Evaldo Augusto Torres Alves /editor
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Política

Rapidinhas


Serra e Marina criticam criação de novas estatais

Tucano aponta risco de corrupção na área de seguros

Candidata do PV ataca a suposta incoerência dos seus
adversários, que defendem a criação de novos ministérios

JOÃO CARLOS MAGALHÃES/BERNARDO MELLO FRANCO
da FSP

O candidato do PSDB à Presidência, José Serra, disse ontem em São Luís (MA) que a criação da EBS (Empresa Brasileira de Seguros) é "um perigo", pois a estatal pode virar um foco de corrupção.
"A princípio, eu não achava necessário criar mais uma empresa de seguros. Porque empresa de seguro é uma área potencialmente de muita corrupção. É um perigo."
Segundo Serra, em uma empresa desse tipo, "é muito difícil [controlar a ação de corruptos], pelo tipo de atividade, de você correr riscos maiores, menores. É uma coisa muito subjetiva".
Mais fácil, disse, seria "plantar batatinha": "Aí você sabe quanto você põe, você tira, pega o peso. Seguro é uma área mais complicada".
No Rio, a candidata do PV, Marina Silva, evitou opinar sobre a EBS, mas criticou a proliferação de estatais sob Lula e a incoerência dos adversários que prometem novos ministérios.
Serra já propôs a criação do Ministério da Segurança Pública, e Dilma Rousseff (PT), um Ministério da Micro e Pequena Empresa.
"Em período eleitoral, um cria um ministério aqui, outro cria uma estatal acolá, e vira um concurso de quem propõe mais coisas. Como todos falam que o Estado tem que ser eficiente, há uma contradição muito grande", disse a candidata.
Marina almoçou com 180 empresários na Associação Comercial do Rio, onde prometeu cortar gastos e elogiou as privatizações de FHC. O presidente da entidade, José Luiz Alquéres, exaltou a escolha do vice Guilherme Leal: "É muito grata a referência de a senhora ter recebido como vice um de nós".
Já em São Luís, Serra criticou a aliança de Lula com José Sarney: "Vocês não vão pegar nenhum vídeo meu xingando alguém que depois virou meu amigo. Não tem isso. Pode procurar", disse. "Não tenho problemas com o meu passado. Não tenho que ficar explicando", afirmou.



Dilma inaugura comitê e diz que herdou missão

da FSP

Ao inaugurar ontem o comitê central de sua campanha, Dilma Rousseff afirmou que recebeu do presidente Lula a "herança" de cuidar do povo brasileiro.
"O presidente Lula me deu talvez a maior herança que alguém pode dar a alguém, me deu a missão de cuidar do povo que ele tanto ama", disse.
Criticada por nunca ter disputado eleição, ela retrucou: "Somos uma coligação experiente. Aqui estão partidos experientes, que não começaram ontem, que têm pessoas experientes, têm experiência de governo. Em sete anos, o Brasil descobriu outro caminho".
Na sexta, Lula estreia na campanha com caminhada ao lado de Sérgio Cabral (PMDB), no Rio.




Gestão está a serviço de petista e transgressão é bem estudada

FERNANDO RODRIGUES
da FSP

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva desafiou ontem abertamente a lei ao elogiar sua ex-ministra da Casa Civil Dilma Rousseff durante uma cerimônia pública. A candidata governista ao Planalto foi anunciada como grande responsável pelo projeto do trem-bala que algum dia, em tese, ligará São Paulo ao Rio.
Foi uma transgressão curiosa. O próprio Lula interpretou sua intenção, quase se desculpando: "Eu, na verdade, nem poderia falar o nome dela, por um processo eleitoral, mas a história a gente também não pode esconder por causa de eleição. A verdade é que a companheira Dilma Rousseff assumiu a responsabilidade de fazer este TAV [o trem-bala]".
É como se um cidadão cometesse um ato ilícito e em seguida dissesse para a vítima: "Eu sei que está errado, mas não posso ir contra a minha natureza". E tem sido da natureza de Lula nesses últimos meses colocar toda a estrutura possível do governo a serviço da candidata oficial.
Tome-se o caso da viagem recente de Dilma à Europa. Foi fazer campanha. Posou para sua equipe de marketing filmá-la ao lado de chefes de governo. Até agora não se sabe quem exatamente agendou esses encontros, mas petistas falavam abertamente à época que o responsável havia sido "o Marco Aurélio". Trata-se de Marco Aurélio Garcia, assessor de assuntos internacionais do Palácio do Planalto.
Jamais será obtida uma prova de quantos telefonemas e e-mails de gente do governo foram disparados para Nicolas Sarkozy e outros líderes europeus para Dilma visitá-los em maio. Para todos os efeitos, o tour se deu por geração espontânea.
Agora, exatamente no momento em que não há mais propagandas do PT para expor Dilma aos eleitores, Lula aparece usando um evento oficial para promover sua candidata. Desconhecida ainda de parte dos eleitores, é vital para a petista que seu nome não suma da mídia até o início do horário eleitoral, em meados de agosto.
A transgressão de Lula é bem estudada. Talvez renda alguma nova multa, no valor de R$ 5.000, como outras já aplicadas. Para quem fará uma campanha ao custo de R$ 157 milhões, é um risco que vale a pena.



Romário inicia campanha eleitoral no Rio

Romário dá autógrafos
Foto: Divulgação/JB Online


RIO DE JANEIRO - Candidato a deputado federal, pelo PSB do Rio, o tetracampeão, Romário, de 44 anos, começou sua corrida eleitoral.

Depois de ter retornado da África do Sul, para assistir a final da Copa, o Baixinho esteve na Central do Brasil, onde teve o primeiro contato com eleitores:

- É uma experiência 100% nova para mim. Eu fiquei até surpreso pela disposição e pelo bom humor com que o povo me recebeu tão cedo – comentou o ex-craque.

Com idéias voltadas a programas de inclusão, o ex-atacante de disse surpreso com a atenção dada pelo público as suas propostas, que abrangem também o tratamento da síndrome de Down, um mal, que sua filha mais nova sofre.




