Evaldo Augusto Torres Alves /editor
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Política

Rapidinhas


Aécio tem dificuldade de emplacar sucessor

Tucanos alegam que ex-governador só começou a fazer campanha para Anastasia neste ano para não infringir lei

PSDB espera superar desvantagem com ajuda do horário eleitoral na TV e da grande aliança costurada por Aécio

RODRIGO VIZEU
da FSP

Enquanto o presidente Lula transformou a quase desconhecida Dilma Rousseff (PT) em candidata competitiva à sucessão presidencial, o ex-governador Aécio Neves (PSDB-MG) tem tido dificuldade de emplacar a reeleição do pouco conhecido governador Antonio Anastasia (PSDB), seu ex-vice.
Dilma e Anastasia se parecem no perfil técnico, na pouca experiência eleitoral e por terem sido figuras centrais de governo.
Mas, enquanto Dilma saltou da casa dos 10% que registrava no ano passado e segue empatada com José Serra (PSDB) desde maio último, com 36% das intenções de voto, Anastasia tem hoje só 18% na disputa pelo governo de Minas Gerais, bem atrás do líder Hélio Costa (PMDB), com 44%, segundo a última pesquisa do Datafolha.
Tucanos mineiros apontam uma razão principal para Anastasia não ter seguido os passos de Dilma: diferentemente de Lula, que exibia a ex-ministra da Casa Civil como sua sucessora desde 2007, Aécio só começou a promover Anastasia de fato após deixar o governo, em março de 2010.
A Folha apurou que há a avaliação ainda de que, uma vez governador, Anastasia "se apequenou": afundou-se na burocracia interna e deixou para fazer campanha pelo Estado só no período oficial, a partir de julho.
"Ele é uma pessoa discreta e sem preocupação com holofotes", afirma o presidente do PSDB-MG, deputado federal Nárcio Rodrigues.
Alguns tucanos minimizam a demora e dizem que foi melhor assim porque Aécio não "transgrediu" a lei, antecipando a campanha.
"Lula passou dois anos falando da Dilma na TV, chamando-a de "mãe do PAC'", diz o deputado federal Rodrigo de Castro (MG), secretário-geral do PSDB nacional.

APOIO
Os aliados de Anastasia esperam superar o prejuízo com a ajuda da coligação formada por 12 partidos e a expectativa de que, com a propaganda na TV, Aécio consiga transferir sua popularidade ao atual governador.
Os tucanos lembram ainda que, em 2008, Márcio Lacerda (PSB) se elegeu prefeito de Belo Horizonte depois de começar mal. Só deslanchou após os programas de TV com os apoios de Aécio e do então prefeito Fernando Pimentel (PT).
Pesa ainda a favor de Anastasia a última pesquisa espontânea do Datafolha, na qual não é apresentada uma lista de candidatos.
Costa tem 10% e Anastasia, 7%. Outros 4% citam Aécio, que vai disputar o Senado. Somando-se as intenções de voto declaradas aos dois tucanos, Anastasia supera o adversário numericamente.
Além disso, as pesquisas espontâneas mostram o grande desconhecimento da população sobre a eleição para governador em Minas: 73% não sabem em quem votar, contra 46% na eleição presidencial.



Propaganda de aliados não cita Serra

Com 25 dias de campanha, imagem de tucano não aparece em santinhos e adesivos de candidatos nos Estados

Fotos da rival Dilma estão em material de campanha de aliados do PT em 7 dos 8 maiores colégios eleitorais

BRENO COSTA
da FSP

Com 25 dias de campanha, os candidatos a governador aliados de José Serra (PSDB) nos oito maiores colégios eleitorais do país ainda não incorporaram a imagem do tucano em seus santinhos, adesivos e cartazes.
Até sexta-feira, só a campanha de Antonio Anastasia, em Minas Gerais, começava, timidamente, a produzir material casado. Mesmo em São Paulo, base de Serra, ainda não há material com ele ao lado de Geraldo Alckmin -exceto painéis em encontros de sua coligação.
Nos sites dos candidatos nesses Estados, que representam 94 milhões de eleitores, não havia um único material de campanha casado disponível para download. Nem mesmo na apresentação das páginas havia uma foto do candidato.
A foto oficial de Serra, em alta resolução, está disponível no seu site oficial desde o início da corrida presidencial. Com ou sem Serra, o custo de imprimir um adesivo, por exemplo, é o mesmo.
O cenário é distinto do de sua adversária Dilma Rousseff (PT), cuja imagem acompanhava o material de campanha de seus aliados em 7 desses 8 Estados.
Coordenador da campanha de Serra, o senador Sérgio Guerra citou um exemplo da Paraíba -em que a imagem de José Maranhão (PMDB), aliado de Dilma, estaria associada exclusivamente ao presidente Lula- para explicar seu raciocínio.
"Por que tinha material dele só com o Lula? Porque o Lula dá voto, e a Dilma não dá", disse Guerra.
O material de Maranhão, no entanto, inclui Dilma.
Questionado se a mesma lógica se aplicava, então, aos casos em que Serra está ausente do material com os candidatos ao governo, desconversou e elogiou Lula.
"A única exceção nessa história é o Lula", disse o senador, que nega que os aliados estejam escondendo deliberadamente a imagem de Serra nos Estados.
Ele mesmo disse não ter Serra em seus santinhos para deputado federal. Segundo Guerra, por erro na montagem do material.
Na campanha de Marcos Cals (PSDB-CE), em vez do presidenciável Serra, o postulante à reeleição no Senado Tasso Jereissati é onipresente nas propagandas.
Serra ainda não entrou por "dúvidas na hora de contabilizar os custos" da impressão da imagem do candidato, segundo José Liberato, coordenador da campanha de Cals.
No Paraná, onde Beto Richa (PSDB) lidera as pesquisas e por onde Serra iniciou oficialmente sua campanha, a promessa era que o material casado comece a ser distribuído amanhã.
Em Pernambuco, segundo maior eleitorado do Nordeste, região onde Serra tem o pior desempenho nas pesquisas, a coordenação da campanha de Jarbas Vasconcelos (PMDB) disse, na quarta-feira, que a imagem do tucano chegara na véspera. Até ontem, contudo, ainda não havia material casado.




