Evaldo Augusto Torres Alves /editor
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Política

Rapidinhas


FERNANDO DE BARROS E SILVA da FSP

Morte e Vida Francenilda

SÃO PAULO - A ala "Maçaranduba" da coligação "O Brasil Pode Mais", aquela para quem o que faltava ao programa de José Serra era "porrada", não tem mais do que reclamar. Na noite de quinta-feira, na TV, o tucano foi ao ataque e apostou suas fichas no "tudo ou nada".
Talvez não restassem muito mais opções a Serra. Não só à luz da dificuldade em que se encontra sua campanha mas, também, em razão do significado, ao mesmo tempo pessoal e político, que o escândalo da Receita tem para a candidatura.
A um mês da eleição, precisando tirar seis pontos de Dilma Rousseff para provocar o segundo turno, Serra radicalizou e fez um programa de teor inteiramente negativo, em que ele próprio apareceu distribuindo críticas à campanha rival.
Antes dele, um apresentador veio arando o terreno, desfiando, em tom "soft-alarmista", um enredo que começava com o paralelismo um tanto forçado entre o caso Lurian e o caso Veronica ("a mesma baixaria contra a filha do Lula agora é usada contra a filha de Serra"). A seguir, passava pelos aloprados ("ninguém foi julgado nem punido"), pelo escândalo do caseiro ("não deu em nada", mas sem citar Palocci, o petista amigo) e pelo mensalão ("ninguém foi preso").
Feito o bombardeio, surge então Serra, como quem sobrevoa um cenário de ruína moral, para transmitir seu alerta: "Se continuar assim, todos nós seremos Francenildos".
Quando lançou sua candidatura, em abril, Serra tinha como lema "o Brasil é um só" e dizia em seu discurso inaugural: "Jamais rotularemos os adversários como inimigos da pátria ou do povo". Transcorridos alguns meses, o candidato rasgou o roteiro original e agora busca a unidade deste país "que é um só" numa suposta "condição francenilda", a que todos estaríamos condenados sob um governo Dilma.
É um apelo desesperado, de alto risco para Serra, que ainda pode funcionar. Ou representar mais um passo rumo à cova rasa que cabe à oposição no latifúndio do lulismo.




Serra volta a repetir que Receita faz 'operação-abafa'


Adauri Antunes Barbosa
do Globo

JOINVILLE (SC) - O candidato do PSDB a presidente da República José Serra disse nesta sexta-feira em Joinville (SC), onde teve um encontro com empresários na Associação Comercial e Industrial (Acij), que o PT está fazendo uma "inovação significativa" no país ao defender que vítimas sejam colocadas na cadeia, ao invés dos bandidos.
" Além de não botar bandido na cadeia, eles agora querem por as vítimas na cadeia "


- O PT faz inovação. Além de não botar bandido na cadeia, eles agora querem por as vítimas na cadeia. É realmente uma inovação significativa da parte de um partido - disse o candidato tucano, referindo-se ao caso da revelação das cópias do imposto de renda de sua filha, Verônica Serra.

Serra disse que não tinha dúvidas para lançar sobre a investigação que a Polícia Federal vem fazendo para apurar a quebra de sigilo fiscal de tucanos , inclusive se sua filha, Verônica Serra, mas voltou a repetir que a Receita Federal "vem fazendo uma operação-abafa" para não punir os responsáveis pelo vazamento dos dados sigilosos. Serra também não quis comentar o fato da polícia paulista, comandada pelo governo tucano de Alberto Goldmann. Ele voltou a repetir que havia alertado o presidente Lula, em janeiro, sobre o vazamento de dados de sua filha em blogs lilgados a petistas.

" Lula me disse que ia ver "

- Lula me disse que ia ver - disse Serra, sexta-feira à noite em Joinville.

Perguntado o que achava do argumento do PT de que sua campanha estaria querendo ganhar "no tapetão", já que as pesquisas indicam vitória da candidata petista Dilma Rousseff no primeiro turno, Serra desconversou, olhando para o telefone celular:

- Espera um minutinho só, pode ser algo... Espera aí, tem notícia sobre a coletiva agora, deixa eu ver se tem algo.

Na sequência disparou críticas contra a adversária petista, afirmando que Dilma não vai aos debates para os quais é convidada porque não preza a democracia.

- A Dilma tem dito que quem protesta contra violação dos seus direitos está contra a democracia. Dá para entender quando ela fala isso, porque o PT não deixa ela ir a debates. Achar que se defender contra quebra de sigilo é ser contra democracia, não dá para entender mais nada - criticou.

" A Justiça é que decidiria, depois de investigar, qual seria a punição dos diferentes culpados "

Serra negou que tenha pedido à Justiça a cassação da candidatura de Dilma Rousseff, garantindo que o pedido encaminhado contra a adversária era para que fossem apuradas as responsabilidades sobre o vazamento do imposto de renda de sua filha.

-A investigação que se pediu não pediu a cassação de ninguém, pedia que se apurasse o que aconteceu. Quem não deve não teme. A Justiça é que decidiria, depois de investigar, qual seria a punição dos diferentes culpados.

" Eles estão agora tentando criar um factóide para apresentar esse factóide na televisão, muito no estilo deles "

De acordo com o candidato tucano, o PT está criando um "factóide" quando afirma que ele pediu a cassação de Dilma e, já que a petista afirma que não fez nada, outros poderiam ser punidos.

- Como a Dilma diz que não fez nada, não teria problema nenhum. Poderiam ser punidos outros, por exemplo com inelegibilidade ou coisas dessa natureza. É apenas uma investigação, ninguém pediu cassação, não. Eles estão agora tentando criar um factóide para apresentar esse factóide na televisão, muito no estilo deles.

