Evaldo Augusto Torres Alves /editor
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Política

Cada um por si


Cada um por si

DORA KRAMER
do Estadão

Reza a regra mor dos especialistas em propaganda eleitoral que quem está na frente nas pesquisas ou não deve ir a debates com os adversários ou pelos menos deve reduzir sua presença ao mínimo indispensável.


Sob essa ótica até faz sentido a decisão de um candidato à reeleição como o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho (43%, segundo Ibope do início de junho), que já mandou avisar que no primeiro turno não vai a nenhum.

Inclusive porque com a saída de Anthony Garotinho (21%) da disputa, a expectativa de Cabral é ganhar de primeira sem abrir espaço para Fernando Gabeira (12%) crescer na contenda.

A despeito do desrespeito que esse tipo de atitude denota com o espírito da coisa (democrática) e principalmente em relação ao eleitor, tratado como mera massa votante enquanto ao marqueteiro com seus trackings, suas "qualis e quantis" se confere total reverência, a prática da ausência do favorito está consagrada.

O que não é comum é alguém em situação não consolidada, em cenário de equilíbrio com o adversário, abrir mão espontaneamente de espaços de embate para marcar suas posições, tentar conquistar mais eleitores e, quem sabe, mostrar que os oponentes não lhe fazem sombra em matéria de atributos para ocupar o cargo pretendido.

A menos que esse alguém de um lado não se sinta suficientemente seguro para enfrentar tantas e repetidas refregas e de outro tenha segurança de que o desempenho de outrem lhe dará as garantias necessárias.

É o caso da candidata Dilma Rousseff, cujos estrategistas decidiram que só vai a quatro debates de televisão. Como não podem dizer a verdade, tergiversam fazendo candidata alegar "problemas de agenda" para não comparecer.

Difícil imaginar quais problemas de agenda seriam tão ou mais importantes que o comparecimento ao maior número possível de mesas de discussões razoavelmente espontâneas entre os candidatos. Que não possa ir a um ou outro é normal.

Mas que se restrinja ao que seria impossível recusar, apenas para não caracterizar a ausência como padrão, dá razão à oposição quando diz que o governo tem receio de que sua candidata não esteja à altura das exigências da exposição.

Leva o eleitor também a suspeitar que assim seja. E, para usar uma expressão que Marina Silva e Fernando Gabeira estão usando para reclamar dessas ausências, "empobrece" a cena, que fica limitada aos números de pesquisas, ao cotidiano de frases de efeito, gestos de impacto ou desaforos trocados entre candidatos, vices, presidente da República e respectivas assessorias.

Muito mais interessante que essa rotina de futricas de vizinhança mal-afamada - à qual se junta a partir de 17 de agosto o espetáculo amestrado conduzido por marqueteiros no horário eleitoral - seria um embate, digamos, semanal temático com regras mínimas para assegurar a civilidade, com os pretendentes a presidente discutindo livremente.

Um tema de cada vez, até esgotar o assunto. Hoje sobre segurança pública, semana que vem sobre visão de democracia, na seguinte tudo sobre saúde ou educação, na outra política externa poderia ser o tema e assim até o dia da eleição.

Cada um por si, sem urdiduras, falsidades ideológicas, apropriação de personalidades, cada qual por conta de seu conhecimento e de sua capacidade de argumentar e convencer o público. Com a realização de vários debates a avaliação seria mais justa para eleitor e candidato: quem não comparecer a algum ou não for bem poderia se recuperar adiante e alcançar boa média. Ou não.

Cansaria o eleitor tanta profundidade?

Pode até ser, mas quem disse que hoje o artificialismo, a ligeireza, a transgressão e o bate-boca nem sempre digno de sala de visitas entretêm o eleitorado?

Falso brilhante. O PMDB inventou para si o papel de "poder moderador" entre o PT e vários setores da sociedade, empresários inclusive. Que o partido queira se livrar da pecha de fisiológico de alguma maneira, entende-se. Mas que as pessoas acreditem e embarquem é realmente de boquiabrir.

O problema da agonia teórica


O problema da agonia teórica

João Ubaldo Ribeiro
do Estadão

Normalmente, a banca de Salvatore não está muito movimentada, na hora em que chego para pegar os jornais e, logo depois, o pão na padaria. São mais ou menos cinco e meia e o dia parece amanhecer de mau humor, um friozinho penetrante emperrando juntas e fazendo Salvatore imprecar em calabrês. Na calçada da padaria, um grupo de moças e rapazes, provavelmente saído de uma festa, toma o café da manhã em algazarra, sob os olhares invejosos dos coroas. Claro que também invejoso, percebo que um casal me acena, aceno de volta, sorrio para o grupo. Que beleza, só se tem 20 anos uma vez, penso, antecipando uma volta à casa imerso em filosofias de velho. Mas sacudo a cabeça para espantar bobagens e entro na banca, onde uma sacola já me espera, com os jornais de sempre.


Frio, hein? digo eu, esfregando os braços.

Só então percebo um senhor à minha frente, me encarando com ar sério, embora afável.

Está na época ? disse ele, antes de eu lhe dar o bom-dia que tencionara.

Como?

Eu disse "está na época". O senhor disse que está frio, eu estou dizendo que está na época, não podemos nos queixar. Quando é inverno, faz frio. Às vezes mais, às vezes menos, mas sempre faz.

Concordei com ele, eu falava só por falar. Mas ele não deu a conversa por encerrada. Ou muito se enganava ou eu era o escritor, não era, o que escreve em jornal? Muito prazer, muito prazer, mas não vá escrever nenhum artigo contra o inverno!