ELIANE CANTANHÊDE
da FSP

Vamos ao que interessa?

BRASÍLIA - Até agora, o que se vê, lê e ouve é Dilma e o PT dizendo que José Serra deslizou para a direita e vai ter "um fim melancólico", e José Serra chamando Dilma e o PT de "trogloditas de direita" por apoiarem o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad.
Um candidato chama o outro de feio, de chato, de bobo, de direitista, numa profusão de adjetivos pejorativos. E nós com isso?
Enquanto eles ficam nesse rame-rame, o Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) divulga relatório colocando o Brasil no terceiro pior nível de desigualdade de renda do mundo, melancolicamente empatado com o Equador. Aliás, dos 15 países com maior concentração de renda, dez são da América Latina.
Enquanto os candidatos trocam adjetivos e quebram a cabeça com estratégias mirabolantes e pegadinhas espertas, fica-se sabendo que o Brasil tem uma nota anual de 4,6 no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) e que muito dificilmente vai atingir a meta de chegar à nota 6 em 2021.
E, enquanto eles pensam em cabelo, maquiagem, empostação de voz e qual a próxima maldade contra o adversário, vem a informação de que 8 milhões de eleitores são analfabetos e 19 milhões declararam saber ler e escrever, mas nunca pisaram numa sala de aula.
A pior situação é no Nordeste, mas é chocante por toda a parte. Dê um pulo ali na escolinha de Sobradinho dos Melo, a meia hora do centro da capital da República, e pergunte quantos pais e mães sabem ler e escrever...
Quando o dado do analfabetismo saiu do TSE e inundou o país de vergonha, o que se perguntou é se o analfabeto (um a cada cinco eleitores) tem discernimento para votar. Mas a pergunta é outra: como os candidatos e candidatas pretendem tornar o país mais justo e quitar essa dívida com os cidadãos?
A resposta não comporta adjetivos e sim compromisso




CLÓVIS ROSSI
da FSP

Sobre avacalhações

SÃO PAULO - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva acha que acaba virando uma esculhambação se algum país desobedecer suas leis para atender pedidos de presidentes.
E daí, presidente? Se as leis são primitivas, medievais, como a que prevê a lapidação de adúlteros e adúlteras no Irã, viva a avacalhação. Ditadura é mesmo para ser avacalhada.
O presidente sabe disso. Tanto sabe que, em seus tempos de sindicalista, deu valiosa contribuição para avacalhar a ditadura militar, ao desafiar suas leis e, mais ainda, o arbítrio não previsto nem mesmo nas leis de exceção.
Além disso, não achava avacalhação pedir a solidariedade de sindicatos e autoridades estrangeiras.
Inúmeros companheiros seus, na época, também recorreram a governantes estrangeiros para tentar pressionar a ditadura. Ou avacalhá-la, se o que vale é a nova e atual versão de Lula.
Conheço pelo menos um caso de ex-preso político, torturado, que agradece até hoje a ação do então presidente norte-americano Jimmy Carter para afrouxar as regras da ditadura (ou avacalhá-las, diria o Lula-2010) e preservar a sua vida.
Os militares rangeram os dentes, reclamaram, espumaram, mas a vida seguiu, as relações diplomáticas, econômicas e comerciais só fizeram melhorar com o passar dos anos, até porque, como diz o chanceler Celso Amorim, "negócios são negócios". Princípios, bom, aí é outra história.
Ditaduras são, se o leitor me perdoa a incorreção política, como se dizia ser a mulher do malandro: a gente pode até não saber porque está batendo, mas elas sempre sabem porque estão apanhando.
Logo, Lula não precisa ter medo de perder negócios se fizer com a ditadura iraniana, como presidente, o que fazia com a brasileira, como opositor. Ajudaria a não avacalhar a sua própria biografia.





"Governo Lula é nefasto", afirma Plínio

Para ele, PT é a "primeira grande realização" dos brasileiros, mas atual gestão "paralisou" o movimento popular

Candidato do PSOL à Presidência, ele diz que, caso vença as eleições, não pretende implantar o socialismo no Brasil

FERNANDO GALLO
da FSP

Depois de ter ajudado a lançar a primeira candidatura de Fernando Henrique Cardoso ao Senado e de ser um dos coordenadores da primeira campanha de Lula à Presidência, Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) vai a seu primeiro pleito presidencial. Aos 80 anos, ainda defende as mesmas bandeiras do início de sua militância política, como o socialismo e uma reforma agrária radical.
Egresso do PT, onde ficou por 25 anos, Plínio chama o atual governo de "nefasto" e diz que o capital estrangeiro "permite a Lula fazer populismo com o dinheiro".

Folha - Quais serão as suas principais plataformas? Plínio de Arruda Sampaio - Uma reforma agrária radical e uma socialização da educação e da saúde.

O sr. fala em implantar o socialismo. Como isso funcionaria?
Eu não pretendo implantar o socialismo no Brasil e nem é a pretensão do meu partido agora. Vou fazer uma proposta dentro do marco do capitalismo. As únicas formas socializadas que vamos ter são a saúde e a educação.

O sr. daria um calote na dívida?
Calote é uma expressão ideológica. Vamos suspender o pagamento e fazer uma auditoria. O que for dívida, vamos conversar e negociar o pagamento. O que não for, não vamos pagar. Os setores internos credores do Estado são os mais ricos. Eles podem esperar um pouco.

Isso não provocaria uma fuga de capitais do país?
É possível que tenha um pouco esse efeito. Mas não há necessidade desse afluxo contínuo de capital estrangeiro para criarmos uma boa economia neste país. Podemos, com os recursos internos jogados no mercado interno, ter um índice de crescimento razoável. Ninguém quer competir com a China.

Como o sr. avalia o governo Lula?
Acho um governo nefasto. Porque cooptou e paralisou o movimento popular. Cooptou as lideranças, transformou os movimentos em ONGs, terceirizou uma série de serviços que são do Estado como forma de transpassar dinheiro para as entidades.