Sobre a decisão da Justiça pelo arquivamento do pedido do PSDB contra Dilma e o PT, Serra foi lacônico:

- Não me pronuncio sobre decisão de juiz.




Quércia retoma tratamento contra câncer por Rodrigo Alvares

Malu Delgado
do Estadão

O ex-governador Orestes Quércia, internado desde terça-feira no Hospital Sírio Libanês, está fazendo tratamento para câncer. Segundo boletim médico divulgado hoje, “foi diagnosticada a recidiva de um tumor de próstata, que havia sido tratado há mais de 10 anos”.
Segundo os médicos, Quércia está bem disposto e se alimenta normalmente. Apesar de ter retomado o tratamento contra o câncer, o peemedebista, que é candidato ao Senado, deverá receber alta nos próximos dias.




Luciana Nunes Leal
do Estadão

MINAS GERAIS
Sai a plenária, entra o comício
O PT tem plano duplo para enfrentar José Serra nos próximos dias. Primeiro, reforçar o discurso do desespero tucano, como defesa para o assunto incômodo – e até agora sem explicação – da quebra do sigilo fiscal da filha do candidato. A outra frente é investir em Minas Gerais e fazer o possível para evitar que o Estado se torne o bastião da oposição, diante da subida nas pesquisas de Antonio Anastasia (PSDB), afilhado do ex-governador Aécio Neves. A previsão inicial de que o presidente Lula faria uma plenária para 3 mil militantes em Belo Horizonte, no dia 8, evoluiu para um comício em Contagem.

Cabo eleitoral involuntário

Candidato ao Senado no Rio, Jorge Picciani (PMDB) não liga para o fato de que Lula restringiu o apoio a Lindberg Farias (PT) e Marcelo Crivella (PRB). Espalhou cartazes com fotos ao lado do presidente.

SANTA CATARINA

Neutralidade perto do fim
Líder nas pesquisas para o governo, Ângela Amin (PP) está neutra no plano nacional, mas, no caso provável de segundo turno no Estado, é certo que se alinhe a Dilma Rousseff, seja a petista eleita ou não em 3 de outubro. Ângela, que tem um vice do PDT, deverá receber apoio do PT contra Raimundo Colombo (DEM). No Rio Grande do Sul, pesquisas indicam segundo turno entre José Fogaça (PMDB), também neutro, contra Tarso Genro (PT), antigo companheiro de Dilma.
SÃO PAULO
Pé no chão
Rende frutos a competição entre PT e PSDB sobre ações nas favelas. O presidente Lula determinou que, no PAC 2, nenhuma moradia seja entregue sem acabamento, como aconteceu na primeira etapa do programa federal. Em Paraisópolis, Lula disse que “daqui para frente, casa tem de ter cerâmica no chão” e “não é possível imaginar que pobre não gosta de coisa boa”. Já os tucanos ressaltam na propaganda de TV que as casas construídas pelo Estado estavam completas, “com azulejos”.





CHEGOU A HORA DE A CAMPANHA DA OPOSIÇÃO
do blog do Reinaldo Azevedo

CHEGOU A HORA DE A CAMPANHA DA OPOSIÇÃO ENTRAR

NO “MODO DA RESISTÊNCIA INSTITUCIONAL”. É PRECISO CHAMAR LULA ÀS FALAS!
A gravidade das violações de sigilo na Receita Federal subiu estupidamente de patamar depois da fala de ontem de Lula, no Rio Grande do Sul. Ela pede uma reação enérgica da oposição — e não cabe nem mesmo o cálculo se uma resposta à altura dá ou tira votos. Estou convencido, sem prejuízo de o tucano José Serra continuar a apresentar suas propostas, de que a campanha da oposição entra no que eu chamaria “Modo de Resistência Institucional”. Ontem, Lula usou a sua popularidade para pedir carta branca à sociedade para fazer o que bem entende. É preciso dizer com todas as letras: ONTEM, LULA REIVINDICOU O DIREITO DE DAR UM GOLPE DE ESTADO, tendo, circunstancialmente, as urnas como arma.

Se alguma dúvida havia sobre o compromisso de Lula com a democracia, ela se desfez ontem. Não tem compromisso nenhum! Está evidenciado que ele a usa como arma tática e que a escalada petista supõe a desconstrução do estado de direito conforme nós o conhecemos. É a Constituição da República Federativa do Brasil que está sendo fraudada com as invasões de sigilo. Um órgão do Estado, a Receita Federal, converteu-se, como tem deixado claro o notável trabalho de reportagem do Estadão, em instrumento de luta de um partido político. E tudo caminha para que mais esse crime reste impune.

Sim, agora é preciso entrar no MODO DE RESISTÊNCIA INSTITUCIONAL. E o próprio presidente Lula — pouco importa se sua popularidade atingiu 8795%, segundo a última medição Vox Diaboli — tem de ser chamado às falas. Ele passou de todos os limites. Ontem, comentando a questão da invasão de sigilos — e ele estava numa solenidade em que falava como presidente! — afirmou que “Serra precisa saber que eleição a gente ganha convencendo os eleitores a votar na gente, não tentando convencer a Justiça Eleitoral a impugnar a adversária”. Para Lula, “isso já aconteceu em outros tempos, na ditadura militar.” E recomendou: “Na democracia, o senhor Serra que vá para rua, que melhore a qualidade de seu programa [de TV]“. Lula classificou ainda o episódio — a violação da Constituição — de “futrica menor”.