É que os jornais reclamam de tudo e, na minha opinião, isso não é correto ? acrescentou. ? O senhor vê esse caso da Receita Federal? A imprensa toda está reclamando.

Mas tem de reclamar mesmo, isso é uma coisa muito grave.

Não sei qual é a gravidade, é perfeitamente normal. Se dá para saber se o indivíduo tem rabo preso na Receita, por que não saber? Se interessa, se pode ajudar a ganhar eleição? É para essas coisas que o sujeito luta para chegar ao governo. Ia estar no governo pra que, pra ficar na mesma situação que quem não está? Onde é que isso entra na cabeça de alguém?

Mas aí há uma confusão, uma coisa é o Estado, outra coisa é o governo. O Estado é distinto dos homens que o conduzem, Estado é uma coisa, governo é outra. O Estado não é de quem ocupa o governo.

Na teoria. Na prática, o senhor sabe que é. Fica aí essa teoria muito bonita e cheia de termos complicados, mas a nossa realidade não é essa. Na minha opinião, muitos dos problemas que vivem preocupando as pessoas não existem, é tudo criação dessas teorias que a imprensa e os intelectuais adotam.

Mas que o Estado é diferente do governo não é uma teoria, está na Constituição.

Então? Teoria. A Constituição também é muito teórica, é por isso que em grande parte não é respeitada.

Eu não concordo, mas, em todo caso, a Constituição prevê que os ocupantes do poder sejam renovados.

Isso é outra coisa, isso é da democracia, de que ninguém pode reclamar de sã consciência, porque todos acabam tendo sua oportunidade e quem não se faz na política democrática é porque não quer ou então é burro e não tem competência. A não ser casos extremos, como os comunistas, que só querem pra eles e mais pra ninguém.

Eu não estou entendendo, o senhor acha que a pessoa deve entrar na política para roubar?

Para roubar eu considero uma expressão muito forte. Não vou dizer roubar, mas se fazer. Se fazer é perfeitamente normal. Anormal seria o sujeito entrar para uma carreira sem querer se fazer, um cara desses ou é santo ou tem que ser internado. Quando o sujeito resolve entrar, ele sabe e todo mundo sabe que é pra se fazer. Tanto assim que todos se fazem. E todo mundo já sabe que é para isso, está todo mundo acostumado, não há nada de mal, qualquer um pode chegar lá. Não é somente se elegendo, não, é conseguindo uma boa colocação, aproveitando bem o voto, sabendo mexer os pauzinhos, tem pra todo mundo e quem se queixa é porque não soube pegar o seu.

Eu não posso concordar com o senhor. Nem todo mundo que entra em política entra para se fazer.

Me aponte um. O senhor é capaz até de citar uma porção, mas isso é o que eles têm no papel, não de verdade. Até mais gordos todos ficam, é natural.

Eu acho que essa visão que o senhor tem é muito negativa, não se pode pensar desse jeito.

Claro que se pode, é só deixar dessa agonia teórica. Tudo bem que exista a teoria, eu compreendo, faz parte, o intelectual e o jornalista têm que procurar em que se ocupar. Eu só não compreendo é essa agonia teórica interferindo na normalidade das coisas. Agora mesmo eu li aí um crítico dizendo que nós não faturamos a Copa de 2010, mas vamos superfaturar a de 2014. Pra mim, isso não é razão de crítica é a realidade da oportunidade de quem se preparou para prosperar. Está certíssimo, só está errado na teoria. Eu acho que vocês da imprensa deviam se mirar no presidente, que não tem nenhuma dessas agonias teóricas. E quem é que está por cima da carne-seca, ele ou vocês?


É, jornais também morrem


FERREIRA GULLAR
da FSP

É, jornais também morrem

No curso das últimas décadas, muitos jornais do Rio que fizeram história pararam de circular

