Evaldo Augusto Torres Alves /editor
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Política

Até 6ª feira
Dilma diz que não precisa de tranquilizante para debate

JOÃO DOMINGOS
do Estadão

Numa provocação direta ao tucano José Serra, a candidata petista Dilma Rousseff afirmou que não precisa de Lexotan (um tranquilizante muito popular) para enfrentar o debate entre os presidenciáveis que será realizado na quinta-feira, pelo Grupo Bandeirantes. Em compensação, acha que seu adversário mais direto precisará de muitos deles. "Acho que carregar um governo como o do presidente Lula é uma tarefa leve. Outros governos é que são pesados. Aí a pessoa vai precisar de vários Lexotan", disse Dilma, durante entrevista no comitê de campanha do Lago Sul, um dos três que tem em Brasília.

A petista - que decidiu passar os dois dias que antecedem o debate com Serra, Marina Silva (PV) e Plínio Arruda Sampaio (PSOL) concentrada nos preparativos para evitar cair em armadilhas, ao mesmo tempo em que tentará se mostrar pronta para assumir a Presidência do País - cancelou toda sua agenda pública. Disse que está preparada.


"Estou me preparando há muito tempo. Não é só para esse debate. No meu dia a dia de campanha procuro cada vez estudar mais." Segundo Dilma, os preparativos não miram somente a campanha, mas o governo, caso seja eleita. "Acredito que para governar bem é preciso ter conhecimento profundo da realidade do País, da situação das diferentes regiões. Sempre me aprofundo nos temas."

Lula

A ex-ministra deu uma mostra de como vai agir no debate, sempre procurando vincular seu nome ao do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "É um prazer defender o governo do presidente Lula, pelas realizações que ele conseguiu concretizar nesses sete anos e meio", afirmou.

Indagada se terá tranquilidade para enfrentar provocações, ela reagiu: "Vocês acreditam que um debate é um torneio de provocações? Eu não." E provocou: "Só palavras não adiantam nada. Tem de mostrar o que fez. Há uma diferença entre o dizer e o fazer. Eu já disse. Não vou descer o nível nessa campanha nem que alguém queira."


Salvem o tucano-verde
FERNANDO DE BARROS E SILVA
da FSP

SÃO PAULO - Para quem é tucano e precisa de voto, o Rio de Janeiro está longe de ser uma cidade maravilhosa, cheia de encantos mil. No mais recente Datafolha, José Serra tem 25% das preferências na capital fluminense, contra 40% de Dilma Rousseff e 14% de Marina Silva. No Estado do Rio, a situação é um pouco menos ruim: Serra tem 31%; Dilma, 37%; e Marina, 12%. Em 2002, quando foi derrotado por Lula, Serra teve só 21% dos votos no terceiro colégio eleitoral do país.
O PSDB, desta vez, não tem candidato próprio ao governo na terra do Redentor. Apoia Fernando Gabeira, do PV, numa aliança desconfortável que tem ainda DEM e PPS.
Por razões óbvias, Gabeira também é apoiado por Marina, a quem ele oficialmente dá o seu voto. Serra, ali, acaba sendo uma espécie de "amigo do amigo".
Criou-se no Rio um triângulo pouco amoroso, em que dois presidenciáveis partilham o mesmo nome ao governo. Alguém sempre tem um motivo para torcer o nariz.
Anteontem, Gabeira disse, num desabafo, que, se eleito, se sentia livre para "dar uma banana aos aliados". Era uma resposta aos tucanos, que teriam decidido não bancar os custos do programa de TV dos verdes, pelo menos nos termos acertados, uma vez que Gabeira não estaria cumprindo seu papel.
Ontem, Gabeira e Serra estiveram juntos em São Paulo. Tentavam aparar as arestas. A situação, no entanto, é tensa, até porque o governador Sérgio Cabral (PMDB), candidato de Dilma, tem 53% e pode ser reeleito no primeiro turno.
No cerne deste mal-estar, tudo indica insolúvel, está o fato de que Serra e Marina, ambos atrelados a Gabeira, disputam o mesmo eleitorado, o que os números estão a evidenciar. A candidatura Marina faz o tucano sangrar especialmente no Rio de Janeiro. Não é por outra razão que o demista Cesar Maia chama a candidata verde de "Heloísa Helena 2", enquanto Alfredo Sirkis, presidente do PV local, diz ver no tucano um "cavalo paraguaio".

Tudo é possível


Dora Kramer
do Estadão

Tudo é possível


A investigações sobre os atentados ao comandante, ao quartel da tropa de elite (Rota) da polícia e a queima de ônibus e carros nos últimos dias em São Paulo não indicam até agora com segurança que sejam ações coordenadas pelo Primeiro Comando da Capital (PCC). As escutas telefônicas dos presídios, por exemplo, não revelaram planos do que se convencionou chamar de crime organizado.

Entretanto, o fato de os atos criminosos se repetirem começa a levar as autoridades de segurança pública a suspeitar de que haja uma tentativa de criar uma situação de inquietação na cidade.

Com qual objetivo, o governador Alberto Goldman ainda não se arrisca a dizer, pois não tem informações ou indícios suficientes. Goldman não afirma, mas também não elimina a hipótese de que possa haver motivação eleitoral por trás dos crimes.

“Se os dias passam e os fatos continuam a acontecer é sinal de que existe alguma articulação”, diz ele.

O governador não tem comprovação nem faz ilação a respeito de ligações diretas entre partidos e facções criminosas. “Nin­­guém faz uma reunião para orientar isso ou aquilo”. Segundo ele, se houver organização nas ações o mais provável é que os líder es do PCC estejam se aproveitando do momento eleitoral para criar constrangimento ao governo.

