Evaldo Augusto Torres Alves /editor
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Política

Rapidinhas


Pernas curtas

Dora Kramer
do Estadão

Se a Receita Federal é confiável como diz o presidente Luiz Inácio da Silva, por mais razão é urgente que as pessoas responsáveis pela instituição - do mais alto ao mais baixo escalão - comecem a falar a verdade e parem de tratar o cidadão brasileiro feito idiota.

A candidata Dilma Rousseff, que se apresenta como parceira de Lula em todas as ações de governo e gerente de toda a máquina pública, também precisa parar de fazer de conta que não está entendendo o que se passa.

Na impossibilidade de contar a verdade, que pelo menos arrume uma versão verossímil para corroborar a tese de que uma coisa é a violação do sigilo fiscal de pessoas ligadas ao candidato da oposição, outra coisa são os interesses político-eleitorais do PT.

Sob pena de carregar o passivo pelo restante dos dias até a eleição.

As teorias em circulação são frágeis e obviamente falsas.

A que passou a ser defendida - com pouquíssima sutileza, diga-se - pelo presidente Lula se assemelha àquela do caixa 2 inventada à época do mensalão para tentar reduzir o estrago jurídico e político das denúncias de fraude, corrupção e peculato.

Na época, a ideia era fugir dos crimes mais graves para assumir o crime eleitoral e socializar o prejuízo na base do "todo mundo faz".

Agora o presidente Lula indignou-se com o falsificador do documento apresentado como sendo uma procuração da filha de José Serra, Verônica, para a retirada de suas declarações na Receita. Disse que, "se ficar provado", foi cometido "um crime grave no Brasil": falsidade ideológica.

Ora, ora. O que se desenha é muito mais do que isso. É a quebra de sigilo para coleta de informações de adversários. Só não está claro se os autores se aproveitaram de esquema pré-existente no ABC ou criaram um disfarce especial para atingir seus alvos dando a impressão de que se tratava de um sistema geral de quebra de sigilo e venda dos dados.

Quando o presidente fazia o discurso da falsidade ideológica, o governo já sabia havia pelo menos dez dias que Verônica Serra tivera a declaração de renda violada e que havia suspeita de fraude e, ainda assim, sustentava a versão de que ela havia assinado uma procuração.

É uma mentira atrás da outra.

Indicativas de que as acusações da oposição têm fundamento. Se não, por que assessores do presidente reclamariam da inabilidade da Receita por ter enviado os documentos relativos a Verônica para o Ministério Público?

Achavam que a Receita poderia ter sido mais companheira e omitido essa parte já que havia a "procuração" como "prova" de licitude.

Ademais, se não sabe o que aconteceu, se é verdade que as investigações ainda estão em curso e por isso não se chegou ao culpado (ou culpados), de onde sai a certeza que não houve uso político, conforme declarou Lula?

A outra mentira da qual poderíamos todos ser poupados é a que aponta falta de interesse do PT em quebrar sigilo "agora" pois está muito à frente nas pesquisas e que a campanha de Dilma não pode ser responsabilizada, pois em 2009, quando ocorreram as violações, a candidatura dela não existia.

Existia tanto quanto a certeza do PT de que em algum momento poderia ser necessário implodir o adversário, então na dianteira nas pesquisas.

Abraçado. O candidato José Serra teria muito mais credibilidade em seu justo dever de denunciar os métodos de seus oponentes se não tivesse, por razões táticas, dito que Lula estava "acima do bem e do mal".

Se mesmo tendo sido vítima de estratagema parecido em 2006, ainda levava o adversário na maciota, fica complicado explicar - sem remeter o assunto para a seara do oportunismo - por que a opção por se abraçar com Lula no horário eleitoral, procurando estabelecer com ele uma relação comparativa de igual para igual na cabeça do eleitor.

Ou, a fim de preservar o eleitor intersecção, dirá que o PT é uma coisa, a campanha de Dilma outra e Lula uma terceira completamente diferente?




Tucano faz ataque duro na TV e atribui violação a rivais

Moacyr Lopes Junior/Folhapress

O candidato do PSDB José Serra dá entrevista depois de se encontrar com o presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos

No mais duro ataque no programa eleitoral desde o início da campanha, o tucano José Serra apareceu na TV ontem à noite atribuindo a rivais políticos a quebra de sigilo da sua filha, Veronica.
Sem citar o nome de Dilma, Serra afirmou: "Eu tô indignado com isso. Isso não é política, isso é sujeira. Jamais aceitaria ser presidente a qualquer preço, fazendo baixaria, atingindo os filhos dos outros. A disputa política tem que ter limites".
Serra disse que Veronica "é mãe de três crianças pequenas, uma mulher honrada, que trabalha para manter a família (...) Nunca se meteu em política, nunca teve negócios com o governo".
E citou o caso Francenildo: "Lembra do Francenildo, aquele caseiro de Brasília que teve os seus extratos bancários violados pelo governo? Se continuar assim, todos nós seremos Francenildos, a mercê de gente sem escrúpulos, sem limites".
O PSDB comparou o caso ao episódio em que o ex-presidente Fernando Collor usou a filha de Lula na campanha ("A mesma baixaria contra a filha do Lula é usada contra a filha do Serra", disse o locutor) e citou a impunidade nos casos do mensalão, de Francenildo e dos aloprados.
Numa guinada em relação à estratégia usada até aqui, quase todos os sete minutos do programa foram dedicados ao caso. Na avaliação de tucanos, o tema afeta eleitores da classe média, entre os quais Dilma tem registrado crescimento nas pesquisas.
Segundo um estrategista, porém, o tom e o espaço dedicados ao caso dependerão de como o assunto vai ocupar o noticiário e de fatos novos que possam surgir.
Em entrevista à rádio Jovem Pan, ontem, Serra insinuou que futuramente aparecerão nomes de envolvidos nas violações na "folha de pagamento" do PT. Ele acusou o partido de usar as ações contra ele para desviar a atenção sobre o escândalo.