A PRIMEIRA VEZ que entrei numa redação de jornal foi em São Luís do Maranhão. O jornal era "O Combate", cujo redator-chefe chamava-se Erasmo Dias, famoso por seus editoriais implacáveis. Fui até lá levado pelo poeta Manoel Sobrinho, o primeiro que conheci na vida, quando estava certo de que todos os poetas já haviam morrido, tal como os que lia na "Gramática Expositiva", de Eduardo Carlos Pereira.
Erasmo estava sentado numa sala pequena e escura, que mais parecia um buraco, e comia o almoço, ali mesmo, numa marmita, sobre sua mesa de trabalho. Manoel Sobrinho me apresentou a ele e pediu-me que lhe entregasse o soneto que trazia no bolso e que assinalaria minha estreia na literatura universal. De boca cheia, Erasmo garantiu que o publicaria no dia seguinte -e o publicou. Intitulava-se "O Trabalho", se não me engano. Saí um tanto desapontado com o ambiente daquela redação e com o jornalista.
As redações que conheci depois causaram-me melhor impressão, mesmo as outras de São Luís. Alguns anos depois, já no Rio, passaria de visitante a empregado. Deixo de lado as redações de "O Cruzeiro" e "Manchete", que eram revistas semanais, para referir-me às do "Diário Carioca", do "Jornal do Brasil", do "Diário de Notícias", porque as redações de jornal eram diferentes das das revistas. Sabem por quê? É que estas funcionavam (e ainda funcionam) de dia, enquanto as dos jornais funcionavam à noite.
Pelo menos nos que trabalhei, jornais matutinos que chegavam às bancas de manhã cedo, enquanto os vespertinos eram distribuídos depois do almoço. Mais tarde, viraram todos matutinos, como era inevitável que ocorresse, já que poucas notícias novas traziam em comparação com os concorrentes.
Mas, como disse, estes eram feitos basicamente à noite, às vezes entrando pela madrugada. O trabalho para valer iniciava-se por volta das seis da tarde, quando acabava o expediente das repartições públicas e as pessoas se recolhiam às suas casas. A cidade parava e o que acontecia, a partir daí, eram fatos ocasionais, como um crime ou um furo político.
Assim que o ambiente dessas redações era excitante e, em alguns casos, divertido, como o da redação do "Diário Carioca", de que já falei em outra ocasião. O espírito brincalhão, que ali imperava, era provavelmente reflexo do bom humor de seu redator -chefe, Pompeu de Souza, que induzia redatores e repórteres a explorar o lado pitoresco ou engraçado das notícias.
Desse espírito compartilhava Luiz Paulistano, o chefe de reportagem, que certa vez dedicou uma série de matérias a um gavião que devorava pombos nas torres da Igreja da Candelária, situada perto donde funcionava o jornal.
Esse espírito gozador e irreverente afinava comigo e, assim, quando fui para o "Jornal do Brasil", em 1958, ao iniciar-se a sua famosa reforma, levei-o comigo e logo tratei de pô-lo em prática, para desagrado do seu editor-chefe, que queria um jornal sério.
Mas outros companheiros, vindos daquela mesma redação brincalhona, terminaram por impô-lo no velho matutino que então renascia: "Moeda de Miss é beijo", "Descoberta a causa da falta de água no Rio: Macacos", "Detectado o vírus da icterícia: é redondo"...
Àquela altura, o "Diário Carioca" já fazia água, mal conseguia pagar os salários dos empregados. Levou 30 anos para fechar as portas, mas fechou-as. Jornais custam a morrer. O "Jornal do Brasil", em consequência da reforma que fez dele o mais moderno jornal brasileiro da época, conheceu longo período de prestígio, o que lhe aumentou a tiragem e os anunciantes.
No curso das últimas décadas, muitos jornais do Rio -alguns que fizeram história- pararam de circular. O "Jornal do Brasil" entrou em crise já faz tempo, tendo se mantido graças a acordos com políticos e empresários, que dele se valeram para incrementar seus próprios projetos. Ou porque pretendiam apenas se servir dele mais do que salvá-lo, ou porque, quando um jornal começa a morrer, não há quem o salve, a verdade é que sua morte foi recentemente anunciada.
Melhor assim do que vê-lo circulando, como vinha, destituído de todas as qualidades que fizeram dele um grande jornal.

Brasil quer pacto militar entre vizinhos


Brasil quer pacto militar entre vizinhos

Em meio à nova crise entre Caracas e Bogotá, país pede acordo de cooperação para monitoramento da fronteira

Marco Aurélio Garcia afirma crer que esforço conjunto apaziguaria de vez "área de altíssima explosividade"

ANA FLOR
da FSP

O Brasil irá reativar a proposta de cooperação entre as Forças Armadas da Venezuela e da Colômbia para monitorar a fronteira dos dois países, como forma de solucionar, "em definitivo", o impasse entre Caracas e Bogotá.
Na quinta-feira, presidente da Venezuela, Hugo Chávez, rompeu relações diplomáticas com a Colômbia após esta apresentar à Organização de Estados Americanos (OEA) denúncias de presença de guerrilheiros colombianos no país vizinho.
Em entrevista à Folha, o assessor especial para Assuntos Internacionais da Presidência, Marco Aurélio Garcia, afirmou que uma colaboração efetiva entre os dois países, nos moldes do que ocorreu entre a Colômbia e Equador para o monitoramento conjunto da fronteira, deve voltar à mesa de discussão sob a chancela do Brasil.
"A partir daí, a conflitividade estaria eliminada, e poderia se pensar em um pacto de não agressão", afirmou.
O assessor deve viajar para os dois países no início de agosto em companhia do secretário-geral da Unasul (União das Nações Sul-Americanas) e ex-presidente da Argentina, Néstor Kirchner, antes da visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva -que vai à Venezuela no dia 6 e, dali, segue para a posse do novo presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos.
"O sentimento geral na região é que há um enorme corpo de bombeiros formado", diz. "São dois grandes países, que têm uma posição histórica de pequenos conflitos e muita afinidade. Queremos reforçar essa afinidade."
Segundo ele, a proposta de colaboração entre as Forças Armadas não teve muita aceitação no ano passado, mas agora há "outro ambiente". A posse de Santos pode ser positiva. "Às vezes alguém que parece [ser] muito numa determinada direção é capaz de fazer reformas que outros não fizeram", diz, em referência a Álvaro Uribe.
Na proposta de monitoramento -classificada por Garcia de "uma área de altíssima explosividade"-, o controle seria feito com mecanismos como aviões não tripulados, além de efetivos militares conjuntos. "É possível neutralizar aquela zona e transformá-la num fator de paz."
Garcia baseia seu otimismo no que considera uma "mediação exitosa" do Brasil em dois outros episódios turbulentos na região. Um foi o sequestro patrocinado por Bogotá de um alto membro das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), em Caracas.
Outro, mais recente, foi a reaproximação entre Colômbia e Equador após os dois países romperem relações diplomáticas por uma operação de Bogotá contra as Farc em território equatoriano.