Ressentimento e onipotência


Ressentimento e onipotência

José A. Guilhon Albuquerque
do Estadão

Demétrio Magnoli publicou nesta página (8/7) uma receita ideal para José Serra perder as eleições e delas sair engrandecido aos olhos de um setor da elite. Mas, como disse o técnico da brava seleção espanhola, "una final no es para jugar, es para ganar".


O autor apresentou um diagnóstico impecável sobre o governo Lula e o "lulismo". Para eleger-se um estadista, entretanto, não se trata de diagnosticar os atores, mas sim o processo eleitoral, que não é um concurso de simpatia, erudição ou correção política aos olhos de jornalistas, intelectuais ou ativistas: o que estará em jogo em outubro é a confiança do eleitor para escolher quem é mais capaz de manter as conquistas que o povo valoriza e evitar as mudanças que o povo teme.

Se Lula tivesse apoiado uma candidatura claramente confiável aos olhos do eleitor comum, comprometida em mudar o que o povo espera, sem pôr em risco os avanços econômicos, políticos e sociais da reconquista da democracia e da estabilidade da economia, o lugar para uma candidatura alternativa não seria o de um estadista, mas o de um profeta que clama no deserto.

Movido pelo ressentimento de ter galgado os píncaros do poder e ter-se recoberto da glória dos palcos internacionais, sem nunca ter conseguido derrotar Fernando Henrique Cardoso, e ofuscado pela onipotência que lhe é atribuída pelos beneficiários das benesses e migalhas que distribui à esquerda e à direita e com desenvoltura senhorial , Lula optou pela escolha maniqueísta entre o bem e o mal, lá onde o povo espera um compromisso entre continuidade e mudança.

Um pressuposto comum às análises do atual processo sucessório é o de que, uma vez decidido por Lula, um plebiscito seria inescapável e, porque Lula é imbatível, a vitória de Dilma é inevitável, cabendo a Serra mimetizar o papel de estadista e "perder as eleições falando de política", como diz Magnoli. Inescapável é o fato de que Lula, não o tendo feito no momento oportuno, já não conseguirá derrotar Fernando Henrique nas urnas. Para realizar esse sonho, ainda que sob a forma de delírio, Lula precisaria criar uma Dilma Rousseff à sua imagem e semelhança e levar José Serra a se comportar como um fantoche de Fernando Henrique. Não conseguiu uma coisa nem outra.

Partindo do pressuposto da invencibilidade de Lula e de sua pretensão a cabo eleitoral imbatível, a maioria das análises se ocupou em comprovar contra as evidências estatísticas disponíveis como, ao fim e ao cabo, a inevitabilidade de Dilma prevaleceria. Assim, quando Lula, do alto de seus 80% de aprovação, dissesse as palavras mágicas ? "meu nome é Dilma" ?, os jogos estariam feitos. E ele disse, mas ela não teve os inimigos por escabelo de seus pés.

Alguns aspectos desprezados reiteradamente nas análises eleitorais explicam essa discrepância entre os anseios de Lula e a realidade política. É verdade que Lula foi surpreendentemente hábil em decretar quem iria suceder-lhe e quem ele iria derrotar, como já foi seguidamente comentado na imprensa. Mas, ao fazê-lo, esqueceu se é que soube um dia que a realidade política não é uma tabula rasa na qual ele imprime um diktat a seu bel-prazer.

Lula mostrou que não era imbatível quando resolveu antecipar a luta sucessória para as eleições municipais de 2008 e escolheu Serra para ser derrotado de uma vez por todas. Com isso mandaria uma mensagem à oposição, ao seu próprio partido, à elite política e, enfim, ao mundo inteiro. Contudo sofreu uma derrota pouco dignificante e, ademais, escolheu o adversário errado, pois praticamente oficializou o então governador paulista como sua real alternativa de poder.

Como se não bastasse escolher o adversário errado, no momento errado e em inferioridade de armas, não foi capaz de reconhecer a derrota nem de aprender com ela, e promoveu uma polarização que, longe de opor sua imensa popularidade à imaginária rejeição a Fernando Henrique, força a uma comparação que só convém a Serra. Imaginando que seu imenso sucesso tudo lhe permite, não foi capaz de ver ou, se viu, não levou em conta que uma maioria significativa dos que aprovam o seu governo também rejeita a corrupção, não aprova o seu apoio às elites oligárquicas, nem a sua amizade com ditadores sangrentos, nem a sua leniência para com movimentos radicais e violentos, nem os atentados à liberdade. E tampouco está satisfeita com a condução de algumas das políticas que mais a atinge em sua própria vida.

Levada para o centro do palco sem nenhum preparo, sua candidata nunca teve o cuidado de se distanciar da corrupção, das oligarquias carcomidas, dos atentados à liberdade, dos governos "amigos" que tratam como inimigos os nossos compatriotas que lá vivem e as nossas empresas que lá produzem. Mas, quod licet Iove non licet bove, ou seja, em latim boi pode rimar com Júpiter, mas em nenhuma língua tem iguais poderes. Os que apoiam Lula o fazem apesar de não aprovarem seus erros, e não por causa deles.

Confiança não se transfere e uma campanha maniqueísta, quando o eleitorado quer continuidade com mudança, não ajuda a vencer uma dúvida que as pesquisas mostram ser persistente: o quanto de Lula ? e o quê ? pode ter contagiado Dilma, e o quanto de Lula persistiria em Dilma caso eleita. Caso aderisse a um script incendiário anti-Lula, Serra iria realizar o sonho plebiscitário do presidente, dando novo fôlego a uma candidatura com escassa margem para progredir, além de se desqualificar como aquele capaz de estabelecer um equilíbrio produtivo entre a segurança da continuidade e o temor da mudança.


*PROFESSOR TITULAR DE CIÊNCIA POLÍTICA E RELAÇÕES




Quércia diz que Dilma "só pegou em arma" e não tem experiência


Fabíola Perez, Portal Terra/JB


SÃO PAULO - O candidato ao Senado em São Paulo Orestes Quércia (PMDB) subiu o tom ao criticar a presidenciável petista, Dilma Rousseff, em evento promovido pela coligação PSDB-DEM-PMDB nesta terça-feira (13), em São Paulo. Quércia afirmou que Dilma não tem condições de ser presidente da República. "Ela só pegou em arma, não pegou em nada mais. Ela não é experimentada".