“Eles sabem que a oposição vai criticar, vai explorar e vai dizer, como já está dizendo, que há perda de controle na segurança pública e não há perda de controle coisa nenhuma. É a hora e a maneira que eles escolhem para se vingar do governo, por isso é que seria melhor se os partidos não mordessem a isca e não entrassem nesse jogo.”

Goldman tem tido reuniões diárias para acompanhar os resultados das investigações e discutir com a área de segurança como prevenir novos atentados ou mesmo o aumento do clima de tensão.

“Estamos de prontidão”. A preocupação mais imediata agora é com o Dia dos Pais, no próximo domingo. Em 2006, as rebeliões em presídios e atentados ocorridos também na antevéspera das eleições começaram logo após o Dia das Mães.

Nessas ocasiões, os presos de melhor comportamento saem para visitas e pode haver por parte dos líderes que continuam presos uma distribuição de “tarefas” na rua para os que recebem o be­­nefício. Já aconteceu outras vezes e, de acordo com o governador, há preocupação de que no do­­mingo possa acontecer de novo. É disso principalmente que se ocupará a área de segurança pública de São Paulo daqui até lá.

Eleições

Sobre a disputa eleitoral propriamente dita, o governador Alberto Goldman avisa logo que não tem uma visão muito acurada sobre o cenário nacional, pois está absolutamente concentrado em São Paulo, onde não tem gostado de ver o crescimento de Dilma Rousseff nas pesquisas.

Ele confessa surpresa com o desempenho, que atribui a dois fatores: aos eleitores de oposição (ao PSDB) e à generalizada sensação de bem-estar proporcionada pelo aumento da capacidade de consumo gerada pela ampliação do crédito. “Este fator, a meu ver, é o mais importante e o mais difícil de combater porque, se as pessoas se sentem bem comprando, não vão dar ouvidos a quem alerta para as consequências amanhã ou depois.”

Goldman não está animado nem desanimado, estacionou no meio-termo, que é como ele vê a situação dos dois principais candidatos: “Equilibrados, aguardando que o eleitor desperte realmente para as eleições e deixe o quadro mais definido”.

Mas a campanha está na rua há muito tempo, não?

“Só para quem já tem a cabeça feita. A partir de agora é que começa a disputa para valer pelos votos daqueles 20% que vão decidir”.

Pesquisa

A vice-procuradora eleitoral, Sandra Cureau, mandou pedir ontem ao governador Alberto Goldman todos os discursos feitos por ele desde a posse, em abril.

Foram mais de cem pronunciamentos que serão enviados para Brasília. A procuradora quer examinar os textos para conferir quantas vezes Goldman infringiu a legislação fazendo campanha para José Serra


Incerteza e volatilidade


ANTONIO DELFIM NETTO
da FSP

Incerteza e volatilidade

A situação econômica mundial continua opaca e incerta até para quem deveria saber das coisas. A prova mais evidente são as diferenças de opinião entre Bernanke, do Federal Reserve dos EUA (o FED), e Trichet, do Banco Central Europeu (o BCE).
A verdade é que os Bancos Centrais perderam credibilidade na sua capacidade de formular políticas monetárias adequadas e, principalmente, pela clara demonstração de que foram incapazes de atender à verdadeira razão pela qual foram criados: manter higidez e liquidez do sistema financeiro.
A demonstração desse fato é que só depois da crise instalada eles resolveram fazer os "testes de estresse" (primeiro o FED e depois o BCE) do sistema financeiro, o que deveriam, rotineiramente, ter feito durante todo o tempo.
É preciso fazer exceção do Banco Central do Brasil. Talvez menos por virtude e mais por imposição da história, ele sempre teve cuidado com as ligações externas de nosso sistema bancário.
Com o Plano Real e a eliminação dos "lucros dos floatings", ele foi obrigado a produzir, em fevereiro de 1997, o Proes (Programa de Incentivo à Redução do Setor Público Estadual na Área Financeira) e, em março do mesmo ano, o Proer (Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional), que tornou o setor hígido, ao custo de 3% do PIB!
Esses programas, junto com a Lei de Responsabilidade Fiscal, de maio de 2000, foram as bases da construção da área monetária ótima no Brasil, preliminar para a eficácia da política monetária.
O fato interessante é que essas medidas foram furiosamente combatidas no Congresso pelas bancadas do PT. Posteriormente, no poder, este tirou delas maior proveito. A história mostra que com tempo suficiente até o PT aprende.
A volatilidade que as incertezas introduzem nas Bolsas mundiais é visível. Elas respondem nervosamente a qualquer notícia (razoável ou absurda; verdadeira ou falsa).
Uma descoberta de água em Marte, por exemplo, prejudicará a demanda futura dos equipamentos do setor de dessalinização das águas na Terra. Logo, o preço das ações do setor deve cair hoje, obedecendo às expectativas "racionais" dos fundamentais.
A situação é paradoxal. Os governos dos países desenvolvidos -cuja omissão ajudou a produzir a crise-, que usaram os impostos e os empregos tomados de quem ganhava a vida honestamente para enfrentá-la, não foram capazes, até agora, de reconquistar a confiança do setor privado. Sem ela não há saída. O mundo vai continuar a marchar para a insensatez fiscal e vai terminar muito mal.