ELIANE CANTANHÊDE
da FSP

Meteram a filha no meio

BRASÍLIA - Desde 1989, quando Collor levou a história de Lurian à TV contra Lula -o que só conta contra ele e a favor Lula-, não se via neste país algo de tal violência em campanha eleitoral: a quebra do sigilo fiscal da filha de um candidato da oposição. Nada poderia ser tão ilustrativo de uma praga: "os fins justificam os meios".
Nesse ritmo, podem surgir "aloprados" da oposição prontos a responder na mesma moeda. E se resolverem quebrar o sigilo da negociação de Lulinha com a Telemar, com intermediação de um compadre do presidente da República?
Em vez de discutir economia, investimentos, empregos, educação, saúde, inclusão social -o que já se faz muito pouco-, o país passaria a assistir uma guerra entre Veronica Serra e Lulinha da Silva.
Se é que não apareceriam aloprados vermelhos, azuis, verdes e amarelos contra o outro filho de Serra, a filha de Dilma, os filhos de Marina Silva. A partir daí, a campanha descambaria para o vale-tudo, metendo até mãe no meio.
A questão, porém, não é só eleitoral; é principalmente institucional. A história está mal contada, e falta saber quem, e com que motivação, mandou quebrar o sigilo da filha de Serra e de dirigentes tucanos na Receita.
Se depender do governo e da própria Receita, ninguém vai saber de nada até a eleição e ninguém será punido depois dela. Os "aloprados" originais, da campanha de 2006, levaram uma bronca de Lula por serem atrapalhados e ponto.
É assim que o Estado é usado para fazer "banco de dados" contra Ruth e Fernando Henrique Cardoso, quebrar o sigilo de um caseiro que diz umas verdades e produzir dossiês contra adversários políticos. E tudo isso vai se incorporando à paisagem placidamente.
Por ora, ainda sobra a imprensa para descobrir esses ímpetos stalinistas e levar ao conhecimento da opinião pública. Até que se dê um jeito nisso também.



COLUNA DO HELIO FERNANDES
Na Tribuna da Imprensa

Dentro de 30 dias, um outro 3 de outubro. Há 80 anos, conhecemos o primeiro 3 de outubro, que não respeitou o calendário. Surgiram duas ditaduras. E agora, o que virá? O Supremo não pode referendar o corruptíssimo Roriz. Lula tentou destruir Jereissati, ele vai ganhando.
Hoje, 3 de setembro, fica faltando exatamente um mês para um novo 3 de outubro. Só se fala em eleição, se comenta eleição, como costumam dizer, “se vive e se respira eleição”. Só que aquilo que deveria ser a expressão da vontade popular, é uma nova mistificação, também podendo ser identificada como farsa, fraude, constatação do que pretendem, pode ser tudo, menos expressão da manifestação do eleitor.

Vejam só, e constatem se esse novo 3 de outubro tem ou terá qualquer coisa a ver com o que pensa ou imagina o povo brasileiro. Numa demonstração de burrice inominável e inédita (não acontece em nenhum país) iremos às urnas (eletrônicas, mas “sem papel para confirmar”, como pedia Brizola), para votar em massa, preencher os mais diversos cargos.

Só não votaremos agora e em todos os 3 de outubro, nas eleições municipais. “Escolheremos” presidente e vice, governador e vice, dois senadores, deputados federais e estaduais. É muita coisa. Nos mais diversos países, vota-se ISOLADAMENTE para Presidente (ou Primeiro-Ministro, se for o caso) depois então se realizam as eleições gerais.

Obama, que como tinha que acontecer, viu sua popularidade cair bastante, enfrentará eleições gerais antes do fim do ano, pode perdê-las, como acreditam especialistas. Mitterrand, quando era todo-poderoso presidente eleito e reeleito da França, perdeu a eleição geral para o medíocre Chirac, teve que dividir o governo com ele no que se chamou de COABITAÇÃO.

Agora no 3 de outubro que avança SOBRE NÓS, somos quase 200 milhões, (o censo definirá o total) 129 milhões de cidadãos obrigados a votar, mas temos como referência (leia-se referência medíocre, lamentável, melancólica e mais do que isso, catastrófica) apenas duas pessoas, dois nomes, duas candidaturas. Quem não quiser votar em Serra ou Dilma (o caso deste repórter) faz o quê? Anula, vota em branco, não comparece? Não são opções dignas, mas sim a falta de partidos coletivos e de credibilidade individual.

A República nasceu viciada, contaminada, controlada e dominada por grupos, que se aproveitaram de tudo, não tomaram conhecimento do povo, por mais longe (ou perto) que ele estivesse. E além da corrupção, da irregularidade, do desperdício do dinheiro público, sem nenhuma consideração com investimento ou desenvolvimento, fez o país prisioneiro de duas datas.

Surgiu com o 15 de novembro, mudou para 3 de outubro. Não é que o calendário tenha importância inexpugnável, mas a verdade é que as datas só mudavam para piorar. O primeiro 15 de novembro, todo indireto, com os dois marechais PROVISÓRIOS por 1 ano, e depois, “eleitos” indiretamente, sem povo, sem voto e sem urna.