O sr. Lula precisa saber que, na democracia, “a gente convence o eleitor a votar na gente” segundo regras — todas aquelas que o PT tem desrespeitado sistematicamente. Na democracia, a gente “vai para a rua” não para pisotear as leis, mas para pedir a sua efetiva aplicação. Método típico de uma ditadura é fraudar o sigilo fiscal e bancário de adversários. Método típico de uma ditadura é organizar bunkers de bandidos para produzir dossiês. Método típico de uma ditadura é querer criar constrangimentos morais para que as pessoas exerçam o direito, também ele constitucional, de recorrer à Justiça. Método típico de ditadura é considerar a violação da Constituição mera “futrica”.

Toda essa baixeza merece uma resposta à altura das instituições que ela fere. Não estou entre aqueles, mesmo!, que consideram que a eleição já está decidida e coisa e tal. Já disse os motivos e não vou repisá-los. Mas acho que essa questão, agora, ficou menor. Outro valor mais alto se alevanta. Se o custo de a oposição dizer o que tem de ser dito — QUE O PRESIDENTE LULA, NA PRÁTICA, PROTEGE CRIMINOSOS AO DAR DECLARAÇÕES COMO A DE ONTEM — for perder votos, que assim seja. Com quantos a democracia e o estado de direito, VIVIDOS NA PRÁTICA, podem contar? Pois que a causa siga com estes bons. Bento 16 afirmou certa feita, não com estas palavras, mas o sentido era este, que a Igreja se fortalece recuperando a dimensão de sua fé, não condescendendo com valores que lhe são estranhos; a sua permanência está nos valores de sua doutrina, ainda que isso lhe custe perder os fiéis… infiéis. Exato!


As lideranças do país que deploram a contínua violação da Constituição, das leis e do decoro têm apenas um caminho: voltar ao livro-texto da democracia e do estado de direito e repudiar, sem meias-palavras, o discurso irresponsável de Lula. Sua popularidade não lhe dá o direito de jogar a Carta que nos rege — ou deveria nos reger — no lixo. O regime democrático não se define apenas pela realização das eleições. Elas são um dos instrumentos do exercício da soberania popular. O sufrágio universal não elege ditadores, mas procuradores do estado de direito.

Indignidade
A reação tem de ser dura, severa, clara. E saiba a oposição: enfrentará, à diferença de outros tempos, a maledicência até de setores da própria imprensa, que passaram a chamar a Justiça de “tapetão”, em mais um claro sintoma da degradação de valores que está em curso. Trata-se de uma óbvia indignidade. A maioria que o PT teria hoje nas urnas, segundo esse raciocínio, permitiria, então, a esses majoritários fraudar as próprias leis que legitimam o pleito que disputam. As instituições existem justamente para que os homens se sucedam no poder sem que as balizas que nos orientam sejam derrubadas. Esse já foi um dia um norte da imprensa brasileira, quase sem exceções. Hoje, os áulicos e candidatos a tanto contaminam o ambiente com sua tese da maximização da vontade popular: se o governante tem a maioria, então faz o que bem entende — e isso inclui esmagar a minoria. Ora, tão importante na democracia quanto o governo da maioria é o respeito à minoria que lhe dá legitimidade. Mas será mesmo isso o que quer o PT?

Hora de perceber a gravidade da questão e de ter uma reação correspondente — nem que seja, reitero, para mobilizar os poucos e bons. Assim me expresso apenas para encarecer o momento já que, de fato, são milhões os brasileiros que não estão dispostos a ceder a Lula e ao PT os seus direitos constitucionais. Fossem apenas os 300 de Esparta, então se deveria lutar com eles. Mas há muito mais gente do que isso pronta para resistir.

CHEGOU A HORA DE A CAMPANHA DA OPOSIÇÃO ENTRAR NO “MODO DA RESISTÊNCIA INSTITUCIONAL”. É PRECISO CHAMAR LULA ÀS FALAS. TALVEZ ISSO CUSTE AINDA MAIS VOTOS. PARA O VALOR QUE SE QUER E QUE SE TEM DE PRESERVAR, ELES NÃO FAZEM FALTA.

Perder a eleição é do jogo. Não dá é para perder a vergonha!

Por Reinaldo Azevedo

Lula reage a Serra e diz que não é "censor"
Petista afirma que tucano só se queixou do cerco à filha; ex-governador paulista fala que não pediu nada ao presidente

Afirmações vieram após declaração do candidato de que havia alertado o petista sobre publicação de dados de sua filha

Eduardo Knapp/Folhapress

Serra em sabatina em São Paulo; ele confirmou ter alertado Lula sobre ataques a sua filha

