Evaldo Augusto Torres Alves /editor
Home | Contato  
Política

Hoje debate na Band


CLÓVIS ROSSI da FSP

Debates. Ou a última chance

SÃO PAULO - A série de debates que começa hoje é, talvez, a única chance de José Serra reverter um quadro eleitoral que é claramente favorável a Dilma Rousseff.
Favorável menos pelo que dizem as pesquisas e mais pela lógica. Pode-se até argumentar que lógica e eleições nem sempre se casam, mas é o único instrumento para análise, já que, por definição, não dá para trabalhar com o imponderável.
Qual é a lógica? Repito: há uma sensação bastante disseminada de bem-estar no país, o tal "feel good factor". É natural que, nessas circunstâncias, o eleitorado prefira o continuísmo à mudança.
Para alterar essa lógica, os candidatos oposicionistas teriam que pôr no cenário alguma emoção, alguma utopia, alguma ilusão convincente. Nada disso está à vista, e resta demasiado pouco tempo para que possa aparecer.
A alternativa para a oposição é desmontar Dilma, o que só pode acontecer nos debates. No horário gratuito, ela será devidamente embalada para presente, como de resto todos os demais, exceto Plínio de Arruda Sampaio (PSOL). Plínio prefere a autenticidade ao embrulho, ainda que não lhe dê votos.
O debate fica sendo, portanto, a única chance de, eventualmente, fazer a candidata governista escorregar, mostrar-se indecisa, atrapalhada, insegura, sei lá. Algo enfim que leve o público a acreditar que ela não é a garantia de que o "feel good" vai continuar.
No caso de Serra, o debate terá um elemento adicional para ajudá-lo na difícil tarefa de desconstruir Dilma. Chama-se exatamente Plínio de Arruda Sampaio, o único com coragem suficiente para dizer que o imensamente popular governo Lula é "nefasto", como o fez em entrevista à Folha.
Claro que o candidato do PSOL tampouco vai poupar Serra. Mas o tucano está habituado a levar bordoadas da esquerda, muito ao contrário de Dilma.




ELIANE CANTANHÊDE da FSP

Debater é preciso, mas...

BRASÍLIA - Hoje é um dia nervoso para os candidatos à Presidência. Debates ao vivo pela TV não elegem ninguém, mas bem podem derrotar alguém. Quem está na frente vai pronto para simplesmente não errar. Quem está atrás tem que "criar fatos novos" -expressão muito comum em política- na dose suficiente para avançar, mas sem extrapolar.
Consta que José Serra, pelo passado de prefeito, governador, deputado e senador, tem mais cancha e conteúdo, enquanto Dilma Rousseff, neófita nesse tipo de embate, entra em desvantagem.
Mas Dilma tem maior número de aliados, mais tempo na propaganda eleitoral gratuita, pilhas e pilhas de informações e dicas que os ministros lhe passam. E Serra vai entrar no estúdio num momento em que tudo parece dar errado na sua campanha: desânimo, desmobilização, dúvidas quanto a Aécio, deserção de prefeitos no Nordeste, risco de perda do palanque no DF.
Isso pode dar mais moral a Dilma e mais insegurança a Serra. O que conta -e muito. Em TV, a forma supera o conteúdo.
A última contra Serra foi a informação de que sua campanha foi a que menos arrecadou até julho: R$ 3,7 milhões, contra R$ 11,6 milhões para a de Dilma e de R$ 4,6 milhões para a de Marina.
Pode ser por desorganização, mas cria uma dúvida interessante: o PT vive dizendo que Serra é "de direita" e "candidato das elites", mas os financiadores estão despejando mais dinheiro em Dilma?
A questão "direita" versus "esquerda" deve permear o debate de hoje, mas subliminarmente. A grande massa de eleitores não tem a menor ideia do que se trata -se é que se interessa por debates políticos. E o financiador de campanhas não está nem aí. O que interessa não é ideologia; é quem tem mais chance de ganhar e garantir seus lucros. Banqueiros, empresários e PMDB, tudo a ver.

Gilberto Freyre, perene
Leia a íntegra da conferência de Fernando Henrique Cardoso sobre Gilberto Freyre, o homenageado da Flip 2010

Fernando Henrique Cardoso


Cardoso é autor do prefácio da última edição de 'Casa-grande & Senzala'.
Foto: Tasso Marcelo/AE


Não é a primeira vez que falo sobre Gilberto Freyre e cada vez que me convidam para falar ou escrever sobre ele fico na dúvida sobre se deveria ou não aceitar o desafio. Não há motivos especiais para que seja eu quem abra nesta Flip a semana de comemorações discorrendo sobre o homenageado: pois não fomos nós, os chamados sociólogos da escola paulista, Florestan Fernandes à frente, quem mais criticamos aspectos importantes da obra gilbertiana, notadamente a existência de uma democracia racial no Brasil, interpretação frequentemente atribuída a ele? E ao longo de minha carreira profissional (já vão quase sessenta anos de lida com as questões sociais) tampouco me distingui por ser um conhecedor da vasta bibliografia de nosso homenageado. Não obstante, mesmo com escusas de sobra para escapar da incumbência, caio novamente na tentação: quem sabe ao me aproximar de tão gabado Autor me sobrem umas lasquinhas de glória...

Cada vez que volto à obra de Gilberto Freyre se repete o deslumbramento de descobrir facetas novas em seus escritos e de me deixar encantar pelo modo como ele envolve o leitor e quase o convence de suas teses, mesmo quando está navegando por mares cheios de escolhos e aprumando para portos que não parecem os mais seguros. Já escrevi que me indignei comigo quando li em El Mercúrio, no Chile ainda dominado pelos coveiros de Allende, um discurso de Jorge Luís Borges e me deixei fascinar por sua prosa. Borges, ele mesmo um arqui-conservador, agradecia uma homenagem que recebera de uma academia chilena silenciosa diante da brutalidade pinochetiana. Discorreu sobre a língua espanhola. A beleza das palavras, a graça de seu encadeamento, o inesperado das metáforas, o brilho do talento do escritor argentino me fizeram esquecer quem era o homenageado, quem o homenageava e em quais circunstâncias. Não é possível, pensei, que o senso estético me afaste tanto da moral.

Por sorte, a semelhança com a situação de leitura de Gilberto Freyre não implica, nem de longe, em tal permissividade. A comparação estanca na fruição da beleza, sem que o conservadorismo de Freyre e mesmo seus comprometimentos com situações autoritárias recordem o horror chileno de Pinochet. Não preciso me sentir moralmente culpado por deixar-me embalar pela prosa de Freyre, ainda quando possa vislumbrar a fragilidade factual ou mesmo interpretativa de um ou outro argumento do autor. Nem me molesta ressaltar as virtudes literárias de alguém, como Freyre, que se não deixou de ter seus pecadilhos de permissividade com governos autoritários, manteve-se quase sempre no campo democrático-conservador. O fato é que se me perguntarem, como me têm perguntado, o por quê da permanência de Casa Grande & Senzala, ou mesmo de Sobrados & Mocambos, direi, sem exclusão de outros motivos, que entre eles prima a forma como foram escritos. Palavras bem escolhidas. Frases concatenadas, graça no discorrer dos temas, de tal modo que a vasta erudição do autor e a imensidade das notas e citações são como papel de embrulho chinês ou como as caixinhas que os japoneses usam para dar um quê de mistério encobrindo os delicados presentes que oferecem. Lêem-se centenas de páginas de análises complexas de Casa Grande & Senzala ou de Sobrados e Mucambos no embalo de uma escrita de novela.