Essa calamidade durou 41 nos, até que foi imposto o primeiro 3 de outubro (de 1930), que durou 15 anos (até 1945), mas nunca soube o que era eleição. Tivemos então um período sem data, surgido da Constituinte de 1946, que deu ao Brasil uma bela Constituição.

Infelizmente, essa Constituição, que não tinha nada a ver com 15 de novembro ou 3 de outubro, morreu muito moça. Foi assassinada em 1º de abril de 1964, quando iria completar 18 anos em 18 de setembro desse ano 1964. Voltou o 15 de novembro, mas com o perfil ditatorial do 3 de outubro de 1930. Só que essa ditadura se manteve “apenas” por 15 anos, a do 15 de novembro, por 21.

Agora, 129 milhões de cidadãos, desligados das duas ditaduras, alguns que não conheceram nem a primeira nem a segunda (muitos já estão com 25 anos, completados a partir do fim da segunda ditadura), poderiam votar com discernimento, vontade e convicção.

Mas como fazer tudo isso, obrigados a “escolher” entre o ruim e o pior? Dona Dilma apregoa, que “devem votar em mim, serei a primeira mulher a ser presidente”. E daí? Existem grandes mulheres e outras que não alimentam a menor esperança. Dona Dilma é uma dessas mulheres. Mas será eleita, tomará posse e será “a primeira mulher sub Lula”.

***

PS – Vivemos a Era Lula, que ele mesmo tenta “vender” como democrática. Que democracia é essa, na qual o presidente em fim de mandato, aposta tudo na sua “sucessora”? E mais: intervém nas eleições dos mais diversos estados, quase todos.

PS2 – Lula quer “fazer” governadores e senadores, por interesses financeiros, para favorecer correligionários ou se vingar de adversários. Não vou citar todos, deixo para depois. Mas não posso ficar sem examinar alguns, onde a “ingerência” de Lula é mais vergonhosa e ditatorial.

PS3 – No Ceará, houve reviravolta por causa da intervenção de Lula, que quer, por tudo, derrotar Tasso Jereissati. Este, quase derrotado, cresceu por causa dos ataques de Lula, Mas por que não enquadram o senador no projeto Ficha Limpa? Desde 2002 ele responde a processo no Supremo, por causa da “falência” do Banco do Estado do Ceará. Quem “segura” o processo contra Jereissati, é o Ministro Gilmar Mendes.

PS4 – A outra vaga sendo disputada por Eunício Oliveira (PMDB) e José Pimentel (PT), ambos apoiados por Lula, um será derrotado, mesmo apoiados por Lula.

PS5 – No Amazonas, Lula APOIA desesperadamente Alfredo Nascimento para governador. E Vanessa Graziotin, para o Senado. Vai perder os dois. Nascimento, duas vezes Ministro de Lula, perde para Omar Aziz, ensaiam um dossiê contra ele.

PS6 – Artur Virgilio se reelege com certa vantagem. Lula foi ao Amazonas, “pedir” votos contra ele”, e não está conseguindo.

PS7 – E no Pará, Lula quer reeleger a incompetente Ana Julia Carepa, que está inscrita no PT, e como é de praxe nesse partido, não fez nada, 4 anos de vazio.

PS8 – Lula quer derrotar Jader Barbalho, candidato ao Senado. Por que não “empurra” o Ficha Limpa em cima dele? Renunciou ao mandato no Senado para não ser cassado, agora quer voltar? Imoralidade que está sendo combatida de forma errada.







Pega mal


PEGA MAL

Ferreira Gullar
da FSP

Como pode uma senhora de mais de 60 anos – que em breve será avó – dizer mentiras? E em público, para a nação inteira, sabendo que as pessoas honestas e informadas do país saberão que ela está dizendo mentiras e, ainda assim, o faz em altos brados, para que todos ouçam! Pergunto, sem maldade: pode alguém confiar numa senhora que mente?

E ela mesma, esta senhora que mente, terminado o ato público, a solenidade ou o comício, ao voltar para casa e deitar a cabeça no travesseiro, que dirá a si mesma?

Imaginemos a cena: ela sozinha no quarto, troca de roupas, deita-se na cama e apaga a luz. Foi um dia agitado, passou a noite a ouvir discursos no congresso de seu partido, à espera do momento em que faria seu próprio discurso, por todos esperado. Dali a alguns momentos, ela seria aclamada candidata à Presidência da República e, então, faria seu pronunciamento à nação.

E, nesse pronunciamento, iria mentir, iria afirmar coisas que sabia não serem verdadeiras, com o propósito de desacreditar os adversários políticos e futuramente derrotá-los nas urnas. E então mentiu, mentiu diante de seus companheiros de partido, que sabiam que ela mentia; mentiu perante o presidente da República, o inventor de sua candidatura, que ali estava a exaltar-lhe os méritos e sabia que ela mentia. E, agora, sozinha, no silêncio do quarto, que diria a si mesma?

Não pode dizer a si mesma que não mentira. Isso o mentiroso poderá dizer a alguém que o acuse de ter mentido: finge estar ofendido, faz-se de indignado e chega até a insultar quem o acusou de mentir. É parte do papel do mentiroso. Mas consigo mesmo, não consegue fazê-lo. Enganar os outros é possível, ou pelo menos ele acredita que consegue, mas enganar a si mesmo é bem mais difícil, se não impossível.

