselheiro Ives Gandra da Silva Martins Filho, que também é ministro do Tribunal Superior do Trabalho, e se baseia na Emenda 62. Ela determina que a União, os Estados e os municípios reservem uma parcela de sua receita corrente líquida para o pagamento de dívidas judiciais, destinando no mínimo 50% do valor para quitação dos precatórios por ordem cronológica e até 50% para negociação com o credor ou por leilão ou venda a terceiros. A lista de credores inclui os detentores de créditos alimentícios ? ou seja, cidadãos que têm direito a receber dos cofres públicos diferenças salariais, aposentadorias e pensões atrasadas. A lista inclui ainda cidadãos e empresas que contestaram com sucesso, na Justiça, os valores das indenizações geradas por desapropriações de imóveis.

A Emenda Constitucional 62 também transferiu para os tribunais a responsabilidade de controlar os pagamentos dos precatórios. Entre outras sanções, os órgãos públicos inadimplentes ficam proibidos de receber repasses regulares ou extraordinários do governo federal. Além de ter criado um registro nacional dos órgãos públicos caloteiros, que não cumprem sistematicamente as determinações judiciais, a resolução que o CNJ baixou, cumprindo seu papel fiscalizador, padroniza os formulários para expedição de precatórios em todo o País. E, para organizar de forma mais eficiente, racional e objetiva as listas de pagadores, a resolução do CNJ também estabeleceu critérios e medidas práticas para a formalização de convênios entre tribunais e entidades públicas.

Embora a parcela mínima da receita corrente líquida para pagamento de dívidas judiciais prevista pela Emenda Constitucional 62 seja muito baixa, os prazos tenham sido estendidos ainda mais e os governos tenham sido beneficiados pelo dispositivo que lhes permite fazer leilões para dar prioridade a quem aceite quitar seus créditos com grande desconto, rompendo com isso a ordem de apresentação dos precatórios, ainda assim alguns Estados e municípios vinham postergando os depósitos sob a justificativa de que aquele texto constitucional ainda não havia sido regulamentado.

Era muita desfaçatez, reconheceram os integrantes do CNJ. "Agora não tem mais como o poder público deixar de fazer o pagamento por falta de regulamentação da matéria", diz o conselheiro e ministro Martins Filho. E, como prefeitos e governadores chegaram a cogitar de arguir a inconstitucionalidade da resolução, antes de baixá-la o órgão encarregado de zelar pelo controle externo do Poder Judiciário criou um grupo de trabalho para submeter cada um de seus dispositivos a uma minuciosa avaliação técnico-jurídica. A resolução tem 46 artigos. Mas, como diz o conselheiro Jefferson Kravchychyn, "uma resolução mais enxuta não traria a resposta que é exigida pelos advogados, pelos tribunais e pelos jurisdicionados".

Não fosse a iniciativa do CNJ, os credores de precatórios, que já haviam sido prejudicados pela Emenda Constitucional 62, continuariam sendo vítimas do calote de prefeitos e governadores.

Para acelerar o crescimento
Carlos Alberto Sardenberg
do Estadão

Brasil fora da Copa, as eleições presidenciais logo chegarão ao centro do noticiário. Adiantando, eis alguns pontos que merecem atenção no que se refere ao modelo macroeconômico:

Metas de inflação ? o regime de metas funciona no Brasil desde 1999, com bastante sucesso. A inflação, medida pelo IPCA, roda em torno dos 4,5% ao ano, no centro da meta, e os juros reais estão na faixa dos 5%, ante os 15% verificados no início do regime. Já basta?

A resposta é não. A meta de inflação no Chile, no México, na Coreia do Sul e na China é de 3% ao ano, considerado um padrão mais adequado para emergentes de renda média.

Assim, há três possíveis avanços que poderiam ser implementados no regime de metas. Primeiro, colocar na lei a independência do Banco Central. Hoje, há uma autonomia operacional concedida pelo presidente da República, que, portanto, pode cancelá-la a qualquer momento. Isso é um fator de incerteza ? e toda incerteza leva a uma inflação mais elevada (e, pois, a juros mais altos).

A segunda mudança seria reduzir a meta e a margem de tolerância, hoje de dois pontos para cima e para baixo. Assim, a rigor, a inflação brasileira pode ir a 6,5% num ano, o que é muito elevado. Costuma-se dizer que o Brasil tem a mais alta taxa de juros entre os países importantes. Tem também a meta de inflação mais alta.

A terceira mudança seria um programa para eliminar as indexações que ainda existem na economia brasileira, como as diversas modalidades de correção automática de preços e contratos.

Dívida pública ? A Dívida Líquida do Setor Público (DLSP) está em torno dos 40% do PIB. Já foi de 70%, de modo que houve uma notável redução. Mas, entre os emergentes importantes, o padrão é de 30%. A Dívida Pública Bruta, aqui, se aproxima dos 70% do PIB ? é também mais elevada do que na concorrência.