E olha que o estilo de Gilberto Freyre não é linear, nem na forma nem no andamento do raciocínio. Ele dá voltas, repete, leva o leitor a percorrer seus argumentos e suas descrições como que em espiral, como notou Elide Rugai Bastos em sua síntese de CG&S. De repente, acrescento, a espiral se desfaz circularmente, retorna ao passo inicial. Pior: nem sempre é conclusivo. Mesmo em Casa Grande & Senzala o último capítulo, que trata do papel do negro na sociedade brasileira, termina prometendo um novo livro que nunca escreveu. Não cumpre o requisito de voltar às premissas que, uma vez demonstradas, requerem, no rigor do trato acadêmico, uma síntese conclusiva. O mesmo se dá em Sobrados & Mocambos, embora neste, pelo menos o anunciado próximo volume se concretizou com a publicação de Ordem e Progresso, embora 23 anos depois, em 1959.

Além da metodologia: progresso e tradição

Este estilo, nas palavras do próprio Gilberto, foi algo deliberado: terminada sua tese de mestrado na Universidade de Columbia em 1923, Social Life in Brazil in the middle of the 19th century, que foi lida por Henry Mencken, o "mais anti-acadêmico dos críticos" CG&S, pág.48), este aconselhou-o a desenvolver a tese sob a forma de livro. Daí por diante nunca mais Gilberto voltou a escrever à moda da academia. Ganhou leitores, alçou voo mundo afora, popularizou-se. Entretanto, em certo período, especialmente no final dos anos cinquenta e mais claramente nos anos sessenta, quase se tornou moda nos círculos acadêmicos e em setores políticos progressistas ou de esquerda, fazer-se um muxoxo nas referências a ele. Por quê? Seria só em razão de suas posições políticas conservadoras? Seria o modo não bem comportado de redigir que se afasta do cânone acadêmico? Ou, quem sabe, o fato de haver idealizado o patriarcalismo brasileiro e adocicado o que teria sido o tratamento dado aos escravos pelos senhores, teses que tanto as pesquisas acadêmicas como os movimentos negros (retratados na obra de Florestan Fernandes e de Roger Bastide, por exemplo) começavam a rechaçar? Uma vez que participei das pesquisas desse grupo, talvez se justifique - buscando uma vereda não percorrida para voltar a caminhar no cipoal dos trabalhos sobre Gilberto Freyre - tentar recordar como nos anos cinquenta e sessenta encarávamos a obra do maestro pernambucano.

Sem dúvida, a idealização do patriarcalismo e a visão menos crítica dos efeitos da escravidão sobre as relações entre negros e brancos contribuíram para a reação negativa e mesmo para o simplismo das críticas. Não nos esqueçamos que a partir dos anos sessenta, avançando na década de setenta e até à queda do muro de Berlim, as ciências sociais latino-americanas (e não só) voltaram-se para o marxismo e muitas vezes para formas vulgares dele, sobretudo quando acasalado com as teologias da liberação (diga-se, de passagem, que o marxismo prevalecente na USP teve como ponto de partida um Seminário sobre Marx, iniciado nos anos 1950, com a virtude de ser mais rigoroso na exegese do autor). É certo, porém, que as primeiras críticas da escola paulista aos trabalhos de Freyre antecederam à voga marxista. Quando Florestan Fernandes, principalmente, endereçou suas setas contra qualquer coisa que se aproximasse da visão da existência de uma democracia racial entre nós ele estava no auge da defesa do método funcionalista de análise e não do marxismo. E talvez tivesse como alvo mais Donald Pierson do que Freyre. O que dizer então de Roger Bastide, sempre sutil, que, sendo o tradutor para o francês de Maîtres & Esclaves, não só nutria admiração pelo autor como em suas análises sobre a situação racial no Brasil não deixava de ponderar as particularidades por ela apresentadas em contraposição com o que prevalecia em sociedades racistas. Chegou mesmo a escrever "democracia racial" - o que Freyre não fez em Casa Grande & Senzala - ao se referir a, que toda a demografia do Brasil "está marcada pela mesma política de arianização que domina os aspectos sociais do país, consequência de sua democracia racial" (Bastide, R. Brasil Terra de contrastes, São Paulo, Difel, 1959, p. 62).

Provavelmente não foi só por discordâncias acadêmicas ou por reservas diante do conservadorismo de Freyre que este, aclamado no exterior, auto-proclamado - e não sem razão - como um inovador e respeitado nos círculos da intelectualidade mais conspícua, ficou distante da produção intelectual que surgia nas universidades. Valho-me de um dos melhores conhecedores da obra de Gilberto Freyre, Nicolau Sevcenco, que escreveu a apresentação da sexta edição de Sobrados e Mucambos. Para ele, paradoxalmente, o fato de Freyre ter tido uma formação acadêmica sólida nos Estados Unidos, ter convivido com a intelectualidade americana, conhecer o pensamento europeu, ser, em uma palavra, um cosmopolita e, ao mesmo tempo, ter-se distanciado do projeto político-intelectual das correntes progressistas e modernizadoras emergentes explique melhor a reação negativa destas. Talvez mais do que se distanciar desse projeto, Gilberto Freyre se tenha rebelado contra ele, na medida em que o projeto "desenvolvimentista" desmancharia as bases sob as quais se assentavam as formas de acomodação sócio-cultural do patriarcalismo brasileiro. Creio que isso de alguma forma marginalizou-o do debate então em marcha.

De fato, como veremos e todos sabem, todo o pensamento gilbertiano estava voltado para a singularidade das formas sociais e culturais do Brasil, centradas na família patriarcal e na miscigenação. Ora, o pensamento científico nas ciências sociais, que teve um dos marcos na fundação da USP sob influência europeia, assim como o pensamento político dos anos cinquenta em diante, que teve como referências o ISEB, a CEPAL e o Partido Comunista, queriam precisamente o oposto: livrar o país das mazelas de um passado que nos condenava ao subdesenvolvimento. De alguma maneira a identidade que Gilberto Freyre dava ao Brasil dificultava, se não impedia, tudo que o pensamento progressista da época queria: a industrialização, a ruptura da ordem senhorial, a emergência de uma cidadania livre das peias de uma cultura de submissão, a integração do país ao mundo.

O paradoxo reside precisamente em que Gilberto Freyre, longe de haver sido o ensaísta que os cientistas sociais "do Sul" imaginavam, de pouco rigor científico, era um acadêmico sólido, que disfarçava a erudição no correr da pena e que pregava contra a maré não só acadêmica, mas talvez generalizando um pouco, da corrente ideológica hegemônica. Estávamos na época em que as "teorias do desenvolvimento" frutificavam, o estado era visto como a mola do crescimento econômico, a industrialização era a aspiração de muitos e os laços da família patriarcal, sem se desfazerem completamente, não eram mais a chave para explicar as formas de coesão social. Havia, por consequência, muito mais do que apenas, o que não deixou de haver também, uma diferença metodológica entre os sociólogos "uspianos", funcionalistas ou marxistas, e quejandos ou somente uma crítica a posições políticas específicas. Havia um choque de "ideologia" nos dois lados, que ultrapassava as querelas acadêmicas.