Em seguidas perguntas a uma plateia inflamada, o candidato ao Senado insistiu nos ataques. "Um sujeito que começou ontem como encanador, com certeza deixa um monte de buraco (...) Sabe por que Dilma foi escolhida por Lula? Porque todos os outros foram eliminados pelo mensalão".

O candidato ao governo de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB) criticou o governo federal em relação à saúde no Estado. "O PT não colocou uma cama (de hospital) no Estado de São Paulo, enquanto a gente fez 29 hospitais".

Durante seu discurso, Alckmin também fez ataques a Dilma, comparando sua trajetória com a do candidato José Serra (PSDB). "O Brasil é um País difícil de se governar. É preciso de alguém que passou pelas escolas da vida (...) O governo não se herda, se conquista. Para a gente, a caminhada também é importante. Para a gente, os fins não justificam os meios", afirmou.

Serra diz que projeto do trem-bala 'não está claro



Após Lula lançar edital, Serra diz que projeto do trem-bala 'não está claro'

Declaração foi feita no mesmo dia em que Lula assinou edital de leilão do projeto

Wilson Lima
do Estadão

O candidato do PSDB à presidência da República, José Serra, criticou nesta terça-feira, 13, o projeto do trem-bala que ligará São Paulo a Campinas e ao Rio de Janeiro, e cujo edital foi lançado mais cedo pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo Serra, o projeto "não está claro" e faltam aspectos importantes como o real valor da obra e uma eventual participação da iniciativa privada no projeto.

"O trem-bala é um projeto que não está claro. Parece que seria tudo do governo, mas é preciso ver se é isso mesmo", afirmou. Serra está na capital maranhense cumprindo agenda de campanha. O candidato também passou pela sede da Associação Comercial do Maranhão para receber o título de cidadão ludovicense.

As declarações foram feitas no mesmo dia em que Lula assinou o edital do leilão do projeto. Durante a solenidade, o presidente elogiou a principal adversária de Serra no pleito presidencial, a petista Dilma Rousseff. "Na verdade, é o seguinte, eu não posso deixar de dizer aqui que nós devemos o sucesso disso tudo que a gente está comemorando aqui a uma mulher, que na verdade eu nem poderia falar o nome dela", disse o presidente, que tem recebido críticas da oposição por usar a máquina estatal para promover sua candidata. "A companheira Dilma Rousseff assumiu a responsabilidade de fazer (o projeto), foi ela quem cuidou", continuou.

O leilão para escolher as empresas que irão tocar a obra do trem-bala será realizado no dia 16 de dezembro. Durante o lançamento do edital, nesta terça, o governo ratificou a participação do BNDES no financiamento de 60,3% da obra, o que irá representar a disponibilidade de R$ 20 bilhões pelo banco, do total de R$ 33,1 bilhões previstos para o projeto. Ainda de acordo com a proposta do governo, caberá aos investidores privados investir R$ 9 bilhões nas obras. Os outros R$ 4 bilhões deverão ser financiados pelo país de origem dos fornecedores de equipamentos.

Lula usa evento do trem-bala para fazer campanha


Lula usa evento do trem-bala para fazer campanha em favor de Dilma

Rafael Moraes Moura
do Estadão

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva usou discurso ontem, durante cerimônia oficial de lançamento do edital do trem-bala que ligará São Paulo, Campinas e Rio de Janeiro, para promover a figura da candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff. Lula atribuiu a Dilma a responsabilidade pelo projeto do Trem de Alta Velocidade (TAV).


"A verdade é a seguinte: eu não posso deixar de dizer, aqui, que nós devemos o sucesso disso tudo que a gente está comemorando aqui a uma mulher. Na verdade, nem poderia falar o nome dela porque tem um processo eleitoral, mas a história a gente também não pode esconder por causa de eleição", disse o presidente, em solenidade no Centro Cultural Banco do Brasil, sede provisória do governo. "A verdade é que a companheira Dilma Rousseff assumiu a responsabilidade de fazer esse TAV, e foi ela quem cuidou, junto com a Miriam Belchior, junto com a Erenice...", continuou, sob aplausos de uma plateia de funcionários comissionados, políticos da base aliada e militantes.

A Lei Eleitoral proíbe os agentes públicos de ceder ou usar em benefício de candidato bens móveis ou imóveis pertencentes à administração. Com base nesse dispositivo, há a interpretação de que agente público não pode usar evento de governo para campanha em prol de seu candidato.

No ano passado, o TSE cassou o então governador do Maranhão, Jackson Lago (PDT), por uma série de motivos. Um deles foi um vídeo incluído no processo no qual o governador na época da campanha, José Reinaldo, declarava apoio explícito a Lago durante um evento de governo.

Torre. O discurso de Lula foi construído para atingir a apoteose com a citação a Dilma. Com críticas aos governos anteriores, ele foi falando das medidas audaciosas que fazem os governos tomar grandes decisões e assumir riscos. "Se a gente olhar, no mundo, todas as coisas feitas, as grandes coisas, foram por gestos de ousadia, de coragem de gente que não teve o medo de enfrentar o debate. Até a Torre Eiffel, que hoje é admirada por todo mundo, deve ter tido umas 5 mil ações populares", disse.

Em sua fala, fez até uma referência à tragédia da linha 4 do metrô de São Paulo, em janeiro de 2007, quando morreram 7 pessoas no desabamento de um dos túneis. "Nós já tivemos, em São Paulo, buraco de metrô que não se encontrou, e isso recentemente." Por fim, arrematou: "O trem brasileiro de alta velocidade é um projeto que nós devemos a uma mulher (...) a companheira Dilma Rousseff."

Na sequência, antecipou-se a possíveis críticas: "Daqui a pouco, se o (ministro do Planejamento) Paulo Bernardo for candidato, eu não vou deixar de falar que ele fez uma coisa boa, que liberou uma medida provisória agora, para resolver o problema do Nordeste brasileiro. Não podemos negar isso."