PLÍNIO FRAGA/DIMITRI DO VALLE
da FSP

O presidente Lula afirmou ontem que não está no cargo para curar "dor de cotovelo" do candidato de oposição José Serra (PSDB) e que nem pretende exercer papel de "censor da internet".
Lula fez a afirmação em Esteio (RS) em resposta à informação publicada pela Folha de que Serra havia dito que o alertara para o acesso aos dados de sua filha, protegidos por sigilo fiscal.
"Nosso adversário deveria procurar um novo argumento. Não é possível que possa pedir que eu censure a internet. Não posso. Ele não me alertou. Ele se queixou."
À noite, em Joinville, Serra respondeu a Lula: "Eu não pedi nada a ele, eu o informei. Dei cópia a ele do que estavam publicando na internet, inclusive no blog dos amigos do Lula e no blog de Dilma. Dei a ele para conhecimento dele. Não foi uma reclamação nem pedido".
"Eu apenas transmiti o que estava acontecendo e, naturalmente, exortando para que na campanha eleitoral não se fizesse baixaria contra famílias. Mas, realmente, não fiz nenhum pedido a ele. Ele, presidente da República, tomou conhecimento do que estava acontecendo. Apenas isso", disse.
Segundo Lula, os dados publicados em blogs que Serra chama de "chapa branca" não são relevantes nem frutos de quebra de sigilo.
"Não tem nada de mais o que a internet publicou sobre a filha de Serra. Há insinuações como há contra o presidente Lula, contra a família do presidente Lula."
Irônico, Lula sugeriu que "o sr. Serra melhore a qualidade de seu programa" de TV em vez de pedir à Justiça Eleitoral a impugnação da chapa de Dilma Rousseff.
"O Serra precisa saber uma coisa: eleição a gente ganha convencendo os eleitores. Não é tentando convencer a Justiça a impugnar a adversária. Isso já aconteceu em outros tempos, na ditadura militar. Na democracia, o sr. Serra que vá para rua, que melhore a qualidade de seu programa", disse.
O presidente recomendou que o tucano apresente propostas para o crescimento industrial. "Hoje ele deve estar com dor de cabeça porque o PIB, segundo o IBGE, vai crescer mais do que os mais otimistas diziam que iria crescer. Vai crescer 7%."
Para Lula, o país vive um momento de ouro: "Não vou permitir que nenhuma futrica menor porque não tem nenhuma acusação grave contra o Serra, tem aquelas coisas de internet- atrapalhe. O presidente tem coisa mais séria para cuidar do que as dores de cotovelo do Serra".
Em SP, Serra confirmou ter avisado Lula sobre a hipótese de quebra de sigilo.
"Disse a ele [Lula] que havia uma armação contra familiares meus, inclusive no blog do Lula, no blog da Dilma, dos amigos do Lula. E que tinha inclusive elementos de quebra de sigilo. Estava preocupado e passei cópia para ele disso em janeiro", afirmou. "Mas só se confirmou a quebra agora."
O tucnao disse que investigar "é um problema de Lula" e ressaltou: "Não o intimei. Não tinha provas. Não revelei algo que estivesse acontecendo, revelei algo que podia estar acontecendo".


Falso procurador de filha de Serra tem filiação ao
Falso procurador de filha de Serra tem filiação ao PT

Contador de Mauá havia negado ter vínculo partidário

TRE de SP confirma que Atella se filiou em 2003, em Mauá, mas não se permanece; contador depôs à Polícia Federal

FLÁVIO FERREIRA/SILVIO NAVARRO/MARIO CESAR CARVALHO
da FSP

O contador Antonio Carlos Atella Ferreira era filiado ao PT quando usou uma procuração falsa para retirar na Receita Federal dados sigilosos de Veronica Serra, filha do candidato do PSDB à Presidência, José Serra.
O Tribunal Regional Eleitoral informou ontem que ele se filiou ao PT de Mauá, no ABC paulista, em outubro de 2003, mas não confirmou se ele ainda é ligado ao partido.
Segundo o tribunal, consta uma anotação, de novembro de 2009, apontando "exclusão" do nome dele do cadastro de eleitores. Isso não significa necessariamente que ele deixou de ser filiado. Pode ter havido conflito de documentos ou mudança de domicílio eleitoral.
A quebra de sigilo de Veronica foi em 30 de setembro, dois meses antes. O PT paulista informou que está fazendo uma varredura no cadastro de filiados. O presidente nacional do partido, José Eduardo Dutra, afirmou não reconhece a filiação do falso procurador. Ele disse ainda que, se a ligação de Atella com o partido for confirmada, não "muda nada", porque ele não tem participação ativa no PT.
"Eu acho essa história muito estranha. Não vou ficar fazendo ilações. Ninguém o conhece no partido." À noite, em Joinville, Serra disse que a nova informação reforça suas acusações: "Essa é mais uma prova do envolvimento político do crime que foi cometido contra a minha família. Isso é mais uma prova do envolvimento político, claramente". Atella negou ter vínculo partidário em duas entrevistas à Folha.
Seu cunhado, o oficial de Justiça João Primo, foi fundador do PT de Mauá. A sede do partido no município foi assaltada na quarta-feira. O prefeito Oswaldo Dias é do PT. Seu filho, Leandro, preside o diretório da cidade.

INVESTIGAÇÕES
Ontem, após prestar depoimento à Polícia Federal, Atella afirmou que o material retirado na Receita tinha finalidade política. "Foi guardado para ser apresentado na hora certa, um documento criminoso para ser apresentado numa hora oportuna", disse à Folha. "Quantos milhões, quantos interesses estão em jogo num único documento?"
A PF ouviu o contador por duas horas. Foi coletado material grafotécnico, mas ele não foi indiciado. A filha de Serra também deve depor.
Após o depoimento, o contador disse que "tudo foi dito da mesma maneira" que em suas entrevistas. "O que foi veiculado na mídia é aquilo que é", disse à Folha.
Ele depôs sem advogado e sem a presença de representante do Ministério Público. Atella tentou se apresentar como vítima de uma "trama criminosa". "Foi quebrado o sigilo da filha do governador no ano passado. Quem guardou, guardou para apresentar a um mês da eleição?"
Ele se negou a responder se o office boy Ademir Estevam Cabral foi mesmo responsável por lhe pedir os dados, conforme sugeriu na véspera. E voltou a dizer que o pedido pode ter vindo de "Minas, Brasília ou Paraná". A Polícia Civil paulista instaurou inquérito para apurar os crimes de falsidade ideológica e falsidade documental no caso. A ordem partiu do secretário de Segurança, Antonio Ferreira Pinto.
O inquérito deverá ficar pronto em 30 dias, segundo o delegado Marcos Carneiro, diretor do Demacro, que reúne delegacias da Grande São Paulo. É uma forma de pressionar a PF a ser célere. "Vamos acelerar o máximo para colher todos os depoimentos nesse prazo", disse Carneiro.