Que Gilberto Freyre exibia um conhecimento enciclopédico da bibliografia da época é indiscutível. A posição de "intelectual nordestino" já havia produzido, entretanto, certa incompreensão quanto a sua modernidade na literatura. Ao mesmo tempo em que entrou em contato com a vanguarda intelectual dos Estados Unidos, onde chegou a descobrir Yeats, Tagore e John Dewey, e da Europa - onde encontrou o cubismo e a influência da arte africana nos pintores inovadores, foi retratado em Paris por Rêgo Monteiro, conheceu Tarsila, tornou-se amigo de Manuel Bandeira-, não comungava propriamente dos ideais ao mesmo tempo nativistas e "ocidentalizadores" da Semana de 1922 do Teatro Municipal de São Paulo. Nosso Gilberto era menos encantado que os paulistas dos salões de Dona Veridiana com Blaise Cendras. Estará produzindo seu "Manifesto Regionalista" em 1926, o que o fez ser visto pelos modernizadores do Sul mais como um "tradicionalista" do que um revolucionário. Quem sabe, fiel a sua visão e a seus sentimentos, quisesse certa continuidade na ruptura e não o repúdio das tradições. Não importa, o apodo de conservador e tradicionalista acompanhou-o desde antes de assim ser considerado por alguns cientistas sociais depois que escreveu Casa Grande & Senzala.

FHC e Luiz Felipe de Alencastro, na mesa de abertura da Flip.

Foto: Tasso Marcelo/AE


Gilberto e a metodologia científica

O domínio da literatura sociológica contemporânea por Gilberto Freyre, era enorme. Se não deixava que o esnobismo do vocabulário cientificista torturasse seus textos não era por desconhecimento da informação básica das ciências sociais, era por deliberação, como eu disse. O que não o deixava despreocupado de mostrar que tinha domínio da bibliografia. Alguns dos longos prefácios às edições de suas obras principais mostram essa obsessão. Em Ordem e Progresso há uma introdução que exemplifica bem esta atitude. Para começar o título da secção, "nota metodológica" chama a atenção, como se dizia na época com certo pedantismo, para o "aparato metodológico e conceitual" de suas análises. Recordo-me dos cursos que eu dava na FFCL da USP na segunda metade da década de 1950, nos quais os autores citados por Freyre nos eram familiares e hoje estão provavelmente esquecidos: o manual de E.S. Johnson, Theory and Practice of Social Studies publicado em 1956, a metodologia pregada por Emory Bogardus no livro Sociology, em que se discutia, além das técnicas quantitativas de investigação, o valor da utilização de novos métodos qualitativos ligados às histórias de vida e às entrevistas.

Mencionei os dois livros acima só para exemplificar. Gilberto Freyre exibia conhecimento também da literatura francesa contemporânea, especialmente Raymond Aron e Georges Gurvitch, na época o "papa" da Sorbonne. Dialogava intelectualmente com as propostas metodológicas em voga mantendo o ponto de vista, que parecia ser a pedra de toque de sua metodologia, de que a vivência direta e a empathic ability, habilidade empática (escrita por ele em inglês) são fundamentais para a interpretação de épocas históricas. Não se pense, entretanto, que ao defender tais procedimentos - distintos radicalmente das técnicas quantitativas de análises empíricas e do objetivismo das análises de sociólogos como Durkheim - nosso autor desdenhasse da precisão e de cuidados técnicos. Em uma referência defensiva sobre a tal "empathic ability", conceito que GF foi buscar em autor obscuro num capítulo de uma coletânea organizada em 1953 por Leon Festinger e Daniel Katz, Researh Methods in Behaarioul Sciences, justificou amplamente suas escolhas metodológicas. Note-se que o livro de Festinger e Katz, pouco difundido no Brasil, era de leitura difícil, mais usado por especialistas em análises quantitativas. Portanto, não havia em GF desconhecimento do "cientificismo", mas sim não aceitação de o ter como a única ou principal maneira de analisar os processos sociais.

Gilberto Freyre acreditava ter sido pioneiro em incluir nas análises sociais aspectos subjetivos e mesmo valorativos, como instrumentos de conhecimento e interpretação histórica. Tendo partido da antropologia, mas dedicando-se à análise de formações sociais e de sua transformação - Ordem e Progresso estuda a desagregação do mundo senhorial com a abolição da escravidão e o estabelecimento da República - incluia muito de psicologia social nas interpretações. Não descuidava, por outro lado, dos condicionamentos do meio ambiente e dos biológicos, nem de deixar de mencionar, vez por outra, a relevância dos processos econômicos para as transformações sociais. Acreditava ter inventado uma maneira de lidar simultaneamente com as intuições e com a captação de sentido das ações sociais e da cultura, pela empatia que tinha com as situações analisadas.

Em seu debate metodológico rebelou-se com interpretações que desdenhavam da história, explicando o presente por ele mesmo, como se cada nova fase partisse ex nihil, de si mesma. Freyre achava que além de tomar em conta o passado e ver como ele se reproduzia ou se modificava no presente, as análises deveriam incluir as orientações e visões que os homens anteviam e como vislumbravam o futuro. Foi buscar em Gurvitch e Aron a noção de que o entrelaçamento entre as condições sociais e as "construções mentais" é importante. Apoiou-se com muita liberdade em W.I. Thomas (no artigo "The relation of research to the social process") e em um crítico literário americano, John Brown, para chegar ao que queria: à noção de que há tempos co-existentes, tempos menos cronológicos do que psicológicos e que a inter-subjetividade é parte constitutiva da realidade. Esta tanto é dada como é imaginada pelos atores sociais. Mais ainda, quando passa dessas considerações abstratas para a cronologia, procurou definir as épocas como sendo compostas por quatro gerações. Resumindo, diz nosso autor: "o tempo do relato literário e sociológico tipicamente brasileiro parece dever corresponder a situação mais complexa de entrelaçamento na consciência do brasileiro dos três tempos: o presente, o passado e o futuro" (O e P, p. 58).

Em uma de suas constantes afirmações auto-laudatórias diz que os franceses até criaram uma noção inspirada em suas obras. Vale a pena a longa reprodução do texto para mostrar o jeito de GF escrever sobre seus inventos metodológicos:

"Precisamente essa intimidade de estrutura é que vem sendo analisada pioneiramente em estudos brasileiros de sociologia genética com um afã de profundidade que críticos estrangeiros supõem não haver sido até hoje ultrapassado ou sequer igualado por analistas do mesmo assunto noutros países, havendo-se criado na França expressão "sociologia proustiana" para caracterizar a especialização brasileira. Especialização baseada numa extensão e numa intensificação do método empático de análise, compreensão e interpretação do que de mais íntimo se possa encontrar no passado de uma sociedade, que talvez repugne, como método, aos puros objetivistas em questões de metodologia antropológica, sociológica ou literária" (O e P, p. 54).

Percebe-se na escritura peculiar de nosso autor a reação ao contraste entre certo desdém sobre seus trabalhos que acreditava haver no meio local acanhado e a quase glorificação que recebia no meio mundial. Ao mesmo tempo responde aos "objetivistas", isto é, aos que proclamavam ser devotos da "sociologia científica", mostrando que estes se restringiam a um tipo de abordagem, que repugnava tudo que fosse subjetivo. Chama também a atenção que Gilberto Freyre ao tentar construir um método para juntar compreensão à interpretação, de indagar, portanto, sobre o sentido das ações sociais e não só sobre seu encadeamento causal, não faça qualquer referência a Max Weber (a quem GF conhecia, se mais não fosse, por ser familiarizado com o livro de Aron sobre A Sociologia Alemã e por ser Ordem e Progresso posterior ao admirável Raízes do Brasil, no qual Sergio Buarque faz ampla utilização dos conceitos weberianos).

O ponto que desejo ressaltar, porém, não é o das eventuais lacunas na revisão sociológica apresentada por Gilberto Freyre, mas sim o do vasto domínio que ele exibia da literatura sobre métodos de pesquisa. Foi por opção que deu amplo espaço à análise do significado das ações sociais e, portanto à cultura, em suas análises sobre a formação do Brasil, como Roberto Da Matta salientou e com o que se identificou ao fazer a apresentação de Sobrados e Mucambos. Gilberto foi, na verdade o antropólogo que se voltou à sociologia e, acreditando que a realidade social é histórica, não desdenhou de que a história é produto da ação humana e que esta guarda um significado e se orienta por objetivos valorativos, além de estar condicionada fisicamente e pelo meio ambiente.

