Evaldo Augusto Torres Alves /editor
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Política

'Todo mundo sabe' da ligação do PT com as Farc





'Todo mundo sabe' da ligação do PT com as Farc, diz Serra

Tucano salientou que relação não significa que partido tenha vínculos com o narcotráfico

Eduardo Kattah
do Estadão

O presidenciável tucano José Serra afirmou nesta segunda-feira, 19, em Minas Gerais, que "todo mundo sabe" da ligação do PT com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), mas salientou que isso não significa que o partido tenha vínculos com o narcotráfico.

PT vai à Justiça contra Índio e PSDB

Índio da Costa vem a SP discutir declarações; assista aos vídeos

Bernardo: Índio da Costa 'se comporta como um idiota'

Ao participar de inauguração de um comitê no centro de Belo Horizonte, Serra foi questionado sobre as declarações de seu vice, Índio da Costa (DEM). Em uma entrevista gravada em vídeo e publicada no site do PSDB, Índio disse: "Todo mundo sabe que o PT é ligado às Farc, ligado ao narcotráfico, ligado ao que há de pior. Não tenho dúvida nenhuma disso". O vídeo foi retirado do ar.

Apesar de dizer que os esclarecimentos cabem a Índio, o candidato tucano endossou o vice no que se refere às ligações das Farc com o Partido dos Trabalhadores. "A ligação do PT com as forças armadas revolucionárias colombianas, isso todo mundo sabe, tem muitas reportagens, tem muita coisa. Apenas isso. Agora, as Farc são uma força ligada ao narcotráfico. Isso não significa que o PT faça o narcotráfico."

Serra também comentou a possibilidade de o PT entrar com representação no Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) contra a subprocuradora-geral eleitoral, Sandra Cureau. O tucano ironizou, afirmando que o PT, de forma recorrente, busca culpados "quando fazem algo ilegal". "Tem sempre essa novidade. Em geral, quando eles fazem algo ilegal, a vítima é a culpada", afirmou, evitando, contudo, críticas diretas ao presidente Lula.

Na mesma linha do discurso de Serra, Índio escreveu em seu Twitter nesta segunda que o "PT não faz narcotráfico. As Farc, sim". Ele também divulgou links de reportagens que comprovariam essas ligações. Segundo fontes do DEM, o deputado estaria em São Paulo para reuniões com a coordenação da campanha. A polêmica sobre o PT e as Farc seria um dos assuntos da pauta.

Reação

As declarações do vice de Serra geraram reações no PT, que prometeu ações contra Índio e o PSDB, e no governo. O ministro do planejamento, Paulo Bernardo, chegou a classificar o comportamento de Índio como o de "um idiota".

Em entrevista coletiva no início desta tarde, o presidente do PT, José Eduardo Dutra, disse que o partido vai entrar com uma ação criminal por injúria e difamação e uma ação civil por danos morais contra Índio, e uma ação eleitoral contra o PSDB. No processo, o PT pedirá direito de resposta a ser veiculada no site do PSDB, já que foi neste espaço que o partido divulgou as declarações do deputado.

O partido também não descarta uma ação civil contra o PSDB caso o partido não se manifeste através de uma desautorização a Índio da Costa até o meio dia de terça-feira, 20.

O secretário-geral do PT, José Eduardo Martins Cardoso, declarou que "em relação à ação eleitoral, obviamente é o PSDB o responsável pelo conteúdo do site". Se o PSDB não se pronunciar contra o que o deputado disse, vamos entender que há uma concordância do PSDB com a fala do deputado Índio", acrescentou Cardoso

Dutra, seguiu o mesmo discurso: "Não vou fazer qualquer ilação sobre os motivos que o levaram a fazer tal declaração", disse. "Ele fez afirmações categóricas de que o PT é cúmplice do narcotráfico", finalizou.

Bernardo, por sua vez, aproveitou as declarações para desqualificar o vice de Serra. "O comportamento desse rapaz mostra que ele não está preparado. É uma pessoa despreparada", criticou Bernardo. O ministro também procurou usar o episódio para atacar a candidatura tucana. "E é ruim para o candidato da oposição colocar uma pessoa que se comporta como um idiota, porque, francamente, o comportamento dele é de idiota", concluiu.

Constrangimento

De acordo com o advogado do PT, Pierpaolo Bottini, a expectativa é de que a legenda dê entrada ainda nesta segunda aos pedidos de abertura de ação penal contra o parlamentar por injúria e difamação. O advogado informou que a legenda deve pedir ainda direito de resposta às declarações do candidato a vice.

Embora o site Mobiliza PSDB tenha retirado do ar o vídeo no qual Índio ligou o PT às Farc, é possível assistir a íntegra da entrevista pelo YouTube.

De acordo com fontes no DEM, o deputado desembarcou nesta segunda em São Paulo para uma reunião com a cúpula da campanha. Mesmo aliados da campanha do PSDB admitiram que Índio da Costa errou a mão nos ataques feitos ao PT e à Dilma. O presidente do PSDB, Sérgio Guerra, preferiu se esquivar do assunto. Disse que preferia se manifestar depois de conversar com o vice de Serra.

Segundo um dos coordenadores da campanha do presidenciável tucano, as declarações são resultado da falta de experiência do deputado: "O Índio é um pouco inexperiente, pode dar algumas bolas foras no começo, mas conforme a campanha for avançando, ele vai acertar o discurso."

Questionado se será necessário enquadrar o candidato a vice, o tucano classificou o episódio como "parte natural da campanha". "O assunto (a ligação das Farc com o PT) sempre volta porque o PT nunca mostrou disposição em esclarecer essa relação", acrescentou.