Dívida elevada é uma das causas de juros mais altos. Portanto, uma boa política seria estabelecer metas de redução desse endividamento, nos dois conceitos.

O peso do Estado ? Também seria uma boa política a introdução de metas de redução do peso do Estado na economia. Não é preciso, dada a dificuldade política e jurídica, demitir funcionários e fechar órgãos. Há alternativas: por exemplo, de cada dois que se aposentam, contratar apenas um novo funcionário. Ou estabelecer como regra que todo o gasto público cresce sempre abaixo da expansão do PIB.

Paralelamente, é preciso aplicar programas de eficiência na administração pública. O Brasil gasta com saúde e educação a mesma coisa que gastam outros países com melhores resultados.

Reforma tributária ? Políticas de redução e controle de gastos públicos criam o espaço para a tão sonhada reforma tributária, com o duplo objetivo de diminuir a carga e simplificar o sistema. Hoje, é impossível falar em redução de impostos diante de uma dinâmica de gastos públicos sempre crescentes.

Investimentos ? É o ponto fraco da economia brasileira. Na média, os países emergentes investem 28,5% ao ano, com destaque para os asiáticos, normalmente acima dos 30%. Na América Latina a média cai para 22,5% ao ano. E o Brasil? Neste século, o melhor que conseguiu foi 20%, em 2000. A média de 2003/2008, até a crise global, foi inferior a 17%. Por isso, o crescimento brasileiro também está abaixo das médias global e latino-americana. O Brasil tem uma propensão ao consumo, a começar pelo governo.

Estabelecer metas de investimentos públicos e privados é possível, mas apenas em conjunto com políticas de redução e controle do gasto público.

Petrobrás. Comentamos aqui, na semana passada, como o governo Lula está impondo enormes tarefas e programas de investimentos à Petrobrás, em alguns pontos contra a opinião técnica da própria estatal. É o caso das três refinarias em construção, ao mesmo tempo, em Pernambuco, Ceará e Maranhão ? todas longe tanto dos centros de produção de petróleo quanto dos principais mercados consumidores de derivados.

Para bancar todos esses investimentos, a Petrobrás terá de se endividar e comprometer sua lucratividade atual. Além disso, o governo vai capitalizar a estatal entregando barris de petróleo "futuros", enquanto os minoritários terão de entrar com dinheiro vivo.

Vários leitores comentaram. O e-mail abaixo, do leitor Davi Lamas, resume bem a posição de minoritários descontentes:

"Gostaria de demonstrar meu profundo descontentamento diante dos inúmeros erros que a Petrobrás vem cometendo. Obviamente, este e-mail pode ser insignificante, mas acho interessante demonstrar o sentimento do acionista minoritário, ainda mais diante do aporte do Oceano Atlântico em troca de ações da empresa. Se não bastassem a questão política, os gastos excessivos, a falta de planejamento, vejam o plano de negócios patético da estatal, que comprometerá a empresa no mínimo pelos seis próximos anos ? jogando no lixo o lucro por ação, a rentabilidade, etc. Deveriam aprender com a Vale, uma empresa preocupada com o acionista e que traz valor real ao mesmo. É o contrário do que faz a Petrobrás, que se tornou um sinônimo de má administração, ingerência e falta de controle. (A capitalização a ser promovida pelo governo tem sido definida como) "manobras de um país sem leis", segundo sites de economia internacionais."

De outro lado, o próprio presidente Lula tem dito que a Petrobrás, por ser estatal, deve mesmo agir como instrumento do governo na promoção de investimentos no País. Essa seria sua função principal, e não a distribuição de lucros aos acionistas.

O valor das ações da Petrobrás tem estado em queda, refletindo tanto as preocupações dos minoritários quanto as decisões do governo para a estatal.