A crítica metodológica dirigida a GF não poderia, portanto, resumir-se a sua desqualificação por ele não ser adepto do que chamava de cientificismo, ou seja da visão positivista da ciência, posição que muitos cientistas sociais recusam, nem muito menos a de crer que seus trabalhos eram meros "ensaios". Isso é, que não poderiam ser submetidos a algum método de validação, uma vez que seriam meramente intuitivos. Embora seus críticos mais afoitos se tivessem aferrado a esses temas, as críticas mais pertinentes deveriam dirigir-se a outros pontos: tomando como válida sua opção de incluir a experiência vicária e a intuição simpática como parte das interpretações (embora dela discordando, eventualmente), foi ele capaz de extrair tudo que essa perspectiva permitia? Ao reconstruir, perdoem-me o abuso vocabular, seu "todo sócio-estrutural significativo", seus conceitos básicos captaram o fundamental do processo histórico? Sua abordagem culturalista foi precisa ou extrapolou englobando o conjunto do país ao que vivenciara e analisara em uma região? Justificou suas generalizações, embora não estatisticamente?

A sociedade patriarcal

A resposta não é fácil. Toda síntese requer alguma simplificação. Ao tempo de Casa Grande & Senzala as interpretações contemporâneas do Brasil já sofriam a influência de algumas grandes sínteses. As mais abrangentes terão sido Os Sertões de Euclydes da Cunha, os livros de Oliveira Vianna e os trabalhos de Alberto Torres. O livro de Euclydes, embora mais denso em análises de acontecimentos e mais guiado pelas ideias da época sobre as relações entre o homem e o meio ambiente, tinha alcance político imediato menor para as elites dirigentes do que os de Oliveira Vianna. Euclydes tratava do povo e de uma região. As elites prefeririam tratar do governo e do país todo. Oliveira Vianna, desde O Ocaso do Império, dos anos 1920, procurava mostrar a falência do sistema representativo e da República liberal. Mas é nos livros subsequentes, A Evolução do Povo Brasileiro, de 1922, e, sobretudo, em Problemas de Política Objetiva, de 1930 - anteriores, portanto, ao livro fundamental de Freyre - que suas análises políticas ganham mais força. Para ele o mal do Brasil não era a centralização, mas a descentralização, não o executivo forte, mas sua debilidade para enfrentar os localismos, os "gânglios" dispersos de população e de poder local da época colonial que se transformaram em coronelismo e clientelismo na República. Logo, conviria substituir os laços de solidariedade clânica, por meio de uma instituição que desse mais organicidade à Nação: um Estado mais forte e atuante. Foi o que pregou em Problemas de Política Objetiva.

As ideias de Oliveira Vianna se completaram no final dos anos 1940, com a publicação de As Instituições Políticas Brasileiras. Para se opor ao espírito clânico, ao personalismo e ao privatismo tradicionais, incluindo-se aí o do latifundiário, seria preciso um Estado deliberadamente voltado para a construção da Nação. Para se contrapor às praticas político-sociais herdadas da sociedade colonial, de pouco valeriam as ideias que desde o Iluminismo fundamentavam a democracia. Sua aplicação entre nós não passava de "idealismo". Nossas leis e Constituições absorveram ideias inglesas, francesas ou norte-americanas sem correspondência com a realidade. Nada mais "fora de lugar" no Brasil do que a noção de contrato entre homens livres e iguais, pois há uma "desigualdade natural" entre pessoas e raças. Os estadistas do Império teriam servido melhor à construção do Brasil do que os idealistas republicanos. Eles foram centralizadores, mais ou menos autoritários e aferrados às responsabilidades do Estado. Mostraram-se pouco interessados em acabar com a escravidão, fundamento de nossa riqueza. Para Oliveira Viana, como mostrou Jorge Caldeira em sua História do Brasil com Empreendedores, não era o latifundiário - portanto o senhor-quem deveria sustentar a ordem hierárquica do país, mas o Estado, fiador do bom funcionamento das partes constitutivas do organismo nacional.

É certo que houve toda uma linhagem de pensadores liberais no século dezenove e no início do vinte, como Tavares Bastos e de juristas como Ruy Barbosa e mesmo de críticos sociais como Nabuco. Estes, entretanto, na visão de Oliveira Vianna teriam sido "idealistas", alheios às realidades sociais do país. Não era essa, além do mais, a ideologia dominante nos anos trinta, nem entre nós nem muito menos na Europa em que Mussolini já fazia fulgor e logo depois Hitler viria a ofuscá-lo no anti-liberalismo. No Brasil Alberto Torres, em a Organização Nacional e noutros livros, todos anteriores a Freyre, constituía uma exceção: positivista, propugnador pela necessidade de um governo forte, defendia ao mesmo tempo os direitos individuais e não ultrapassou inteiramente os marcos de um pensamento contratualista.

Criticava, por certo, o juridicismo, cheio de ideias importadas. Sua experiência como ministro, governador do Rio de Janeiro e membro do Supremo Tribunal Federal fizeram-no ver os limites da crença cega de Ruy na eficácia das leis. Distinguiu-se de outros influentes autores de sua época porque não tomava a tese do condicionamento racial como restrição para a formação nacional nem, portanto, se deixou embalar pelas vantagens do branqueamento. Mesmo tomando-se em conta a posição complexa, mais eclética e menos radicalmente autoritária de Alberto Torres quanto ao papel do estado, é inegável que as décadas de vinte e trinta do século passado, nas quais se formou o pensamento de GF, estavam sendo preponderantemente influenciadas por um pensamento organicista e politicamente centralizador, quando não abertamente autoritário. Além do mais as próprias ligações estreitas de Oliveira Vianna com o pensamento de Alberto Torres e a influência daquele sobre Paulo Prado (de quem, por sua vez era socialmente protegido) diminuiriam o peso das vertentes não estatal-autoritárias que existiam em Alberto Torres. A tradição de pensamento corporativista no Brasil foi tão forte que, a crer nas interpretações de Jorge Caldeira, nem mesmo o Visconde de Cairu, tido e havido como o primeiro pregador das vantagens do livre mercado para o Brasil, teria escapado.

Gilberto Freyre, na década de trinta, erige outros atores sociais como foco para explicar as hierarquias e dar sentido à organização social: as instituições domésticas - com o pater família à frente. A família patriarcal, não o estado, constituiria a mola central do Brasil. O senhor em si não seria parte permanente, natural, constitutiva da nação. Foi produzido por um sistema, o escravocrata, tanto quanto o negro, que se tornou escravo por força do processo social de dominação e não por ser portador de uma condição natural de inferioridade. Essa posição de GF era nova, rompia com a visão prevalecente no Império para justificar a escravidão - a desigualdade natural entre os seres humanos em função da raça - e discrepava das concepções corporativistas que davam como natural as diferenças entre partes "funcionais" do sistema social, composto de escravos, senhores e outras categorias sociais de menor alcance explicativo. Gilberto Freyre não aceitou a teoria da existência de desigualdades "naturais" socialmente funcionais dos organicistas-corporativistas, nem viu na vontade de construir uma nação pela concentração de poder central os caminhos para corrigir os malefícios do passado colonial-escravocrata. E tampouco fez como Caio Prado, que em A Evolução Política do Brasil (livro publicado logo depois de Casa Grande & Senzala) incorporou o papel central do "latifundiário" proposto por Oliveira Vianna transformando o latifúndio agro-exportador na pedra de toque da formação do Brasil (abrindo brechas assim para introduzir a perspectiva de luta de classes).