O presidente do PPS, Roberto Freire, vê na polêmica um artifício para que o PT se desvie do debate eleitoral. "Esse é o tipo de assunto que desvia o debate que a candidata do PT se nega a fazer, que é sobre os problemas do País", disse.




PT entra na Justiça contra Índio da Costa


PT entra na Justiça contra Índio da Costa

Jair Stangler

Por Vera Rosa
do Estadão

O PT entrou com duas representações contra Índio da Costa (DEM-RJ), candidato a vice-presidente na chapa do tucano José Serra. No Tribunal Superior Eleitoral, o partido pediu direito de resposta no site do PSDB. Na semana passada, em entrevista ao site “Mobiliza PSDB”, Índio disse que o PT está ligado ao narcotráfico, às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e “ao que há de pior” na política.
“Se depender de nós, não haverá uma batalha judicial, mas todas as vezes em que formos acusamos e ofendidos vamos recorrer ao Judiciário”, afirmou o presidente do PT, José Eduardo Dutra, que coordena a campanha de Dilma Rousseff à sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
“As declarações do candidato a vice de Serra são mentirosas, inaceitáveis e gravíssimas.” A cúpula petista avalia, porém, que as estocadas de Índio não são aleatórias. “Fazem parte da estratégia que a oposição escolheu para fazer a campanha”, insistiu Dutra, fazendo críticas a Serra. “Temos visto, inclusive, manifestações do próprio candidato do PSDB que procuram desqualificar Dilma.”
Uma das representações criminais contra Índio da Costa foi impetrada no Supremo Tribunal Federal (STF), sob a alegação de injúria, calúnia e difamação. A segunda representação, que deu entrada na Procuradoria Geral da República (PGR), pede a abertura de um processo contra o vice de Serra por danos morais.
Embora considerem que a ofensiva de Índio faça parte da estratégia da oposição para atacar Dilma, Dutra e o secretário-geral do PT, José Eduardo Cardozo, disseram que aguardarão até à tarde desta terça-feira uma manifestação oficial do PSDB sobre as declarações do deputado. Caso o PSDB não discorde publicamente de Índio, o PT também ingressará na Justiça contra o partido de Serra.
“Antes que o PSDB vire réu, vamos dar o direito da dúvida ao partido”, afirmou o presidente do PT. “Se o PSDB não se pronunciar, entenderemos que há conivência”, emendou Cardozo, um dos coordenadores do comitê jurídico da campanha petista.
Além de dizer que “todo mundo sabe que o PT é ligado às Farc, ligado ao narcotráfico e ligado ao que há de pior”, Índio chamou Dilma de “ateia” e “esfinge do pau oco”. Foi uma resposta ao tom irônico da ex-ministra que, em comício no Rio, na semana passada, disse que Michel Temer (PMDB-SP), candidato a vice em sua chapa, não foi “improvisado”.
Caso da procuradora. O comando petista ainda avalia a conveniência de entrar com representação no Conselho Nacional do Ministério Público contra a vice-procuradora-geral eleitoral, Sandra Cureau. No diagnóstico do PT, ela tem sido mais rigorosa ao pedir investigações contra Lula – sob a alegação de que o presidente abusa do poder político e econômico quando faz campanha para Dilma – do que contra o PSDB de Serra.


Indio no ataque


Editorial da Folha de São Paulo

Vice do candidato José Serra eleva o tom em declarações inoportunas, que apenas contribuem para baixar o nível da campanha eleitoral

Retirada do bolso do colete em meio a uma série de trapalhadas que ameaçava a aliança eleitoral entre democratas e tucanos, a indicação do deputado Indio da Costa para vice da chapa de José Serra apanhou todos de surpresa. Ilustre desconhecido no plano nacional, o político fluminense logo se tornou alvo de desconfianças, críticas e indefectíveis anedotas.
A seu favor no entanto pesavam a juventude -tem 39 anos- e o fato de pertencer a um Estado relevante, no qual o nome do ex-governador paulista sempre encontrou dificuldades para se firmar. Além disso, era providencial que tivesse atuado como relator do projeto Ficha Limpa, em contraponto ao envolvimento de seu partido no escândalo do mensalão do governo do Distrito Federal.
Não tardou para que o neófito despertasse o sentimento paternal do experiente tucano. No dia seguinte ao acordo com o DEM, Serra tratou de desmentir a suposta fama de mulherengo do novo escudeiro. "Ele me disse por telefone: "Não tenho amantes". Eu até disse: "Também não precisa exagerar". O que tem que ser é uma coisa discreta", declarou em uma sabatina promovida pela Confederação Nacional da Indústria.
Depois da lição pública sobre como comportar-se em matéria de relações íntimas, o peessedebista prescreveu ao vice a leitura de alguns livros para que se familiarizasse com o pensamento do líder. Recomendou quatro volumes, três de sua autoria e um no qual pontifica como entrevistado.
Não se sabe se Indio da Costa debruçou-se sobre a lição de casa. Certo é que se sentiu incentivado -ou pelo menos desembaraçado- para responder de maneira estridente uma provocação da rival Dilma Rousseff. A postulante petista havia declarado que seu vice, o deputado Michel Temer, do PMDB, não caíra do céu (algo de fato incontestável, sob qualquer ângulo que se queira analisar).
Indio sentiu-se ofendido e disse que a adversária era uma "ateia" a posar como "esfinge do pau oco".
Na sexta passada, em entrevista a militantes tucanos, no site Mobiliza PSDB, o deputado carioca deu mais um passo: afirmou que o PT mantém ligação com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e com o narcotráfico. Alertou ainda para a possibilidade de Dilma, uma vez eleita, "dar um chute" no presidente Lula e governar com "as garras do PT".
É fato que militantes petistas mantiveram relações com as Farc, assim como é razoável acreditar que, eleita presidente da República, Dilma se distancie de seu mais famoso cabo eleitoral e constitua seu próprio grupo no governo.
Tais considerações não bastam para ocultar a evidência de que as palavras do vice pretendem apenas fomentar temores e animosidades ideológicas em tom tosco e ultrapassado, que contribui para rebaixar o nível da campanha.
Após uma coreografia de tucanos e democratas para conter os ânimos, Serra preferiu ontem apoiar a declaração do pupilo em vez de tentar recolocar a disputa nos trilhos da civilidade