O ópio do povo

FERNANDO DE BARROS E SILVA
da FSP


SÃO PAULO - Entre tantas "opiniães", como diria Guimarães Rosa, a eliminação da seleção brasileira da Copa deu vazão a dois tipos de comentários recorrentes.
O primeiro deles, emitido logo após a derrota para a Holanda, por ninguém menos que Galvão Bueno, tratava de nos lembrar que, afinal, "isso é apenas futebol", só um jogo de bola, e que a vida segue...
O segundo grupo de reações, muito frequente nas manifestações de leitores, diz, de maneira resumida, que agora, sim, podemos cuidar do que importa. Chega de farra, basta desse Carnaval de vuvuzelas -vamos cuidar da saúde, da educação, pensar nas eleições, afinal tão mais importantes.
Entre a oferta de consolo ("isso é só futebol") e o puxão de orelha ("agora chega disso"), há, em comum, a tentativa de reduzir o futebol a algo de importância menor, uma coisa "pouca séria".
Contra isso, poderíamos lembrar, como Nelson Rodrigues, que "a mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeariana".
Mas o ponto aqui é outro: se há um problema no futebol atual, não é a sua inconsequência, mas, pelo contrário, que ele tenha se tornado um assunto grave demais, ou distanciado demais da sua gratuidade original, dos seus aspectos lúdicos.
Isso tem a ver com o que o crítico José Miguel Wisnik chama, em seu "Veneno Remédio: o Futebol e o Brasil", de "capitalização" do jogo.
Dentro de campo, ela se traduz no "princípio do rendimento intensivo", no aumento da "margem de violência" incorporada à partida. Fora dele, está escancarada nos "interesses bilionários" que fazem do futebol o "veículo ideal da mercadoria" em escala planetária.
Ronaldo, o "fenômeno", foi até hoje o maior astro mundial desse jogo pesado. Quando as coisas desandam, ficamos com Felipe Melo. Ou diante das "faustetes", aquelas senhoras saltitantes que só faltam pular da TV para o sofá de casa a fim de nos convencer de que, além do futebol, existe o Torpedão.

Empresas entram em campo para a Copa de 2014
Empresas entram em campo para a Copa de 2014

IBM, Siemens, GE e Dupont criam núcleos para vender produtos para o evento, que vai movimentar R$ 142 bi em negócios indiretos

Raquel Landim
do Estadão

SÃO PAULO - A seleção brasileira se despediu da Copa da África do Sul na sexta-feira após uma sofrida derrota para a Holanda. Tristeza na torcida, agitação nos negócios. Agora os holofotes globais estarão voltados para a Copa do Mundo do Brasil em 2014. E muitas empresas já estão escalando seus times para entrar em campo.

Grandes companhias criaram departamentos e gerências para identificar as oportunidades geradas pelo mundial de futebol e pela Olimpíada no Rio de Janeiro em 2016. Outras empresas mobilizaram pessoas de várias áreas. São nomes de peso como Oi, IBM, Siemens, Dow Química, Dupont e General Eletric.

Domingues (de gravata), da DuPont, e equipe já estão mostrando produtos que vão de construção civil à segurança/ Foto: André Lessa/AE

Essas e muitas outras empresas estão de olho nos R$ 142,39 bilhões adicionais que vão girar na economia brasileira entre 2010 e 2014, conforme estimativa das consultorias Ernest Young e FGV Projetos.

Algumas adotam o estilo do técnico Dunga e mantêm a estratégia em segredo, com medo do ataque adversário. Outras, no entanto, toparam abrir seu treino para o público e contam ao Estado o que oferecem para ajudar o Brasil a transformar o sonho do mundial em realidade.

As novidades vão desde um aeroporto que "monta e desmonta" até banheiros de plástico "à prova de grafite". Surgem produtos específicos para enfrentar ataques terroristas - um problema fora do radar do Brasil, mas presente em eventos desse tipo.

Correndo por fora. Em janeiro, Pedro Almeida foi nomeado para a recém-criada diretoria de Cidades Inteligentes da IBM Brasil. Sua missão é "correr por fora". A Copa já tem fornecedores de tecnologia, mas o que interessa à empresa são os inúmeros projetos que rodeiam o evento. "O mais importante é o legado para as cidades", disse Almeida.

Um dos projetos da empresa é a "sala de situação", que foi feita na África do Sul para os jogos, mas também funciona em Chicago e Nova York. Como nas séries de TV, câmeras e dispositivos de filmagem carregados por policiais capturam milhares de imagens em todos os pontos dos estádios e enviam aos monitores instalados na sala.

"Os dados são analisados de maneira inteligente pelos computadores. Temos um algoritmo matemático que treina o olho da câmera para alertar para situações de perigo", diz Almeida.

Outro ponto forte da IBM será o transporte. A companhia promete criar rotas para os jogos, envolvendo ônibus, metrô e até bicicletas. O torcedor utilizaria o mesmo bilhete - ou seja, não gastaria tempo com filas, nem carregaria dinheiro. Os horários de ônibus e metrô seriam sincronizados para facilitar o deslocamento de tanta gente ao mesmo tempo.

A inovação deve estar presente em todos os lances da Copa. Estima-se que a Copa do Mundo de 2006, na Alemanha, tenha gerado um tráfego de 15 terabytes de dados, o equivalente a 100 milhões de livros. Desde então, a internet só cresceu.

Como patrocinadora do mundial, a Oi será responsável por administrar esse tráfego. A empresa faz mistério e diz que desenvolverá "um minucioso projeto" de soluções adequadas para o evento, cujos detalhes serão divulgados "oportunamente".

A operadora vai levar para as cidades-sede da Copa um modelo-padrão da infraestrutura. Ela acredita que o fato de ter uma cobertura nacional será um trunfo. Em São Paulo, vai prover o serviço por meio de parcerias com outras empresas e por sua rede própria.