Carta à esquerda
Carta à esquerda

Roberto Romano
do Estadão

"...é preciso cuidado, porque as pessoas têm leis, as pessoas têm regras...
Se começam a desobedecer às leis deles para atender ao pedido de presidentes, vira uma avacalhação"
(Lula, recusando apelar em favor de Sakineh Mohammadi Ashtiani, que poderá ser
apedrejada em praça pública)


Prezados senhores da esquerda brasileira:

Em 18/9/1969 foi decretada a Lei de Segurança Nacional, imposta pela Junta Militar. O seu texto previa exílio e pena de morte para os acusados de "guerra psicológica adversa, ou revolucionária, ou subversiva". Contra ela se mobilizou parte da sociedade civil, intelectuais e políticos opostos ao arbítrio, às torturas, aos tratamentos humilhantes dos presos políticos e à censura. Estratégica na luta contra a lei tirânica foi a mobilização de Estados democráticos estrangeiros e de suas elites favoráveis aos direitos humanos no Brasil.

Figuras proeminentes da Igreja uniram-se aos advogados, jornalistas e gente do povo para entregar às instituições internacionais denúncias e pedidos de inspeção no Brasil. Aqueles líderes eram acusados, pelos que apoiavam o regime, de tentar "denegrir a imagem da nossa terra no exterior". O slogan ditatorial - Brasil, ame-o ou deixe-o -, musicado por Dom e Ravel, reforçou a campanha supostamente patriótica que buscava apagar os gritos dos torturados. Existiam leis, mas os dignos intérpretes da norma jurídica foram calados, como é o caso de Evandro Lins e Silva, morto sem que o poder tenha reconhecido a injustiça contra ele, a sua cassação do Supremo Tribunal Federal. Existiam leis, mas elas não emanavam da soberania popular, surgiam das sombras, nos palácios.

Recordo o ensino de Norberto Bobbio. Poucos entenderam como ele, no século 20, a natureza da lei. Em magistral escrito, diz o jurista que a política se divide entre a praça e o palácio, e retoma o dito de Guicciardini: "Entre o palácio e a praça existe uma densa névoa ou muro tão grande que pouco sabe o povo sobre o que fazem os governantes e porque o fazem, como se o assunto dos dirigentes fosse algo feito na Índia." Bobbio indica o fato de não contarmos até hoje com uma sociologia da praça. E, no entanto, ela é fundamental na política. "Manifestação na praça" significa a multidão de pessoas indignadas com os palácios. A praça reúne muitos indivíduos, a sua forma aberta permite livres discussões. Quem para ela se dirige tem alvo comum: reivindicar direitos, ouvir líderes. "Na democracia representativa (...) a praça é a mais visível consequência do direito de reunião ilimitado quanto ao número de pessoas que possam exercitá-lo juntas e ao mesmo tempo" (Bobbio).

Finaliza o jurista dizendo que "palácio e praça são duas expressões polêmicas para designar, respectivamente, os governantes e os governados, sobretudo o seu relacionamento de incompreensão recíproca, de estranheza, rivalidade, ainda hoje como no trecho de Guicciardini. (...) Vista do palácio a praça é o lugar da liberdade licenciosa; visto da praça o palácio é o lugar do poder arbitrário. Se cai a praça, o palácio também é destinado a cair." A esquerda brasileira viveu o seu tempo de praça, quando enfrentou a repressão palaciana. Sob a ditadura, ela implorava a intervenção estrangeira para a defesa de seus direitos humanos. Nos palácios de agora, apoia os que, no Irã e na África, torturam, massacram, caluniam os opositores.

Senhores da esquerda: se perguntados sobre a violação dos direitos, os adeptos do regime autoritário respondiam que as leis deveriam ser obedecidas. Nada falavam sobre a legitimidade legal, pois o assunto era proibido e censurado. O presidente de hoje, com o Itamaraty, usa linguagem idêntica à dos generais e juristas formados na escola de Francisco Campos. Ele usou a praça para subir ao palácio e levou consigo a turba dos oportunistas que jamais tiveram compromissos com os direitos civis ou humanos. Como diz Bobbio, para quem está no palácio a praça, ao invocar direitos, é lugar de liberdade licenciosa, "avacalhação". Quem hoje é governo pode voltar à praça, a menos que deseje, por meios espúrios, garantir para si os palácios.

O nosso presidente não se recorda mais dos tempos em que era oposição. E apoia no Irã os que aplicam leis tirânicas, ali esvaziando praças com a ponta das armas. Aquelas mesmas praças eram cheias de cidadãos hoje presos, exilados, condenados à morte. Não é exigida coerência de ninguém. Todos podem trair os ideais que antes defendiam, ou pareciam defender. Mas não esqueçam, senhores da esquerda: a memória coletiva supera a propaganda que fornece popularidade aos ocupantes ocasionais dos palácios. Em tempo não muito distante o nome de Lula será posto ao lado dos realistas que negaram os direitos humanos em nome do "business", como diz o Itamaraty. Caso os senhores ainda se imaginem na ala esquerda, deveriam atentar para a escolha de algo que define a sua dignidade: preferem a truculência palaciana ou a "avacalhação" da praça? Optando pela primeira, os senhores entram para o clube de Mussolini, Francisco Campos, Filinto Müller, Pinochet e similares. Se a escolha for pela segunda, aceitem os cumprimentos de Sobral Pinto, García Lorca, Pablo Neruda, Evaristo Arns, Vladimir Herzog. Não existe muito tempo para o seu juízo: amanhã, na praça ensanguentada em que se transformou o Irã, os direitos humanos serão alvejados na carne de Sakineh Mohammadi Ashtiani. Sob o silêncio cúmplice dos palácios brasileiros.