Que avaliação o sr. faz do modelo econômico brasileiro?
É neoliberal. É uma política de neocolonização, de fazer com que o Brasil, que já foi a oitava potência industrial do mundo, volte a ser um país exportador de produtos primários. O Brasil oferece um juro altíssimo. O dinheiro vem pra cá e permite ao Lula fazer esse populismo com o dinheiro, gerando a ideia pra classe C e D de que ela subiu pra classe B. Porque ela agora consome eletrodomésticos, pode até comprar automóveis em não sei quantos meses. E ela se endivida. Isso é uma coisa terrível. É nefasto, não é um adjetivo à toa.

Como o sr. vê o PT de hoje?
Tenho uma tremenda tristeza porque o PT é a primeira grande realização do povo brasileiro. Isso se perdeu. A maioria dos petistas é gente ótima. O que houve foi um desvio de cúpula. A cúpula dirigente abandonou o projeto petista e assumiu um projeto de poder.

Quais seriam os principais vetores da reforma agrária que o sr. faria?
O primeiro é considerado um escândalo, tem gente que fica assustada quando digo. A propriedade da terra tem que ter um limite. Tem na Inglaterra, na França, em tudo quanto é lugar. Você não pode ter o monopólio da terra. O MST e a Igreja estão colocando mil hectares como limite. Daí pra cima se torna desapropriável.




Cara ou coroa?



Cara ou coroa?

Fernando Henrique Cardoso
do Estadão

Em pouco mais de dois meses escolheremos o próximo presidente. Tempo mais do que suficiente para um balanço da situação e, sobretudo, para assumirmos a responsabilidade pela escolha que faremos. É inegável que a popularidade de Lula e a sensação de "dinheiro no bolso", materializada no aumento do consumo, podem dar aos eleitores a sensação de que é melhor ficar com o conhecido do que mudar para o incerto.

Mas o que realmente se conhece? Que nos últimos 20 anos melhorou a vida das pessoas no Brasil, com a abertura da economia, com a estabilidade da moeda trazida pelo Plano Real, com o fim dos monopólios estatais e com as políticas de distribuição de renda simbolizadas pelas bolsas. Foi nessa moldura que Lula pregou sua imagem.

Arengador de méritos, independentemente do que diga (quase nada diz, mas toca em almas ansiosas por atenção), vem conseguindo confundir a opinião, como se antes dele nada houvesse e depois dele, se não houver a continuidade presumida com a eleição de sua candidata, haverá retrocesso.

Terá êxito a estratégia? Por enquanto o que chama a atenção é a disposição de bem menos da metade do eleitorado de votar no governo, enquanto a votação oposicionista se mantém consistente próxima da metade. Essa obstinação, a despeito da pressão governamental, impressiona mais do que o fato de Lula ter transferido para sua candidata 35% a 40% dos votos. Assim como impressiona que o apoio aos candidatos não esteja dividido por classes de renda, mas por regiões: pobres do Sul e do Sudeste tendem a votar mais em Serra, assim como ricos do Norte e do Nordeste, em Dilma. O empate, depois de praticamente dois anos de campanha oficial em favor da candidata governista, tem sabor de vitória para a oposição. É como se a lábia presidencial tivesse alcançado um teto. De agora para a frente, a voz deverá ser a de quem o País nunca ouviu, a da candidata. Pode surpreender? Sempre é possível. Mas pelos balbucios escutados falta muito para convencer: falta história nacional, falta clareza nas posições; dá a impressão de que a palavra saiu de um manequim que não tem opiniões fortes sobre os temas e diz, meio desajeitadamente, o que os auditórios querem ouvir.

Não terá sido essa também a técnica de Lula? Até certo ponto, pois este, quando esbraveja ou quando se aferra pouco à verdade, o faz "autenticamente": sente-se que pode assumir qualquer posição porque em princípio nunca teve posição alguma. Dito em suas próprias palavras: "Sou uma metamorfose ambulante." Ora, o caso da candidata do PT é o oposto (essa é, aliás, sua virtude). Tem opiniões firmes, com as quais podemos ou não concordar, mas ela luta pelo que crê. Este é também seu dilema: ou diz o que crê e possivelmente perde eleitores por seu compromisso com uma visão centralizadora e burocrática da economia e da sociedade ou se metamorfoseia e vira personagem de marqueteiro, pouco convincente.

Não obstante, muitos comentaristas, como recentemente um punhado de brasilianistas, quando perguntados sobre as diferenças entre as duas candidaturas, pensam que há mais convergências do que discrepâncias entre os candidatos. Será? As comparações feitas, fundadas ou não, apontam mais para o lado psicológico. O que está em jogo, entretanto, é muito mais do que a diferença ou semelhança de personalidades. O quadro fica confundido com a discussão deslocada do plano político para o pessoal e, pior, quando se aceita a confusão a que me referi inicialmente entre a situação de desafogo e bem-estar que o País vive e Lula, que dela se apossou como se fosse obra exclusiva sua. Se tudo converge nos objetivos e se estamos vivendo um bom momento na economia, podem pensar alguns, melhor não trocar o certo pelo duvidoso. Só que o certo foi uma situação herdada, que, embora aperfeiçoada, tem a marca original do fabricante, e o duvidoso é a disposição da herdeira eleitoral de continuar a se inspirar na matriz originária. O candidato da oposição, esse, sim, traz consigo a marca de origem: ajudou a construir a estabilidade, a melhorar as políticas sociais e a promover o progresso econômico.

Não nos iludamos. O voto decidirá entre dois modelos de sociedade. Um mais centralizador e burocrático, outro mais competitivo e meritocrático. No geral, ambos os oponentes levarão adiante o capitalismo. Estamos longe dos dias em que o PT e sua candidata sonhavam com o que Lula nunca sonhou: o controle social dos meios de produção e uma sociedade socialista. Mas estamos mais perto do que parece de concretizar o que vem sendo esboçado neste segundo mandato petista: mais controle do Estado pelo partido, mais burocratização e corporativismo na economia, mais apostas em controles não democráticos, além de maior aproximação com governos autoritários, revestidos de retórica popular.