Como convencer-se de que o que disse naquele discurso era verdade, se sabe que não era? Com a cabeça no travesseiro, sozinha consigo mesma, será que lhe vem à mente a confissão dolorosa?

Será que, contra sua vontade, uma voz interior, que só ela ouve, lhe dirá: “Como teve a coragem de dizer esta noite, para o país inteiro ouvir, tantas inverdades? Acha certo enganar as pessoas? E pior ainda, enganá-las ao mesmo tempo em que se propõe governar o país?”.

Não posso garantir que isso tenha ocorrido, pois há casos de pessoas mentirosas que terminam acreditando nas próprias mentiras. Se bem que esses que acreditam no que inventam são outro tipo de mentirosos, que necessitam, sobretudo, enganar-se a si mesmos, mais do que enganar os outros.

Esse gênero de mentira é diferente da mentira política, quando o cara afirma coisas que não aconteceram, que todas as pessoas informadas sabem que não aconteceram e, mais que todos, o próprio mentiroso o sabe e sabe que todos o sabem.

Pelo que li nos jornais e vi na TV, no 4º Congresso do Partido dos Trabalhadores, o que não faltou foi mentira. Creio que a ministra Dilma Rousseff é essencialmente honesta, tanto que sempre que afirma certas coisas, percebe-se hesitação em sua voz. Não se sente à vontade, como Lula, que, ali mesmo, afirmou ter sido o mensalão uma conspiração contra seu governo. Uma conspiração da qual deve ter participado o procurador-geral da República, uma vez que, em sua denúncia, falou de “uma quadrilha”, chefiada pelo chefe da Casa Civil do Lula.

No segundo turno das eleições de 2006, o PT inventou que Geraldo Alckmin, se eleito, privatizaria a Petrobras, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal. Isso nunca havia sido dito nem cogitado pelo PSDB, nem por seu candidato nem por ninguém. Uma pura e simples calúnia, com o objetivo de minar a candidatura adversária.

O primeiro a dizer isso foi Lula, num debate na televisão. Alckmin o desmentiu, no mesmo instante. Lula se calou, mas, já no dia seguinte, a propaganda do PT insistia na mentira, que enganou muita gente e garantiu a vitória de Lula. Agora, mal começa a campanha, Dilma retoma a afirmação mentirosa, deixando claro qual será o nível em que o PT pretende conduzir a disputa.

Na verdade, durante o governo FHC, foram feitas várias privatizações, com resultado altamente positivo para o país, a começar pela telefônica, cuja privatização tornou o celular um bem comum a qualquer brasileiro; a CSN, privatizada, passou a dar lucro em vez de prejuízo aos cofres públicos; e a Vale do Rio Doce se tornou uma das maiores empresas do mundo.

Dilma cala sobre essas privatizações que deram certo e mente sobre as “privatizações” que nunca ninguém pensou fazer. Para uma senhora já de certa idade, ainda que petista, pega mal.

*(Publicado na Folha e no Globo em 28 de fevereiro de 2010)


A história se repete
Coluna
Direto ao Ponto
Augusto Nunes


Na campanha presidencial de 1989, o candidato Fernando Collor estuprou pelo menos duas vezes a intimidade do adversário Luiz Inácio Lula da Silva. Uma das abjeções consumou-se em surdina. Horas antes do último debate debate na TV, Marisa Letícia foi chamada ao telefone para ouvir que o marido havia presenteado com um aparelho de som a namorada que morava em Brasília. O segundo estupro foi testemunhada pelo país inteiro: no horário eleitoral de Collor, Miriam Cordeiro acusou o ex-namorado Lula de tentar forçá-la a praticar um aborto ─ e de repudiar a filha Lurian depois do nascimento.

Até promover o agressor a companheiro e, em seguida, conferir-lhe o título de amigo de infância, o agredido repetiu que devia a Fernando Collor momentos incomparavelmente dramáticos. “Nunca me senti tão deprimido”, ouvi de Lula durante um jantar. “Não há nada mais sujo que envolver a família da gente numa disputa política”. No dia seguinte ao da apresentação de Miriam Cordeiro, Collor foi publicamente censurado pelo senador Fernando Henrique Cardoso e pelo deputado federal José Serra.

Em março de 2008, para livrar o governo da enrascada em que se metera com a gastança dos cartões corporarativos, a ministra Dilma Rousseff foi encarregada de produzir um papelório abjeto que tentava reduzir Fernando Henrique e Ruth Cardoso a perdulários incuráveis, uma dupla decidida a desperdiçar o dinheiro da nação em vinhos caros e futilidades gastronômicas. Por ordem de Lula, Dilma foi a primeira a agredir uma mulher gentil, suave, e também por isso tratada com respeito até por ferozes inimigos do marido.

Acuada pelo noticiário, a chefe da Casa Civil telefonou para Ruth Cardoso e jurou que o dossiê era uma invencionice da imprensa. Atropelada por mais provas e evidências, Dilma tentou transformar em “banco de dados” a fábrica de dossiês cafajestes infiltrada no coração do poder. Lula, claro, recitou que não sabia de nada. Ele sempre diz isso quando fica sabendo de tudo.

A humilhação ensaiada contra Ruth Cardoso não foi menos ultrajante que a imposta em 1989 a Marisa Letícia. Nem existem diferenças essenciais entre a afronta sofrida por Lurian e o estupro do sigilo fiscal de Verônica Serra. Mas Lula não fica tão chocado quando a filha é dos outros. “É um crime grave de falsidade ideológica”, ensinou nesta quinta-feira a usina de reducionismos oportunistas.