Conduta. Em entrevista ao Estado na semana passada, o advogado-geral da União, Luís Inácio Adams, comentou que os agentes públicos, inclusive o presidente da República, têm limitações de conduta. "Evidentemente, ele vai poder falar", defendeu Adams. "Não em evento público de governo; ele não vai chegar num ato público e dizer: "senhores, apoiem a Dilma"."

Na ocasião, o advogado-geral defendeu a tese de que não se pode excluir o presidente do processo político. Sobre as multas aplicadas a Lula, Adams disse que ele "não pede voto" e os casos foram interpretação que o "tribunal faz da conduta do presidente".

Ao citar Dilma no discurso, Lula tenta associar sua imagem à da candidata governista. Para isso, o PT e o presidente já utilizaram diversos meios.

Em programa partidário veiculado em dezembro passado, por exemplo, Lula surgiu em cena afirmando que Dilma é "responsável pelo PAC, pelo pré-sal e pelo programa Minha Casa, Minha Vida". Dilma, por sua vez, afirmou que "tem governo que fez pouco e acha que fez muito". Por causa desse episódio, o PT perdeu o direito de exibição de programa partidário no primeiro semestre de 2011 e foi multado em R$ 20 mil; Dilma, em R$ 5 mil.

Em maio, Lula utilizou o espaço de sua coluna semanal, publicada em 153 jornais, para defender o PAC e fazer referência à candidata petista.

Outra amante de Bruno é investigada


Outra amante de Bruno é investigada


Ela estaria na casa do goleiro quando Eliza Samudio chegou e teria ido ao sítio em MG

Eduardo Kattah
do Estadão

BELO HORIZONTE
A Polícia Civil de Minas pretende convocar para prestar depoimento Fernanda Gomes de Castro, de 32 anos, que seria amante do goleiro Bruno Fernandes e passou a ser investigada no inquérito sobre o desaparecimento de Eliza Samudio, de 25 anos.

Fernanda, de acordo com depoimentos de J., de 17 anos, estaria com Bruno e teria recebido Eliza e seu bebê no condomínio do goleiro, no Recreio dos Bandeirantes, no Rio, quando a vítima foi levada de um hotel na Barra da Tijuca, no dia 4 de junho, antes da viagem para o sítio do atleta em Esmeraldas, região metropolitana de Belo Horizonte.

A polícia suspeita que Fernanda tenha seguido para Minas com o goleiro e o bebê, enquanto a vítima viajou com Luiz Henrique Romão, o Macarrão, e J.. Durante a viagem, Eliza teria sido agredida a coronhadas por J., que é primo do goleiro.

A amante de Bruno teria ficado no sítio até 7 de junho, quando voltou ao Rio. O período coincide com o que Eliza teria sido mantida em cárcere privado. Fernanda ainda teria ajudado o atleta a se esconder após a apreensão de J. e a decretação da prisão dele e de outros suspeitos.

A delegada Ana Maria Santos, chefe da Delegacia de Homicídios de Contagem, disse ontem que os primeiros indícios envolvendo Fernanda foram levantados pela Polícia Civil do Rio e seu nome já foi citado em depoimentos. "Com certeza nós vamos enveredar por esse caminho", disse. "Vamos chamá-la para prestar depoimento", afirmou.

Transferência. O juiz titular da Vara da Infância e Juventude de Contagem, Elias Charbil Abdou Obeid, determinou ontem a internação de J. por 45 dias no Centro de Internação Provisória (CEIP) em Belo Horizonte. Após colher o depoimento do menor, o promotor Leonardo Barreto Moreira Alves fez uma representação contra J. "Ele é acusado de ter participado do homicídio, do sequestro e também da ocultação do cadáver", disse.

De acordo com o promotor, o menor ficará à disposição da Justiça até a conclusão de um procedimento aberto no Juizado da Infância e Juventude que correrá paralelamente ao inquérito instaurado pela Delegacia de Homicídios de Contagem. Após ser transferido do Rio de Janeiro para Minas, J. foi ouvido na tarde de ontem por Alves e logo depois participou de uma audiência de apresentação com o juiz.

De acordo com o promotor, J. disse novamente que Bruno não esteve presente no local em que sua ex-amante foi supostamente morta, contrariando declaração de outro primo do goleiro, Sérgio Rosa Sales.

Perícia. A polícia mineira requisitou os trabalhos de um veterinário para tentar recolher material que possa comprovar se Eliza foi mesmo morta como o descrito em depoimentos. Ela teria sido estrangulada pelo ex-policial civil Marcos Aparecido dos Santos, o Bola, esquartejada e seus restos mortais jogados para cães da raça rottweiler.

Dez cachorros foram apreendidos na casa de Bola, em Vespasiano, na região metropolitana de Belo Horizonte, onde a jovem teria sido morta. Chamado pela polícia, o veterinário Fernando Pinto Pinheiro sugeriu utilizar um reagente na pelagem dos animais para detectar sangue.

Quem é quem
Marcos Aparecido dos Santos (Marquinhos Paulista ou Bola)
Ex-policial civil apontado como o assassino de Eliza. O crime teria sido cometido dentro da casa dele, em Vespasiano

Elenilson Vitor da Silva
Caseiro do sítio de Bruno, é suspeito de participar do crime. No primeiro depoimento, negou a presença da estudante no sítio, mas voltou atrás. Está foragido

Sérgio Rosa Sales Camilo
Primo de Bruno. Estaria no sítio quando Eliza foi torturada. Supostamente a vigiava no sítio

Wenerson Marques de Souza (Coxinha)
Ofereceu R$ 50 em Contagem para quem cuidasse do filho de Eliza. Confessou que o bebê esteve no sítio. Está foragido

Dayanne Souza
Mulher de Bruno. Foi a primeira a ser presa. É acusada de coautoria no sequestro e ocultação. Teria recebido o filho de Eliza após a morte da mãe
Flávio Caetano de Araújo Teria levado Bruno de carro para um local onde o goleiro se encontrou com J. e Macarrão, de onde seguiram até o local da execução. Está foragido

J.
Primo de Bruno, adolescente confessou que participou do sequestro de Eliza e deu três coronhadas na cabeça dela. Também teria visto ela morrer
Luiz Henrique Ferreira Romão (Macarrão)
É suspeito de levar Eliza para o sítio em Esmeraldas e depois para Vespasiano, onde ela morreu