A escolha a ser feita é, portanto, decisiva. Como tudo indica, o teatro eleitoral está-se organizando para esconder o que verdadeiramente está em discussão. Há muita gente nas elites (vilipendiadas pelo lulismo nos comícios, mas amada pelos governantes e beneficiada por suas decisões econômico-financeiras) aceitando confortavelmente a tese de que tanto dá como tanto deu. Dê cara ou dê coroa, sempre haverá "um cara" para desapertar os sapatos. Ledo engano. Há diferenças essenciais entre as duas candidaturas polares. Feitas as apostas e jogado o jogo, será tarde para choramingar: "Ah, eu nunca imaginei isso." Melhor que cada um trate de aprofundar as razões e consequências de seu voto e escolha um ou outro lado.

Há argumentos para defender qualquer dos dois. Mas que não são a mesma coisa, não são. E não porque num governo haverá fartura e noutro, escassez, para pobres ou ricos. E sim porque num haverá mais transparência e liberdade que no outro. Menos controle policialesco, menos ingerência de forças partidário-sindicais. E menos corrupção, que mais do que um propósito é uma consequência.

*SOCIÓLOGO, FOI PRESIDENTE DA REPÚBLICA

Serra diz que não fala de 'vaivém' das pesquisas


Serra diz que não fala de 'vaivém' das pesquisas

ALFREDO JUNQUEIRA
do Estadão

O candidato do PSDB à Presidência da República, José Serra, recusou-se a comentar o resultado da pesquisa do Ibope, encomendada pelo jornal "O Estado de S. Paulo" e pela TV Globo, divulgada na noite de sexta-feira e que o deixou a cinco pontos porcentuais de sua principal adversária, a petista Dilma Rousseff. Pela primeira vez, o tucano aparece atrás da candidata do PT em uma sondagem do instituto, fora a margem de erro de dois pontos porcentuais para cima ou para baixo. De acordo com o Ibope, Dilma está com 39% nas intenções de voto, contra 34% de Serra.

Ao contrário do presidente de seu partido, Sérgio Guerra, que ontem mostrou preocupação com o resultado, Serra disse que não comenta "pesquisa em nenhuma situação, porque é um vaivém. Cada dia tem uma pesquisa, cada dia é um resultado. Eu não comento porque pesquisa vai, pesquisa vem, e o importante é a pesquisa da urna". Serra participou de caminhada na periferia da cidade de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Ele estava acompanhado do prefeito do município e presidente do PSDB fluminense, José Camilo Zito, e de seu candidato a vice, o deputado federal Indio da Costa (DEM).

O candidato do PSDB prometeu que, se eleito, vai instalar policlínicas na região, criará unidades específicas para realização de exames médicos, transformará os trens urbanos que atendem a Baixada Fluminense em metrô de superfície e investirá em programas de ensino técnico e profissionalizante.

A caminhada foi organizada por Zito, que em um trio elétrico pedia votos para sua mulher e filha, candidatas à Assembleia Legislativa e à Câmara dos Deputados, respectivamente, e para Serra. Apesar do PSDB no Rio oficialmente apoiar a candidatura do deputado federal Fernando Gabeira (PV) ao governo, Zito não citou o nome dele nenhuma vez. Mesmo o material de campanha espalhado pelas ruas não fazia qualquer alusão ao candidato verde. Os aliados do prefeito e a estrutura do PSDB na cidade estão a serviço da candidatura de Sérgio Cabral Filho (PMDB), que busca a reeleição apoiado pelo presidente Lula. Serra chegou quando a caminhada já percorria as ruas da cidade há mais de duas horas. Ficou no local durante pouco mais de uma hora. O tucano não quis falar no microfone e passou o tempo todo cumprimentando moradores que acompanhavam o evento da porta de suas casas.



'Quem está de jipe conhece melhor o estado do que quem anda de helicóptero', diz Gabeira

de O Globo


RIO - O candidato ao governo do Rio pelo PV, Fernando Gabeira, rebateu na manhã desta sexta-feira a ironia de seu adversário, Sérgio Cabral, que disse que o deputado precisa conhecer melhor o estado . Cabral deu a declaração na quinta-feira, após o jipe que Gabeira utilizava para fazer um percurso de 22 quilômetros ter quebrado na estrada estadual RJ-113, devido aos buracos da pista. O candidato do PV criticou a postura do governador que, segundo ele, utiliza helicópteros em grande parte de seus deslocamentos.

- Cabral disse que eu ficar a pé na Baixada Fluminense era para conhecer o estado. Bom, quem está de jipe na estrada conhece melhor o estado do que quem anda de helicóptero - rebateu o verde, que visitou a comunidade Parque União e o Museu da Maré.

" Quem está de jipe na estrada conhece melhor o estado do que quem anda de helicóptero "


Segundo o candidato, os maiores problemas da região são a falta de saneamento básico e de escolas de ensino médio.

- Na Maré, há uma rede com 14 escolas municipais de ensino fundamental e apenas uma estadual de ensino médio. Há um afunilamento que precisa ser resolvido - ele disse.

'Minha expectativa com o Ibope é sempre a pior possível', diz Gabeira

Ainda durante a manhã, o candidato do PV afirmou que tem as piores expectativas possíveis para a pesquisa Ibope que será divulgada nesta sexta. Segundo ele, a metodologia de pesquisa do instituto possui dificuldades em registrar a intenção de voto de campanhas como a dele.

- A minha expectativa com o Ibope é sempre a pior possível. O Ibope só não me deixa devendo votos porque não consegue - disse o candidato, rindo.

" O Ibope só não me deixa devendo votos porque não consegue "

Gabeira lembrou o episódio da eleição de 2008, em que foi apontado como o sexto colocado no momento em que a TV Globo utilizava a pesquisa para selecionar os cinco candidatos que seriam entrevistados em seus programas. O deputado ressaltou que, na época, começou a campanha com 3% das intenções de votos, e terminou com 49%.