O fato que virou fardo
O fato que virou fardo

Dora Kramer
do Estadão

E pensar que há dois anos os tucanos pareciam ter a solução perfeita para derrotar o presidente Luiz Inácio da Silva e impedi-lo da fazer o sucessor: uma chapa só do PSDB unindo os governadores de São Paulo e Minas Gerais, os dois maiores colégios eleitorais do País.

E pensar que o governo e o PT passaram dois anos morrendo de medo do impacto que a escolha do vice do PSDB provocaria na eleição presidencial.

O vice, aguardado como o grande fato político da temporada enquanto houve possibilidade de o mineiro Aécio Neves compor uma dobradinha com José Serra, acabou se transformando em um fardo.

Primeiro, por causa das atribulações da escolha, feita na base da eliminação, com direito a chilique e exigências do DEM ? um debilitado que teve seus 15 minutos de possante porque o PSDB não podia se arriscar a perder metade do tempo do horário eleitoral de rádio e televisão.

Agora o PSDB enfrenta aborrecimentos com o vice, escolhido sabe-se lá por qual critério: juventude, fina estampa ou para tentar suprir a lacuna de uma confusa e pouco profícua aliança com o PV no Rio de Janeiro, terceiro colégio eleitoral da Federação.

O deputado Índio da Costa é mais jovem que Aécio, bonitinho tanto quanto, mas desprovido de cancha, peso político e estrada.

E, a julgar pela primeira entrada em cena, não oferece compensações: o que lhe falta em experiência não lhe sobra em sapiência e extrapola em imprudência.

Na segurança de terras amigas (o portal do PSDB) e sem medir palavras contra os inimigos, Índio da Costa simplesmente disse que "todo mundo sabe" que o "PT é ligado às Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), ao narcotráfico, ao que há de pior".

No dia seguinte retratou-se: "O PT não faz narcotráfico." Que bom, não é?

O desmentido deve ter soado tranquilizador ao titular da chapa, José Serra, aos partidos e aos demais cidadãos do Brasil, quiçá do mundo, que, segundo a primeira versão, sempre souberam da ligação do PT com o narcotráfico. Não precisam se sentir cúmplices por não terem denunciado à polícia o que sabiam.

Índio da Costa tampouco precisará demonstrar a veracidade de afirmação tão peremptória. Apenas terá de responder a ações do PT por injúria, calúnia e difamação e danos morais.

Isso no exato momento em que o candidato à Presidência na chapa integrada por ele procura tirar dividendos das exorbitâncias contra a legalidade cometidas pelo presidente Luiz Inácio da Silva em nome da construção de um êxito eleitoral.

O candidato ontem ainda saiu em socorro do companheiro, deixando o narcotráfico para lá, mas "endossando" a história das Farc, mais velha que a Sé de Braga e absolutamente inócua em termos eleitorais.

E pensar que José Serra achou que a escolha de um candidato à Vice-Presidência fosse um assunto secundário. Bastaria, segundo seus critérios, encontrar alguém que não lhe trouxesse "aporrinhação".

Com se viu, não era tão trivial assim. Embora até pudesse ter sido se o próprio PSDB e adjacências não tivessem alimentado a expectativa de que daí sairia a grande, revolucionária e definitiva solução.

Mas, como diria o Barão de Itararé: "De onde menos se espera é que não sai nada mesmo."

Goldman explica. O governador de São Paulo, Alberto Goldman, acha um "exagero" comparar suas menções ao candidato e antecessor José Serra aos atos do presidente Lula e escreve para "esclarecer".

"Minhas citações são referências ao fato de que aquilo que estou inaugurando é um programa que começou no período em que era governador. O que entrego agora começou com ele. São fatos concretos. Não peço votos nem faço elogios, ainda que eles estejam implícitos."

Guardadas todas as proporções entre as citações do governador e as variadas extrapolações do presidente, Dilma Rousseff usa o mesmo tipo de argumento quando diz que Lula apenas faz "constatação da realidade" ao atribuir a ela esse ou aquele projeto de governo.