Pelo contrário, GF criou categorias analíticas sociológicas e histórico-culturais. Para isso não desdenhou da base produtiva: foi sim o latifúndio açucareiro que deu sustentação à sociedade patriarcal, afirmação repetida o tempo todo em seus trabalhos. Aliás, as referências à influência das formas econômicas sobre a sociedade e a cultura repetem-se em GF. Apenas, elas não teriam sido o fator decisivo para explicar as particularidades brasileiras: o que distinguiu a sociedade brasileira não foi a grande propriedade escravocrata em si, que também existiu nos Estados Unidos. Foi a forma peculiar como se constituiu a "família patriarcal", um produto histórico-cultural. Cito:

"A família, não o indivíduo, nem tampouco o Estado nenhuma companhia de comércio, é desde o século XVI o grande fator colonizador do Brasil, a unidade produtiva, o capital que desbrava o solo, instala as fazendas, compra escravos, bois, ferramentas, a força social que se desdobra em política, constituindo-se na aristocracia colonial mais poderosa da América. Sobre ela o Rei de Portugal quase reina sem governar" ( C&S p. 81)

Oliveira Vianna via os males do Brasil na dispersão geográfica dos núcleos do povoamento e nos vícios decorrentes do acasalamento entre política local e personalismo. A geografia e a cultura, além da diversidade racial e da miscigenação condicionavam nossa formação e eram obstáculos dos quais decorria o pessimismo vigente nas interpretações do Brasil e que foram recolhidas por Paulo Prado. Para corrigir as distorções produzidas por esta situação é que tanto Torres quanto Oliveira Vianna propunham o Estado-forte. Gilberto Freyre, em contraposição, valorizava a força da sociedade e da cultura brasileiras. A sociedade escravocrata se organizara e se hierarquizava o redor do núcleo familiar. A oposição direta não seria sequer entre senhores e escravos, mas Casa Grande patriarcal e tudo que se lhe opunha. A escravidão concede Freyre, justificando-a até certo ponto, foi o modo que o português colonizador encontrou para levar adiante o empreendimento econômico da conquista. Muita terra, poucos portugueses, índios abundantes e, posteriormente, negros disponíveis teriam viabilizado a obra da conquista. Cito outra vez:

"O meio e as circunstâncias exigiriam o escravo" (C&S, p. 322).

Agregando às dúvidas de Oliveira Lima sobre se teria sido um crime levar os escravos negros para a América e opondo-se a Varnhagen que lastimava a concessão de grandes tratos de terra no lugar de propriedades menores, diz Freyre:

"Para alguns publicistas foi erro enorme. Mas nenhum nos disse até hoje que outro método de suprir as necessidades de trabalho poderia ter adotado o colonizador português" (p. 323).

Colonizador acrescento, que GF já havia caracterizado criticamente como inclinado a adotar o cativeiro para obter êxitos econômicos, mesmo na terra de origem. Ora, como os portugueses foram os pioneiros em estabelecer colônias de exploração agrícola em terras tropicais, dada a escassez de mão de obra local que pudesse ser assalariada, só o latifúndio e a escravidão, indígena ou negra, permitiriam construir "a grande obra colonizadora".

"No Brasil iniciaram os portugueses a colonização em larga escala nos trópicos por uma técnica econômica e por uma política social inteiramente nova: apenas esboçada nas ilhas sub-tropicais do Atlântico. (...) O colonizador português do Brasil foi o primeiro entre os colonizadores modernos a deslocar a base da colonização tropical da pura extração de riqueza mineral, vegetal ou animal (...) para a criação local de riqueza" (...) à custa do trabalho escravo: tocada portanto daquela perversão de instinto econômico. (CG&S, p. 79). Ademais, "No Brasil (...) as grandes plantações foram obra não do Estado colonizador, sempre somítico em Portugal, mas de corajosa iniciativa particular" (CG&S, p. 80).

Para comprovar a tese cita viajantes que chamaram a atenção para a ausência de entraves burocráticos à obra colonizadora, dada a ausência da administração. Gilberto viu nisso uma característica e mesmo uma vantagem. E não se diga que neste capítulo - o inicial de |Casa Grande e Senzala -- o autor tivesse apenas idealizado: a minúcia, como em todo o livro, do conhecimento das fontes históricas (documentos, livros de viajantes, comentaristas, etc.) desmente uma vez mais a noção de que sua obra foi basicamente ensaística.

A mola da sociedade escravocrata teria sido o "projeto produtivo" do português, sua antevisão do futuro que, condicionada pelo meio ambiente - a vastidão das terras, o clima tropical - e pelos condicionamentos demográficos, escassez de brancos e abundância de indígenas e mais tarde de negros, criou as bases para que fosse plasmada uma cultura, uma adaptação de costumes, práticas, valores e crenças que marcaram nossa formação. Tudo isso se concretiza ao redor do latifúndio e da hierarquização entre Casa Grande e Senzala, senhores e escravos. Mas a dinâmica deste todo histórico-estrutural, de base econômica dada, só se entende quando se acrescentam as dimensões culturais. Estamos longe de, sem negar sua importância, ver no "latifúndio-exportador" o sentido da sociedade colonial, como em Caio Prado ou mesmo em Oliveira Vianna. Por certo, GF não nega o óbvio, como já disse, o papel da economia agro-exportadora. Mas o sentido profundo da construção do país foi a matriz histórico cultural constituída ao redor da Casa Grande.

Deixo de lado considerações sobre até que ponto o modelo de sociedade escravocrata construído por GF poderia generalizar-se para o Brasil, uma vez que as análises se basearam em Pernambuco e em partes do Nordeste.

Certamente não foi assim em São Paulo, nem no Rio Grande do Sul, por exemplo. Nem nas regiões mineradoras ou nas faixas de comunicação comercial por onde o país se expandiu sem se basear no latifúndio patriarcal ao estilo do que ocorreu no Nordeste e, em outra época, nas terras fluminenses e mesmo paulistas, com o açúcar e o café. Há argumentos para mostrar que na caracterização histórico-cultural tomar o caso extremo é uma forma de iluminar as demais situações, ainda que por contraste.

A contribuição inovadora de GF para caracterizar a sociedade patriarcal não justifica, entretanto, como veremos adiante, seus excessos arbitrários ao caracterizar o papel inovador do empreendedorismo dos colonos portugueses e ao se aferrar às características de plasticidade cultural que teriam possibilitado além da aculturação a ascensão social de negros, índio e mestiços. Para construir a imagem positiva dos colonos GF se opõe à visão de que os portugueses vindos para cá seriam os "piores elementos" (degredados, condenados, etc.). Pelo contrário, gente de boa cepa também veio e muitos deles deram origem às grandes famílias patriarcais:

"A colonização do Brasil se processou aristocraticamente, mais do que a de qualquer outra parte da América (...) Mas onde o processo de colonização europeia afirmou-se essencialmente aristocrático foi no norte do Brasil" (CG&S, p. 266-7).

As características fundamentais da formação da sociedade brasileira, embora esta fosse assentada em uma economia escravista, teriam sido dadas pelo equilíbrio de antagonismos que a matriz cultural aqui desenvolvida permitia:

"Antagonismos de economia e de cultura. A cultura europeia e a indígena. A europeia e a africana. A africana e a indígena. A economia agrária e a pastoril. A agrária e a mineira. O católico e o herege. O jesuíta e o fazendeiro. O bandeirante e o senhor de engenho. O paulista e o emboaba. O pernambucano e o mascate. O grande proprietário e o paria. O bacharel e o analfabeto. Mas predominando sobre todos os antagonismos, o mais geral e o mais profundo: o senhor e o escravo" (CG&S, p. 116).