- A nossa campanha vai crescer a partir da semana que vem, quando as emissoras de televisão começarem a cobrir as eleições diariamente. Saiu uma pesquisa Datafolha que indica que 80% dos eleitores só tomarão conhecimento dos políticos pela televisão - afirmou o candidato

Em Sucupira, nem todos são Odorico


FERREIRA GULLAR
da FSP

Em Sucupira, nem todos são Odorico

Ao contrário dos que fingem que trabalham, Bernardinho trabalha; o técnico é exemplo para nós

NUM PAÍS onde impera a safadeza -onde se faz que faz, mas não faz, onde se faz comício para assinar contrato de obras que não serão feitas-, país que é, na verdade, a Sucupira de Odorico Paraguaçu, uma personalidade como Bernardinho, técnico da seleção brasileira de vôlei, tem que servir de exemplo.
Ao contrário dos que fingem que fazem, ele faz; ao contrário dos que fingem que trabalham, ele trabalha; ao contrário dos enganadores irresponsáveis, ele é responsável, competente, dedicado inteiramente ao compromisso que assumiu. Um exemplo para todos nós, cidadãos de Sucupira!
Fora isso, ele é mesmo um exemplo de técnico, um exemplo não só de dedicação, mas também de competência. Seria um absurdo atribuir simplesmente à sorte a quantidade de vitórias que conquistou, culminando agora com o nono título de campeão da Liga Mundial de Vôlei. Até domingo passado, o Brasil empatava com a Itália, de oito a oito. Com a vitória sobre a Rússia, ultrapassou os italianos.
No futebol, acho um exagero quando se atribui tudo ao técnico, se o time ganha e, especialmente, quando perde: se perder várias vezes seguidas, dança. Acho injusto, porque o jogo se decide no campo, não basta o técnico ser bom. Mas, e no vôlei, o jogo não se decide na quadra? Por que então atribuir o êxito ao Bernardinho?
O argumento é procedente: no vôlei, como no futebol, se ganha é jogando bem e não é o técnico que joga por todos ali. Sim, mas há uma diferença, que tem a ver com o tamanho da quadra de vôlei, muito menor que o campo de futebol e onde há menos gente jogando. Daí a influência maior do técnico no resultado de uma partida de vôlei.
É uma teoria, claro. Penso o seguinte: no vôlei, como há menos jogadores num espaço menor, pode o técnico ter mais controle sobre as probabilidades das jogadas, como atuará o adversário, que possibilidades tem de neutralizá-lo etc.
Já no futebol, com tantos jogadores em campo, deslocando-se num espaço enorme e com muito maior liberdade, o grau de probabilidades é muito alto, e, por isso, foge à previsão do técnico. É claro que, tanto num caso como noutro, o talento dos jogadores é decisivo, uma vez que, com maus jogadores, nenhum técnico montará um time vencedor, tanto no futebol quanto no vôlei.
Mas é impossível ignorar que, numa disputa como esta da Liga Mundial de Vôlei, que o Brasil acaba de vencer, em que todos os times são excelentes e os jogadores, do mais alto nível, por que, então, o Brasil vence sempre? E mais: o time que venceu domingo passado era quase todo de novos jogadores. Se os jogadores mudaram e o time continuou vencendo, temos que reconhecer que o craque maior desse time é mesmo o Bernardinho.
E já que falei em Sucupira e em Odorico Paraguaçu, é quase inevitável perguntar: e se o Bernardinho se candidatasse a prefeito ou governador? Nem pensar!
A análise que fiz, comparando futebol e vôlei, vale muito mais para a política: aqui, não só o campo de atuação é muito maior, o número de "jogadores" também é maior. Neste jogo, ninguém obedece às regras: pelo contrário, está todo mundo a fim de burlá-las. Vence quem "dribla" mais...
E já que falei em Sucupira e Odorico Paraguaçu, falo agora de "Odorico, o Bem-Amado", peça de Dias Gomes, que, depois de enorme sucesso na televisão, chega agora ao cinema. Fui ver o filme dirigido pelo talentoso Guel Arraes e me diverti muito. O Zeca Diabo, de José Wilker, está genial.
E durante o tempo todo me lembrava de meu amigo e parceiro, um de nossos maiores dramaturgos que, morto, não tem recebido as homenagens que merece, embora os personagens que criou tenham se incorporado à nossa vida. Há, no Rio, cidade onde viveu quase toda a sua vida, algum teatro, alguma rua, algum beco, com seu nome?
Não, mas há uma estátua do grande Ibrahim Sued, na avenida Atlântica. E por que a TV Globo, quando se refere a suas novelas e minisséries, não lhe cita o nome? É que a TV Globo as escreveu, virou dramaturga?
Mistérios difíceis de decifrar. E agora o "Bem Amado" se torna filme, mas aparece como sendo "baseado na obra de Dias Gomes". Baseado?! A história é a mesma, os personagens os mesmos, as falas as mesmas, as piadas as mesmas, a trama a mesma, o desfecho o mesmo. Quem é então o autor?.

E pode, ligeiramente grávida?




DANUZA LEÃO
da FSP

E pode, ligeiramente grávida?

A censura está voltando e é como gravidez: nenhuma mulher pode estar mais ou menos grávida