P. S.: Solicitar ao Irã que exile a vítima e a instale em nosso país, como sugeriu o presidente, é agir como carcereiro de povos alheios. É transformar o Brasil em imensa colônia penal terceirizada. Nada mais.


*FILÓSOFO, PROFESSOR DE ÉTICA E FILOSOFIA NA UNICAMP, É AUTOR, ENTRE OUTROS LIVROS, DE "O CALDEIRÃO DE MEDEIA" (PERSPECTIVA)


Diplomacia da mesa do bar de Tia Rosa
Diplomacia da mesa do bar de Tia Rosa

José Nêumanne
do Estadão

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seus lugar-tenentes - o ministro oficial Celso Amorim e o chanceler oficioso Marco Aurélio Garcia - têm surpreendido o mundo com um tipo de política externa pouco respeitado, pelo menos entre Estados democráticos de Direito no Ocidente: a diplomacia da conveniência. Trata-se de uma leitura heterodoxa da ética da conveniência de Max Weber. E esse aparente pragmatismo a toda custa se traduz no slogan que o ministro de Relações Exteriores brasileiro cunhou para explicar a súbita adesão do chefe de governo brasileiro ao pleito de Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, tirano da Guiné Equatorial, país de colonização espanhola e francesa, de entrar na comunidade lusófona: "Negócio é negócio."

Essa retórica de fazer corar o mais pétreo dos especuladores do mercado de capitais passou por cima de graves acusações de violação de direitos humanos. E, pior ainda, do fato de o ditador ter sido considerado o oitavo governante mais rico do planeta pela revista Forbes, apesar de (ou seria et pour cause?) o país por ele governado ser um dos mais pobres do paupérrimo continente africano. Mas esta não foi a primeira nem a única vez que Sua Excelência, do alto de sua respeitável biografia de herói da democracia construída sobre os escombros do regime autoritário tecnocrático-militar no Brasil, fez pouco-caso da vida humana em benefício das próprias conveniências, que ele e seus áulicos confundem com as da Pátria. Mais chocante que o relógio de ouro e diamantes exibido pelo mandachuva há 31 anos em seu país, o mais antigo presidente da África inteira, foi a gargalhada flagrada pelos fotógrafos quando Lula conversava com Raúl Castro, o irmão mais novo de Fidel, no instante em que o cubano era informado da morte do prisioneiro dissidente em greve de fome Orlando Zapata. O escárnio do líder de um partido que se diz de trabalhadores pobres, ao manifestar tal descaso pelo sacrifício do preso negro, pedreiro e mártir de uma ditadura ainda mais longeva que a de Nguema, assustou, mais do que surpreendeu, as boas almas do mundo que devotam genuína admiração ao self made man que ascendeu da mais baixa à mais alta escala social, tornando-se o mais poderoso e popular governante do Brasil desde o desembarque do português Tomé de Souza em praias da Bahia. E o susto foi tão legítimo como a admiração.

Engana-se, contudo, redondamente quem imaginar que essa gargalhada tenha sido o ápice das desastradas intervenções brasileiras no episódio dos dissidentes cubanos. Lula comparou-os com bandidos comuns em prisões brasileiras. E Marco Aurélio Garcia tentou ficar com o crédito pela libertação esporádica de um grupo deles, dizendo que os espanhóis, que participaram efetivamente do acordo que os soltou, só fizeram o gol numa jogada armada pelo Itamaraty.

A diplomacia lulista não precisou sair do Caribe para armar mais uma confusão causada por essa mistura de arrogância e ignorância que o professor Roberto Campos chamava de "arrognância". Num lance de grosseria explícita, Sua Excelência resolveu ignorar a presença de Álvaro Uribe na presidência da Colômbia, menosprezando a soberania do vizinho amigo e democrático para beneficiar o compadre venezuelano Hugo Chávez. O desrespeito se assemelha a negar pedido de extradição do criminoso Cesare Battisti pela Itália, soberana e democrática, que lhe teria negado pleno direito de defesa.

A presidência da Colômbia, entre um vizinho arruaceiro e outro grosseiro, emitiu nota oficial na qual resumiu em poucas linhas a mentalidade que comanda a política externa brasileira nos últimos sete anos e sete meses: Lula tem dificuldade de distinguir o pessoal do institucional. Hábil negociador sindical, confunde a negociação em fóruns internacionais com as noitadas no bar de Tia Rosa, em São Bernardo, onde decidia os passos dos metalúrgicos nas greves no fim dos anos 1970. Para retaliar Uribe ele se dirigiu diretamente a Juan Manuel Santos, o eleito que tomará posse na presidência colombiana sábado, adotando atitude idêntica à assumida no mesmo dia pelas Farc.

Há uma semana, o jeito peculiar do lulismo de tratar da soberania dos povos produziu outra pérola da insensibilidade diplomática, quando o presidente brasileiro se recusou publicamente, como havia feito com os dissidentes cubanos, a pedir a comutação da pena de apedrejamento de uma mulher iraniana a seu "amigo" Mahmoud Ahmadinejad. "As pessoas têm leis. Se começarem a desobedecer às leis deles para atender ao pedido de presidentes, daqui a pouco vira uma avacalhação", justificou seu desinteresse pela vida de Sakineh Mohammadi Ashtiani, viúva acusada de adultério.