Estudo recente da Ernest&Young mostra que tecnologia da informação é apenas uma das áreas beneficiadas pelos jogos. "Não temos dúvida de que os ganhos para o País serão vultosos", disse José Carlos Pinto, sócio da consultoria, que comanda uma equipe de 20 pessoas voltadas só para a Copa. No auge dos preparativos dos jogos, ele espera contar com 200 consultores.

Conforme o levantamento, os setores mais beneficiados serão construção civil, alimentos e bebidas, serviços, TI e turismo e hotelaria. A construção está no topo da lista, com um ganho adicional faturamento de R$ 8,14 bilhões entre 2010 e 2014.

É uma área ampla, que não envolve apenas construtoras. Fornecedores de vários tipos de produtos querem garantir seu espaço. Segundo informações de mercado, uma multinacional está fazendo lobby para que os bancos dos estádios sejam feitos de alumínio em vez de cimento.

Vitrine. A Dupont é uma das empresas mais bem preparadas para ganhar com o evento. Com produtos que vão da construção civil à segurança, promete jogar em qualquer posição. Desde setembro de 2009, a equipe de Julio Domingues, gerente de novos negócios da área de construção, está concentrada nos jogos.

"A Copa é uma vitrine muito importante, com um nível de exposição enorme dos produtos para o mundo", disse o executivo. Um dos produtos da empresa - um material sintético, que é uma combinação de minerais naturais e acrílico - foi usado em dois estádios da África do Sul.

Com esse material, é possível fazer tampos e cubos para as pias dos banheiros e divisórias para os vestiários dos atletas. O material é quase "anti-grafite", porque pode ser limpado facilmente - uma vantagem para evitar as pichações comuns nos estádios.

Domingues conta que já começou a fazer o "corpo a corpo" com escritórios de arquitetura para apresentar os produtos. Ao serem contratados pelas construtoras, os arquitetos serão os responsáveis pela escolha dos materiais.

Outra área da Dupont dedicada à Copa é a de segurança. Marcio Manique, gerente de vendas para segurança pública da empresa, enxerga grandes oportunidades. Ele conta que, no Brasil, a preocupação é a violência urbana, com bandidos disparando tiros nos faróis. Mas em um evento de massa que atrai a atenção do mundo, o País vai enfrentar outra ameaça: terrorismo.

A Dupont está desenvolvendo um colete à prova de balas mais resistente a fragmentos provenientes de explosões e vai trazer uma nova linha de roupas e tecidos para proteção de armas químicas e biológicas. São macacões brancos e amarelos de contenção de doenças como os que aparecem nos filmes de ação.

Outra novidade é um tecido para roupas de bombeiros que aumenta sua resistência ao fogo conforme a temperatura sobe.

"Desde que soube que ia ter a Copa no Brasil, estou trabalhando para trazer esse novo portfólio de produtos", conta Manique. "Já estamos em contato com a Polícia Federal e com os aeroportos para explicar a tecnologia", completa.

Ainda faltam quatro anos para a bolar rolar na Copa do Mundo do Brasil. Mas, para as empresas, os próximos meses serão a fase mais disputada do jogo. É a hora de colocar o time em campo, porque, quando os turistas chegarem, os vencedores do torneio empresarial já estarão definidos.


Komorowski será o próximo presidente da Polônia
Komorowski será o próximo presidente da Polônia

Com cerca de 95% dos votos apurados, liberal vence a eleição por estreita margem

VARSÓVIA - O liberal Bronislaw Komorowski ganhou por estreita margem, após a apuração de 95% dos votos, as eleições presidenciais polonesas realizadas neste domingo, nas quais o conservador Jaroslaw Kaczynski saiu derrotado.


A Comissão Eleitoral informou nesta segunda-feira, 5, que, com 95% das cédulas apuradas, Komorowski obteve 52,63% de apoios, contra 47,37% de seu rival, o conservador Jaroslaw Kaczynski.

Estes resultados respaldam a vitória do liberal depois da incerteza das primeiras recontagens, nas quais aconteceu uma reviravolta e Kaczynski chegou a superar Komorowski, situando-se momentaneamente como ganhador virtual das eleições.

"Se este resultado se confirmar na apuração, será uma eleição boa e segura para os poloneses", afirmou após conhecer as primeiras pesquisas de boca-de-urna o primeiro-ministro, o também liberal Donald Tusk, que vinha reiterando a importância de votar em Komorowski para assegurar uma boa coabitação entre a Presidência e o Executivo.

Por sua vez, Bronislaw Komorowski evitou grandes triunfalismos após conhecer essas pesquisas e decidiu adiar a comemoração até os resultados oficiais, que chegarão nas próximas horas quando for contabilizada a totalidade das cédulas.