*Colaboraram MÁRCIO FALCÃO, de Brasília, e DIMITRI DO VALLE, enviado a Joinville


O pastor não ouviu o que disse

VEJA/Augusto Nunes

Para evitar a ampliação do estrago causado pelo estupro do sigilo fiscal de políticos tucanos, eles esconderam o caso de Verônica Serra. Para reduzir o impacto da violência imposta à filha de um candidato à Presidência, eles providenciaram uma procuração falsificada. Para diminuir o assombro provocado pela descoberta da fraude, eles escalaram para o papel de culpado um contador especializado em maracutaias no Fisco. Para abrandar a perplexidade decorrente da notícia de que o contador é um petista de carteirinha, eles agora costuram às pressas a mentira de amanhã.

Nesta quinta-feira, em entrevista ao Jornal Nacional, o contador Antonio Carlos Atella Ferreira garantiu que nunca fora filiado a partido nenhum. “Se alguém me filiou, nem conheço quem é, se caso eu tiver filiado”, gaguejou. A mentira foi implodida 24 horas depois: hoje, o JN informou que Atella foi adepto da seita entre 20 de outubro de 2003, quando assinou a ficha de inscrição no PT de Mauá, e 21 de novembro de 2009, menos de dois meses depois da violação do sigilo de Verônica Serra.

Atella primeiro jurou que não se lembrava dos seis anos de militância. Logo admitiu que pode ter assinado alguma ficha “num momento de empolgação”. Foi socorrido por José Eduardo Dutra, presidente nacional do partido. Até o fim da tarde, Dutra nunca ouvira falar em Atella. Descobriu em menos de duas horas que o contador bandido “nunca teve participação política dentro do PT”. Se existiu, declamou o companheiro, a filiação foi “apenas cartorial”.

Em 17 de julho de 2005, levado às cordas pelo escândalo do mensalão, o presidente Lula usou uma entrevista ao programa Fantástico para esquivar-se da saraivada de golpes e escapar do nocaute. “Trabalhar com a verdade é muito melhor”, disse com pose de professor de jardim de infância. “A desgraça da mentira é que, ao contar a primeira, você passa a vida inteira contando mentiras para justificar a primeira que você contou”.

Verdade. Só que o pastor não prestou atenção no que dizia. Nem o rebanho.

Mentir é a profissão

A candidata, o ministro, o contador bandido e o dialeto dos condenados à impunidade

A candidata Dilma Rousseff afirma que não encomendou dossiê nenhum contra José Serra, muito menos o estupro do sigilo fiscal da filha do adversário. “Se alguém fez alguma coisa errada, não tenho nada com isso”, vem repetindo. Ela alega que não pode controlar a movimentação no comitê de campanha, como ficou claro no episódio do programa de governo que rubricou e assinou, mas não leu. “Me pediram rubrica”, já explicou. “Rubricar é rubricar e eu rubriquei”.

O contador Antonio Carlos Atella afirma que não fez nada de errado ao consumar o estupro do sigilo fiscal de Verônica Serra com a procuração que apresentou à Receita Federal. “Não faço a menor ideia de quem encomendou o serviço”, vem repetindo. Ele só lembra que os interessados tinham pressa e que o documento lhe foi entregue pelo office-boy Ademir Estevam Cabral.

Se a candidata não controla o tráfego no comitê, sobretudo em seus subterrâneos, o contador alega que não pode controlar a movimentação da papelada que despacha diariamente: “Pediu, estou tirando”, já explicou. “Se pedir de quem quiser eu tiro, e a Receita tem que entregar”. O Fisco já foi mais cuidadoso na lida com gente assim. Entre outros pontapés nos códigos legais, o alentado prontuário de Atella informa que o portador já foi pilhado em flagrante usando quatro CPFs ao mesmo tempo.

Dilma promete processar José Serra pelo que anda dizendo no horário eleitoral. “Estou sendo ofendida na minha honra”, recita. Atella promete processar jornais e revistas que andam divulgando notícias sobre as enrascadas em que se meteu. “Estou sofrendo danos morais”, declama. A candidata jura que não teme perder, em consequência do escândalo, a liderança nas pesquisas eleitorais. O contador tem certeza de que não perderá o direito de ir e vir.

(Ficou mais confiante nesta sexta-feira: depois de um depoimento de cinco horas na Polícia Federal, não foi sequer indiciado. Os sherloques querem ouvir com urgência Verônica Serra. A conversa com a vítima da violação com motivações eleitoreiras lhes parece mais urgente que, por exemplo, o interrogatório de evelações de Otacílio Cartaxo, secretário da Receita Federal).

“Não existe sistema inviolável”, disse nesta tarde o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Pode ser. Nos países que não se assemelham a um clube dos cafajestes, contudo, os autores do crime vão para a cadeia e funcionários públicos relapsos ou cúmplices, como Cartaxo, são demitidos. Não é o caso do Brasil, confirma o contador. “Todo mundo aqui está passível de ter a vida investigada”, ensina Atella. “Esse é o Brasil dos f.d.p.”

Nesse Brasil, como comprovam as frases entre aspas, uma candidata à Presidência, um ministro da Fazenda e um especialista em maracutaias fiscais falam a mesma linguagem. É o dialeto dos que se consideram condenados à impunidade.


Serra diz que em janeiro avisou Lula de 'armação'
Serra diz que em janeiro avisou Lula de 'armação'

MARCELO DE MORAES E ELDER OGLIARI
do Estadão


O candidato tucano José Serra disse ontem que chegou a avisar ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a possibilidade de ter havido quebra de sigilo fiscal de sua filha Verônica Serra. Em entrevista dada ao portal IG, Serra disse que tratou do assunto com o presidente em janeiro deste ano, quando levantou a suspeita que poderia ter sido violado o sigilo de Verônica.