QUER DIZER QUE não se pode mais brincar com a figura dos candidatos? Não entendi bem: os programas humorísticos de rádio e televisão não podem, mas a imprensa escrita pode, ou também não pode?
Mesmo aos que escrevem coisas sempre sérias acontece, um dia, de soltar sua veia humorística; a franga, como se diz. Uma frase, uma palavra, qualquer coisa que tenha ocorrido e que dê vontade de fazer uma brincadeira, mesmo sem dizer os nomes.
Mas gostaria de saber, por exemplo: se eu disser que uma determinada candidata faz parte da tribo dos bichos-grilo, posso ir presa? E se escrever que um dos candidatos tem as olheiras mais sexy do país, irei para o tribunal, algemada? E se disser que uma outra candidata parece um sargentão autoritário, daqueles que dão medo, será que tenho que pedir asilo em alguma embaixada?
A censura está voltando, gente, e censura é como gravidez: nenhuma mulher pode estar mais ou menos grávida. Ou está, ou não está. Com a censura, é igual: ela existe, ou não. Que saudades dos tempos em que o Brasil era uma democracia.
Daqui a pouco vão dizer o que devemos e podemos comer, para ter uma vida saudável, e nunca terá havido, no mundo, um país com hábitos alimentares tão perfeitos. Lula tem certeza de ser Deus, e acha que, olhando nos olhos, pode mudar o universo. Se ele não fingisse que ignora os escândalos que acontecem em seu governo, já estaria mais do que bom, mas vamos nos preparando para dar ótimas risadas depois das eleições, com o "Casseta & Planeta", "Pânico na TV" e "CQC"; eles não vão deixar barato, a não ser que o humor seja definitivamente proibido no país - o que não é impossível, dependendo do resultado da eleição. Lula não sabe perder, e foi um papelão não ter ido ao encerramento da Copa. Se o Brasil tivesse ganho, seria ele o grande vencedor, e não quero nem pensar no que íamos ter que aturar.
Por falar em futebol, é claro que deve haver ordem dentro de um estádio, mas não adianta fazer leis para regulamentar as torcidas, se não houver quem as faça serem cumpridas. Vai ser assim: se houver um tumulto a menos de 5 km do estádio, é crime, mas um tumulto a 8 km, tudo bem.
Estão se metendo demais em nossas vidas; devagarzinho, de mansinho, vamos acabar monitorados, dentro de nossas próprias casas. Nem uma palmadinha se pode dar -sob as penas da lei. E fala sério: entre uma palmadinha no bum-bum, um lugar onde praticamente não se sente dor, e uma palavra raivosa ou um tapa, na hora da raiva, há uma enorme diferença.
O Brasil corre o risco de se transformar em um imenso Big Brother, com câmeras de TV em cada cômodo de cada casa, espionando a relação entre pais e filhos -e eu acho que já ouvi falar disso. Não teria sido no livro "1984"?
Se ainda estivesse na moda, seria o caso de fazer uma sonoterapia até o dia da eleição, para ignorar os desrespeitos que estão sendo feitos à legislação eleitoral, sem que nada aconteça. Os exemplos de falta de ética que estão sendo dados ao país vão durar por muitos e muitos anos, pois se o presidente faz, por que razão um garoto não vai poder fazer igual?
Esse é o pior legado que um governo pode deixar; e é o que a era Lula vai deixar.
Oito anos é muito tempo.

As voltas que o mundo dá
As voltas que o mundo dá


Gaudêncio Torquato
do Estadão

O mundo dá voltas. E que voltas. Fosse sindicalista hoje no ABC paulista, Lula estaria concluindo uma faculdade e, quem sabe, até planejando fazer pós-graduação. A dedução provém do exemplo dado pelo atual presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, Sérgio Nobre, formado em Relações Internacionais e com plano de continuar a trilhar os estudos na academia. As curvas que o mundo dá flagram contrastes que deixam estupefatas as mentes mais inovadoras. Quem poderia imaginar, por exemplo, uma onda de greves fazendo tempestade na China e a bonança amainando os mares do sindicalismo brasileiro neste ciclo eleitoral, que é o mais convidativo às intempéries? Pois essa é a radiografia da esfera do trabalho nesses dois países que integram o Bric, a China, a maior população mundial e que se prepara para ser a segunda economia do planeta, e o Brasil, que ambiciona chegar ao quinto lugar em menos de uma década. O redesenho que ocorre no cenário trabalhista nas duas nações abriga um feixe de conjunções, mas uma delas é seguramente a alavanca principal das mudanças: a força do capital.

A China faz questão de atribuir os êxitos de seu extraordinário crescimento econômico ao que chama de "economia de mercado socialista", que nada mais é que a adoção de mecanismos próprios do capitalismo sob um sistema autoritário, no qual não funcionam as ferramentas das democracias ocidentais, como eleições abertas, separação de Poderes, imprensa livre, preservação de direitos individuais e sociais, etc. Apesar disso, o país não consegue conter a pressão sobre a base do edifício do trabalho e que tem como alavanca o capital, fator que move e direciona as economias contemporâneas, seja qual for o regime político. Gigantes da produção enfrentam ali ondas de greves por aumento de salários. A maior fabricante de produtos eletrônicos do mundo, a Foxconn, elevou em um terço o salário de seus 600 mil trabalhadores e a japonesa Honda, para administrar quatro grandes greves, teve de dar um aumento de 45%, elevando a remuneração para 1.420 yuans (R$ 370, bem menos que o salário mínimo brasileiro, de R$ 510). Chama a atenção o fato de que o território da mão de obra barata por excelência começa a mudar a identidade. Os 150 milhões de migrantes rurais do país ganharam incentivos do governo e, com a renda em alta, começam a se libertar da prisão dos salários precários. O esgotamento do ciclo da mão de obra barata na China já é algo que a vista alcança.

Se é arriscado apostar na tese de que a mais forte nação emergente - e socialista - se curva aos domínios do capital, é razoável supor que a barreira imposta aos mecanismos que dão vida às democracias deixa uma fresta para o respiro social dos ares trabalhistas. Tal escape tem que ver com a válvula da panela de pressão. Não existisse para deixar vazar o vapor, a panela poderia estourar. É preciso convir também que a China faz esforço para se integrar à nova ordem imposta pela sociedade pós-industrial, na qual se abrigam fatores como a expansão desenvolvimentista, o fomento dos setores produtivos, a garantia de postos de trabalho para sustentar populações economicamente ativas e contingentes de aposentados, o incentivo à produção de alimentos e a crescimento dos setores de serviços. A conjunção desses elementos implica menores disparidades sociais, supressão de antagonismos de classes e arrefecimento das facções ideológicas. Por mais que a China proclame sua devoção ao socialismo, não resiste a participar do jogo do mercado, em especial o do tabuleiro do capital e o da mesa dos investimentos. Para não se isolar, o país tem de se ajustar aos parâmetros de uma nova ordem, que busca de maneira incessante meios para atingir a aspiração maior de suas populações: o bem-estar.

Se a China se movimenta em direção ao ponto da roda onde se encontra a praça capitalista, o Brasil, sob a égide das liberdades democráticas, já passeia por ela há bom tempo. Da década de 70 - quando Lula, o metalúrgico, exibia na camiseta a exclamação "hoje não tô bom", expressa por um carrancudo João Ferrador - aos nossos dias, este país deu um giro de 360 graus. Se o regime militar carecia de logotipia revolucionária para simbolizar o contraponto, a redemocratização eliminou excessos e buscou acalmar o espírito social. A barba desgrenhada e as feições de quem estava pronto para entrar no ringue deram lugar a um perfil bem arrumado. A estética ganhou o refino dos melhores salões. E a semântica, apesar de ainda incorporar parcela da linguagem das ruas, apurou significados para corresponder ao novo perfil. Luiz Inácio ganhou o status de mais alta autoridade do País. E transformou o berço que lhe deu fama em gigantesca cama do sindicalismo. Centrais sindicais ganharam posição legal e munição financeira, tomaram conta das relações do trabalho, produziram um dicionário de costumes. Foi assim que o sindicalismo passou a tecer o cobertor que cobre as relações entre o capital e o trabalho e que tem como lema: trabalhadores ganharão mais se as empresas aumentarem a produtividade e os lucros.