O presidente tratou do assunto como se discorresse sobre uma questão técnica. Pareceu tão sincero quanto seria Collor se dissesse, em 1989, que resolvera usar o caso do aborto para mostrar algumas ideias do candidato na área de ginecologia. Serra precisa deixar claro que o Brasil foi controntado com um gravíssimo crime político, um pontapé na Constituição e uma bofetada na face de todos os brasileiros. Os quase 150 estupros localizados no mafuá de Mauá avisam que a invasão da privacidade é coisa rotineira. O direito ao sigilo foi abolido.

As informações obtidas criminosamente no mafuá de Mauá apareceram pela primeira vez no dossiê contra José Serra denunciado por VEJA em maio. Os jornalistas Luiz Lanzetta e Amaury Ribeiro Junior, contratados pelo comitê de Dilma, ainda não revelaram de que forma conseguiram obtê-las ─ e quem encomendou o serviço sujo. A candidata do PT capricha na pose de vítima: “As acusações são falsas, levianas e não têm sustentação jurídica”, voltou a declamar nesta tarde. Dilma faria melhor se saísse à caça de álibis mais convincentes do que os balbuciados para escapar do caso do dossiê contra Ruth Cardoso.

Lula aprendeu o que os sarneys já nascem sabendo: numa disputa eleitoral, só é proibido perder. Foi ele quem sugeriu a Dilma a linha de argumentação: quem a trata como suspeita está cometendo um crime contra a honra. Que honra?

Nunca sabe de nada e não viu o que assinou



Dilma: Serra está 'desesperado' e quer ganhar no tapetão

ELDER OGLIARI
do Estadão

A candidata da PT à Presidência da República, Dilma Rousseff, disse que a campanha de seu adversário José Serra (PSDB) está "desesperada porque a cada dia que passa perde o apoio do povo brasileiro" e afirmou que o concorrente quer ganhar a disputa eleitoral no tapetão. As declarações foram dadas hoje, durante breve pronunciamento à imprensa no aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, depois de gravar programa eleitoral e antes de embarcar para Foz do Iguaçu.

"As acusações que eles fazem são falsas, levianas e não têm sustentação jurídica", disse ela, referindo-se à atribuição pelos tucanos da violação de sigilos fiscais ao PT. "Ao tentar responsabilizar minha campanha por fatos ocorridos em setembro de 2009, quando não havia nem campanha nem pré-campanha, nem candidatura, nem pré-candidatura, o que eles querem é virar a mesa da democracia", afirmou.

Dilma avisou que o PT moverá ações judiciais contra Serra por uso de fato inverídico com finalidade eleitoral e crime contra a honra, e enviará representação à Procuradoria-Geral da República contra o presidente do PSDB, Sérgio Guerra, por calúnia, injúria e difamação. "Num processo democrático pode-se até perder uma eleição, mas não se pode perder a dignidade e começar a assacar contra pessoas e instituições", prosseguiu Dilma, para afirmar que "nem o povo brasileiro e nem a história do Brasil perdoam quem age dessa maneira".

Na entrevista coletiva que se seguiu à declaração, a candidata do PT afirmou que, mais do que ninguém, quer a apuração rigorosa e rápida do caso da violação dos sigilos fiscais. "É do meu interesse que se acabe com esses factoides sistemáticos que são levantados contra mim", prosseguiu, dizendo ter certeza que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva exigirá a apuração dos vazamentos de dados até as últimas consequências, doa a quem doer. "Quem quer que elas (as apurações) fiquem nebulosas é a candidatura adversária, não a minha; a minha quer clareza, quer transparência."

Disputa tucana

Em outra abordagem da violação de sigilos fiscais da Receita Federal ocorrida em setembro do ano passado, Dilma insinuou que o vazamento poderia estar ligado aos adversários. "Que eu saiba, naquele momento havia outro tipo de disputa que não tem a ver com a minha campanha", recordou a petista, numa possível referência ao debate sobre quem seria o candidato, José Serra ou Aécio Neves, que o PSDB escolheria para disputar a Presidência.

Provocada pelos jornalistas a dizer se estava atribuindo a violação aos próprios concorrentes, Dilma desconversou. "Não estou atribuindo a ninguém porque não costumo fazer acusações sem provas", ressalvou.



Entrevista com Antônio Carlos Atella Ferreira, o contador que admitiu ter pego as declarações de renda da filha de Serra

O Globo on-line

BRASÍLIA - Aos 62 anos e se declarando contador profissional, Antônio Carlos Atella Ferreira admitiu nesta quarta-feira, em 22 minutos de entrevista ao GLOBO, que foi ele quem pegou na Receita as declarações de renda de Verônica Serra . E ainda afirmou que é fácil forjar o reconhecimento de firma em cartório para buscar dados sigilosos na Receita Federal usando procuração falsa - embora tenha dito que não fez isso. ( Ouça trecho da entrevista )

No dia 30 de setembro, o senhor solicitou cópia do IR de Verônica Serra?

ANTÔNIO CARLOS ATELLA FERREIRA: Eu solicito de 20 ou 30 pessoas (por dia). Eu não sabia que ela estava no meio, como estou vendo que está. O escritório passa para mim uma relação diária e me manda o documento por motoboy, e eu vou lá e retiro.

Já teve contato com a família de Serra ou com o próprio?

ATELLA: Não conheço a família do Serra. Nem sabia que ele tinha filha.