Na ocasião, Serra aparecia na liderança das pesquisas de intenção de voto e se preparava para confirmar sua candidatura à sucessão de Lula enfrentando a petista Dilma Rousseff.

"Eu disse a ele (Lula) que havia uma armação contra familiares meus, inclusive no blog do Lula, no blog da Dilma, dos amigos do Lula. E que tinha inclusive elementos de quebra de sigilo. Eu estava preocupado e passei cópia para ele disso em janeiro", afirmou. "Mas só se confirmou a quebra agora. Eu suspeitava", disse Serra ao IG, confirmando informação publicada pelo jornal Folha de S. Paulo.


Em Porto Alegre, Lula rebateu a declaração. "Não tem nada de mais que a internet publicou", reagiu Lula. "Tem insinuações, como tem contra o presidente Lula, como tem contra a família do presidente Lula, como tem contra vocês, jornalistas."

"Tenho coisas mais sérias para cuidar do que as dores de cotovelo do Serra", ressaltou, insinuando que o tucano estaria usando o episódio para atrapalhar a candidatura da rival Dilma Rousseff (PT). "Serra precisa saber de uma coisa: uma eleição a gente ganha convencendo os eleitores a votar na gente, não é tentando convencer a Justiça Eleitoral a impugnar adversários. O senhor Serra que vá para a rua, que melhore a qualidade do seu programa, que faça proposta de coisa que ele quer fazer para o nosso país, que apresente soluções para o crescimento industrial."


Corpo mole

Na entrevista ao portal IG, Serra criticou a atuação da Receita no caso e disse que está havendo "corpo mole" na apuração e uma espécie de "operação abafa" para impedir o avanço das investigações. A campanha petista nega responsabilidade no caso e ainda decidiu abrir processos contra Serra por conta das acusações a Dilma e ao PT. Na entrevista, o tucano voltou a culpar Dilma. As informações são do jornal

Implantação da ditadura comunista




Mensagens de apoio a Carla Bruni
Mensagens de apoio a Carla Bruni congestionam telefones do governo

Palácio do Eliseu diz que fluxo de telefonemas atrapalhou trabalho e cria site para receber recados

do Estadão


PARIS - O serviço telefônico do Palácio do Eliseu, sede do governo da França, foi saturado depois de receber "inúmeras chamadas de apoio" dirigidas a Carla Bruni, esposa do presidente Nicolas Sarkozy. A onda de telefonemas começou depois que um jornal iraniano chamou a primeira-dama de "prostituta" e disse que ela merece o mesmo destino que a mulher condenada no Irã a ser apedrejada.

"O fluxo incomum de ligações telefônicas afetou o trabalho dos serviços de telecomunicações da Presidência", destaca o governo em uma nota em seu site, publicada em inglês e francês.

Devido à saturação dos serviços telefônicos, os serviços da Presidência da República abriram um endereço de e-mail e uma página para receber mensagens de apoio à primeira-dama.

O governo francês qualificou na última terça-feira como "inaceitáveis" os insultos publicados pelo jornal "Kayhan" e divulgados em várias páginas da internet contra a esposa do presidente.

A ex-modelo e cantora escreveu uma carta na qual pedia às autoridades iranianas que concedessem um indulto a Sakineh Mohammadi Ashtiani, condenada a morrer apedrejada por adultério. "Derramar seu sangue, privar seus filhos de ter uma mãe, mas por quê? Porque viveu, porque amou, porque é uma mulher, uma iraniana? Me nego a aceitar", afirmou a primeira-dama em sua carta, publicada em vários veículos da imprensa francesa.

Carla Bruni não é a única que levantou sua voz contra o apedrejamento de Sakineh. Outras personalidades na França, como a candidata socialista às eleições presidenciais Ségolène Royal, e o ex-presidente conservador Valéry Giscart d'Estaing, também escreveram pedidos de indulto.

Quem é quem na política argentina
“Fria. Soberba. Pedante”: Biógrafa não autorizada disseca Cristina Kirchner por Ariel Palacios

do Estadão

Quem é quem na política argentina


Biografia não autorizada de Cristina Kirchner ressalta frivolidade e autoritarismo da presidente argentina.

Dona de uma elegante língua viperina, a escritora e jornalista argentina Syvlina Walger lançou nesta semana “Cristina, de parlamentar combativa a presidente fashion”, biografia não-autorizada da presidente Cristina Kirchner. Walger, que ficou conhecida nos anos 90 ao publicar “Pizza com champanhe” – um raio-x implacável da frivolidade do governo do presidente Carlos Menem (1989-99) – volta à carga uma década e meia depois com esta obra que os assessores presidenciais evitam comentar. No livro a escritora, disseca a personalidade da presidente argentina, sua relação sentimental e política com o marido e ex-presidente Néstor Kirhcner, além da obsessão em renovar o guarda-roupa com vestimentas caras.
Em entrevista exclusiva ao Estado, Walger – enquanto bebia plácidamente um chá de limão – aplicou fundo o ‘bisturi verbal’ para analisar a anatomia do governo Cristina.
Estado – Em 2007, quando Cristina Kirchner tomou posse como presidente, acreditava-se que haveria uma “presidência bicéfala”, isto é, ela governaria em igualitária parceria com seu marido e ex-presidente Néstor Kirchner. Essa divisão de forças existe?
Walger – Não existe divisão de forças. Manda Néstor Kirchner. Acho que é algo combinado entre os dois. Não existe presidência bicéfala. Ele nunca permitiria isso. Cristina supostamente é a presidente da República…mas ela é uma espécie de “continuação” do marido, embora faça enormes esforços por ser ela mesma. No fim das contas ela é apenas quem executa as ideias que ele tem.