Komorowski obteve maior número de apoios no Oeste do país, a região mais próspera, e nas principais cidades, enquanto Jaroslaw Kaczynski venceu no leste e nas áreas rurais, segundo acrescentou aautoridade eleitoral.

Após o fechamento dos colégios eleitorais, Kaczynski reconheceu a vitória apertada de seu rival e lhe transmitiu suas felicitações.

O conservador apareceu rodeado de seus partidários, alguns vestidos com trajes folclóricos poloneses, e de sua sobrinha Marta, filha de seu irmão gêmeo e anterior presidente, Lech Kaczynski, morto no dia 10 de abril em um acidente de avião.

"Agora é preciso se mobilizar e nos preparar para as parlamentares", diz Jaroslaw Kaczynski, enquanto os congregados, entre eles muita gente jovem, cantavam seu nome.

"Ser vencido, mas não se render", afirma o político conservador lembrando uma reunião do artífice da independência polonesa em 1918, Jozef Pilsudski, enquanto chamava a lutar pelas próximas eleições parlamentares.

Os dois candidatos já se enfrentaram no primeiro turno do dia 20 de junho, quando Komorowski foi de novo o mais votado, com 41% dos votos, contra 36% de Kaczynski, e 13% do líder da Aliança Democrática de Esquerda, Grzegorz Napieralski.

A vitória do liberal impede Jaroslaw Kaczynski de cumprir o desejo de continuar a "missão" de seu irmão gêmeo, Lech, algo que tinha prometido se conseguisse a Presidência do país.

Estas eleições, inicialmente previstas para o outono (hemisfério norte), foram adiantadas após a morte do presidente anterior, Lech Kaczynski.

O cargo de presidente é exercido na Polônia durante um período de cinco anos e, embora seja essencialmente representativo, tem a possibilidade de vetar as normas elaboradas pelo governo e tem a última palavra na ratificação dos tratados internacionais.


Domingo de eleições no México...
Domingo de eleições no México já registra 7 assassinatos

Assassinatos apresentam características comuns do crime organizado; em 14 Estados, serão escolhidos 12 governadores e mais de 1500 prefeitos e deputados

do Estadão

MÉXICO - Sete assassinatos foram registrados nas primeiras horas deste domingo de eleições regionais no México, nas quais 30 milhões de eleitores vão às urnas em 14 Estados. Na cidade de Chihuahua (norte), capital do estado de mesmo nome, o mais violento do México, quatro corpos de homens foram encontrados no início da manhã pendurados de três pontes.

Os locais foram isolados pela Polícia e nem a identidade dos mortos, nem o horário no qual os corpos foram pendurados foram divulgados. Ainda não se sabe quem cometeu estes crimes, mas os assassinatos apresentam as características comuns dos assassinatos cometidos pelo crime organizado.

No Estado de Hidalgo, na região central, dois comandantes policiais foram assassinados durante a madrugada no município de Actopan durante um confronto com supostos integrantes do crime organizado, informou a Procuradoria de Justiça estadual, que descartou que as mortes tenham relação com as eleições.

Um líder indígena associado ao Partido da Revolução Democrática (PRD) foi assassinado também nesta madrugada em Tenejapa, no estado de Chiapas (sul), quando voltava de atividades partidárias. Nos 14 Estados mexicanos onde há eleições, serão escolhidos hoje 12 governadores e mais de 1.500 prefeitos e deputados.

General dos EUA assume guerra afegã
No comando das tropas americanas no país, David Petraeus vê "momento crítico", mas prega vitória americana

Mês de junho foi o mais mortífero para a Otan desde 2001; estratégia deverá ser sabatinada em dezembro próximo

02.jul.2010 - Reuters/Stringer

Soldado afegão vigia empresa atacada pelo Taleban em Kunduz; cinco pessoas morreram

CRISTINA FIBE
DE NOVA YORK/FSP

Ao assumir o comando da guerra no Afeganistão, ontem, o general americano David Petraeus afirmou tratar-se de um "momento crítico" do conflito, prometeu "defender o povo afegão" e declarou: "Estamos nessa para vencer".
"Depois de anos de guerra, chegamos a um momento crítico. Precisamos mostrar ao povo afegão e ao mundo que a Al Qaeda e a sua rede de aliados extremistas não poderão estabelecer novos refúgios no Afeganistão."
Petraeus, 57, assumiu o posto no 4 de Julho, Dia da Independência americana, em substituição ao famoso general Stanley McChrystal, retirado depois de aparecer numa reportagem da revista "Rolling Stone", ao lado de assessores, fazendo críticas ácidas a vários membros do alto escalão do governo.
Petraeus era o chefe do Comando Central dos EUA, responsável pela supervisão das operações no Oriente Médio. Antes, ele já havia comandado as tropas no Iraque.
Agora, o general passa a orientar cerca de 100 mil militares que enfrentam atualmente uma escalada de violência no país.