Mas Lula, o insensível, virou Lula, o magnânimo, em seu palco preferido, o palanque de sua candidata à própria sucessão, Dilma Rousseff, em Curitiba, sábado passado. Ali, na certa convencido de que lhes seria mais conveniente apelar pela vítima do que apoiar o carrasco, candidatou-se, com uma frase infeliz, a herói mundial pela comutação da pena capital da mãe de dois filhos condenada por adultério, que, em países democráticos, caso do Brasil, nem é mais passível de pena como crime ou sequer contravenção. "Se vale minha amizade e o carinho que tenho pelo presidente do Irã e pelo povo iraniano, se esta mulher está causando incômodo, nós a recebemos no Brasil", disse ele.

O recuo de Lula, mesmo não sendo atendido pelo destinatário, deve ser relevado em nome da boa causa. Elogiável será o efeito da metamorfose ambulante do presidente brasileiro pelo resultado que pode produzir. Mas não é exagerado lembrar que vidas humanas estão acima de interesses negociais e que a amizade pessoal nunca deve prevalecer sobre a liberdade individual. É bom que a diplomacia de conveniência do governo lulista tenha abraçado uma causa justa, mas tal mudança só produzirá efeitos positivos se vier com a consciência de que em diplomacia a conveniência não pode abrir mão do respeito.


*JORNALISTA E ESCRITOR, É EDITORIALISTA DO "JORNAL DA TARDE"


O troco de Teerã a Lula
O troco de Teerã a Lula


NOTAS & INFORMAÇÕES
do Estadão

O governo iraniano rejeitou ontem, em termos ríspidos, a oferta do presidente Lula de dar asilo à viúva Sakineh Mohammadi Ashtiani, condenada à morte por apedrejamento por um suposto crime de adultério - caso que mobilizou as organizações de defesa dos direitos humanos em muitos países e deu origem, no Brasil, ao movimento "Fala Lula", difundido pela internet. "O presidente da Silva tem uma personalidade muito emotiva e humana", disse o porta-voz do Ministério do Exterior do Irã, Ramin Mehmanparast, "mas provavelmente não tem informação suficiente sobre o assunto."

Portanto, aos olhos do regime do presidente Mahmoud Ahmadinejad, de quem ele se considera amigo e por quem diz sentir carinho, Lula é um exaltado que não sabe do que está falando. Na véspera, uma agência de notícias arquiconservadora ligada à Guarda Revolucionária, que age como uma espécie de polícia de costumes da teocracia, acusou o brasileiro de interferir em questões internas do Irã, "sob influência da mídia estrangeira". O que não se esperava era a canelada do próprio governo que tem em Lula o seu único aliado respeitável no Ocidente.

O regime teocrático iraniano é o que é e Ahmadinejad representa a linha-dura dos aiatolás no poder civil, mas Lula, efetivamente, tem demonstrado fartamente que "não tem informação suficiente sobre o assunto", como diria o porta-voz da chancelaria iraniana. Não tendo, quem sabe imaginasse que, depois de tudo que fez por Ahmadinejad no contencioso sobre o programa nuclear de seu país, teria direito a uma recompensa que o projetaria como salvador de uma vida a ser extinta por um dos meios mais bárbaros já inventados. Isso atenuaria o que ele disse no ano passado da brutal repressão aos dissidentes iranianos - "apenas uma coisa entre flamenguistas e vascaínos". E talvez apagasse a lembrança da sua manifestação inicial sobre a tragédia de Sakineh, a mãe de 2 filhos presa desde 2006, já punida com 99 chibatadas por alegado "relacionamento ilícito", e que, se não for afinal apedrejada, poderá morrer na forca aos 43 anos. Há uma semana, coerente com a sua folha corrida em matéria de direitos humanos - que o digam os prisioneiros políticos cubanos que comparou a "bandidos presos em São Paulo" -, Lula recusou-se a interceder pela iraniana com este desastrado argumento: "Se (as pessoas) começarem a desobedecer as leis deles para atender o pedido de presidentes, daqui a pouco vira uma avacalhação", declarou, no mais castiço lulês.

No círculo íntimo presidencial, alguém há de ter levado as mãos à cabeça e chamado a atenção do chefe para o provável custo eleitoral da enormidade que proferira, logo ele que escolheu uma mulher para lhe suceder. É a explicação mais plausível para a reviravolta que se seguiu, a menos que se acredite na versão de um assessor, segundo o qual "Lula ouviu a voz da consciência". O fato é que, na primeira ocasião apropriada - um comício em Curitiba, no sábado, ao lado da candidata Dilma Rousseff -, ele fez a sua oferta, com a promessa de ligar para Ahmadinejad.

Se ligou, não se sabe. Mas, à parte o áspero troco iraniano, o episódio é um exemplo dos improvisos e desencontros do governo na execução de sua desastrada política externa. A crer no chanceler Celso Amorim, ele havia pedido ao seu colega iraniano Manouchehr Mottaki que Teerã perdoasse Sakineh. Amorim disse ter feito o apelo, que o seu interlocutor ouviu em silêncio, há duas semanas - antes, portanto, de seu guia falar em "avacalhação". Além disso, o ministro deixou implícito que Lula deu o dito pelo não dito sem combinar com o Itamaraty. Dois dias depois da guinada, o chanceler comentou que ainda precisaria conversar com o presidente sobre a melhor maneira de formalizar a sua proposta de asilo.

Tudo isso não empana o mérito de Lula. Apesar da confusão e do atraso - e quaisquer que tenham sido os seus motivos -, ele fez a coisa certa ao sair em defesa da iraniana. As provações de Sakineh Mohammadi Ashtiani e a monstruosa ameaça que paira sobre ela ofendem o mais elementar senso de decência humana.