Tanure anuncia o fim do "JB" impresso


Tanure anuncia o fim do "JB" impresso

Em longa agonia financeira, centenário "Jornal do Brasil" terá conteúdo só na internet a partir de setembro

Nelson Tanure, que arrendou "JB" por 60 anos em 2001, fracassou com "Gazeta Mercantil", JBTV e revista "Forbes"

ELVIRA LOBATO
da FSP

O "Jornal do Brasil" publica hoje um comunicado aos leitores anunciando o fim de sua edição impressa, a partir do dia 1º de setembro. Seu conteúdo, a partir de então, ficará disponível apenas na internet, com preço de assinatura de R$ 9,90 por mês.
O fim do "JB" impresso abalou o comando da empresa. O presidente do jornal, Pedro Grossi Jr., discordou da decisão e não apareceu na Redação ontem, apesar de o empresário Nelson Tanure, arrendatário da marca JB, negar que o tenha demitido.
O "Jornal do Brasil" vem de longa crise financeira, agravada por passivos fiscais e trabalhistas herdados dos antigos gestores, mas o comunicado de Tanure tenta desvincular a modificação da situação de crise. O texto diz que o jornal fez uma consulta eletrônica aos leitores no último mês e que eles apoiaram a mudança.
""O "JB" vai sair do papel. E entrar para a modernidade", diz o texto, encaminhado à Folha por Nelson Tanure. O comunicado diz que os leitores economizarão R$ 40 por mês ao trocarem a assinatura mensal do jornal impresso, de R$ 49,90, pela assinatura do portal.

CIRCULAÇÃO EM QUEDA
A Folha apurou que a migração vai provocar corte de pessoal. O "JB" tem 180 funcionários, 60 dos quais na Redação. A família Nascimento Britto, dona da marca e antiga proprietária do "JB", disse não ter informação sobre o projeto de Tanure.
O jornal tinha uma circulação diária de 76 mil exemplares quando passou para Tanure. Em 2003, iniciou um caminho de recuperação, chegando a 100 mil exemplares em 2007, para novamente entrar em rota de queda.
Em março deste ano, quando a circulação estava em 20.941 exemplares, Tanure contratou Pedro Grossi Jr. para administrar o jornal.
Já circulava a informação de que Tanure iria acabar com o jornal impresso. No último dia 28, Nelson Tanure confirmou a intenção a Pedro Grossi, que começou a articular um meio de manter o jornal impresso.
Estudou-se transferir o contrato para outra empresa, blindada contra as ações trabalhistas e fiscais remanescentes. O negócio foi desaconselhado porque a Justiça tem considerado que os novos donos são sucessores na dívida.

FORA DA MÍDIA
O fim do "JB" impresso será também o fim da experiência de Nelson Tanure como empresário de mídia. Ele disse à Folha que não quer mais atuar nesse setor e que vai se concentrar em telecomunicações.
Ele tem 5,15% da TIM Participações (subsidiária da Telecom Italia, que atua em telefonia celular, telefonia fixa local e de longa distância).
Tanure só acumulou fracassos em suas incursões na mídia. Em 2002, comprou os direitos de publicação da revista "Forbes", no Brasil. Um ano depois, a "Forbes" rompeu o contrato.
Em 2003, arrendou o jornal econômico "Gazeta Mercantil", que, como o JB, acumulava grande passivo. O jornal deixou de funcionar no ano passado, e a marca foi devolvida ao antigo dono.
Em 2007, Tanure lançou a JBTV, que durou seis meses. Ainda arrendou a Editora Peixes, que também voltou para os antigos donos. Ele diz que perdeu todo o investimento que fez no "JB".




DEPOIMENTO

"Jornal do Brasil" foi o sonho profissional de uma geração

FERNANDO GABEIRA
ESPECIAL PARA A FOLHA

O "Jornal do Brasil" foi o sonho profissional da nossa juventude desde os anos 1950 até o princípio dos anos 1960. Representou o sonho profissional de toda uma geração no início da década de 1960. Foi a mais radical reforma jornalística feita no país até aquela data.
O uso do espaço em branco na introdução de fotografias com a luz ambiente e excelentes reportagens eram alguns dos seus componentes.
O desenho do jornal, trabalhado por Amílcar de Castro e inspirado no pintor holandês Mondrian, representou durante muito tempo uma atração internacional, porque muitos jornalistas vieram do exterior para observar aquelas mudanças.
Na parte cultural, o "Jornal do Brasil" inovou lançando um suplemento literário voltado para o concretismo, mas que revelou alguns dos principais poetas e escritores do país.
Nos últimos anos, o "Jornal do Brasil" tornou-se um fantasma do que era, conservando a máxima de que um jornal leva mais de uma década para morrer.

*O jornalista FERNANDO GABEIRA é deputado federal (PV-RJ) e trabalhou no "Jornal do Brasil".





MEMÓRIA

Jornal obteve destaque na ditadura militar

da FSP

Ao longo dos seus 119 anos de história, o "Jornal do Brasil" foi responsável por uma série de inovações na imprensa brasileira.
Teve papel de destaque na cobertura política, especialmente durante a ditadura militar.
Fundado em 1891, o "JB" chegou a ser conhecido como "o jornal das cozinheiras" nos anos 1930, quando passou a dar menos destaque para fatos políticos, artes e literatura.
A mudança trazia páginas iniciais de anúncio e fazia parte da estratégia para superar a crise do início daquela década.
No fim dos anos 1950, após investir em novos equipamentos, o jornal empreendeu uma reforma gráfica que se tornou referência, com a implantação da diagramação vertical e a valorização dos espaços brancos das páginas.
"O "JB" herdou algo que nasceu no "Diário Carioca': o noticiário objetivo, sem opinião, que procurava informar com clareza. Fico triste porque fiz parte do grupo de jornalistas que participou da renovação do jornal e que teve como principal figura Janio de Freitas", disse o poeta e colunista da Folha Ferreira Gullar.
Durante a ditadura, o "JB" se destacou na cobertura do AI-5, ato institucional que suspendeu garantias constitucionais. Como a Redação estava ocupada por censores, a saída foi publicar um boletim do tempo. Nele, afirmava-se: "Ar estava irrespirável".