Capa do livro de Walger. A foto não é fotomontagem, não. É mesmo o figurino utilizado por Cristina Kirchner.
Estado – Como definiria a relação matrimonial Néstor-Cristina? É um casal que apesar de tem boa química ou é uma associação política? No livro conta uma cena, ocorrida em 2008, em que Kirchner dá um soco em Cristina…
Walger – Começaram com boa química, mas hoje são menos do que uma associação política…são simplesmente uma associação para conservar o poder. Há muito tempo a única coisa que os une é uma fortuna a dividir. É algo triste o que ocorre com ela. No passado parecia ser uma mulher acessível e agradável. Mas, transformou-se em uma mulher com uma persistente cara de amargura, que nunca está satisfeita. É um ser cheio de rencor.
Estado – No livro indica que ela estaria emocionalmente ‘fragilizada’…
Walger – Fontes de seu entourage sustentam que ela está cansada, que sofre desmaios frequentes. Além disso, padece ataques de angústia. Pelo visto, deseja afastar-se do cargo. E acima de tudo, afastar-se de seu marido. Parece que ela teria esse plano para depois de 2011. E esse plano é uma ideia que pensa cada vez com mais força, especialmente depois daquele sonoro sopapo que sua cara metade lhe desferiu na “noite da 125” (noite na qual – em julho de 2008 – a presidente sofreu uma dura derrota no Senado, que derrubou – por apenas um voto – o projeto de ‘impostaço agrário’ de Cristina e mergulhou o governo em crise política).
Para detalhes do ’sopapo’ citado por Walger, ler no pé da postagem

Cristina declara-se fervorosa admiradora de Eva (Evita) Duarte de Perón. Na foto, Evita em cerimônia na qual respalda o regime do ditador espanhol Francisco Franco (que auto-definia-se “caudilho de Espanha pela graça de Deus”).
Estado – No Peronismo sempre houve espaço para as esposas dos políticos. Assim foi com Perón e Evita e depois com Isabelita. E Carlos Menem durante muito tempo dependeu do dinheiro e dos contatos de sua esposa Zulema Yoma, até que se divorciou. Agora vemos Kirchner e Cristina…essa forma de usar as mulheres para fins polítocos é exclusiva do peronismo na Argentina?
Walger – É curioso, mas é verdade. Tem a ver com o caudilhismo, uma das ‘virtudes’ peronistas. O peronismo é profundamente machista, ao contrário da União Cívida Radical (UCR), que é intensamente misógina. Mas, apesar do machismo, as mulheres tiveram papéis protagonistas no peronismo.

Walger, que foi militante do grupo Montonero nos anos 70 – e conviveu com setores da elite – conhece por dentro os bastidores da política argentina. Em seus livros não hesita em destripar todo o leque ideológico, da direita neo-liberal à esquerda. Nos anos 90 escreveu ”Pizza com champanhe”, obra que retrata de forma ácida a frivolidade e a ostentação do governo do ex-presidente Carlos Menem. O título da obra teve tanto impacto que, dizer “Pizza com champanhe” na Argentina equivale a referir-se automáticamente à “era menemista”.
Estado – Que tipo de atividade política teve Cristina na época da facudade, em La Plata? Era mesmo uma engajada e combativa militante como ela diz atualmente? Ou ela construiu para si própria um passado de lutas?
Walger – Foi militante de assembleias e manifestações. Não foi uma militante integrada que levasse as lutas para a frente. Ela simplesmente “acompanhava” a militância. E ela e Néstor nunca partiram para o exílio durante a ditadura, ao contrário de dezenas de milhares de outros militantes que combateram o regime. Em março de 1977, quando a ditadura estava a ponto de completar seu primeiro ano, Néstor Kirchner foi detido durante dois dias pelos militares em Santa Cruz.
Estado – Foi um prazo curto, se comparado com o calvário de milhares de outras pessoas, que além de detidas, foram torturadas….
Walger – A liberação foi rápida, mas não foi grátis, segundo indicam investigações do jornalista Christian Sánz. Néstor Kirchner teria entregue telefones, endereços e diversas outras informações que levariam à muitas detenções de militantes.
Estado – Como Cristina Kirchner e seu marido poderiam ser enquadrados dentro do leque ideológico? São de esquerda? De centro-esquerda?
Walger – Uma coisa é certa. Tal como o o russo Vladimir Putin, practica um ‘capitalismo de amigos’, característica que marca não somente o peronismo, mas que também muitos governos latino-americanos. Os Kirchners afirmam que são de centro-esquerda. Mas, nada disto é contraditório com a facilidade que eles possuem para adaptar-se a qualquer circunstância, o que é a essência do peronismo.
Estado – Ideologia à parte, os Kirchners vivem de forma abastada?
Walger – Sua fortuna aumentou em 710% desde 2003. Eles possuem 19 casas, 14 apartamentos, 6 terrenos y duas logjass; também possuem a consultora Chapelco para assessorar financieramente inverstidores nacionais e estrangeiros. E de quebra, está o destino desconhecido de mais de US$ 500 milhões da província de Santa Cruz e o descomunal enriquecimiento de seus secretários privados.
Estado – No livro indica que Cristina nunca fala uma certa palavra…
Walger – É incrível, mas nos discursos públicos Cristina não pronunciou uma única vez sequer desde que chegou à presidência da República a palavra “corrupção”.
Estado – O que é que existe por trás deste confronto dos Kirchners com o Clarín, grupo de mídia que foi aliado do casal presidencial durante cinco anos? É simplesmente uma luta por mais poder?
Walger – Esse confronto surge a partir da guerra com o campo (a crise do governo com o setor ruralista, em 2008). O Clarín ficou do lado del campo e dali para a frente, o confronto com os Kirchners foi como brigar com um touro de touradas. Nesse contexto, a Lei de Mídia (que restringe a atuação dos meios de comunicação) tem como objetivo provocar o desaparecimento dos meios que não sejam controláveis pelo governo.