Delegadas do caso Bruno são afastadas
Delegadas do caso Bruno são afastadas

Providência foi tomada um dia depois do vazamento de vídeo com conversa informal entre o goleiro e policiais

Polícia de Minas diz que medida visa "restringir o acesso a informações'; para defensor de Bruno, vídeo não tem validade

da FSP

A direção da Polícia Civil de Minas Gerais afastou ontem as delegadas Alessandra Wilke e Ana Maria dos Santos das investigações sobre o desaparecimento de Eliza Samudio, ex-amante do goleiro Bruno Fernandes.
A decisão foi tomada um dia após a divulgação de imagens, pela TV Globo, de uma conversa informal do goleiro com policiais no voo que o levou detido do Rio para Minas, há duas semanas.
Na gravação, Bruno diz ser inocente e não poder mais confiar no amigo Luiz Henrique Romão, o Macarrão.
Foi aberto procedimento administrativo para apurar o vazamento. Com a saída de Alessandra, o comando do inquérito passou para Edson Moreira, delegado titular da Delegacia de Homicídios.
Questionado se o afastamento tinha relação com o vídeo, o chefe da Polícia Civil, Marco Antônio Monteiro, disse que a medida visa "restringir o acesso a informações para resguardar o trabalho" e agilizar o final do inquérito.
A Folha não conseguiu localizar as delegadas ontem para comentar o assunto.
O advogado de Bruno e de outros envolvidos, Ércio Quaresma, afirmou que o vídeo não tem validade legal.
"Vou evidenciar no curso desse teatro dos horrores o que está sendo feito nessa investigação para que o Poder Judiciário de Minas e o Ministério Público saibam como se preside inquérito em Minas."
A seção local da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) informou que vai investigar como foi feita a gravação.
Ontem, Bruno e Macarrão foram levados ao Departamento de Investigações em Belo Horizonte para novos depoimentos. A polícia afirmou que ele seria questionado sobre o vídeo. Segundo Quaresma, o jogador se recusou novamente a responder a perguntas dos policiais.
Frederico Franco, outro advogado do goleiro, disse que ele falou apenas sobre as circunstâncias da gravação.
Ainda ontem, Quaresma acusou um delegado de agredir Macarrão no interrogatório. Segundo ele, o delegado Julio Wilke deu um tapa no peito do suspeito, que caiu.
A discussão, diz o advogado, ocorreu quando o policial tentava convencer o preso a trocar de advogado. O delegado classificou a denúncia de "calúnia" e disse que nem estava no interrogatório.
O promotor Gustavo Fantini informou que a mulher do goleiro, Dayanne Souza, disse em depoimento que viu Eliza Samudio no sítio do atleta no dia 10 de junho (leia abaixo). Isso contraria a versão da polícia de que a ex-amante foi morta no dia 9. (JEAN-PHILIP STRUCK)


*Com colaboração para a Folha, de Belo Horizonte




Mulher do goleiro diz que viu Eliza no sítio

da FSP

Dayanne Souza, mulher de Bruno, disse em depoimento que viu Eliza no sítio do goleiro nos dias 7 e 10 de junho, segundo o promotor Gustavo Fantini.
Isso contraria a versão de que a morte ocorreu em 9 de junho. Dayanne falou após trocar de advogado -ela não se manifestou enquanto foi representada por Ércio Quaresma.
Hoje, deve depor Fernanda de Castro, 32, ex-namorada do goleiro, que para a polícia ajudou a cuidar do bebê nos dias 4 e 5 de junho, no Rio.
Taiara Júlia, mulher do homem que estava no carro de Bruno onde foi achado sangue, disse à polícia que Wemerson de Souza (o Coxinha) lhe deu R$ 50 para cuidar do bebê.

'Bin Laden está no Paquistão'
Hillary Clinton acredita que 'Bin Laden está no Paquistão'

Tese é reforça da pela CIA, que diz que líder da Al-Qaeda se encontra perto da fronteira com o Afeganistão

ISLAMABAD - A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, acredita que o chefe da rede Al-Qaeda, Osama Bin Laden, "está no Paquistão", declarou nesta segunda-feira, 19, em Islamabad, de acordo com informações da agência de notícias AFP.

"Acho que (Bin Laden) está aqui no Paquistão, e que seria muito útil se pudéssemos capturar" os líderes da Al-Qaeda, disse em uma entrevista televisionada, quase nove anos depois dos atentados de 11 de setembro em Nova York e Washington.

No final de junho, o diretor da Agência de Inteligência Americana (CIA), Leon Panetta, declarou que Bon Laden estava "muito bem escondido" e protegido em uma das zonas tribais do Paquistão, junto à fronteira afegã.

Panetta acrescentou que a região na qual se encontra Bin Laden foi localizada desde começos dos anos 2000, mas que "desde então foi muito difícil obter informações mais precisas."


O lúgubre circo de Chávez

O lúgubre circo de Chávez

do Estadão

Está na cartilha dos autocratas populistas: se escasseia o pão, amplie-se o circo. Com a economia do seu país em frangalhos e o espectro de uma acirrada eleição legislativa em setembro, o protoditador venezuelano Hugo Chávez faz o que pode ? e o que não poderia fazer se tivesse um mínimo de bom senso e autocrítica ? para desviar as atenções de seus desafortunados concidadãos da crise que o seu "socialismo do século 21" fez desabar sobre a economia, com reflexos devastadores para o nível de emprego e a inflação.

O circo chavista segue o formato clássico. O repertório inclui a fabricação ou exacerbação de ameaças internas e externas e a exploração do culto aos símbolos nacionais de que o caudilho se reveste para aparecer como o detentor exclusivo desse legado ? e, por isso mesmo, alvo dos inimigos da nação. Nos últimos dias, ele levou ao lúgubre picadeiro um programa completo.

O mais novo perigo para os venezuelanos é o cardeal Jorge Savino, que teve a temeridade de afirmar que o coronel está atropelando a Constituição e levando o país ao socialismo marxista. O prelado denunciava a prisão do opositor Alejandro Esclusa, acusado de armazenar explosivos para atos terroristas. O advogado de Esclusa assegura que o material foi plantado pelos policiais que invadiram a casa de seu cliente ? considerando o retrospecto, uma acusação mais do que plausível.