Por isso o grevismo tem de ser contido. As conquistas em série passam a ser preservadas e expandidas com a tinta da caneta que jorra forte dos tinteiros das fontes instaladas no Planalto. Sob essa fortaleza, a base sindical no ABC de Lula alargou-se e é a maior em 15 anos, conforme esclarecedora matéria de Marcelo Rehder neste jornal (25/7). A mobilização das categorias incorpora novas motivações. E bloqueios de fábricas podem sinalizar contrariedade e borrar a imagem do governo. Em seu lugar, o clima de harmonia imanta o conceito da administração. E assim avançam os núcleos trabalhistas. Satisfeitos e endinheirados. À procura de novos horizontes. Agora é a mídia que funcionará como tuba própria de comunicação. Em breve os trabalhadores verão sua primeira emissora de televisão, a TVT. O Estado-espetáculo chega, fosforescente, ao mundo do trabalho.

*JORNALISTA, É PROFESSOR TITULAR DA USP E CONSULTOR POLÍTICO E DE COMUNICAÇÃO


Negócio de oportunidade
Negócio de oportunidade

Notas e Informações
do Estadão

O comunicado com o qual a Petrobrás informou ter tomado, em junho, novo empréstimo junto à Caixa Econômica Federal (CEF), desta vez no valor de R$ 2 bilhões, afirma que a operação é fruto de seu empenho "em explorar todas as oportunidades de financiamento oferecidas pelo mercado financeiro". O empenho é justificável, pois a empresa precisa de recursos financeiros imediatos, enquanto prepara uma imensa operação de capitalização, para poder iniciar o ambicioso plano de investimentos no qual o governo Lula está vivamente interessado.

Não é, pois, o interesse da Petrobrás que torna a operação estranha. O que causa estranheza é a fonte desse empréstimo. Por que foi preciso utilizar a CEF, principal instrumento financeiro do governo para a execução de políticas públicas - sobretudo as de grande interesse social, como habitação, saneamento, infraestrutura urbana, entre outras -, para financiar a Petrobrás em condições que a empresa não informou ao público, mas considerou "atraentes, compatíveis com o mercado"?

Esse tipo de financiamento não é expressamente proibido pelos estatutos da CEF, que tem, entre seus diversos objetivos, "realizar quaisquer operações, serviços e atividades negociais nos mercados financeiros e de capitais, internos ou externos", e até operações de câmbio. Os atuais estatutos, em vigor desde 5 de junho de 2008, dão à Caixa mais flexibilidade para atuar no mercado, mas a possibilidade de realizar uma operação não quer dizer obrigatoriedade de realizá-la. Trata-se de uma decisão de seus dirigentes, ou de quem lhes dá ordens.

Em seu portal na internet, a CEF orgulha-se do fato de ser "o principal agente das políticas públicas do governo federal" e de, "de uma forma ou de outra, estar presente na vida de milhões de brasileiros". Suas principais linhas de atuação justificam boa parte dessa afirmação. Ela atende não apenas seus correntistas, mas todos os trabalhadores formais do País, por meio do pagamento de benefícios como o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço, o Programa de Integração Social e o seguro-desemprego; os beneficiários dos programas sociais do governo, como o Bolsa-Família; e os apostadores das loterias.

Além disso, lê-se em seu portal, "ao priorizar setores como habitação, saneamento básico, infraestrutura e prestação de serviços, a Caixa exerce um papel fundamental na promoção do desenvolvimento urbano e da justiça social no País, contribuindo para melhorar a qualidade de vida da população, especialmente a de baixa renda".

Desempenhar esse papel com competência e eficiência não é mais do que a obrigação social da Caixa, uma empresa 100% pública, que administra recursos em boa parte originários do Tesouro ou de fundos sociais de interesse dos trabalhadores.

A operação de financiamento de grandes empresas, com reconhecida atuação internacional e bem avaliadas nos principais mercados, não está, portanto, entre as que se esperam da Caixa. Para isso existem os bancos convencionais. Cada real emprestado pela Caixa para uma companhia de grandes dimensões, como a Petrobrás, é um real a menos para projetos e obras de interesse social.

Até agora, a CEF fez três empréstimos à Petrobrás - dois deles, no total de R$ 3,6 bilhões, em outubro de 2008, quando, em razão da crise internacional, a empresa petrolífera teve dificuldades para pagar tributos e outras obrigações. O valor dos três empréstimos corresponde a quase o triplo da carteira da área de saneamento básico, que, no primeiro semestre deste ano, totalizava R$ 1,982 bilhão, como mostrou o jornal O Globo. Corresponde também a 17,9% de todos os empréstimos concedidos a pessoas jurídicas. E se aproxima muito do valor dos contratos assinados dentro do programa "Minha Casa, Minha Vida", que totaliza R$ 5,6 bilhões, para o financiamento de 96 mil residências.

No comunicado, a Petrobrás garantiu que "se encontra em situação confortável de caixa", mas o volume de recursos que a CEF teve de mobilizar - excepcionalmente grande quando comparado com outras operações e que reduziu sua capacidade de operar em outras linhas -, numa operação que não se enquadra entre suas prioridades, alimentou dúvidas entre os investidores.

O petróleo equatoriano
do Estadão

O petróleo equatoriano

A exemplo do que já aconteceu na Bolívia e na Venezuela, chegou a vez de o governo bolivariano do Equador nacionalizar o setor petrolífero. De acordo com decreto assinado pelo presidente Rafael Correa, entrou em vigor no dia 26 a nova Lei de Hidrocarbonetos, pela qual as companhias petrolíferas que operam em território equatoriano terão de vender ao governo toda a sua produção, deixando de ter contratos de participação para ser apenas prestadoras de serviço. As companhias, entre elas a Petrobrás, a espanhola-argentina Repsol-YPF, o consórcio chinês Andes e a italiana ENI, terão 120 dias para dizer se aceitam ou não a revisão de seus contratos. Prevê-se um período de negociações difíceis com as petrolíferas, pois Correa ameaça expropriar as empresas que não aceitem "migrar" para o novo regime.