Entendem-se os motivos que levaram os sociólogos da "escola paulista" a criticarem GF: onde está a especificidade desses antagonismos, ainda que Freyre os tenha hierarquizado, pois há um antagonismo principal e geral, aquele entre senhores e escravos? Não haveria traços culturais semelhantes em outras formações sócio-econômicas? Talvez, mas nosso autor não faz as análises comparativas suficientes para sustentar o argumento. Fosse só isso e o pecado talvez pudesse ser considerado venial. Mas Freyre vai mais longe em sua visão sobre o equilíbrio de antagonismos:

"Por outro lado, a tradição conservadora no Brasil sempre se tem sustentado no sadismo do mando, disfarçado em "princípio de Autoridade" ou "defesa da Ordem." Entre estas duas místicas - a da Ordem e a da Liberdade, a da Autoridade e a da Democracia - é que se vem equilibrando entre nós a vida política, precocemente saída da do regime de senhores e escravos" (CG&S. p. 114-115). GF vê certas vantagens nessa situação "as de uma dualidade não de todo prejudicial à nossa cultura em formação. (...) Talvez em parte alguma se esteja verificando com igual liberalidade o encontro, a intercomunicação e até a fusão harmoniosa de tradições diversas, ou antes, antagônicas, de cultura como no Brasil" (CG&S, p. 115).

Este processo de "harmonização de contrários", diz Freyre, ainda está incompleto; o vácuo e a deficiência da intercomunicação entre as culturas ainda é enorme.

"Mas não se pode acusar de rígido, de falta de mobilidade vertical (...) o regime brasileiro, em vários sentidos sociais um dos mais democráticos, flexíveis e plásticos." (CG&S, p. 115).

A generalização dos qualificativos, a imprecisão e a variabilidade dos argumentos, sem falar na referência ao término "precoce" da escravidão, abrem flanco à crítica fácil. O linguajar é atraente e a criatividade grande. Não faltam insights que iluminam o processo sócio-cultural do Brasil, mas o ressaibo conservador com a implícita aceitação de tudo que está dado, não podem ser aceitos acriticamente. Nem por ter sido um grande intelectual nosso autor deixou de extravasar seus preconceitos e de contagiar as análises com crenças e valores nem sempre abertamente expostos.

A democracia racial

A ideia tão difundida de que Gilberto Freyre teria caracterizado o Brasil como uma "democracia racial" precisa ser mais bem qualificada. Ao descrever as qualidades dos portugueses em sua terra de origem, Freyre insistia em que eles já possuíam uma cultura baseada em equilíbrios entre contrários, com plasticidade suficiente para aceitar práticas de miscigenação racial e cultural. As análises históricas vêm acompanhadas de referências às fontes e a seus intérpretes. Chama mesmo a atenção o enorme conhecimento que GF tinha da formação histórico-cultural lusitana. Foi na interpretação, na valorização de certos traços culturais e sociais, que GF introduziu algum viés, embora tenha sempre se oposto ao racismo prevalecente em muitos círculos. Para começar nosso autor descreveu os portugueses - com exceção dos habitantes ao Norte, mais celtas - como um povo cujo sangue já carregava as marcas árabes e africanas. Da África negra e berbere.

Como negasse o valor explicativo das diferenças raciais em si mesmo, acrescentava sempre dimensões culturais: não apenas o português era amorenado, mas também sua cultura absorvera muitos traços muçulmanos desde a ocupação árabe. Eram os "moçarabes", nos quais se juntavam traços culturais dos escravos negros e dos berberes:

"O que se sente em todo este desadoro de antagonismos são duas culturas, a europeia e a africana, a católica e a maometana, a dinâmica e a fatalista encontrando-se no português, fazendo dele, de sua vida, de sua moral, de sua economia, de sua arte um regime de influências que se alternam, se equilibram e se hostilizam". Daí que "se compreende o especialíssimo caráter que tomou a colonização do Brasil, a formação sui generis da sociedade brasileira, igualmente equilibrada nos seus começos e ainda hoje sobre antagonismos" (CG&S, p. 69).

Essa contradição sem dialética - sem produzir propriamente uma síntese -- esse equilíbrio entre antagonismos teria sido a marca distintiva de nossa cultura. Em Casa Grande & Senzala não se fala em "propensão democrática" nem mesmo em "democracia racial" mas em oposições que se equilibram. O português do século da descoberta e dos séculos iniciais da colonização já tivera na Europa tanto a experiência de intercâmbio cultural, quanto conhecera e se aferrara a alguma instituições que recriou na América: a poligamia e a escravidão de negros e árabes não lhe eram estranhas. GF chega mesmo a dizer que o português era o mais propenso dos povos europeus a praticar a escravidão, assim como a poligamia herdada da África. Nem essa nem o desregramento sexual e moral nasceram no Novo Mundo; já eram vividos na Europa pelos colonizadores. Sem motivos para orgulho de superioridade racial, havendo expulsado os mouros, sendo bravos guerreiros, cobriram-se no manto da Igreja para notabilizarem-se como combatentes dos hereges. A igreja, a escravidão, o desregramento moral e a empresa colonial produtiva chegaram juntas ao Brasil pela mão dos portugueses. Estes, contudo, não partiram, na origem, de uma sociedade propriamente feudal, nem jamais deram à superioridade de pele e de sangue preeminência maior, pois dela não dispunham.

O mesmo estilo de abordagem se desdobra para caracterizar a junção de outras "raças" e culturas formadoras do Brasil. Na análise da contribuição dos índios, GF, uma vez mais, exibe notável conhecimento das fontes históricas e da antropologia da época. Deixo de citar os autores que serviram de base para suas descrições e interpretações para não cansar o leitor, mas posso assegurar - tendo eu próprio seguido no início dos anos 1950 cursos de antropologia - que a bibliografia referida era a que então se ensinava. Discípulo de Boas, leitor contumaz, GF não pecava por falta de base científica. Repito, quando pecava era por sua "visão", por suas interpretações, como disse acima.

Retomando o fio: GF também viu o processo de contato entre portugueses e indígenas como um antagonismo entre culturas atrasadas e mais desenvolvidas. Com a presença do colonizador, destrói-se o equilíbrio nas relações entre os indígenas e o meio físico, "principia a degradação da raça atrasada ao contato da adiantada". Os indígenas foram vítimas de duas influências desagregadoras, deletérias mesmo, nas palavras de Gilberto: a dos portugueses e a dos jesuítas, que se anteciparam nas tentativas de europeização ao imperialismo burguês europeu.

"O imperialismo português - o religioso dos padres, o econômico dos colonos - se desde o primeiro contato com a cultura indígena feriu-a de morte, não foi para abatê-la de repente, com a mesma fúria dos ingleses na América do Norte. Deu-lhe tempo para perpetuar-se em várias sobrevivências úteis" (CG&S, p. 231).