Brasil-Irã: como fazer amigos e dar-se mal
Brasil-Irã: como fazer amigos e dar-se mal

ROBERTO ABDENUR
na FSP

O governo brasileiro cometeu grave erro diplomático ao buscar excessiva aproximação com o Irã, sem ter em mente a complexidade da questão


Em artigo publicado nesta Folha em 21 de julho último, o embaixador do Irã em Brasília comentou os entendimentos entre seu país, Turquia e Brasil a propósito do programa nuclear iraniano ("Brasil respeitado pelas nações").
A iniciativa por ele mencionada suscita algumas considerações em termos das implicações, para os interesses do Brasil, de nosso envolvimento na questão.
Abordo o tema com alguma vivência direta do assunto: como embaixador perante a AIEA, em Viena, e presidente naquela subsede das Nações Unidas, ao longo de 2003, do chamado "Grupo dos 77 e China" (que defende os interesses dos países em desenvolvimento no plano econômico), tocou-me atuar na questão quando, pela primeira vez, tornou-se público que o Irã, durante 18 anos seguidos, vinha conduzindo atividades nucleares de forma clandestina, sem delas dar conhecimento à AIEA, como exigem as obrigações assumidas perante aquela agência pelos países que aderem ao Tratado de Não Proliferação de armas nucleares.
De lá para cá -passados, portanto, outros sete anos- múltiplas idas e vindas entre Teerã e a AIEA não lograram dirimir as desconfianças sobre as verdadeiras intenções do programa iraniano. Até o final de 2009 o secretariado da AIEA afirmava não ter indícios de desígnios malévolos, mas esclarecia não haver obtido das autoridades iranianas esclarecimentos capazes de afastar as suspeitas de intenções ocultas.
Em fevereiro do ano em curso, novo relatório da AIEA elevou o tom: afirmou categoricamente, sim, haver fundadas razões para suspeitas de propósitos militares nas atividades nucleares iranianas.
O governo brasileiro cometeu grave erro diplomático ao buscar, de modo arrojado e irrefletido, excessiva aproximação com o Irã, sem ter em mente a extrema complexidade e delicadeza da questão.
As operações diplomáticas são em boa medida análogas a operações militares: não se adentra um cenário de conflito sem prévio exame de todas as condições do terreno e de seu entorno, sem cuidadosa avaliação dos riscos e custos e sem levar na devida conta os interesses e posicionamentos de outros atores envolvidos na trama.
Foram ignoradas circunstâncias que saltavam aos olhos. Em primeiro lugar, a avaliação da AIEA, que é organização séria e confiável, não sujeita a manipulação por qualquer potência. De outra parte, deixou-se de ver que a questão nuclear iraniana não é contencioso somente entre Teerã e Washington.
É problema que inquieta, e muito, a maior parte dos países árabes, os europeus em geral e até mesmo duas potências com imensos interesses concretos no Irã (ao contrário do Brasil, que não os tem): China, grande compradora de petróleo, investidora na prospecção de óleo e gás e exportadora de bens e serviços para o país; e Rússia, prestes a concluir a obra do primeiro reator nuclear para geração de energia elétrica no Irã -e que se responsabilizará totalmente pelo fornecimento do combustível a ser por ele usado.
Ao fim e ao cabo, viu-se o Brasil, no seio do Conselho de Segurança das Nações Unidas (onde iniciamos, para o biênio 2010-2011, novo mandato como membro temporário), na incômoda posição de discordar de ampla e significativa maioria, ao votar contra nova rodada de sanções, apoiadas até mesmo por Pequim e Moscou.
Esses passos em falso -a indevida, quase entusiástica identificação com o Irã, e o voto negativo- lesionam seriamente a imagem de equilíbrio, objetividade e imparcialidade que tradicionalmente fundamenta nosso pleito por lugar permanente no Conselho de Segurança, a instância decisória suprema em questões de ameaças à paz e à segurança internacionais.
Triste paradoxo: estar hoje nossa própria diplomacia a minar as credenciais do país na perseguição de um de seus mais importantes desideratos em política exterior...

*ROBERTO ABDENUR, diplomata de carreira aposentado, foi embaixador do Brasil no Equador (1985-1988), na China (1989-1993) e nos EUA (2004-2006), entre outros países, além de secretário-geral do Itamaraty (1993-1994). É membro do Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais).


Novo conflito com a Colômbia é parte de complô dos


Novo conflito com a Colômbia é parte de complô dos EUA, diz Chávez

Denúncia sobre presença de guerrilheiros na Venezuela seria parte de plano de Washington

CARACAS- O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, denunciou neste sábado, 24, que a nova crise com a Colômbia é parte de um suposto complô entre o país vizinho e os Estados Unidos, e acrescentou que o objetivo dos planos de Washington é derrubá-lo do poder.

Chávez disse que recebeu informações de uma fonte confidencial que está nos Estados Unidos, a qual afirma que o governo americano arma uma conspiração, da qual "um alvo é 'Mauricio' e o outro, a queda do governo".

O líder venezuelano explicou que Mauricio é um nome que ele mesmo usou "para este tipo de comunicações", e disse que as denúncias de Bogotá sobre a presença de guerrilheiros na Venezuela poderiam ser provas de que o suposto plano de Washington já está em andamento.

"A operação militar começou, vejo que estão acelerando os tempos", teria dito fonte americana, citada por Chávez. O presidente leu fragmentos de uma suposta carta escrita pelo informante e não deu detalhes nem provas sobre o suposto complô. Ele só garantiu que o remetente tem credibilidade, porque o envia informações importantes desde 2002.