CONTRAINSURGÊNCIA
O número de soldados da Otan (aliança militar ocidental) mortos em junho (102) foi o mais alto desde o início da guerra, em 2001.
O general agora terá seis meses para provar que a controversa estratégia de contrainsurgência, que ele mesmo ajudou a elaborar, está progredindo.
O governo Obama planeja para dezembro a revisão dessa estratégia, criticada por limitar o uso da força dos militares para diminuir o número de civis mortos.
Ontem, em cerimônia no quartel-general da Otan em Cabul, Petraeus prometeu mostrar "ao povo e ao Taleban que as forças internacionais e afegãs estão aqui para proteger os afegãos".
O general reafirmou que a troca de comando não significa mudança de estratégia.
Ele disse que o foco da missão militar continuará sendo a defesa da população, mas garantiu que reexaminará as diretrizes "para determinar onde refinamentos podem ser necessários".
Em seu discurso de posse, Petraeus também elogiou o trabalho de seu antecessor.
"O progresso feito nos últimos meses, diante de um inimigo determinado, é, em muitos aspectos, o resultado da visão, da energia e da liderança que ele proporcionou."

OPERAÇÃO ANTIDROGAS
Ontem, o governo afegão anunciou a morte de 63 traficantes e terroristas e a destruição de mais de 16 toneladas de drogas -principalmente ópio-, resultados de uma operação de dois dias no Sul do país.
De acordo com o Ministério do Interior afegão, duas fábricas para a transformação de ópio em heroína foram destruídas e um "grande número" de armas e munições foi apreendido.
A operação, que teve o apoio de soldados da Otan, prendeu ainda dez traficantes e militantes armados, incluindo estrangeiros, e libertou 14 civis que eram mantidos reféns por terroristas.
O Afeganistão é o fornecedor de 90% do ópio mundial e o líder na produção de haxixe. O cultivo e o tráfico são tidos como uma das principais fontes econômicas da insurgência no país.
*Com agências internacionais

Rapidinhas


Vice de Serra já atacou pré-sal e quis vetar esmola

Indicado pelo DEM, Indio da Costa apresentou ideias e projetos polêmicos como deputado e vereador do Rio

Escolhido disse -antes do terremoto no Haiti-que governo parecia "beber cachaça" ao manter tropas no país

FILIPE COUTINHO/BERNARDO MELLO FRANCO
da FSP

Desconhecido até outro dia pelo presidenciável José Serra (PSDB), o vice Indio da Costa (DEM) já usou a tribuna da Câmara para discorrer contra o pré-sal e a favor da proibição de coxinhas e pirulitos em cantinas escolares.
Deputado de primeiro mandato, ele também atacou o envio de ajuda humanitária ao Haiti, antes do terremoto que devastou o país.
Indio começou a defender ideias polêmicas em seu primeiro mandato de vereador do Rio, onde foi fiel escudeiro do então prefeito Cesar Maia.
Em 1997, apresentou projeto de lei para punir os cariocas que dão esmola a pedintes. "Fica proibido esmolar no município, para qualquer fim ou objeto", sentenciava o texto. "Quem doar esmola pagará multa a ser definida."
A proposta chegava a chamar a mendicância de "vício". Foi considerada inconstitucional e acabou numa gaveta da Câmara Municipal.
Ele também tentou proibir o comércio ambulante das ruas, o que varreria da paisagem carioca as figuras tradicionais dos vendedores de mate e biscoito de polvilho.
Num dos 130 discursos como deputado, Indio defendeu um plebiscito sobre a pena de morte, tema evitado por políticos experientes.
Afinado com o oposicionismo combativo do DEM, disse (antes da tragédia) que o governo parecia "beber cachaça" ao financiar tropas no Haiti enquanto o Brasil vivia uma "guerra civil".
O deputado é fiel às orientações do partido, o que demonstra que a relatoria do projeto Ficha Limpa não foi o único trunfo para a escolha.
Na votação do pré-sal, ignorou a pressão da base fluminense e repetiu o discurso ambientalista adotado pela sigla. Já fez duras críticas a Roberto Jefferson, presidente do PTB e homem forte da chapa de Serra.