A partir dessa visão distingue três dimensões características. As do "imperialismo dos colonos", quer dizer, a utilização do indígena pelo português em seus empreendimentos conquistadores (de terras, como nas bandeiras, digo eu, ou de exploração produtiva), as do "imperialismo religioso", dos jesuítas, e a da "convivência de contrários". Por isso, Freyre ressalta o contraste com a colonização inglesa que matava diretamente os indígenas, enquanto em nosso caso, sua cultura era desagregada por ambos, jesuítas e colonos, e suas populações eram lentamente exterminadas pelas moléstias e os maus tratos tanto por parte dos portugueses quanto dos padres. Mas a população indígena teria sido ao mesmo tempo relativamente "preservada" para ser usada na exploração econômica e, sobretudo, sua cultura mantida e modificada pelas consequências do contato e da miscigenação. Nesse passo, novamente, a visão edulcorada do convívio entre contrários se mostra forte:

"Nem as relações sociais entre as duas raças, a conquistadora e a indígena, aguçaram-se nunca na antipatia ou no ódio cujo ranger, tão adstringente, chega-nos aos ouvidos de todos os países de colonização anglo-saxônica e protestante. Suavizou-as aqui o óleo lúbrico da profunda miscigenação. Quer a livre e danada, quer a regular e cristã sob a bênção dos padres e pelo incitamento da Igreja e do Estado" (CG&S, p. 131).

Freyre, como fará com relação aos negros, se delicia ao descrever a lubricidade prevalecente na Colônia, ao dar interpretações de fundamento sexual à couvade, ao descrever aspectos físicos dos órgãos sexuais dos nativos. Tudo isso, mais a necessidade de povoar e ampliar a base produtiva, levou ao inter-casamento, quando não ao intercurso sexual frequente. Mesmo ressaltando que o estilo de interconexão racial e cultural permitiu manter a cultura autóctone mais viva na brasileira (toponímias, culinária, formas de lidar com as crianças, abrandamento da língua, poesia, música etc.) do que o ocorrido em outras plagas, GF acentuou sempre os aspectos perversos da desagregação cultural provocada pela colonização. Sua crítica mais persistente e dura foi antes contra o jesuíta do que contra o colono. Não poupou palavras referindo-se à "crueldade" dos jesuítas. Estes tentaram construir uma nova base moral para os indígenas sem antes "lançar uma permanente base econômica" (CG&S, p. 225). Resultado: a família dos indígenas se desagregou sem suportar os moldes cristãos, prevaleceu a miséria, aumentou brutalmente a mortalidade infantil, houve a "degradação da raça" que pretenderam salvar (CG&S, p. 225).

Essa desagregação cultural e moral ocorreu a partir de quando os padres resolveram colocar os índios em missões sob sua proteção. Antes, nos séculos. XVI e XVII, o clima teria sido outro:

"As crônicas não indicam nenhuma discriminação ou segregação inspirada por preconceito de cor ou de raça contra os índios; o regime que os padres adotaram parece ter sido o de fraternal mistura dos alunos" CG&S, p. 223/224).

Ainda assim a crítica dura de Freyre denunciando maus tratos aos indígenas se voltou menos contra os portugueses do que contra os jesuítas. A estes não perdoou nada:

"O missionário tem sido o grande destruidor de culturas não europeias, do século XVI ao atual; sua ação mais dissolvente que a do leigo" (...) O que se salvou dos indígenas no Brasil foi a despeito da influência jesuítica." (CG&S, p. 178).

Com seu estilo, cheio de espirais que se tornam círculos, como disse, Gilberto escreve, ao mesmo tempo o contrário:

"Campeões da causa dos índios, deve-se em grande parte aos jesuítas não ter sido nunca o tratamento dos nativos da América pelos portugueses tão duro nem tão pernicioso como pelos protestantes ingleses" (CG&S, p. 217). E dá nova cambalhota na argumentação:

"Ainda assim os indígenas nesta parte do continente não foram tratados fraternal ou idilicamente pelos invasores, os mesmos jesuítas extremando-se às vezes em métodos de catequese os mais cruéis. Da boca de um deles, e logo do qual, do mais piedoso e santo de todos, José de Anchieta, é que vamos recolher estas duras palavras; 'espada e vara de ferro, que é a melhor pregação' (CG&S p. 217).

Sobre os colonos portugueses, que teriam sido mais flexíveis e mais interessados nas mulheres indígenas e em tê-los, homens e mulheres, como força de trabalho, nosso autor diz contraditoriamente que também repartiram a responsabilidade por algumas formas de desagregação da cultura e da moral indígena:

"Os colonos e não os jesuítas terão sido, em grande número de casos, os principais agentes disgênicos entre os indígenas: os que lhe alteraram o sistema de alimentação e de trabalhos, perturbando-lhes o metabolismo; os que introduziram entre eles doenças endêmicas e epidêmicas; os que lhe comunicaram o uso da aguardente de cana" (CG&S, p. 180).

Se foi assim, torna-se difícil entender no que consistiu o "equilíbrio" entre antagonismos e que atores sociais foram flexíveis e quais os impenetráveis. Tudo parece fazer crer que para Gilberto Freyre os jesuítas representaram a encarnação do mal maior - quem sabe ressaibos de antropólogo que não suporta a violação direta da cultura indígena pelos missionários -- mas dos colonos não se pode dizer que possuíssem disposição anímica capaz de facilitar o equilíbrio entre culturas e raças.

É, entretanto, quando trata dos escravos e negros nos dois últimos capítulos de CG&S que as teses de Freyre, sua força expositiva e suas interpretações, se tornam mais claras. No primeiro deles, sobre o negro na vida sexual e na família dos brasileiros, nosso autor volta a exibir pleno domínio da literatura antropológica de sua época, inclusive de antropologia física. Dedica-se a desmentir as hipóteses relativas à inferioridade dos negros, desde as que se baseavam em medições do peso e da estrutura dos cérebros, até às que se referem às influências climáticas e de regime alimentar sobre o comportamento dos africanos. Entra mesmo na controvertida discussão sobre a transmissibilidade de caracteres adquiridos que, como sabemos, ocupou páginas e páginas da literatura em moda naquele período. Baseado em Franz Boas, Melville Herkovits, Pitt-Rivers, Lowie e até mesmo Ruth Benedict, desfaz passo a passo as teorias em voga sobre a importância de diferenças raciais seja as baseadas na genética, seja as que acentuavam fatores climáticos e ambientais para distinguir comportamentos. O que conta mesmo para Freyre são as diferenças culturais que se constroem historicamente. Apreciação válida tanto para os negros como para os ameríndios:

"Lowie parece-nos colocar a questão em seus verdadeiros termos. Como Franz Boas, ele considera o fenômeno das diferenças mentais entre grupos humanos mais do ponto de vista da história cultural e do ambiente de cada um do que da hereditariedade ou do meio geográfico puro"(CG&S, p. 381).

A frase resume o pensamento de GF sobre a matéria. Daí concluir:

"O depoimento dos antropólogos revela-nos no negro traços de capacidade mental em nada inferior à das outras raças." CG&S, p. 379).

Se diferenças há, foram criadas pelas relações entre os homens, sempre em interação, obviamente, com o meio ambiente, o clima, regime alimentar etc. Mas o fundamental para explicar diferenças são as formas de sociabilidade, as relações de hierarquia, as técnicas criadas para a adaptação ao meio, etc. Estamos longe de Nina Rodrigues, ou mesmo de Oliveira Vianna e seus próximos.

Outra contribuição importante do livro nessa matéria foi precisamente a de distinguir entre culturas, tanto ameríndias como africanas. Indo além das pegadas de Nina Rodrigues que mostrara haver outras culturas além da Banto entre os escravos brasileiros, GF acrescenta, dando ênfase, o papel que, entre outras etnias, os Nagô e Yoruba e os Hauçá - esses já mestiços de hamitas e berberes - exerceram na formação cultural dos brasileiros. Alguns desses grupos já teriam vindo para cá islamizados. Em uma palavra, e parodiando: as próprias culturas africanas já formariam um melting pot. Razão adicional para confirmar que:

"dentro da orientação e dos propósitos deste ensaio, interessam-nos menos as diferenças de antropologia física (que ao nosso ver não explicam inferioridades ou superioridades humanas, quando transpostas dos termos de hereditariedade de família para os de raça) que os de antropologia cultural e de história social africana" (CG&S, p. 387.)