Manda quem pode


Manda quem pode

Dora Kramer
do Estadão

O candidato José Serra recentemente levantou um assunto que suscita discussões e divide opiniões: se Dilma Rousseff for eleita presidente quem mandará no País, ela, Lula ou o PT?
Diz o tucano que será o PT, procurando tirar proveito da polêmica acerca do programa de governo eivado de retrocessos institucionais que a candidata Dilma Rousseff diz que rubricou, mas não assinou.
Essa posição não é unânime, pois muita gente de peso no governo e na oposição compartilha a convicção de que Dilma é um fantoche de Luiz Inácio da Silva que assim continuará se ganhar a eleição.
Fundador do PT que se afastou do partido em 2005, vice-prefeito na gestão de Marta Suplicy na Prefeitura de São Paulo e hoje eleitor de Marina Silva, o professor Hélio Bicudo é taxativo: "Lula quer Dilma no poder para continuar mandando no País."
Já os dois partidos que sustentam a candidatura nutrem cada um a esperança de se sobrepor ao parceiro no comando do espetáculo.
O PT tanto não tem dúvida disso que nem pensou duas vezes em enviar ao Tribunal Superior Eleitoral o programa aprovado pelo partido em fevereiro último, ignorando completamente as propostas entregues solenemente pelo candidato a vice, Michel Temer, à candidata a presidente.
Ademais, dirigentes, parlamentares e governantes (prefeitos, principalmente) petistas falam abertamente sobre a expectativa de dias melhores num governo sem Lula para fazer sombra ao partido.
O PMDB em sua sinuosidade aguarda os acontecimentos razoavelmente em silêncio. Apenas uma vez ousou ser mais explícito falando em ser também "protagonista" no próximo governo.
Prefere posar de disciplinado em público, enquanto se delicia no particular com as confusões em que se envolve o PT, certo de que num eventual governo Dilma elas seriam tantas que o PMDB se destacaria no papel de poder moderador e interlocutor confiável.
Quem entende e tem experiência de poder aposta que, uma vez de posse da cadeira e principalmente da caneta presidencial, a criatura não levaria muito tempo para se distanciar do criador e Dilma Rousseff tenderia a sair da sombra de Lula em função da própria dinâmica do cotidiano da Presidência. Ela, e não mais ele, passaria a ser a referência.


A propósito desse tipo de avaliação um matreiríssimo deputado baiano (do PMDB) costuma dizer o seguinte: "Quando a gente atende à porta não pergunta quem foi, pergunta quem é."

Linha torta. Ficou feio para Dilma e Serra a maneira negligente como ambos apresentaram seus ditos programas de governo à Justiça Eleitoral.

Mas no geral foi bom, pois suscitou debate a respeito dos projetos de País, obrigando os candidatos e as assessorias a dar atenção efetiva a um assunto que raramente ocupa espaço nas campanhas eleitorais.

O que domina ainda são as pesquisas e o bate-boca, mas os programas ganharam um destaque que nunca tiveram.

Nessa seara o PSDB se reorganizou a saiu na frente anunciando a divulgação gradativa do programa, ponto a ponto, a partir de agora.

O PT ainda patina nas desculpas inconsistentes prometendo apresentar um programa conjunto das doutrinas petista e pemedebista.

Cigarra. De 2007, quando foi anunciada a escolha, a 2014 o Brasil teria sete anos para se preparar como país sede da Copa do Mundo. Conforme atesta agora a Fifa ("falta tudo"), perdeu três.

Nesse período muito se festejou, mais ainda se bajulou. Governantes e dirigentes. Nada se fez e, é claro, até a data fatal tudo acabará sendo feito. Mais a que custo e sob quais métodos são questões que os principais candidatos à Presidência da República poderiam se habilitar a debater.

À imagem. Pode ser mera coincidência. O logotipo da Copa 2014 ? criação da agência África de Nizan Guanaes ? apresenta três mãos abraçando a taça, duas com cinco dedos e uma com quatro.

Perigo na economia
Crédito imobiliário e a futura falta de poupança

Editorial do Estadão

Ao impulsionar o crédito imobiliário, o governo não levou em conta um ponto muito importante: as aplicações em caderneta de poupança, realizadas por famílias de renda relativamente modesta, estão servindo hoje para pagar as prestações da casa própria. Portanto, a captação das cadernetas pode não aumentar, na melhor das hipóteses.

Isso levanta um problema complexo para as instituições financeiras, que acaba de ser mencionado pelo presidente da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip), Luiz Antonio França, cuja posição é ainda otimista, pois descarta que possa haver uma redução da captação de depósitos de poupança, principal fonte atualmente - e quase única - de financiamento das casas populares.

De qualquer forma, o financiamento imobiliário vai se encontrar, nos próximos anos, com uma insuficiência de recursos de funding e as instituições financeiras terão de recorrer a outras fontes, além das cadernetas, para ter uma garantia de crescimento das operações imobiliárias.

Acontece que o recurso das cadernetas no financiamento imobiliário é muito barato (TR mais 6,17% ao ano), com um saldo de cerca de R$ 265 bilhões hoje. Mesmo que o nível de captação seja mantido nos próximos anos, o que nos parece difícil, levando em conta o endividamento das famílias em razão do próprio crédito imobiliário, calcula-se que em 2013, quando o financiamento atingirá cerca de R$ 400 bilhões, haverá um déficit no crédito imobiliário de pelo menos R$ 100 bilhões.

O problema será encontrar recursos para cobrir esse déficit. Alguns economistas sugerem um aumento da remuneração das cadernetas, mas isso teria o efeito de elevar o custo dos empréstimos hipotecários, que os mesmos economistas sugerem que seja indexado. Uma decisão que provavelmente acabaria com os financiamentos do setor.

Outra sugestão seria recorrer às Letras de Crédito Imobiliário (LCI), que até agora não tiveram uma grande emissão, apesar de oferecerem à instituição emitente uma garantia (o próprio ativo financiado). Pensa-se também na emissão de Certificados de Crédito Imobiliário, cujo inconveniente é que são derivativos, com todos os riscos que isso representa.