A maldição do lulismo

JOSÉ AUGUSTO GUILHON ALBUQUERQUE
da FSP

À medida que se difundiu para fora do "entourage" presidencial e para fora do PT, o crescimento de Dilma foi tendencialmente menor

Para os adeptos da dialética estatística, as eleições são um livro aberto, repleto de grandes números: 73% sabem que Dilma é a candidata de Lula, com 80% de aprovação; 50% votariam na candidata do presidente, 70% dos quais votariam nela se a eleição fosse hoje.
Mas as eleições não são hoje. E a estatística não é dialética. Se bastasse ser reconhecida por 73% do eleitorado como candidata de Lula, que tem 80% de aprovação, Dilma deveria ter hoje 58% das intenções de voto. Mas não tem.
Dados recentes da pesquisa Ibope, publicados no jornal "O Estado de S. Paulo" (26/6/10), mostram que o apoio de Lula explicaria mais de 80% dos 40% de preferência por Dilma, de um total de 48% do eleitorado que diz votar no candidato de Lula. Mas uma parte desses fiéis lulistas (11% do eleitorado total) não prefere votar em Dilma.
Isso nos deixa com 37 pontos percentuais (p.p.) (48% -11%), uma boa estimativa da transferência real de Lula. Dilma colhe 3 p.p. adicionais no Ibope e, no Datafolha de 2 de julho, 2 p.p., atribuíveis a erro estatístico.
E tudo o que seu mentor logrou, em quase oito anos de governo e dois anos de campanha aberta e diuturna, foi dividir o eleitorado em dois blocos equivalentes e excludentes, 48% que querem votar em quem ele mandar e 47% que não querem.
E, por iniciativa do próprio Lula, seu eleitorado está polarizado com o eleitorado não lulista, já ocupado política e eleitoralmente pelas candidaturas de Marina e, especialmente, de Serra.
Mais grave é o fato de que o eleitorado lulista está em queda, de 53% que preferiam votar no candidato de Lula em março, para 48% em junho, perda de 5 pontos.
À contrapelo da opinião corrente, a curva do reconhecimento de Dilma como candidata oficial (mais 20 p.p. entre março e junho) é inversamente proporcional à da inclinação para votar na candidatura oficial (menos 5 p.p. no mesmo período) que, por sua vez, é inversamente proporcional ao crescimento das intenções de voto na candidata (mais 7 pontos percentuais).
Enquanto se difundiu a partir do próprio Lula e seus acólitos, o aumento do reconhecimento de Dilma como candidata oficial beirou os 100%. À medida que se difundiu para fora do "entourage" presidencial e para fora do PT, o crescimento foi tendencialmente menor.
À medida que seu reconhecimento alcança taxa muito elevada na sociedade, o nível de adesão à sua candidatura cai, pois passa a competir, cada vez mais, com os adversários e os que os apoiam.
Se a queda de 53% a 48% -na inclinação para seguir o que Lula mandar- se repetir nos próximos três meses, persistindo também os 11 p.p. que dizem votar em quem Lula apoiar, mas de fato não preferem Dilma, a transferência real de Lula se reduzirá a 32 p.p. do eleitorado da petista, que, para crescer, dependerá de seus próprios méritos e talentos.
Tarefa demasiado árdua.
Seu espaço para crescer está virtualmente esgotado e eu não me surpreenderia se ela andasse... para trás. A bênção do lulismo transforma-se em maldição. A síntese dialética só poderá vir das urnas...
*JOSÉ AUGUSTO GUILHON ALBUQUERQUE, 69, é professor titular de Ciência Política e Relações Internacionais da USP.



Lula diz que não tem perfil para ser secretário-geral da ONU

Agência Brasil/JB


CABO VERDE - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse neste sábado, durante entrevista coletiva a jornalistas estrangeiros em Cabo Verde, que não tem perfil para ser secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), como já foi sugerido pelo primeiro-ministro de Portugal, José Sócrates.

De acordo com o presidente Lula, o cargo exige um perfil burocrata, que não combina com o seu perfil político. "Secretário-geral da ONU deve ser um técnico, um burocrata de lá da ONU. Não pode ser um político, porque político pode criar problemas muito sérios. Imagine se amanhã o presidente dos Estados Unidos queira ser secretário-geral da ONU? Não dá certo. É importante que continue sendo um bom burocrata e não um político", disse.

O presidente se reuniu hoje com líderes de 15 países integrantes da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (Cedeao).





Eleição sem maquiagem


Eleição sem maquiagem

Fernando Henrique Cardoso
do Estadão

O mundo continua se contorcendo sem encontrar caminhos seguros para superar as consequências da crise desencadeada no sistema financeiro. Até a ideia (que eu defendi nos anos 1990 e parecia uma heresia) de impor taxas à movimentação financeira reapareceu na voz dos mais ortodoxos defensores do rigor dos bancos centrais e da intocabilidade das leis de mercado. No afã de estancar a sangria produzida pelas exacerbações irracionais dos mercados, outros tantos ortodoxos passaram a usar e até a abusar de incentivos fiscais e benesses de todo tipo para salvar os bancos e o consumo.

Paul Krugman, mais recentemente, lamentou a resistência europeia à frouxidão fiscal. Ele pensa que o corte aos estímulos pode levar a economia mundial a algo semelhante ao que ocorreu em 1929. Quando a crise parecia acalmada, em 1933, suspenderam-se estímulos e medidas facilitadoras do crédito, devolvendo a recessão ao mundo. Será isso mesmo? É cedo para saber. Mas, barbas de molho, as notícias que vêm do exterior, e não só da Europa, mas também da zigue-zagueante economia americana e da letárgica economia japonesa, afora as dúvidas sobre a economia chinesa, não são sinais de uma retomada alentadora.