Parta da mensagem sugere que uma etapa da conspiração consistiria em influenciar nas eleições legislativas venezuelanas, que serão realizadas em 26 de setembro.

"A ideia continua sendo a geração de conflito pelo lado ocidental, de modo que os últimos acontecimentos (na OEA) confirmam quase tudo o que eles discutiram", continuou lendo Chávez, em referência aos EUA e a Colômbia.

Na quinta passada, o embaixador colombiano na OEA, Luis Hoyos, denunciou ao organismo a existência de ao menos 87 acampamentos guerrilheiros consolidados na Venezuela e cerca de 1,5 mil rebeldes das Farc e do ELN em território venezuelano. Logo após a denúncia, Chávez anunciou o rompimento das relações diplomáticas com a Colômbia.

Chávez afirmou, lendo a mensagem, que as recentes declarações de Hoyos são parte de um "plano integral dirigido" por Washington.

"Nada está acontecendo sem ter conexão, tudo está previamente estudado e de acordo com a estratégia traçada. A fase de preparação da comunidade internacional, com ajuda da Colômbia, está em plena execução", afirmou.

O controle da Assembleia Nacional, atualmente nas mãos do PSUV, de Chávez, devido a um boicote da oposição no último pleito, está em jogo nas próximas eleições. O líder venezuelano fez repetidos alertas sobre o perigo representado pela vitória da oposição a sua "revolução socialista".

Em seus 11 anos de mandato, Chávez recebeu da Assembleia Nacional três leis que o outorgaram faculdades para legislar diretamente.

Desde que o presidente assumiu o poder, em 1999, já denunciou em várias ocasiões a organização de atentados contra ele e seu governo, orquestrados pelo governo dos EUA, segundo ele. Na maioria de suas denúncias, nunca apresenta provas.


Venezuela fecha 2010 em grave recessão
Nova crise diplomática com Bogotá é tida por analistas como método para desviar atenção do caos econômico

Caracas terá inflação forte e contração do PIB, na contramão da maior parte das outras nações em desenvolvimento

Carlos Garcia Rawlins-23.jul.2010/Reuters

Homem exibe cédulas de bolívares na fronteira de Venezuela e Colômbia

ÉRICA FRAGA
da FSP

Ao embarcar em nova crise diplomática com a Colômbia, Hugo Chávez tenta desviar atenção da crise econômica vivida pelo país, que terminará 2010 com a maior inflação e uma das recessões mais severas do mundo.
A radiografia da catástrofe econômica vivida pela Venezuela se reflete em uma série de recordes estatísticos negativos que o país colecionará este ano, segundo projeções de bancos, consultorias e instituições multilaterais.
A Venezuela deverá terminar 2010 com inflação de cerca de 40%, algo entre 10 e 20 pontos percentuais maior do que a dos outros países com forte descontrole de preços (como Gana e Argentina).
Enquanto a maioria dos países emergentes crescerá fortemente em 2010, o PIB (Produto Interno Bruto) da Venezuela contrairá entre 3% e 6%, segundo projeções.
Ainda que os números menos catastróficos se materializem, a Venezuela figurará na lista dos 3 a 5 países com as recessões mais severas.
O país enfrentou outras recessões nas últimas décadas, inclusive depois de iniciada a era chavista em 1999. E Chávez sobreviveu a essas crises, surfando principalmente na onda dos altos preços do petróleo (principal motor da economia), de 2005 a 2008.
O problema, dizem analistas, é que a crise atual é mais profunda e estrutural. E que a paciência dos cidadãos parece estar se esgotando.
Neste contexto, o choque diplomático com a Colômbia seria manobra para desviar atenção: "Esse tipo de comportamento provavelmente será mantido enquanto Chávez estiver no poder", diz Richard Hamilton, chefe de análise latino-americana da consultoria Business Monitor International.
A grande questão é se a estratégia surtirá efeito em um cenário de insatisfação crescente capturado em pesquisa da Consultores 21. Dos 1.500 entrevistados, 57% creem que Chávez é culpado pelos problemas do país. Outros 43% dizem ter mais confiança na oposição, enquanto 35% disseram o contrário.
Nesse contexto não muito favorável, a primeira prova de fogo para o governo virá em setembro, quando ocorrerão eleições legislativas.
Kate Parker, analista sênior da Economist Intelligence Unit, diz que, mesmo que Chávez perca a maioria absoluta no Congresso, manterá os poderes do Executivo.
Hamilton também não vê sérias ameaças ao chavismo no curto prazo. Mas acha que a provável persistência de Chávez tende a enfraquecer mais o governo, até a eleição presidencial de 2012.
Essa tendência negativa, diz, pode ser revertida caso haja uma forte alta nos preços do petróleo. No entanto, não é essa a previsão.


Rapidinhas


Elite política tentou dar golpe no governo, diz Lula
No primeiro comício no Nordeste, presidente se compara a Jesus Cristo

Dilma afirma que desde 1989 os adversários usaram o discurso do "medo" para evitar que Lula fosse presidente