O mais provável é que se chegue a uma situação em que o crédito imobiliário não crescerá tanto quanto agora, forçando as famílias a aumentar a poupança (a "entrada") para a compra do imóvel, ou obrigando o governo a construir casas de baixo custo para alugar a famílias de baixa renda.



Jogo perigoso na área fiscal

do Estadão

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pretende mudar a regra do jogo fiscal para a Copa de 2014. Segundo o plano, as 12 cidades onde haverá jogos poderão aumentar seu endividamento sem cometer infração. Precisarão disso, de acordo com o governo federal, para realizar as obras necessárias até 2014. A ideia é alterar os limites da Lei de Responsabilidade Fiscal por quatro anos, noticiou o Estado com base em informação de fonte federal. A dívida municipal poderá chegar ao dobro da receita. Hoje o teto corresponde a 60% da arrecadação.

A Lei de Responsabilidade Fiscal estabelece duas condições para a suspensão de prazos e condições para a correção de excessos de endividamento ou de gastos com pessoal. As normas podem ser atenuadas em caso de calamidade pública ou de baixo crescimento econômico ? variação do PIB inferior a 1% em quatro trimestres. O aumento de gastos com eventos como a Copa do Mundo ou a Olimpíada não aparece na lista de justificativas para a violação dos limites.

A decisão de tornar a lei mais flexível para os investimentos necessários à Copa revela um dado importante sobre os critérios do governo federal. O presidente Lula empenhou-se em trazer ao Brasil as duas maiores competições esportivas internacionais sem levar em conta as limitações fiscais. Seus assessores para assuntos econômicos parecem ter sido contaminados pelo entusiasmo do chefe. Também deixaram de levar em conta as consequências da aventura para as finanças públicas.

Só agora, aparentemente, o presidente e seus auxiliares perceberam o desafio imposto aos municípios. O desafio é duplo. Em primeiro lugar, terão de investir grandes somas na preparação das cidades para abrigar os jogos e receber multidões de torcedores. Para isso, correrão o risco de estourar seus limites de endividamento. A mudança planejada pelo presidente poderá atenuar a restrição legal.

O segundo desafio consiste em compatibilizar as despesas da Copa com as demais prioridades ? como os investimentos em educação, saúde, urbanização de favelas e assim por diante. Para este problema não há solução. Quanto menor a participação do setor privado nos projetos da Copa, maior o comprometimento de recursos públicos e menor a sobra de dinheiro para outras finalidades.

O atraso nas obras força os governos, em todos os níveis, a apressar as decisões e diminui seu poder de negociação com os investidores potenciais e com os grupos interessados na realização dos projetos.

Os dirigentes da Fifa já mostraram a disposição de pressionar o governo brasileiro para concluir as obras nos prazos previstos. "Precisamos construir estádios, estradas, o sistema de telecomunicações e aeroportos e ver se há mesmo capacidade suficiente em hotéis", disse o secretário-geral da entidade, Jérôme Valcke. Não interessa aos diretores da Fifa ouvir explicações nem conversa mole a respeito dos investimentos. Eles serão pessoalmente prejudicados se aceitarem o risco de o Brasil chegar a 2014 sem condições mínimas de realização dos jogos.

Mas esses dirigentes não são os únicos a apontar os atrasos. O presidente da CBF, Ricardo Teixeira, chamou a atenção para o problema dos aeroportos e provocou uma reação irada do presidente Lula. Segundo um relatório do TCU, as providências estão "impressionantemente atrasadas" e há o risco de se repetir o desastre financeiro dos Jogos Pan-americanos de 2007, no Rio de Janeiro. Gastos inicialmente orçados em R$ 520 milhões converteram-se numa despesa de R$ 4 bilhões, realizada, finalmente, graças ao socorro de emergência prestado pelo governo federal.

O governo central, o mais interessado na realização da Copa, falhou mais uma vez, portanto, no planejamento e na gestão das ações necessárias. Ninguém deveria surpreender-se. Planejar nunca foi o forte do governo petista, embora a palavra planejamento seja frequente em sua retórica. A derrota na África foi um tropeço esportivo, desagradável, mas sem maiores consequências. Já a realização da Copa de 2014, com ou sem vitória da seleção brasileira, pode ser um péssimo negócio para o País. Todos os fatos, até agora, indicam esse resultado.

A moeda de troca de Cuba

Em nova aparição pública, ex-ditador Fidel Castro visita centro de pesquisa econômica para falar sobre perigos da guerra nuclear

A moeda de troca de Cuba

NOTAS & INFORMAÇÕES
do Estadão

Na quarta-feira passada, no mesmo dia em que o governo cubano anunciou a decisão de libertar 52 presos políticos ao longo dos próximos 4 meses, o ex-ditador Fidel Castro, que em 2008 transferiu o poder para o irmão Raúl, fez-se fotografar visitando o principal centro de pesquisas científicas de Havana. Foi a sua primeira aparição pública em 4 anos fora da residência onde costuma receber dignitários estrangeiros, como o bom amigo Lula da Silva.


Na última segunda-feira, no mesmo dia em que o primeiro grupo de libertos embarcou para a Espanha, a TV cubana levou ao ar uma entrevista gravada com Fidel ? a primeira em 4 anos, também. É improvável que se trate de coincidência, embora não estejam claros os nexos entre o súbito reaparecimento do "comandante" e a soltura dos prisioneiros. Nem na ida ao centro científico nem na entrevista, ele disse qualquer coisa relacionada com o acordo firmado entre o seu irmão, o cardeal Jaime Ortega, arcebispo de Havana, e o governo espanhol para a libertação das vítimas remanescentes da chamada "Primavera Negra" de 2003.

À época, a repressão castrista se abateu sobre 75 supostos "conspiradores aliados aos Estados Unidos". Em processos sumários e a portas fechadas, eles foram condenados a até 28 anos de cadeia. Naturalmente, não tiveram acesso a advogados ou às provas que os incriminariam. Com o passar do tempo e sob pressão dos apenas tolerados movimentos de defesa dos direitos humanos no país, a começar das Damas de Branco, que reúnem mães, mulheres e filhas dos encarcerados, uma vintena deles, muitos com graves problemas de saúde, foi solta.