Enquanto isso, vive-se no Brasil oficial como se nos tivéssemos transformado numa Noruega tropical, na feliz ironia deste jornal em editorial recente. E em tão curto intervalo que estamos todos atônitos com tanto dinheiro e tantas realizações. Basta ler o último artigo presidencial no Financial Times. A pobreza existia na época da "estagnação". Agora assistimos ao espetáculo do crescimento, sem travas, dispensando reformas e desautorizando preocupações. Se no governo Geisel se dizia que éramos uma ilha de prosperidade num mundo em crise, hoje a retórica oficial nos dá a impressão de que somos um mundo de prosperidade e o mundo, uma distante ilha em crise. Baixo investimento em infraestrutura? Ora, o PAC resolve. Receio com o aumento do endividamento público e o crescente déficit previdenciário? Ora, preocupação com isso é lá na Europa. Aqui, não. Afinal, Deus é brasileiro.

Só que a realidade existe. A prosperidade de uns depende da de outros no mundo globalizado. Por mais que estejamos relativamente bem em comparação com os países de economia mais madura, se estes estagnarem ou crescerem a taxas baixas, haverá problemas. A queda nos preços das matérias-primas prejudicará as nossas exportações, grande parte delas composta de commodities. A ausência de crescimento complicará a solução dos desequilíbrios monetários e fiscais dos países ricos e isso significará menos recursos disponíveis para o Brasil no mercado financeiro global. Não devemos ser pessimistas, mas não nos podemos deixar embalar em devaneios quase infantis, que nos distraem de discutir os verdadeiros desafios do País.

Infelizmente, estamos às voltas com distrações. Um cântico de louvor às nossas grandezas, de uma falta de realismo assustador. Embarcamos na antiga tese do Brasil potência e, sem olhar em volta, propomo-nos a dar saltos sem saber com que recursos: trem-bala de custos desconhecidos, pré-sal sem atenção ao impacto do desastre no Golfo do México sobre os custos futuros da extração do petróleo, capitalização da Petrobrás de proporções gigantescas, uma Petro-Sal de propósitos incertos e tamanho imprevisível. Tudo grandioso. Fala-se mais do que se faz. E o que se faz é graças a transferências maciças do bolso dos contribuintes para o caixa das grandes empresas amigas do Estado, por meio de empréstimos subsidiados do BNDES, que de quebra engordam a dívida bruta do Tesouro.

A encenação para a eleição de outubro já está pronta. Como numa fábula, a candidata do governo, bem penteada e rosada, quase uma princesinha nórdica, dirá tudo o que se espera que diga, especialmente o que o "mercado" e os parceiros internacionais querem ouvir. Mas a própria candidata já alertou: não é um poste. E não é mesmo, espero. Tem uma história, que não bate com o que se quer que ela diga. Cumprirá o que disse?

No México do PRI, cujo domínio durou décadas, o presidente apontava sozinho o candidato a suceder-lhe, num processo vedado ao olhar e às influências da opinião pública. No entanto, quando a escolha era revelada ao público - "el destape del tapado" -, o escolhido via-se obrigado a dizer o que pensava. Aqui, o "dedazo" de Lula apontou a candidata. Só que ela não pode dizer o que pensa para não pôr em risco a eleição. Estamos diante de uma personagem a ser moldada pelos marqueteiros. Antigamente, no linguajar que já foi da candidata, se chamava isso de "alienação".

Esconde-se, assim, o que realmente está em jogo. Queremos aperfeiçoar nossa democracia ou aceitaremos como normais os grandes delitos de aloprados e as pequenas infrações sistemáticas, como as de um presidente que dá de ombros diante de seis multas a ele aplicadas por desrespeito à legislação eleitoral? Queremos um Estado partidariamente neutro ou capturado por interesses partidários? Que dialogue com a sociedade ou se feche para tomar decisões baseadas em pretensa superioridade estratégica para escolher o que é melhor para o País? Que confunda a Nação com o Estado e o Estado com empresas e corporações estatais, em aliança com poucos grandes grupos privados, ou saiba distinguir uma coisa da outra em nome do interesse público? Que aposte no desenvolvimento das capacidades de cada indivíduo, para a cidadania e para o trabalho, ou veja o povo como massa e a si próprio como benfeitor? Que enxergue no meio ambiente uma dimensão essencial ou um obstáculo ao desenvolvimento?

Está na hora de cada candidato, com a alma aberta e a cara lavada, dizer ao País o que pensa.


*SOCIÓLOGO, FOI PRESIDENTE DA REPÚBLICA


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