No seu programa Alô, Presidente, Chávez investiu contra o denunciante com a costumeira ferocidade. "Vou te dedicar toda a minha vida, cardeal", rugiu. "Não vais conseguir derrubar Chávez, cardeal. Porque eu sei quem és e a estatura moral pequena que tens." No embalo, voltou-se contra a Igreja, anunciando a revisão de um acordo de 1964 que, segundo o caudilho, dá "certos privilégios" ao Vaticano.

Em suma, passou a incluir a Santa Sé no extenso rol de aliados do "Império" que desejariam vê-lo morto ou apeado do poder por temerem "o sucesso da revolução". No país, os principais inimigos são os meios de comunicação, que o regime ainda não conseguiu aplastar, e o empresariado ? primeiro, os das multinacionais; agora, os donos de estabelecimentos locais, sem distinção de porte e capacidade de influência. No exterior, descontados os EUA, assoma a Colômbia.

Desde 2007 as relações entre os dois países vieram se deteriorando. Chegaram à beira da ruptura no ano seguinte, quando Bogotá autorizou um ataque a um acampamento das Farc no lado equatoriano da fronteira. Anteontem, no que foi interpretado como sintoma de divergências sobre a questão venezuelana entre o presidente Álvaro Uribe e o sucessor Juan Manuel Santos, que tomará posse em 7 de agosto, Uribe tornou a acusar Chávez de abrigar dirigentes farquistas em território venezuelano.

Ao que se diz, Santos preferiria deixar esse problema em fogo brando para não atrapalhar a reaproximação com Caracas, que interessa a Bogotá por motivos econômicos. De todo modo, Chávez explorou o caso ao máximo: convocou o seu embaixador na Colômbia, disse que não irá à posse de Santos e, bem ao seu modo, chamou Uribe de "mafioso". O toque verdadeiramente circense da ofensiva chavista ? no gênero grand-guignol ? foi exibido na última sexta-feira em rede nacional.

Depois de pedir aos pais que retirassem as crianças da sala para poupá-las das imagens fortes que se seguiriam ? um truque velho como serrar o corpo de um figurante ?, o caudilho apresentou o que seriam os restos mortais de Simón Bolívar, exumados na véspera do Panteão Nacional por ordem dele, alegadamente para provar que ele não morreu de tuberculose, mas sim, assassinado.

"Chávez sabe que bolsos vazios têm um potencial de mobilização maior do que os discursos da oposição", observa o economista José Rafael Zanoni, da Universidade Central da Venezuela, ao comentar as manobras do autocrata para neutralizar o efeito eleitoral das agruras enfrentadas pelos venezuelanos. "As fichas econômicas de Chávez estão acabando", ressalta o consultor Maikel Bello. "Ele aposta na repressão política e no aumento do controle institucional."

Rapidinhas


FERNANDO DE BARROS E SILVA da FSP

Monstros políticos

SÃO PAULO - Há uma certa histeria em curso. Ela tem origem no temor de que, sem Lula, o chamado radicalismo petista ganhe corpo e se aproprie do "Brasil brasileiro".
A manifestação mais candente dessa fantasia conservadora estava na capa da revista "Veja" da semana passada. A representação da ameaça na figura daqueles monstrinhos tarados era de doer.
Juntou-se o que há de mais infantilizante e infantilizado na cultura de massas de hoje com uma espécie de apelação de segunda mão do imaginário caduco da Guerra Fria -um tipo de macarthismo tropical e tardio à moda spielberguiana.
Lula seria, segundo essa versão predominante do alarmismo, um agente moderador, uma garantia contra os radicais do PT. Mas há também uma versão segundo a qual Lula é, ele próprio, uma ameaça à democracia no país. E, embora contraditórias, as duas se misturam no mesmo caldo de cultura.
Segundo o presidente da SIP (Sociedade Interamericana de Imprensa), Alejandro Aguirre, o governo de Lula "não poderia ser chamado de democrático" e o próprio presidente seria um "falso democrata".
Não há nenhuma dúvida de que muitas coisas no governo e nas atitudes de Lula são merecedoras de críticas. Mas confundi-lo com Hugo Chávez e pretender, como faz Aguirre, que Lula esteja entre os líderes "que se beneficiaram das instituições democráticas" e da "fé e do poder que o povo neles depositou para destruir as instituições democráticas" -isso parece absurdo.
Será que os conservadores não conseguem de fato diferenciar o projeto autocrático de Chávez da popularidade de Lula? E faz sentido repisar que a democracia por aqui está sob ameaça? Não houve entre nós, pelo contrário, um ganho democrático com a redução das desigualdades sociais, embora ela ainda seja tão grande?
Isso é obra de Lula, mas também do Real de FHC. Isso, porém, os monstrinhos do petismo e do antipetismo são incapazes de admitir.