Em fevereiro, o preso Orlando Zapata Tamayo morreu depois de 85 dias de greve de fome. O presidente Lula estava lá confraternizando com os seus algozes e cometeu a infâmia de culpá-lo pela tragédia. Seguiu-se outro protesto, dessa vez por um cubano em liberdade ? valha o que valer o termo sob o tacão do regime de partido único. O dissidente Guillermo Fariñas só voltou a se alimentar depois de 135 dias quando, aproveitando-se da visita do chanceler espanhol Miguel Ángel Moratinos, Raúl Castro comunicou a libertação dos 52 da "Primavera Negra". Segundo cálculos conservadores, continuam trancafiados, por motivos políticos, 115 cubanos.

Terá Fidel desejado fazer, com as suas aparições, uma advertência velada contra o que deve considerar concessões excessivas do irmão? Ou, com a sua mera presença pública, indicar que, apesar delas, nada mudará essencialmente na ilha? O fato de, na entrevista televisada, ele ter falado em "risco de guerra" no Oriente Médio, que culminaria com um ataque nuclear dos Estados Unidos e Israel ao Irã, pode ser interpretado como uma forma de sabotar qualquer nova iniciativa de reaproximação entre Washington e Havana, a partir da soltura dos presos.

Ninguém conhece melhor do que ele os perversos benefícios do bloqueio econômico americano para a sobrevivência da ditadura. O boicote, por sinal, não impede que os americanos vendam alimentos a Cuba, pagos à vista: só isso já faz dos EUA o quinto maior parceiro comercial do país. Para o castrismo, pior é o definhamento das transações com a União Europeia, em protesto contra a onda repressora da primavera de 2003 e como pressão para o fim dos encarceramentos políticos na ilha.

Essa a razão essencial da atual "magnanimidade" do regime. De há muito que em Cuba os chamados prisioneiros de consciência são usados como moeda de troca para manter respirando a agonizante economia local. Não há, por isso, motivos para acreditar que a abertura seletiva dos cárceres castristas prenuncia uma abertura política, com imprensa livre, Judiciário independente e direito de ir e vir.

A nota de rodapé no episódio foi a ridícula tentativa do assessor internacional de Lula, Marco Aurélio Garcia, de atribuir ao governo brasileiro a paternidade do acordo. Embora o próprio presidente tenha dito que não estava a par dos entendimentos, o seu assessor internacional disse que o chefe fez "gestões discretas" para a soltura dos presos. Com a sutileza de sempre, acusou os espanhóis de "pegar carona" nas conversações. "A bola caiu no pé deles e eles chutaram para dentro", inventou.

Ex-presos cubanos chegam à Espanha



Ex-presos cubanos chegam à Espanha

Os 7 primeiros libertados por Havana desembarcaram ontem em Madri, mas evitaram criticar regime castrista

Hospedados em albergue no norte da capital, negaram ser "marionetes" de jogo de interesse dos 2 países

LUISA BELCHIOR
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE MADRI

O tom conciliatório marcou a chegada à Espanha da primeira leva de prisioneiros políticos cubanos libertados após acordo de Havana com a Igreja Católica.
Mesmo após "sete anos de luta, clausura e cativeiro" na ilha caribenha, segundo afirmaram em comunicado, os sete dissidentes que aterrissaram ontem em Madri evitaram críticas aos Castro.
No lugar disso, agradeceram emocionados à "calorosa" acolhida espanhola e falaram em uma "nova etapa" para cubanos. Mas negaram ser "marionetes" de um jogo de interesses entre uma Espanha afoita por liderar o diálogo entre Cuba e a UE e uma Havana que quer o fim de bloqueios à ilha.
"Não nos consideramos manipulados. Somos apenas via de um caminho que pode ser o começo de uma mudança no país. E, para nós, o exílio é a prolongação de uma luta", declarou ontem o jornalista Ricardo González, 1 dos 7 cubanos que aterrissaram em Madri na companhia de 26 familiares no total.
Os outros são Léster González, Omar Ruiz, Antonio Vilarreal, Julio César Gálvez, José Luis García Paneque e Pablo Pacheco.
Dos 52 presos que, pelo acordo, serão liberados, só 20 afirmaram querer emigrar à Espanha. Os outros 32 ainda têm destino incerto.
O grupo foi recepcionado por membros do governo da Espanha e da Cruz Vermelha, que irão "inseri-los" na sociedade. Hospedados em um albergue na região norte da capital, receberam 390 para gastos gerais. Ficarão lá "pelos próximos dias".
Seu destino ainda é incerto, mas provavelmente serão enviados a conjuntos habitacionais fora de Madri, segundo a Comissão Espanhola de Ajuda ao Refugiado.

"NOVA ETAPA"
Todos assinaram uma carta, lida ao aterrissar em Madri, em que afirmam que "o retorno à terra de nossos antepassados significa o início de uma nova etapa para o futuro de Cuba e dos cubanos".
A leitura do comunicado, em uma sala reservada do aeroporto de Barajas, foi um dos únicos momentos em que vieram a público.
Sob a supervisão do secretário espanhol para Iberoamérica, Juan Pablo de Iglesia, eles apareceram de terno e gravata, sorridentes e fazendo o "v" de vitória.
Elogiaram o acordo entre os governos cubano e espanhol e a igreja, que "não é um primeiro passo, mas também não será o último", segundo Ricardo González Afonso.
Mas também pediram liberdade total a todos os presos em Cuba e reconheceram os esforços de conterrâneos como o jornalista Guillermo Fariñas, recém-saído de uma greve de fome e que, ontem, classificou a libertação dos presos como um "gesto de clemência" de Havana.
Em sessão no Congresso espanhol, o chanceler Miguel Ángel Moratinos foi além e afirmou que todos os presos políticos em Cuba -e não só os 52 incluídos no acordo- serão libertados progressivamente.
Segundo a Rádio Nacional da Espanha, outros três presos políticos -Omar Rodríguez, Normaldo Hernández González e Luis Milán- chegam hoje a Madri. O Ministério dos Assuntos Exteriores confirmou que, até amanhã, ao menos outros quatro dissidentes chegarão à capital.

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