Vamos esperar que, mais bem informado, agora, sobre a essência totalitária do regime iraniano, Lula modere o apoio que lhe dá.

Rapidinhas


FERNANDO DE BARROS E SILVA da FSP

Aécio sob pressão

SÃO PAULO - Aécio Neves sempre disse que sua prioridade este ano seria eleger seu então vice, Antonio Anastasia, governador de Minas. Insistiu muito na importância estratégica da sua sucessão para resistir à pressão de que fosse vice de José Serra. Ao mesmo tempo em que costurava o jogo local, o mineiro vendeu até quando foi possível a ideia de que, no cenário nacional, ele representaria o "pós-Lula". Fazia um evidente contraponto a Serra, o "anti-Lula", quisesse ou não.
O "pós-Lula" foi atropelado pelos fatos. E o futuro de Aécio, para além da votação consagradora que terá ao Senado, está um tanto nebuloso. A dois meses da eleição, emplacar Anastasia parece mais complicado do que se imaginava.
As pesquisas mostram que Hélio Costa, sustentado pela aliança PMDB-PT, hoje venceria com folga. No último Datafolha, apareceu com 44%, contra 18% de Anastasia. Como os demais candidatos são inexpressivos, é praticamente certo que a fatura se liquide em 3 de outubro.
Hélio Costa tem fama de cavalo paraguaio, bom de largada, ruim de chegada. Em 1994, teve quase 49% dos votos no primeiro turno e acabou perdendo o governo para o tucano Eduardo Azeredo. Mas, desta vez, o ex-ministro de Lula tem o PT. E de verdade -o que muita gente até no PT duvidava ser possível.
Lula submeteu o partido ao projeto Dilma Rousseff e jogou Aécio no colo de Serra. O mineiro queria ser "pós", mas foi parar na oposição. Aécio não acreditava que Patrus Ananias, ex-ministro do Bolsa Família, aceitasse ser vice de Costa. Pediu a bênção à sua mãe e aceitou.
Minas viverá a sua guerra particular. Anastasia tem Aécio, tem a maioria das 853 prefeituras e o Palácio da Liberdade (que, diz-se, é o maior partido mineiro). Costa tem a máquina federal, o PT e Lula, além desse monstro tentacular, o PMDB -o "Polvo Paul" da nossa política.
Se Dilma ganhar, Aécio tende a ser o futuro da oposição, o pós-Serra. Mas se Anastasia perder, ele também terá de recolher os cacos.




Serra evita comentar ataques contra polícia de SP

CAROLINA FREITAS
do Estadão

O candidato do PSDB à Presidência da República, o ex-governador de São Paulo José Serra, evitou hoje comentar os dois atentados cometidos neste final de semana contra policiais das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota). "Eu não tenho todos os elementos para falar a esse respeito. Eu creio que o governador Alberto Goldman (PSDB) já falou", disse Serra, após caminhada pelo bairro da Liberdade, na região central da capital paulista.

Apesar de se esquivar de responder sobre o assunto, o ex-governador elogiou a área da segurança pública no Estado. "Os dados mostram a continuidade da melhoria das condições de segurança. Começou no final da década passada com Covas (Mário Covas, ex-governador tucano), prosseguiu de maneira muito firme e impressionante durante o governo (Geraldo) Alckmin (candidato ao Palácio dos Bandeirantes nessas eleições) e nós mantivemos no nosso governo", disse José Serra. Para ele, há uma "tendência decrescente do crime" em São Paulo.

Dossiê petista

José Serra também afirmou hoje que não se surpreendeu com a notícia de um suposto dossiê envolvendo o nome de Marina Mantega, filha do ministro da Fazenda, Guido Mantega, em denúncia de tráfico de influência que teria ocorrido dentro do Banco do Brasil. Ao ser questionado sobre o episódio, Serra defendeu o ministro da Fazenda: "Considero o ministro Guido Mantega um homem honrado que está no cargo defendendo o interesse público. É um homem correto."

A informação sobre o suposto dossiê foi divulgada pelo jornal "Folha de S.Paulo", com base em uma carta apócrifa que circula desde maio na imprensa. A reportagem da Folha aponta o deputado federal Ricardo Berzoini (PT-SP) como suspeito de ter incentivado a produção do material, pois o parlamentar é da ala do PT vinculada ao sindicalismo bancário e essa ala do partido teria a intenção de forçar o governo a desistir de nomear um dos dirigentes do Banco do Brasil para a presidência da Previ, fundo de pensão dos funcionários da instituição. O deputado Berzoini, por meio de nota, negou qualquer tipo de envolvimento no suposto dossiê.




Entidades organizam campanha 'Collor Nunca Mais'

RICARDO RODRIGUES
do Estadão

O dia 11 de agosto foi a data escolhida pelas entidades sindicais, comunitárias e estudantis para deflagrar em Alagoas a campanha "Collor Nunca Mais". A manifestação será realizada a partir das 9 horas da manhã na Praça Sinimbú, em frente ao edifício sede do Tribunal Regional Eleitoral (TRE-AL), no Centro de Maceió.

"O objetivo deste ato é denunciar a forma truculenta e arbitrária de fazer política do senador Fernando Collor, que mesmo sendo candidato ao governo do Estado pelo PTB fez ameaças ao jornalista da Revista IstoÉ, usando palavras de baixo calão, o que agride não só a imprensa nacional, como a sociedade alagoana e fere o decoro parlamentar", afirmou o advogado Adriano Argolo, que faz parte do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE).