O senhor fez cópia da documentação?

ATELLA: Está assinado com a minha letra, o que pode ser comprovado em exame grafotécnico. Só a assinatura da pessoa (Verônica Serra) é que eu desconheço, e o reconhecimento em cartório, idem.

O senhor faz solicitações à Receita sem saber quem é o titular da declaração?

ATELLA: Eu nunca conheço o titular. Eu pego com advogados de São Paulo. Eu não conheço o cliente que solicita ao advogado.

Tem como localizar quem solicitou os dados?

ATELLA: Eu tenho que verificar a minha carta de clientes e ver quem solicitou.

É possível que alguém tenha usado indevidamente o nome de Verônica Serra?

ATELLA: Com certeza. Acredito até que a assinatura não seja dela. Se ela está negando, sabe do que está falando. Nem a conheço, só estava executando meu trabalho de retirar o documento legalmente. Se por acaso alguém da Receita achou que o documento estava pronto e cabível com 100%, só entregou o documento porque quis, não por coação ou dinheiro para tirar os documentos. Nunca paguei a ninguém para tirar nada.

Há quem diga que o senhor cometeu uma irregularidade.

ATELLA: Quero que o Brasil diga isso para eu me candidatar. Se saírem dizendo isso e eu provar tudo o que eu tenho para provar, eu vou ser candidato à Presidência da República. Vou sair a vereador até na minha cidade. Eu quero estar vinculado ao Lula e ao Serra. Lamento muito por ter recebido uma encomenda de um inimigo dele (Serra), que não sei nem quem é.

Então o senhor diz que recebeu a encomenda de um inimigo dele?

ATELLA: Não sei se é. Fiz um serviço profissional. Posso executar o exercício da minha profissão a qualquer momento. PT e PSDB têm dinheiro para investigar. É um prazer e uma honra. Quero que me filmem. Pelo menos, vou sair vereador onde moro...

A autorização já chega pronta para o senhor, então?

ATELLA: Sim. Já chega com os meus dados. A pessoa vai pedindo para mim. Pede dez, três, cinco, duas. Entendeu como é que é? Vou lá e retiro. Afirmo que retirei. Quando chega às nossas mãos, já chega terceirizado. Normalmente, nem o advogado a gente conhece. O advogado manda, você está entendendo? Sei que posso fazer em Minas, Brasília... onde você quiser. O que acontece: a pessoa quer que você vá lá e retire.

A filha de Serra diz que não tem firma reconhecida naquele cartório.

ATELLA: Eu não duvido. Eu tenho certeza. Eu tenho 99,9% de certeza de que ela não pediu uma coisa que poderia ter pedido para o contador da esquina. Alguém quis investigar a vida dela por qualquer motivo.

É fácil fazer isso?

ATELLA: Não vejo dificuldade na medida em que ele reconhece a firma, né? Coitado do pessoal da Receita, que não tem como prov... fazer o reconhecimento de firma também. Nem é o caso de fazer isso. Não mando ninguém, faço em causa própria. Não sou um profissional de recados, faço o exercício da minha profissão. Vivo disso.

Quanto o senhor cobraria se lhe pedisse para buscar minhas declarações do IR?

ATELLA: Eu cobraria do senhor R$ 100 por este serviço, pode ser? O senhor precisa passar a senha digital e o código, que eu emito (o documento) para o senhor. Você só precisa ir à Receita Federal, colocar os meus dados, autorizando que eu estou emitindo para o senhor. O senhor vai me dar uma procuração eletrônica. Mas, naquela época, não era assim.

Como o senhor avalia a repercussão do episódio envolvendo seu nome?

ATELLA: Acho maravilhoso! Eu vou aparecer na mídia, eu estou querendo é me divulgar. Eu não tenho problema nenhum com isso, prestei um serviço profissional.

O senhor sabe que pode ajudar a desvendar um importante mistério?

ATELLA: Eu lamento que o meu nome esteja vinculado à filha dele (Serra), mas agora vai ter uma alegria melhor. Eu posso ficar até amigo dele, eu posso ser apresentado a ele. Eu sou a pessoa que foi utilizada para retirar um documento em nome da sua filha.

Delinquência e tapetão

FERNANDO DE BARROS E SILVA
da FSP

Delinquência e tapetão

SÃO PAULO - O governo e o PT usam a popularidade de Lula como biombo para semear a impunidade. Tem sido assim desde que se recuperaram do mensalão. O escândalo dos aloprados até hoje permanece impune, sem solução. E Antônio Palocci, o maior interessado na violação do sigilo do caseiro Francenildo, é hoje coordenador da campanha de Dilma Rousseff e seu avalista informal junto à turma do PIB.
Mas não se trata apenas de impunidade. Sempre que a realidade lhe pede satisfação, o governo costuma reagir com soberba, como se fizesse um favor à opinião pública. Foi assim, por exemplo, em 2008, quando Dilma dizia ser uma "ficção" o dossiê, confeccionado na Casa Civil que ela chefiava, sobre as despesas pessoais de FHC na Presidência.
Agora, mais uma vez, o governo se mostra insolente e relapso diante das evidências de que a Receita se tornou a moradia da Mãe Joana. Há, de um lado, o comércio de dados fiscais violados em larga escala; e há, entre eles, a violação do sigilo de figuras ligadas a José Serra, inclusive o de sua filha empresária.
Tudo nesse episódio é muito grave. Inclusive a reação da campanha tucana. Ao ir à Justiça Eleitoral para impugnar a candidatura Dilma, Serra se agarra ao escândalo como tábua de salvação para chegar ao segundo turno. Não se trata de "incriminar a vítima", mas de expor os interesses de seu açodamento.
Em 2006, havia uma montanha de dinheiro de origem equívoca para comprar um dossiê. Mas havia, além disso, Hamilton Lacerda (braço-direito de Mercadante), Freud Godoy (assessor especial de Lula), Jorge Lorenzetti (o "churrasqueiro" oficial), Gedimar Passos (da "inteligência" petista). Pegos fazendo arte, os aloprados tinham rosto e vínculo inequívoco com a campanha.
O crime de agora parece ser até mais grave, mas, apesar dos antecedentes do PT, os elos com a campanha de Dilma ainda estão por ser esclarecidos. Ao escandalizar o escândalo da maneira como faz, Serra contribui para a sua banalização.