Correa pretendia alterar as regras do jogo através de projeto de lei enviado à Assembleia Nacional, onde foi objeto de acesos debates, sem que o governo conseguisse aprová-lo. Bem aos moldes do "socialismo do século 21", o presidente foi adiante e promulgou a lei, alegando decurso do prazo para exame pela Assembleia, e declarando ilegal qualquer obstrução legislativa. Correa prometeu submeter a decisão a um referendo popular em data não fixada.

Pelas regras anteriores, o governo equatoriano ficava com 70% das receitas do petróleo e, de agora em diante, ficará com a totalidade, ficando pendente de negociação a taxa de remuneração que o governo pagará às petrolíferas que operam no país. A depender das condições oferecidas, que não devem ser generosas, a operação poderá deixar de ser interessante para as empresas privadas estrangeiras ou locais, que, naturalmente, têm direito a uma indenização pelos investimentos já realizados.

O governo equatoriano promete pagar um "preço justo" pelos investimentos. Aí é que está o nó da questão. Como seus aliados bolivarianos, o governo se reserva o direito de ditar o que considera justo. Como se recorda, na nacionalização do petróleo na Bolívia, o governo do presidente Evo Morales fixou em US$ 60 milhões a indenização a ser paga à Petrobrás pelas duas refinarias nacionalizadas em 2006. A estatal brasileira pleiteava receber US$ 200 milhões. O caso poderia ser levado ao Centro Internacional para Arbitragem de Disputas sobre Investimentos (Ciadi) do Banco Mundial, mas em 2007 o governo boliviano retirou-se formalmente daquele organismo. Depois de prolongadas negociações entre os governos brasileiro e boliviano, a indenização à Petrobrás foi fixada em US$ 112 milhões.

A Venezuela não chegou a abandonar o Ciadi, onde estão em curso várias queixas de companhias expropriadas pelo governo Hugo Chávez (a última foi de 11 plataformas da empresa americana Helmerich & Payne, declaradas de utilidade pública em junho). No auge da nacionalização em 2007, a Connoco Phillips e a Exxon Mobil não aceitaram o "preço justo" oferecido pelo governo venezuelano por suas áreas de operação no Bacia do Orinoco e o caso foi parar no Ciadi. A Petrobrás também não aceitou tornar-se prestadora de serviços para a PDVSA, mas não se falou em indenizações pelos investimentos já feitos na região.

O que a Petrobrás e o governo brasileiro farão agora em face da nova Lei de Hidrocarbonetos do Equador? A estatal, por enquanto, não se pronunciou. No Equador, a Petrobrás integra um consórcio do qual fazem parte a japonesa Teikoku, a Cayman, com sede no Panamá, e a equatoriana Petromanaby, o que significa que terá de acertar uma posição com seus parceiros, o que não será fácil.

A julgar pelo histórico recente, a Petrobrás tenderia a aceitar passivamente os prejuízos decorrentes da nacionalização. Mas como as empresas com as quais está consorciada colocam acima de tudo os seus interesses comerciais, um acerto de Brasília com Quito pode ser mais problemático. Um recurso ao Ciadi em caso de nacionalização, o que é praticamente certo, não parece combinar com a orientação que a diplomacia petista imprime à atuação externa da Petrobrás.


Produção industrial na China atinge ritmo mais len
Produção industrial na China atinge ritmo mais lento em 17 meses

Atividade continua em expansão, mas analistas dizem que medidas para resfriar economia têm dado resultados.



- A produção industrial continuou a desacelerar na China em julho, atingindo o ritmo mais lento em 17 meses, segundo dados divulgados neste domingo pelo governo chinês.



A agência de notícias oficial chinesa, Xinhua, informou que o índice que mede as compras dentro da atividade passou de 52,1 em junho para 51,2 em julho - um indicador acima de 50 representa expansão.


A última vez que o índice foi para baixo de 50 foi em fevereiro do ano passado, afirmou a Xinhua.


Os resultados correspondem com a iniciativa chinesa de resfriar a economia para evitar o superaquecimento e a possível formação de uma bolha no setor imobiliário.


Analistas dizem que a restrição do crédito para as empresas por parte do setor bancário está fazendo efeito.


Ao mesmo tempo, o governo tem reduzido as medidas de estímulo para projetos de construção civil e controlando o investimento em fábricas com alto consumo de energia e emissão de poluentes.


Os dados mais recentes sobre o crescimento chinês mostram que a economia se expandiu 10,3% no trimestre encerrado em junho.


Foi um crescimento menor que o de 11,9% alcançado no trimestre de janeiro a março, mas bastante acima dos 8% fixados como objetivo pelo governo. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.


Bogotá nega estar planejando ataque contra a Venez


Bogotá nega estar planejando ataque contra a Venezuela

da FSP

O governo da Colômbia negou ontem que esteja planejando lançar ataque contra a Venezuela e que um helicóptero militar colombiano tenha invadido o vizinho, como o presidente venezuelano, Hugo Chávez, havia denunciado na véspera.
"A Colômbia jamais pensou em atacar o povo irmão da Venezuela, como afirmou o presidente desse país, num claro engano à própria nação", disse Bogotá num comunicado.
Anteontem, Chávez havia anunciado o deslocamento de unidades militares à fronteira ante a "ameaça de guerra" da Colômbia. Segundo ele, o colombiano Álvaro Uribe "é capaz de qualquer coisa nos dias que lhe restam" -Juan Manuel Santos assume no dia 7.
Bogotá também rejeitou a versão de que um helicóptero militar invadiu a Venezuela na quinta e disse que tem recorrido apenas a "canais do direito internacional" para que Caracas cumpra com sua obrigação de "não abrigar terroristas".
A Venezuela rompeu relações diplomáticas com a Colômbia no último dia 22, após Bogotá apresentar supostas provas à OEA (Organização dos Estados Americanos) de que Caracas abriga membros das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia).
Anteontem, Chávez disse que investigou as denúncias, porém não encontrou nada.


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