SIMONE IGLESIAS
da FSP

No primeiro ato de campanha oficial no Nordeste, em Garanhuns (PE) com a sua candidata Dilma Rousseff, o presidente Lula disse que a elite política tentou tirá-lo do poder depois do mensalão, em 2005.
Já a petista disse que, desde 1989, quando Lula disputou a primeira eleição, tentaram impedir que ele chegasse à Presidência usando o discurso do "medo".
"Nós somos aqueles que fazem, eles são os que podiam fazer mais e sempre fizeram menos (...) Desde 1989, nossos adversários sempre escolheram o medo. Disseram que tinham medo do Brasil que Lula queria construir", disse.
Dilma afirmou que tem orgulho de Lula ter lhe escolhido para ser sua sucessora.
Segundo o presidente, como a tentativa de golpe em 2005 foi frustrada, derrubaram Severino Cavalcanti da presidência da Câmara.
Severino chegou ao posto em 2005 ao derrotar o petista Luís Eduardo Greenhalgh. Renunciou após o surgimento de denúncias de ter recebido propina para manter aberto, irregularmente, um restaurante na Câmara.
"Nessa campanha a gente não quer só ganhar eleição, mas amadurecer politicamente", disse Lula, olhando para Severino na plateia. "Meu querido companheiro Severino, a elite da Câmara o elegeu presidente para você fazer o jogo sujo que ela queria, mas não tinha coragem de fazer, que era pedir meu impeachment em 2005."
"Meu corpo estaria mais arrebentado que o corpo de Jesus Cristo depois de tantas chibatadas", disse, se referindo a críticas que sofreu da oposição em seu governo.
Referindo-se a 2005, disse: "O que tentaram fazer comigo, fizeram com Getúlio [Vargas] e ele deu um tiro no peito. O que tentaram fazer comigo fizeram com Jango [João Goulart], que teve que sair do Brasil. O que não sabiam, é que Lula era milhões de Lulas espalhados pelo país", afirmou ele



Disputa no Paraná começa com empate entre Richa e Osmar Dias

da FSP

A disputa pelo governo do Paraná começa com empate técnico na liderança entre os candidatos Beto Richa (PSDB) e Osmar Dias (PDT). Segundo o Datafolha, o tucano tem 43% das intenções de voto, e o pedetista, 38%.
Como a margem de erro da pesquisa é de três pontos percentuais para mais ou para menos, não é possível afirmar que um dos concorrentes esteja isolado na frente.
O candidato do PV, Paulo Salamuni, aparece com 1%, e os demais não pontuaram. Não sabem quem escolher 14% dos eleitores, e outros 3% dizem que pretendem votar nulo ou em branco.
O levantamento mostra que o Paraná está dividido geograficamente entre os principais candidatos ao governo. Em Curitiba e na região metropolitana, Richa lidera a disputa por 65% a 22%. A situação se inverte no interior, onde Osmar venceria por 45% a 35%.

RENDA E ESCOLARIDADE
O tucano tem melhor desempenho entre os eleitores com maiores índices de renda e escolaridade. Nas famílias com rendimentos acima de dez salários mínimos, por exemplo, ele lidera por 61% a 32%. A disputa está equilibrada entre os mais pobres e os que estudaram menos.
Os dois principais concorrentes apresentam índices baixos de rejeição. Dos eleitores ouvidos pelo Datafolha, 15% dizem que não votariam de jeito nenhum em Osmar, e 12%, em Richa




Hélio Costa abre 26 pontos em Minas

Pesquisa mostra que indecisos são 23% do eleitorado; atual governador, Anastasia tem 18% das preferências

Com 44%, ex-ministro lidera exceto entre os de renda familiar acima de 10 mínimos; rejeição de tucano é 4 pontos maior

LUCIANA COELHO
da FSP
O ex-ministro Hélio Costa (PMDB) lidera a disputa pelo governo de Minas Gerais com 26 pontos de vantagem sobre o atual titular do cargo, Antonio Anastasia (PSDB), mostra a primeira pesquisa do Datafolha no Estado desde o lançamento das campanhas.
Segundo o instituto, mais eleitores em Minas se dizem indecisos -23%- do que optam pelo atual governador.
Ex-senador pelo Estado e ex-ministro das Comunicações, Costa tem 44%.
Anastasia, que assumiu o governo após a renúncia de Aécio Neves para disputar o Senado, em 31 de março, tem 18% das preferências.
Em um distante terceiro lugar, empatam com 2% os candidatos Professor Luis Carlos (PSOL) e Vanessa Portugal (PSTU), enquanto Edilson Nascimento (PTdoB), Fabinho (PCB), Pepê (PCO) e Zé Fernando Aparecido (PV) surgem com 1%.
Afirmam que anularão o voto 7% dos entrevistados.
Costa supera Anastasia em todos os segmentos da população examinados, exceto no dos eleitores de renda familiar acima de dez salários mínimos, quando o tucano tem 47% das preferências contra 31% do adversário.
A vantagem do peemedebista é menor entre aqueles com curso superior completo (38% contra 32% das preferências) e chega à sua maior amplitude entre os eleitores de 35 a 49 anos (49% a 14%).
Já a performance de Anastasia é ligeiramente melhor do que sua média entre quem tem até 34 anos.
Apoiado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Hélio Costa se sai melhor entre o eleitorado do PMDB (63%) e do PT (54%). Anastasia tem o apoio de 43% dos simpatizantes do PSDB e de 22% dos que se dizem peemedebistas.
Todos esses dados se referem a respostas estimuladas. Quando levadas em conta apenas as respostas espontâneas, no entanto, Costa é preferido por 10% dos entrevistados, e Anastasia, por 7%.
Aécio, que concorre ao Senado, ainda é citado por 4% dos eleitores nesse cenário -eram 9% em pesquisa realizada em dezembro do ano passado.

REJEIÇÃO
Os índices de rejeição em Minas são relativamente uniformes, na margem de erro.
O atual governador tem rejeição maior do que a do ex-ministro -14% contra 10%. O maior índice é do candidato do PCO, Pepê, citado por 19% dos ouvidos. O menor é do candidato do PT do B, Edilson Nascimento, 8%.
A pesquisa ouviu 1.269 eleitores em 52 municípios entre a última terça e ontem. A margem de erro é de três pontos percentuais para cima ou para baixo.