Ingrid Betancour, Cristina Kirchner e Madonna, em uma pausa em um dia de trabalho na Casa Rosada
Estado – A frivolidade da “Era Menemista”, que retratou em “Pizza com champanhe”, possui algum paralelo com a frivolidade de Cristina Kirchner? Ou são estilos diferentes?
Walger – Possuem em comum a compulsão pelo shopping e as marcas. É obcecada pelas compras. Mas, a frivolidade de Cristina é amarga, escondida e mesquinha. Os menemistas amavam a ostentação. Cristina prefere não mostrar. No entanto, usa muito o ouro, que é a coisa que ela mais gosta. E ela troca de roupa três vezes por dia…como se fosse uma estrela de rock em um show. Anos atrás começou com Vuitton e agora está com Hermès. Seus preferidos são, em crocodrilo ou lagarto, a Kelly bag (feita em homenagem a Grace Kelly) e a Birkin bag, (em homenagem a Jane Birkin). Estas bolsas só são vendidas por encomenda, e seu preço está ao redor de 40.000 euros. Isto é, para Cristina não existe crise. Um dia, em plena campanha eleitoral em 2007, tinha em cima de seu corpo US$ 50.000 em jóias. Cristina já havia percebido que para ser uma boa política não era necessário se disfarçar de pobre…
Estado – Cristina é famosa por sua vaidade. Ela possui complexos com o corpo?
Walger – Ela tem canelas grossas, o que equivale a ter pernas retas, rechonchudas e sem forma, uma marca que sua filha Florencia herdou. Por esse motivo, durante muito tempo ela só usava calças. Tempos atrás havia um rumor de que ela não permitia que as mulheres que trabalhavam com ela usassem saias…
Estado – Como podem conviver em Cristina Kirchner a proximidade con a líder das Mães da Praça de Mayo, Hebe de Bonafini, que respalda a ETA e os Zapatistas e com as bolsas luxuosas da Louis Vuitton ao mesmo tempo?
Walger – Eu fiz essa pregunta a mim mesma uma infinidade de vezes. Minha hipótese é meio arriscada, mas é o que insuo no livro: as líderes das damas dos direitos humanos (as Mães da Praça de Mayo) recebem uma boa quantidade de dinhero. Em troca disso, fecham os olhos.


Néstor Kirchner, antecessor de sua esposa no “sillón de Rivadavia” (a cadeira presidencial), discursa sob a imagem de Cristina. Kirchner, afirma Walger, é o verdadeiro poder no governo de Cristina. A relação de ambos, afirma a escritora, é plena de tensões e não passa de uma associação para manter o poder.
Estado – Sei que é cedo para definições póstumas, pois Cristina Kirchner ainda é jovem e possivelmente tenha muitos anos de carreira política pela frente dentro ou fora do governo, com maior ou menor influência. Mas, como acha que a História lembrará de Cristina?
Walger – Como uma convencida. Como uma pessoa que achava-se maior do que realmente era…
Estado – Acredita que ela se adaptará a estar fora do poder? Imagina Cristina Kirchner comandando a oposição a um governo?
Walger – Com Cristina tudo é possível. Tudo indica que o que ela quer é se ‘aposentar’ e desfrutar de seu dinheiro fora deste país, e se possível, na Europa. Mas não posso assegurar que, se lhe oferecerem um poder real, não como esse que possui atualmente, que na verdade é uma ‘procuração’ do marido, e sim, um poder a sério, ela rejeite a ideia de aposentadoria…
Estado – Digamos que lhe dou espaço para definir Cristina Kirchner com apenas dos adjetivos. Quais escolheria?
Walger – Não responderia com dois adjetivos, mas com três. “Fria”, “soberba” e “pedante”.

SOCO (cenas de pugilato presidencial)
Na noite do dia 17 julho de 2008 a presidente Cristina Kirchner e o ex-presidente Néstor Kirchner, seu marido, estavam no meio de grande tensão. O governo havia sido derrotado pela oposição em uma ajustada votação no Senado. O resultado foi a derrubada do projeto de lei que implantaria um “impostaço” agrário. Na manhã seguinte, o ex-presidente Kirchner, considerado o verdadeiro poder do governo da esposa, indicou a Cristina que deveria renunciar. No entanto, segundo afirma a escritora e jornalista Sylvina Walger em sua biografia não-autorizada “Cristina”, a presidente recusou-se a deixar o governo e insultou seu marido, sugerindo que, se ele quisesse ir embora, podia partir. Ao ouvir isto, Kirchner teria desferido um certeiro soco na presidente argentina.
O resultado desta agressão, segundo Walger, é que Cristina Kirchner teve que ser levada à uma clínica. Coincidentemente, a presidente não apareceu em público durante uma semana.
Uma das testemunhas dessa cena, afirma a biógrafa, foi o então chefe do gabinete de ministros, Alberto Fernández – que chocado com a deterioração da relação das duas pessoas mais poderosas do país – preferiu deixar o governo dias depois.
Semanas antes da derrota dos Kirchners no Senado a presidente, irritada com as interferências do marido em seu governo, teria proferido, exasperada: “La presidente soy yo, carajo!” (A presidente sou eu, caralho!).
Em “Cristina” Walger sustenta que o casal presidencial está unido “em uma relação muito mais sórdida, escura e desequilibrada do que aquilo que eles querem que as pessoas acreditem”.

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