Segundo Argolo, a data 11 de agosto foi escolhida por ser o dia do estudante e da regulamentação dos cursos jurídicos do País. "O 11 de agosto é uma data que traduz a luta dos estudantes e dos operadores de direito em defesa da liberdade, contra todo tipo de autoritarismo e opressão. Por isso, escolhemos essa data para deflagrarmos esse movimento que tem tudo para ter o sucesso do movimento Fora Collor", afirmou Argolo.

De acordo com o líder comunitário Antônio Fernando da Silva, mais conhecido como Fernando CPI, pelo menos 11 entidades da sociedade civil organizada - entre elas o Sindicato dos Jornalistas de Alagoas, a Federação das Associações de Moradores de Alagoas (Famoal) e Comissão Pastoral da Terra (CPT) - participaram da reunião que deliberou as primeiras atividades do "Movimento Collor Nunca Mais".

A reunião foi convocada pelo MCCE e aconteceu no Palácio do Trabalhador, no Centro da capital alagoana. Além do ato público do dia 11, que deverá ser acompanhado de uma passeata pelas ruas do centro da cidade, as entidades decidiram redigir um "Manifesto Collor Nunca Mais".

"Esse manifesto será impresso e distribuído ao povo, para que o povo alagoano tome conhecimento quem é Fernando Collor, que só aparece de 4 em 4 anos, usando o nome do povo em vão, fazendo ameaças aos jornalistas e intimidando seus opositores antes de chegar ao governo", afirmou Fernando CPI, que também é um dos coordenadores Comitê 9840 em Alagoas.

O ex-superintendente da Polícia Federal em Alagoas, delegado José Pinto de Luna, também compareceu à reunião para articular o Movimento Collor Nunca Mais. "Não estou aqui como candidato, estou aqui como cidadão que ouviu a gravação com as ameaças que o senador Collor fez ao jornalista Hugo Marques, da Revista IstoÉ. As palavras de baixo calão que o senador Collor usou, para ameaçar o jornalista eu repudio, porque são palavras que ferem o decoro parlamentar", afirmou Pinto de Luna, que é candidato a deputado federal pelo PT.

"Se ele (Collor) não gostou do que o jornalista escreveu e a revista publicou, que procure as vias legais, que entre como o pedido de direito de resposta, mas não venha com ameaças não, porque isso agride a imprensa e sociedade como um todo", acrescentou Pinto de Luna. Durante a reunião, as entidades divulgaram o site "Fora Collor" que foi criado por estudantes secundaristas com o intuito de denunciar os escândalos envolvendo o ex-presidente e dizer não à corrupção. O site já está no ar com o seguinte endereço: http://foracollor.webs.com/index.htm.



Jarbas Vasconcelos rebate críticas de 'aliado' em PE

ANGELA LACERDA
do Estadão

O senador e candidato ao governo de Pernambuco, Jarbas Vasconcelos (PMDB) classificou hoje como "mau caráter" seu "aliado", o deputado estadual Pedro Eurico (PSDB). Em entrevista ao Jornal do Commercio, ontem, o deputado acusou Jarbas de usar os mesmos meios que agora critica por estarem sendo utilizados pelo governador Eduardo Campos (PSB), que busca a reeleição. Diante da debandada de prefeitos do PSDB e de outros partidos oposicionistas ao palanque governista, Jarbas tem feito duros ataques a Campos, a quem taxa de "arrogante, prepotente, cooptador e adepto do toma-lá-dá-cá". Chegou a citar alguns prefeitos que foram alvo da suposta cooptação.

O governador não comenta as acusações, mas o tucano Pedro Eurico tratou de defendê-lo na entrevista ao afirmar que o "que Eduardo faz agora, na tentativa de cooptar quadros", é o que o mesmo que "o doutor Jarbas Vasconcelos fez quando governador". Pedro Eurico também destacou as afinidades do PSDB estadual com o PSB de Eduardo Campos: "O maior partido de oposição no Estado (o PSDB) tem sua origem no PSB". E avaliou que o PMDB de Pernambuco se limita "a Jarbas e alguns no seu entorno". Para ele, o PSDB pernambucano "anda com os próprios pés".

"Se ele queria aderir (a Campos) que arrumasse outra fórmula, não essa miúda, vergonhosa, de expor na imprensa essas coisas", reagiu irritado o peemedebista. Para ele, Eurico é "dissimulador".

Com poucos recursos e enfrentando um adversário aprovado pela população e apontado como vencedor das eleições no primeiro turno pelas pesquisas de opinião até agora realizadas, Jarbas comanda a coligação Pernambuco Pode Mais (PMDB, PSDB, DEM e PPS), que visa a dar um palanque para o tucano José Serra em Pernambuco. Seu relacionamento com o senador Sérgio Guerra, principal liderança tucana em Pernambuco, está estremecido e a entrevista de Pedro Eurico foi realizada no momento em que eles tentavam minimizar esse afastamento.