Cabral aparece 35 pontos à frente de Gabeira no RJ

BERNARDO MELLO FRANCO
da FSP

Se a eleição fosse hoje, o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), seria reeleito ainda no primeiro turno. Ele tem 53% das intenções de voto, contra 18% de Fernando Gabeira (PV), aponta o Datafolha.
A diferença de 35 pontos entre os principais candidatos ao Palácio Guanabara indica que a disputa no terceiro maior colégio eleitoral do país pode ser encerrada no dia 3 de outubro.
De acordo com o levantamento, os demais concorrentes somam apenas 8% das intenções de voto. Cyro Garcia (PSTU) e Eduardo Serra (PCB) têm 3% cada um. Mais atrás estão Fernando Peregrino (PR) e Jefferson Moura (PSOL), com 1% cada um.
Não sabem quem escolher 12%, e outros 9% pretendem votar nulo ou em branco.
Cabral lidera com mais folga no interior, onde bateria Gabeira por 56% a 14%. Na região metropolitana, eles aparecem com 52% e 20%, respectivamente.
O melhor desempenho do candidato do PV é na capital, onde ele chegou ao segundo turno da eleição para a prefeitura em 2008. Lá, Gabeira alcança 25%, e Cabral, 48%.
Os números mostram que o peemedebista foi beneficiado pela desistência do ex-governador Anthony Garotinho (PR), que concorrerá a deputado federal e ainda não conseguiu transferir suas intenções de voto para Peregrino.
A rejeição a Gabeira é o maior obstáculo à realização de segundo turno no Estado. Dos eleitores ouvidos, 31% disseram que não votam de forma alguma no verde. Cabral tem 18% de rejeição.
Além de contar com a máquina do Estado, o governador diz ter o apoio de 91 dos 92 prefeitos fluminenses -incluindo o da capital, Eduardo Paes (PMDB). Ele também está aliado ao presidente Lula e à presidenciável Dilma Rousseff (PT).




Alckmin venceria no 1º turno em SP

Tucano tem 49% das intenções de voto em pesquisa Datafolha; Mercadante está em segundo lugar, com 16%

Maior vantagem do ex-governador é entre os mais jovens; petista tem desempenho pior no eleitorado feminino

da FSP

Se as eleições para governador de São Paulo fossem hoje, Geraldo Alckmin (PSDB) venceria já no primeiro turno e seria reconduzido ao cargo que ocupou entre 2001 e 2006.
Segundo pesquisa Datafolha realizada entre os dias 20 e 23, o tucano tem 49% das intenções de voto. Seus adversários no Estado, somados, chegam a 33%.
Aloizio Mercadante (PT) aparece em segundo lugar na pesquisa, com 16% das intenções de voto.
Em terceiro está Celso Russomano (PP), com 11%, e em quarto aparece Paulo Skaf (PSB), com 2%. Depois vêm Fabio Feldmann (PV), Mancha (PSTU), Paulo Búfalo (PSOL) e Anaí Caproni (PCO), todos com 1% das intenções de voto. O candidato Igor Grabois (PCB) tem 0%.
Os que dizem querer votar em branco ou nulo somam 6%, e 13% afirmam ainda não saber em quem votar.
O Datafolha realizou 2.083 entrevistas em 58 municípios do Estado de São Paulo. A margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos.
De acordo com o levantamento, o candidato que tem a maior rejeição é Mancha: 21% dos eleitores dizem que "não votariam nele de jeito nenhum". Logo atrás aparece Mercadante, rejeitado por 20% do eleitorado paulista.
Líder na pesquisa, Alckmin aparece com rejeição de 14% dos eleitores do Estado.
Ex-governador de São Paulo, Alckmin leva maior vantagem no interior do Estado, onde tem 53% das intenções de voto, contra 14% de Mercadante. Na capital, o tucano aparece com 48%, e o petista, com 19%.
A maior vantagem de Alckmin é entre os mais jovens: 61% dos eleitores que têm entre 16 e 24 anos declaram intenção de votar no tucano, contra 8% que dizem querer votar em Mercadante.
Entre os que têm ensino superior, Alckmin tem 55% das intenções de voto, e Mercadante, 18%. O tucano também tem melhor desempenho entre os mais ricos (acima de dez salários mínimos): 58% contra 19% do petista.
Se Alckmin tem votação parecida entre homens e mulheres (50% e 49%, respectivamente), Mercadante vai melhor no eleitorado masculino (20%) do que no feminino (12%).
* (UIRÁ MACHADO)