Marina reclama de "baixarias" e critica preparo de Indio

Candidata cobra "maturidade" e ironiza vice de Serra; "Talvez ele ainda não esteja preparado para ser cacique'

"Não acho que seja bom para a democracia esse tipo de acusação e de desqualificação", diz a presidenciável do PV

DE TERESINA
DE SÃO PAULO /FSP

A candidata do PV à Presidência da República, Marina Silva, criticou ontem a utilização de "baixarias" na campanha e colocou em dúvida o preparo de Indio da Costa (DEM-RJ), candidato a vice-presidente na chapa de José Serra (PSDB).
"Não acho que seja bom para a democracia esse tipo de acusação e desqualificação. Talvez o deputado Indio ainda não esteja suficientemente preparado para ser cacique do Brasil", provocou, em visita ao 13º Festival do Japão, em São Paulo.
"Aprendi com os índios da Amazônia que é importante estar bem preparado politicamente, tecnicamente e emocionalmente para pretender o lugar de cacique. É preciso muita maturidade", acrescentou Marina.
Mais cedo, em visita a Teresina, a candidata do PV sugeriu que os adversários Serra e Dilma Rousseff (PT) querem transformar a eleição presidencial num "plebiscito da baixaria".
"É a guerra dos dossiês e agora esse tipo de declaração. No meu entendimento, creio que agora o plebiscito é para saber quem vai fazer mais baixarias."
No sábado, a candidata inaugurou uma "Casa de Marina" na capital piauiense.
Discursando para aproximadamente 300 pessoas, ela leu salmos bíblicos e comparou novamente sua história à do presidente Luiz Inácio Lula da Silva: "Serei uma Silva de saia".

CASAMENTO GAY
Após comício para 500 pessoas, ela se pronunciou contra o casamento entre homossexuais, aprovado na Argentina na semana passada.
Cercada por evangélicos, Marina foi abordada por Maria Magela dos Santos, 27, que queria saber sua opinião.
"A gente não pode fazer o discurso do ódio contra essas pessoas. Eu não apoio [o casamento gay], mas a minha relação é de respeito e de não promover a discriminação."



Comando do PT estuda retaliação contra vice-procuradora eleitoral

Marcelo de Moraes
do Estadão

O PT estuda possibilidade de entrar com representação no Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) contra a vice-procuradora-geral eleitoral, Sandra Cureau. Para o partido, ela age com excessivo rigor ao pedir investigações contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sob acusação de abuso de poder político em favor da candidatura de Dilma Rousseff.


O presidente nacional do PT, José Eduardo Dutra, confirmou ao Estado que encomendou um estudo aos advogados da legenda para saber se vale a pena apresentar ou não a representação contra a procuradora, pedindo algum tipo de sanção contra ela.

Independentemente dessa ação, Dutra diz que, na sua avaliação, Sandra Cureau está "extrapolando as suas funções". O dirigente petista afirma que, para fazer essa crítica, baseia-se "no conjunto da obra" da procuradora ? que estaria dando um tratamento mais rigoroso aos aliados da campanha petista do que à campanha da oposição.

"Não tenho dúvidas de que ela está exagerando e extrapolando", diz Dutra. Ele confirmou, em sua página no Twitter, que o partido está recolhendo material para uma eventual ação.

Pressão. Na prática, apresentando ou não a representação, o movimento do PT tem um claro objetivo estratégico: fazer pressão política sobre Sandra Cureau. Especialmente depois de ela ter dito que poderia investigar as declarações feitas por Lula a favor de Dilma ? nas quais ele atribuiu à ex-ministra-chefe da Casa Civil o sucesso do projeto do trem-bala ? para verificar se houve violação da legislação eleitoral da parte do presidente.

Além de ter associado a presidenciável petista àquele projeto, Lula repetiu o procedimento no dia seguinte à sua primeira fala. Dessa vez, alegando que queria pedir desculpas por ter feito algo em desacordo com as normas eleitorais.

"Duas caras". Logo depois da manifestação da promotora alertando sobre a possibilidade da abertura de investigação, Lula e Dilma decidiram aumentar o tom, passando a criticá-la publicamente, embora sem ne nhuma menção direta ao seu nome.

"Na verdade, o que eles querem é me inibir, para fingir que eu não conheço a Dilma. É como se eu pudesse passar perto dela, ter uma procuradora qualquer aí, e eu vou passar de costas viradas e fingir que não a conheço. Mas eu não sou homem de duas caras. Passo perto dela e digo para vocês: é a minha companheira Dilma, que foi chefe da Casa Civil e está preparada para a Presidência da República deste País", disse Lula em referência à procuradora, durante comício na sexta-feira, no Rio de Janeiro.

O passo seguinte ocorreu sábado, em Jales, no interior de São Paulo. Dessa vez foi Dilma quem reclamou, depois de ser perguntada sobre o assunto. "Acho que não se pode na vida ter dois pesos e duas medidas", afirmou. E mesmo dizendo que "não entraria em polêmica" com a procuradora, a candidata aproveitou para capitalizar também, para seu nome, o projeto do trem-bala.

"Tenho certeza de que vocês hão de convir comigo que, no caso do trem de alta velocidade, fui a responsável pela construção do projeto. Então, não é um elogio e sim a constatação da verdade", alegou.