Serra sai em defesa de Mantega



Serra sai em defesa de Mantega; Dilma nega elo com dossiê

Para tucano, ministro é "homem honrado'; petista diz que "carta anônima" não pode ser atribuída a ninguém

Marina afirma que não acompanhou o caso em detalhe, mas acha que disputas de cargos são uma "perda de tempo"

da FSP

Com tom cauteloso, o candidato à Presidência José Serra (PSDB) defendeu ontem o ministro Guido Mantega (Fazenda) ao comentar a produção de dossiê, supostamente por petistas ligados ao sindicalismo bancário, com informações sobre tráfico de influência de Marina, filha do ministro, no Banco do Brasil.
Sem atacar diretamente o PT, como já fez em outras ocasiões, Serra disse não se surpreender com a elaboração do dossiê, mas saiu em defesa do ministro, "um homem correto" segundo ele.
"Considero o ministro Guido Mantega um homem honrado, que está no cargo defendendo o interesse público", disse o tucano, após participar de corpo a corpo no bairro da Liberdade, no centro de São Paulo.
O dossiê, conforme a Folha revelou no domingo, tinha o objetivo de forçar Mantega a desistir da indicação de Paulo Caffarelli, vice-presidente do Banco do Brasil, para a presidência da Previ, fundo de pensão ligado ao BB e o maior do país.
Caffarelli acabou sendo preterido, mas o nome defendido pelos bancários também não foi o escolhido.
No Rio, a candidata Dilma Rousseff (PT) classificou uma pergunta sobre o tema como de "viés claramente eleitoreiro".
Questionada se desqualificava o documento, a petista afirmou: "Nem desqualifico, nem nego. Digo que se trata de uma carta anônima. Como tal, não pode ser atribuída a nenhum partido".
Marina Silva, candidata do PV, disse que não pôde acompanhar o caso com detalhes porque estava em viagem no fim de semana.
Ontem, em Jundiaí (SP), a senadora disse apenas que são uma perda de tempo as "disputas de cargos" no governo federal enquanto há no país "crianças sendo entregues completamente à marginalidade".

SEGURANÇA
No Rio, Dilma usou os ataques à Rota (Rondas Ostensivas Tobias Aguiar) e os incêndios de veículos em São Paulo, no fim de semana, para criticar a política carcerária do Estado.
Para Marina, São Paulo passa por "problemas de descontrole na área da segurança pública".
Serra, que até o fim de março era governador, não comentou o caso por não ter detalhes sobre o episódio. No entanto, usou a redução dos índices de criminalidade no Estado para defender a política de segurança de São Paulo.
*(BRENO COSTA, ITALO NOGUEIRA E MAURÍCIO SIMIONATO)

Dilma arrecada mais do que Serra e Marina juntos
Dilma arrecada mais do que Serra e Marina juntos

Tucano obteve R$ 3,7 mi, receita menor que a da candidata do PV, de R$ 4,65 mi

Na primeira prestação de contas da campanha ao TSE, a presidenciável petista vai informar ter recebido R$ 11,6 mi

Adriano Vizoni/Folhapress

José Serra em visita ao bairro da Liberdade em São Paulo

BERNARDO MELLO FRANCO/VALDO CRUZ
da FSP

Na primeira prestação de contas oficial da campanha, a candidata Dilma Rousseff (PT) informará hoje ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) ter arrecadado mais do que a soma das doações recebidas pelos adversários José Serra (PSDB) e Marina Silva (PV).
Segundo o comando da campanha petista, ela encerrou o primeiro mês da corrida presidencial com receita total de R$ 11,6 milhões.
Com menos de um terço das intenções de voto de Serra, Marina informará uma arrecadação maior que a do tucano. Ela vai declarar doações de R$ 4,65 milhões, enquanto Serra dirá ter recolhido R$ 3,7 milhões.
O total de R$ 19,95 milhões declarado pelos três candidatos corresponde a menos de 5% dos R$ 427 milhões que eles esperam arrecadar até outubro.
Os números serão informados oficialmente hoje e foram antecipados ontem à Folha pelas cúpulas dos partidos que lideram a disputa pela sucessão de Lula.
Nesta fase da campanha, os presidenciáveis não são obrigados a informar o nome dos doadores. A origem do dinheiro só precisa ser informada na prestação de contas final, a ser entregue até 30 dias após a eleição.
As três candidaturas vão informar mais receitas do que despesas. De acordo com o PT, Dilma já gastou R$ 10 milhões. O valor inclui R$ 58 mil devolvidos à Presidência pelo deslocamento de Lula para o primeiro comício da campanha, no Rio.
O partido promete reembolsar todos os gastos futuros com a participação do presidente no palanque de sua ex-chefe da Casa Civil.
As campanhas de Serra e Marina não anteciparam as despesas informadas ao TSE, mas disseram ter gasto valores próximos ao que foi arrecadado até o fim de julho.

"HORIZONTE PROMISSOR"
O presidente do comitê financeiro do PSDB, José Gregori, afirmou que a primeira prestação de contas não pode ser tomada como indício de penúria na campanha.
"Isto é apenas um prefácio, referente aos primeiros dias da campanha. Nosso horizonte é promissor", disse.
A arrecadação de Marina reflete o esforço comandado pelo ex-presidente do Citibank Alvaro de Souza, que tem batido às portas de grandes doadores, e investimento pessoal do candidato a vice-presidente Guilherme Leal.
Há uma semana, o banqueiro disse à Folha que Leal estava prestes a fazer uma segunda contribuição de R$ 1 milhão à campanha. O PV não informou se essa doação está incluída nos R$ 4,65 milhões declarados ao TSE.
Em agosto de 2006, os três candidatos com mais chances nas pesquisas declararam valores mais modestos na primeira prestação de contas oficial.
O comitê de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que concorria à reeleição, informou ter arrecadado R$ 3,65 milhões. Ele liderava a disputa com 47% das intenções de voto, segundo o Datafolha.
Geraldo Alckmin (PSDB), que tinha 24% das intenções de voto, declarou receita de R$ 1,32 milhão.
A terceira colocada na disputa, Heloísa Helena (PSOL), registrou doações de apenas R$ 266 mil. Ela somava 12% no Datafolha -dois pontos percentuais a mais do que Marina hoje.



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