As cigarras e as formigas


FERNANDA TORRES
da FSP

As cigarras e as formigas

Foi o tempo em que direita e esquerda se opunham de maneira definida

É COMUM O USO DE insetos para simular o comportamento de grandes massas populacionais. Em um curioso experimento, biólogos contabilizaram uma proporção de 50% de formigas trabalhadoras para outra metade de preguiçosas em um formigueiro. Pacientes, removeram uma a uma as que tinham alma de cigarra deixando apenas as meritórias operárias no terreiro.
Tempos depois, perceberam que algumas trabalhadoras diminuíram seu rendimento e, não durou muito, constataram surpresos que o formigueiro havia se dividido novamente, meio a meio, entre cigarras e formigas. Alguma regulação maior agiu sobre a personalidade dos indivíduos para que o equilíbrio do grupo voltasse a se estabelecer.
Já foi o tempo em que a direita e a esquerda, a situação e a oposição, as cigarras e as formigas se opunham de maneira definida. Fosse lá qual fosse sua crença, era fácil saber em quem votar e contra o que lutar.
Em outubro, com ou sem Marina, a corrida eleitoral será decidida entre dois candidatos de esquerda. A esquerda USP e a esquerda ABC.
Não existe nada parecido com a USP ou com o ABC por aqui onde eu moro para me explicar o porquê da síndrome de Caim e Abel que se abateu sobre esses dois partidos. Seria alguma forma de imposição biológica?
O PT é, hoje, o partido mais coeso do país. Para os seus, quem não é PT é cigarra e merece passar o resto dos dias no frio inverno da oposição. Às formigas, o formigueiro!
Se Dilma chegar na frente e Lula, irresistível do jeito que é, decidir se recandidatar junto com a Copa de 2014, o PT tem a chance de ocupar o Palácio da Alvorada por 20 anos consecutivos. Um detalhe que faz refletir. É salutar a alternância no poder, especialmente quando não há facínoras no páreo.
Durante a cerimônia de posse de Lula em 2003, tive a estranha impressão de que Fernando Henrique preferia passar a faixa para Luiz Inácio e não José Serra.
Talvez pela vontade de provar que, além da estabilidade econômica, havia feito o Brasil cumprir seu destino democrático. Apesar da rivalidade agravada, creio que Lula não se envergonharia de ceder seu lugar para um homem com o histórico político de Serra.
O PT não virou as costas para as conquistas do governo tucano e duvido que qualquer candidato eleito abandone as lições da passagem de Lula pelo Planalto. Um partido completa o outro e ambos enfrentaram incoerências imperdoáveis durante seu reinado.
Não acredito em tragédias anunciadas. Enquanto permanecermos laicos, democratas e longe da bancarrota será possível alimentar planos para o futuro. Nasci em 1965, um ano depois da ditadura, cresci durante a decapitação de zeros inflacionários e enfrentei oito anos de populismo messiânico no governo do Rio. Qualquer opção já me parece milagre.
O que o teste com formigas não acusou, foi a brilhante saída do DEM e do PMDB. Esses não conseguiram, ou acharam menos vantajoso, disputar a Presidência e se garantiram na posição de vice. Em apenas duas semanas, Indio da Costa se provou um falastrão perigoso e Temer merece o crédito da discrição.
Os dois partidos, que já lutaram furiosamente para estar à frente do poder, encontraram uma estupenda forma de ser cortejados por todo e qualquer governo, seja ele de esquerda ou de esquerda. As mariposas imperam e operam.

Serra e Dilma continuam empatados,


Serra e Dilma continuam empatados, diz Datafolha

Tucano tem 37%, e petista, 36%; candidatos oscilam na margem de erro

Marina Silva vai a 10%; na pesquisa espontânea Dilma lidera, com 21%, contra 16% de Serra; 2º turno tem estabilidade

FERNANDO RODRIGUES
da FSP

Na terceira semana oficial da campanha, José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) seguem empatados na corrida presidencial. O tucano está com 37% contra 36% de Dilma, mostra o Datafolha. A pesquisa foi realizada entre os dias 20 e 23, com 10.905 entrevistas em todo o país. A margem de erro é de dois pontos, para mais ou para menos.
Na última pesquisa, de 30 de junho e 1º de julho, Serra havia registrado 39%, contra 37% de Dilma. Ambos oscilaram negativamente, mas dentro da margem de erro. Marina Silva (PV) tinha 9% e agora foi a 10%.
Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) pontuou pela primeira vez nesta eleição, marcando 1%. Zé Maria (PSTU) também tem 1%. Outros quatro candidatos de partidos pequenos que concorrem a presidente foram incluídos na pesquisa, mas não atingiram 1%.
O Datafolha continua a captar uma estabilidade no número de eleitores indecisos ou que votam em branco ou nulo: 4%, o mesmo percentual do último levantamento. Os indecisos são 10%, contra 9% no levantamento anterior.
Numa simulação de segundo turno, o cenário repete o de maio, com Dilma numericamente à frente de Serra, mas dentro da margem de erro: a petista tem 46% contra 45% do tucano.

ESPONTÂNEA
Na pesquisa espontânea, quando o entrevistado responde em quem pretende votar sem ver a lista de candidatos, o resultado é favorável a Dilma Rousseff. Ela tem 21% e se manteve estável em relação aos 22% da outra pesquisa. Já Serra tinha 19% e recuou para 16%.
A petista também tem potencialmente a seu favor as respostas dos 4% que declaram querer votar no presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Outros 3% respondem ter intenção de escolher o "candidato do Lula" e 1% quer um "candidato do PT". Na sondagem sobre intenção de voto espontânea, os indecisos são 46%, contra 42% no início do mês. Marina Silva (PV) tem melhorado sua marca lentamente: 2% em abril, 3% em maio e junho, e, agora, foi a 4%.
Há também um quadro de poucas mudanças na rejeição dos candidatos. Os que não votariam no ex-governador "de jeito nenhum" são 26% (eram 24% da última pesquisa).
Dilma tem 19% (antes o percentual era 20%). Entre os candidatos mais competitivos, Marina é a menos rejeitada apenas 13%). Na divisão do voto por regiões do país, não houve também inversão de posições. O tucano lidera no Sul e no Sudeste. Dilma ganha no Nordeste e no Norte/Centro-Oeste.


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