FERNANDO RODRIGUES da FSP

Ficção

BRASÍLIA - PSDB e PT estão no poder há quase 16 anos: Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) e Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010). O tucano e o petista fizeram poucos esforços para modernizar a política. Só houve alterações pontuais, muitas vezes para pior.
Na semana passada, o presidenciável José Serra (PSDB) falou sobre o tema: "Apesar das resistências, vou peitar a reforma política".
Dilma Rousseff (PT) também já se declarou a favor dessa reforma. Diz defender uma constituinte exclusiva -um Congresso com poderes especiais para alterar as regras com quorum facilitado.
Não está claro como Serra vai "peitar" esse obstáculo nem como Dilma fará uma constituinte limitada à reforma política. Nenhum deles forneceu detalhes em seus planos de governo entregues neste mês à Justiça Eleitoral.
Quando se observa a vida real, há razão de sobra para desconfiar da real intenção de ambos. No caso de Serra, ele critica a presença de candidatos nanicos em debates presidenciais. Descreveu-os, sem muita gentileza, como "gente que não tem representatividade".
Serra está certo, mas sua declaração é curiosa. A aliança eleitoral do tucano abriga PMN e PT do B. Juntos, esses partidos tiveram 1,3% dos votos para deputado federal em 2006. Dilma tem o apoio de PTN, PSC e PTC -inexpressivos 2,9% do votos de quatro anos atrás.
Em público, a petista e o tucano falam genericamente em reformar a política. Na prática, aliam-se a uma parte considerável daquilo que dizem abominar. Esses partidos nanicos vivem como parasitas dos maiores. Sobrevivem à sombra de uma lei criada ainda no final da ditadura militar.
Nada contra a existência de siglas políticas pequenas. Uma democracia robusta deve abrigar todo o espectro político. O problema é a ficção no discurso de quem promete uma coisa e faz outra.




Serra lamenta morte prematura de Barradas


No velório, Serra lamenta morte prematura de Barradas
Geraldo Alckmin também foi homenagear corpo do secretário de Saúde do Estado de São Paulo


Chiara Quintão
do Estadão

SÃO PAULO - O ex-governador e candidato do PSDB à Presidência da República, José Serra, foi no final da tarde deste domingo, 18, ao velório do corpo do secretário de Saúde do Estado de São Paulo, Luiz Roberto Barradas Barata, na Santa Casa de São Paulo. "Foi-se um amigo pessoal meu, um amigo querido e um grande servidor público, um homem que fez muito pela saúde em São Paulo e no Brasil", afirmou.

Serra ressaltou que como secretário em seu governo e de Geraldo Alckmin, Barradas foi responsável por grandes avanços na saúde, como a implantação de organizações sociais nos hospitais, a criação de ambulatórios médicos com especialidades que conseguem abreviar o tempo das consultas. Para Serra, essa proposta "certamente vai se espalhar pelo Brasil". "Seu papel foi fundamental", completou.

Serra relatou que quando assumiu o Ministério da Saúde, em 1998, pediu Barradas "emprestado" ao então governador de São Paulo, Mário Covas, por três meses para que o secretário o ajudasse a introduzi-lo nas questões do ministério. Segundo Serra, Barradas sempre recebia propostas para atuar na área privada. "O secretário era um homem modesto e um médico sanitarista por vocação, que é o médico menos remunerado da profissão." Barradas lhe disse, mais de uma vez, que a sua vocação era ajudar as pessoas e que tudo que fazia era para isso. "Ele vai fazer muita falta, não só para a família e os amigos, mas para o povo de São Paulo e do Brasil", disse Serra, para quem Barradas morreu prematuramente aos 57 anos de idade.

Segundo Serra, Barradas teve câncer de pele, mas havia se recuperado após cirurgia e quimioterapia. "Ele não tinha nenhum problema cardíaco, pelo menos que os médicos próximos soubessem. Só não fazia check-up médico há cinco anos. Ele que conseguia check-ups para tanta gente, inclusive me acompanhava toda vez que eu ia, não tinha feito para si mesmo."

De acordo com Serra, ao sentir-se mal ontem, Barradas pediu ao filho que o levasse ao Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, na zona sul de São Paulo, que o secretário ajudou a ampliar e modernizar, apesar de morar ao lado do Instituto do Coração (Incor). Ele desmaiou ao sair de casa e quando se restabeleceu disse ao filho para não se preocupar, pois estava se sentindo bem. Posteriormente, ainda de acordo com relato de Serra, Barradas teve uma parada cardíaca; no hospital os médicos fizeram massagem por uma hora e tiraram o coágulo que interrompia a circulação. "Mas o coração já tinha sofrido muito e não voltou a funcionar. Assim, em um dia, em poucas horas, em minutos, nós perdemos Barradas", lamentou Serra.

Alckmin

O candidato do PSDB ao governo de São Paulo, Geraldo Alckmin, disse que a morte de Luiz Roberto Barradas foi uma perda para São Paulo e para o Brasil. "Barradas foi um grande médico sanitarista, que dedicou toda a vida à saúde dos brasileiros, além de ser um dos idealizadores do Sistema Único de Saúde (SUS)." Alckmin e Serra estiveram juntos no velório do corpo do secretário de Saúde no final da tarde deste domingo.

"Foi um homem íntegro que dedicou a vida a melhorar a saúde no Brasil. Foi uma perda, nossos sentimentos, nossas orações", declarou Alckmin. O candidato disse que estava permanentemente em contato com Barradas. "Eu dava aula de saúde pública, então toda hora ligava para ele para tirar dúvidas. Ele tinha conhecimento profundo", relatou.

Para Alckmin, Barradas talvez tenha sido um dos brasileiros que na história mais tenha contribuído para ajudar a saúde. Questionado se convidaria Barradas para ser seu secretariado, Alckmin lembrou que ele já tinha sido e tinha todas as condições para ser ministro ou secretário. De acordo com Alckmin, Barradas estava ajudando no programa de governo da campanha do tucano ao governo do Estado.

"Era um talento, uma pessoa honestíssima, que tinha visão de hierarquia no sistema de saúde, era rápido nas decisões e formava uma boa equipe. É difícil haver pessoas com visão conjunta de saúde pública. Ser um bom gestor e inovar", disse. Segundo Alckmin, os 29 novos hospitais da rede pública do Estado de São Paulo têm parcerias com o terceiro setor devido ao trabalho de Barradas.