Discurso de José Serra no Encontro de Prefeitos




O responsável pela bandidagem

O responsável pela bandidagem

NOTAS & INFORMAÇÕES
do Estadão

O procedimento dos interessados em ter acesso a declarações de renda da empresária Verônica Serra, filha do candidato tucano ao Planalto, destoa do que, tudo indica, tenha sido o padrão seguido nas violações do sigilo fiscal do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge Caldas Pereira, e de três outras pessoas ligadas ao ex-governador. Nesses episódios, para obter o que queriam, os predadores da intimidade alheia contavam com afinidades políticas ou a ganância de servidores da agência da Receita em Mauá, na Grande São Paulo - uma verdadeira casa da mãe joana, com senhas individuais expostas e documentos eletrônicos ao alcance das vistas de qualquer um.

No caso de Verônica Serra, que antecedeu os dos demais em cerca de uma semana (de 30 de setembro a 8 de outubro do ano passado), o método seguido foi mais complicado na urdidura e mais simples no trâmite final. Alguém falsificou a assinatura da contribuinte - e o seu reconhecimento num cartório onde ela nem sequer tinha ficha - numa solicitação de cópia de documentos e incumbiu um tipo que habita as cercanias do Código Penal, devidamente identificado no formulário, de apresentá-la à Delegacia da Receita de Santo André. Ali, burocraticamente, a servidora Lúcia de Fátima Gonçalves Milan fez o que lhe era pedido, repassando ao titular da procuração as declarações de Verônica relativas aos exercícios de 2007 a 2009.

Por enquanto, pode-se apenas especular sobre os porquês das diferenças de estratagema. Mas o intuito era claramente o mesmo: recolher material que pudesse ser usado contra Serra na sua futura disputa com a escolhida do presidente Lula, Dilma Rousseff. Àquela altura, no último trimestre de 2009, embora o governador paulista ainda se negasse a assumir a pretensão e o mineiro Aécio Neves ainda não tivesse largado mão da esperança de ser ele o candidato, já não havia dúvidas sobre quais seriam os principais contendores da sucessão. E não passa pela cabeça de ninguém que a turma da pesada do PT fosse esperar a formalização das candidaturas para só então juntar papelório que pudesse comprometer o tucano e seus aliados.

Seria, no mínimo, subestimar a capacidade de iniciativa do "setor de inteligência" petista, como viria a ser conhecido. Principalmente porque os responsáveis pelo trabalho sujo não precisariam gastar tempo e energia para preparar o terreno por excelência de onde escavariam a matéria-prima desejada. O campo da Receita Federal começou a ser aplainado para servir aos interesses do partido quando, em 31 de julho de 2008, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, demitiu o então secretário do órgão, Jorge Rachid, há 5 anos e meio no cargo. Desde então, a isenção e o profissionalismo deram lugar ao aparelhamento e à politização das decisões do Fisco. É o que atesta o escândalo das quebras de sigilo para fins eleitorais.

A contar da denúncia, a Receita levou praticamente duas semanas até anunciar a abertura de inquérito administrativo sobre o vazamento de declarações de renda de Eduardo Jorge, cópias das quais apareceram em mãos de membros do comitê nacional de Dilma Rousseff. Depois, quando vieram a público as demais violações, depois que a Justiça autorizou o vice-presidente do PSDB a ter acesso aos autos da investigação, os hierarcas da Receita, acionados pelo governo, correram a desvincular da campanha eleitoral os ilícitos revelados. Afinal, disseram sem enrubescer, o que havia na agência de Mauá era um "balcão de compra e venda de dados sigilosos", movido a "propina".

Não que não fosse - outros 140 registros também foram vasculhados ali. Se tivesse uma gota de vergonha, aliás, o secretário Otacílio Cartaxo já teria se demitido. Eis, em suma, o que o governo Lula e a cultura petista fizeram do Fisco: uma repartição em que o livre tráfico de informações presumivelmente seguras sobre os contribuintes brasileiros se entrelaça com o uso da máquina, literalmente, para intuitos eleitorais torpes. O crime comum e o crime político se complementam. Agora, destampada a devassa nas declarações de Verônica Serra, vem o presidente Lula falar em "bandidagem". Se quiser saber quem é o responsável último por essa degenerescência, basta se olhar no espelho.

O PT de Dilma e de Lula ligado ao que há de pior!




E os pais, o que andam fazendo por aí?
E os pais, o que andam fazendo por aí?

Andréa Pachá
do Estadão

Um fenômeno recente tem se repetido com frequência cada vez maior nas Varas de Família, em todo o País: a busca da Justiça pelos pais, como forma de suprir a sua incapacidade de estabelecer limites e fazer os seus filhos cumprirem regras e aceitarem restrições. Espera-se que um magistrado decida em que escola a criança deve estudar, que ambientes deve frequentar, que tipo de música pode ouvir, a que horas deve voltar para casa e até mesmo que roupas pode vestir.


Não têm sido raras as audiências em que alguns pais, inseguros do seu papel, comparecem na companhia dos filhos e delegam ao julgador escolhas cotidianas, numa declarada manifestação de limitação do exercício da sua autoridade. Trata-se de um verdadeiro paradoxo, pois a mesma sociedade que brada por menos Estado espera que o Estado interfira justamente naquelas relações que deveriam ser exclusivamente privadas.

Não é com pesar que se constata a falência da antiga família patriarcal. Lembrada com saudades por alguns, era naquele ambiente que se forjavam as maiores violências e submissões. Também não se pode esquecer que, até a Constituição de 1988, os filhos nascidos fora do casamento não podiam ser reconhecidos, a família era chefiada exclusivamente pelo homem e o diálogo, se existente, era vertical. As companheiras de uma vida inteira não tinham direito a nada e a preservação do matrimônio a qualquer preço coroava a vitória de uma hipocrisia generalizada.

É inegável que o ambiente contemporâneo - com divórcios em série, novos casamentos, uniões homoafetivas, monoparentalidade - alterara radicalmente o conceito dos núcleos familiares. A transformação tem sido profunda e permanente, principalmente porque contextualizada numa época que tem sofrido abalos em todos os seus alicerces de valores e ideias. Se aquela família morreu, vivam as novas famílias!

Atualmente, as famílias são muito mais do que as pessoas que vivem no mesmo ambiente doméstico, ligadas por identidades biológicas e dependentes economicamente. Próximos pela afetividade, os membros destes novos espaços reafirmam sua vocação para multiplicadores de respeito, consideração e lealdade. Nada que lembre os inquestionáveis comandos de outrora ou a opressão daquelas vetustas relações.

O processo de educação, no entanto, encontra-se numa encruzilhada: como educar os filhos, com os limites e as restrições próprios do processo civilizatório, sem o devido exercício da autoridade? Como representar o papel de pai ou mãe sem o ônus de se responsabilizar pelas contrariedades naturais do amadurecimento? Como esclarecer para os adolescentes que a vida não é justa e que, infelizmente, nem tudo acontece como se espera e se programa? Como ser firme sem se revelar um déspota e sem perder a ternura?

Não existe, até onde se sabe, geração espontânea de adolescentes bem-educados. Exceto que alguém ensine desde a infância, os valores éticos, morais e comportamentais não são inatos nem assimiláveis com o simples e natural passar do tempo. Demonstrar que não se vive em grupo sem aprender a ceder, que a busca desenfreada pelo consumo e pelos prazeres individuais é incompatível com a vida em sociedade, que tristezas e as contradições são estados permanentes da condição humana, que a vida é precária e tudo é provisório, essa é a tarefa primordial dos pais. Assim como é sua tarefa ensinar os filhos a transitarem neste mundo em permanente mudança, observando os valores de humanidade, que devem nortear qualquer relação. A dor e o limite fazem parte desse processo de aprendizado.

A tentativa de transferência dessa tarefa, primeiro para a escola, depois para os terapeutas e agora para os juízes não parece o melhor caminho para enfrentar o problema. Esta nova geração, seguramente mais informada, mais tolerante e menos preconceituosa, merece ser cultivada por valores melhores e mais consistentes. O exercício da autoridade não deve ser visto como uma ameaça aos avanços até aqui alcançados no terreno das liberdades e na horizontalidade nas relações.

Quando li o artigo da empresária Vera Ferreira, publicado neste espaço no dia 21 de agosto (Você sabe o que seus filhos andam fazendo?), não pude deixar de reagir com perplexidade. A autora apresenta-se como mãe de um jovem de 15 anos, estudante de um colégio frequentado pela "nata da sociedade carioca", conforme ela mesma aponta. Assombrada com duas experiências ocorridas em sua casa, onde, ultrapassando todos os limites, os amigos de seu filho protagonizaram cenas de vandalismo e falta de educação, em festas ali realizadas, faz transparecer, pelo teor do texto, que esse comportamento é corriqueiro em todo um grupo etário e que seu filho é vítima da dissimulação e do cinismo dos colegas da mesma idade. Ela, então, pergunta se os pais estão sabendo o que filhos andam fazendo, como a indicar que o ignoram.

Para ser eficiente, também a comunicação entre pais e filhos tem de ser clara e não se resume a uma mera troca de palavras. Mais do que ensinados e verbalizados, os valores éticos devem ser transmitidos pelo exemplo. E o fato é que uma parte significativa da elite da sociedade tem vivido, historicamente, sem se submeter a restrições ou se subordinar a limites para viver em grupo. O reflexo de atos cotidianos dessa elite - nos quais prevalecem a certeza da impunidade, o jeitinho, o paga quem pode, o "sabe com quem está falando?" - acaba sendo assimilado pelos jovens como princípios a serem seguidos.

A verdadeira pergunta que se devia fazer, após as cenas de barbárie narradas naquele texto, é diametralmente oposta à que foi feita no artigo da empresária Vera Ferreira: e vocês, sabem o que seus pais andam fazendo por aí?


*JUÍZA DE FAMÍLIA DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO, FOI CONSELHEIRA DO CNJ NO BIÊNIO 2007-2009



ALERTA A NAÇÃO


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