Luiz Roberto Barradas Barata morreu na noite de sábado em decorrência de um ataque cardíaco. Barradas estava à frente da Secretaria de Saúde desde 2003, quando Geraldo Alckmin assumiu o governo. O corpo do secretário está sendo velado hoje no salão nobre da Provedoria da Santa Casa de São Paulo, aberto ao público até as 22 horas, e será cremado amanhã no cemitério da Vila Alpina, na capital paulista, em cerimônia restrita aos familiares e amigos.


A saúde como sacerdócio

A saúde como sacerdócio

JOSÉ SERRA*

Foi-se um amigo querido e o Brasil perdeu um homem de grande valor, um médico sanitarista dedicado de corpo e alma às políticas públicas

Eu estava deitado com minha neta, que se ajeitava para dormir e conversava comigo e com o irmão, com quem divide o beliche. Havia acabado de chegar da Bahia, no sábado à noite, e fora vê-los. Foi nesse momento de mansidão que um assessor entrou na casa, disse que precisava falar-me e deu a notícia terrível: o Barradas tivera um ataque cardíaco e morrera. A calma que me dominava deu lugar a uma alucinante sensação de fragilidade e revolta, com o desaparecimento gratuito de alguém tão bom e tão próximo.
No final de março de 1998, quando aceitei o convite de Fernando Henrique Cardoso para assumir o Ministério da Saúde, fui tomado por uma ideia fixa: levar o Luiz Roberto Barradas comigo, para introduzir-me no mundo da saúde, instruir-me sobre o funcionamento do ministério, ajudar-me a escolher os colaboradores e dar os primeiros passos naquela área imensa, difícil e tão essencial para o nosso povo.
Ele era secretário-adjunto em São Paulo, não queria deixar o posto, mas aceitou afastar-se por uns três meses e trabalhar comigo em Brasília, viajando também pelo Brasil. Tempos depois, ficou comigo mais seis meses. De conhecidos, nos tornamos desde então amigos de infância, com um bônus interessante: um achando o outro engraçado no seu jeito de ser. E certa cumplicidade no estilo de trabalho.
A assessoria que me prestou foi impecável, condição mesmo para que, ao longo de quatro anos, déssemos passos largos no avanço da saúde no Brasil. Desde aquela época, costumo esclarecer que foi com o Barradas que aprendi, logo no início, a diferença entre vírus, verme, micróbio e bactéria...
Barradas era médico sanitarista, dedicado de corpo e alma às políticas públicas de saúde. Essa especialidade é, por sua natureza, cativa do setor governamental e, portanto, recebe salários relativamente modestos. Na verdade, a área dos sanitaristas exige muita vocação, um quase sacerdócio.
Não é pouca a contribuição que eles têm dado ao nosso país. Por exemplo, as campanhas de vacinação, numerosas, abrangentes e benfeitas, num país tão grande, heterogêneo e repleto de localidades pobres. Ou a criação do SUS, um sistema único da saúde inovador entre os países em desenvolvimento, que só precisa de governos bons para funcionar melhor.
A implantação e a consolidação do sistema de Organizações Sociais na gestão de unidades de saúde em São Paulo, iniciadas pelos governos Covas e Alckmin, que deram tão certo e hoje se reproduzem em outros Estados, deveram-se muito ao descortino e à capacidade de fazer acontecer do Barradas.
Ele teve também um papel decisivo no fortalecimento das entidades filantrópicas sérias e na aliança do governo com os hospitais universitários, ambos peças fundamentais do SUS. Para ele era clara a distinção que transformamos em norma no Ministério da Saúde: nem tudo o que é público é necessariamente governamental. Um hospital como o das Irmãs Marcelinas atende de graça e a qualquer pessoa: por isso é público, embora não pertença ao governo.
Muitos programas e ações de saúde tiveram a mão, a cabeça, a vontade e a dedicação do médico sanitarista Luiz Roberto Barradas.
De programas como o de distribuição gratuita de remédios -o Dose Certa- à primeira lei antifumo do Brasil. Da implantação do Instituto do Câncer Octavio Frias de Oliveira, desafio que fiz a ele quando foi meu secretário, ao Hospital Estadual de Ribeirão Preto, e outros nove hospitais estaduais somente nos últimos quatro anos. Da expansão da Furp -fábrica estadual de medicamentos- à produção da vacina antigripe, no Butantan. Da concepção e implantação dos Ambulatórios Médicos de Especialidades (AMEs) à ideia original das AMAs -Atendimento Médico Ambulatorial-, implementada quando fui prefeito de São Paulo.
As AMAs, que hoje recobrem a cidade de São Paulo, foram reproduzidas no Rio de Janeiro, como UPAs; os AMEs, no futuro próximo, virarão programa nacional, encurtando a demora em consultas e exames no âmbito do SUS.
Ficamos agora sem um grande servidor público -modesto, criativo, competente e sensato. Foi-se um amigo querido e o Brasil perdeu um homem de grande valor. Uma tragédia. Como ouvi dele mais de uma vez, sua motivação era "ajudar as pessoas".
Ausentou-se muito prematuramente, mas sua família e seus amigos podem orgulhar-se: ele cumpriu como ninguém seu generoso propósito de vida e continuará a ser um grande exemplo para os que compartilham sua vocação.


*JOSÉ SERRA, 68, foi ministro da Saúde (1998-2002), prefeito de São Paulo (2005-06) e governador de São Paulo (2007-10). É candidato à Presidência pelo PSDB



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