Apesar dessa conclusão, GF faz uma longa digressão sobre a superioridade cultural dos estoques negros vindos para o Brasil e, no Brasil dos que foram para o Nordeste, em comparação com o que ocorreu com os Estados Unidos. Critica o arianismo de Nina Rodrigues e de Oliveira Vianna, mas se refere aos fula e aos hauçá, como mesclados com povos não negros, no momento em que está mostrando a "superioridade" destes em comparação com outros grupos africanos; discorre sobre as características diferenciais de certos grupos de negros nas várias regiões do Brasil; minimiza, é verdade a cor da pele como traço distintivo, mas fala no tipo de cabelo como diferencial. Enfim abre espaço para o crítico que queira se esquecer de suas orientações basicamente anti-racistas e culturalistas para mostrar contradições no texto. Que as há, as há e de sobra. Mas o "sentido geral da interpretação", se posso dizer assim, foi outro, foi o de desmentir a inferioridade do negro e acentuar as diferenças e possibilidades de fusão entre as culturas.

Na verdade Gilberto estava procurando valorizar as culturas negras para se opor às teses da inferioridade racial. Descreve com alguma minúcia (p. 391-393) a variedade cultural africana, hierarquiza seus desenvolvimentos relativos, reafirma vantagens dos escravos brasileiros em comparação com os americanos e mesmo do Caribe - por exemplo, maior proximidade com a África, manutenção de um comércio constante entre as duas regiões e com isso revitalização cultural - e termina por dizer que duas grandes áreas culturais, especialmente contribuíram para a formação brasileira, os bantos e sudaneses:

"Gente de áreas agrícolas e pastoris. Bem alimentada a leite, carne e vegetais. Os sudaneses da área ocidental, senhores de valiosos elementos de cultura material e moral próprios, uns e outros adquiridos e assimilados dos maometanos" (CG&S, p. 393).

Feita a ressalva da multiplicidade de etnias vindas para cá, da sofisticação cultural relativa de algumas delas e do hibridismo de todas - não só racial, mas cultural, basta lembrar as influências maometanas no catolicismo brasileiro graças aos africanos - Gilberto retoma a tese principal. Vai buscar apoio em Nabuco para dizer que não se pode avaliar a contribuição (positiva ou negativa) do negro para a nossa formação, separando-o do escravo, de sua condição social:

"uma discriminação se impõe: entre a influência pura do negro (que nos é quase impossível isolar e a do negro na condição de escravo. (...) Sempre que consideramos a influência do negro sobre a vida íntima do brasileiro, é a ação do escravo, e não a do negro por si, que apreciamos. (...) O negro nos aparece no Brasil, através de toda nossa vida colonial e da nossa primeira fase da vida independente, deformado pela escravidão. Pela escravidão e pela monocultura" (CG&S, p. 397).

Em seu arrazoado em defesa do negro diante dos preconceitos vigentes, GF rebate a ideia comum de que a luxúria, a depravação sexual e o erotismo adviessem de sua influência. Arriscando-se em juízos de valor e baseado em testemunhos insuficientes, afiança que, pelo contrário, nas culturas africanas haveria maior moderação sexual do que entre os europeus, tanto que " a sexualidade africana para excitar-se necessita de estímulos picantes" (p. 398). Deixando-se levar pela imaginação menciona vários autores, chegando até citar um que, contrariamente à crença generalizada, fala de terem os africanos "órgãos sexuais pouco desenvolvidos". A necessidade de festas orgiásticas e de símbolos fálicos desproporcionais viria como compensação à realidade.

Dito isso, o desregramento moral, a concubinagem, a proliferação sem Deus nem lei, adviriam do interesse do senhor em multiplicar o número de escravos e da própria libido desabrida que os portugueses já haviam desenvolvido na Europa e trouxeram com eles. A "esse elemento branco e não à colonização negra deve-se atribuir muito da lubricidade brasileira." (CG&S, p. 405).

O resto é a chaga moral da escravidão, não "culpa" do negro, posto que não há escravidão sem depravação, diz textualmente. E não se pense que GF poupa os senhores de terem mantido, como fizeram os jesuítas com os índios, relações cruéis com os negros. Basta ler as descrições sobre as crueldades habituais no regime escravocrata nas p. 458-9 de CG&S. A amante negra, o filho mulato, a proximidade entre o escravo e a casa grande não esmoreceram as relações desiguais e cheias de maldade, eivadas de sado-masoquismo. Ao mesmo tempo, e a despeito da desigualdade e da crueldade, foi havendo a assimilação cultural. Para não me alongar por desnecessário, basta ler as páginas sobre como a própria língua portuguesa foi sendo amaciada, abrandada e tornada mais meiga graças ao convívio com os negros, nas relações entre as casas grandes e as senzala. Na interpretação de GF isso reforça a crença de que:

"A força, ou antes, a potencialidade da cultura brasileira parece-nos residir toda na riqueza dos antagonismos equilibrados, o caso dos pronomes que sirva de exemplo", referindo-se a que os portugueses colocam o pronome depois do verbo, enquanto os brasileiros tanto o usam assim, como fazem-no anteceder ao verbo. A partir dessa constatação de simbiose lingüística, opõe o que teria ocorrido no Brasil com a dureza das duas metades entre os ingleses e os americanos. E reafirma:

"Não que no brasileiro subsistam, como no anglo-saxão, duas metades inimigas: a branca e a preta; o ex-senhor e o ex-escravo. De modo nenhum. Somos duas metades confraternizantes que se veem mutuamente enriquecendo de valores (...) (CG&S, p. 418) e por aí segue em uma descrição onde o que "eu gostaria que fosse" e o que realmente é se misturam no devaneio literário.

É esta ambiguidade permanente na escrita e nas interpretações de GF que lhe dá encanto, dificulta sua compreensão e gera incertezas sobre o significado profundo de sua obra. Mesmo criticando a sociedade escravocrata, mostrando suas degenerescências, não atribuindo aos negros os males do país (nem aos indígenas), mas a um sistema social iníquo, de repente, volta à tese do equilíbrio entre contrários e suas vantagens comparativas com outras culturas. Há um episódio descrito por Freyre do chibateamento de um soldado português ao qual até mesmo José Bonifácio - antiescravista ferrenho - assistiu impávido e por vontade própria. Isso mostraria o quanto todos estavam envoltos pela cultura da violência escravista. Não obstante, poucas páginas adiante, o próprio Gilberto Freyre gaba essa mesma cultura porque;

"Verificou-se entre nós - diz GF - uma profunda confraternização de valores. Predominantemente coletivistas, os vindos da senzala, puxando para o individualismo e para o privatismo, os vindos das casas grandes" (p. 438), confraternização que não adviria dos puros valores cristãos, do cristianismo ascético ao estilo protestante. Mas que se deu porque o cristianismo das senzalas, mais lírico festivo e doméstico penetrou na moral geral. A conversão dos negros ao catolicismo laicizado e sua aceitação pelos senhores, mostraria a plasticidade que só mesmo a "aproximação das duas culturas" poderia ter produzido e que não teria ocorrido em outras áreas onde a escravidão se implantou.

Para Gilberto Freyre as formas de socialização e aculturação que tornaram nossa sociedade diversa das demais de base escravocrata foi a convivência entre contrários, em permanente ora equilíbrio, ora desequilíbrio, mas sem ruptura e sempre com plasticidade cultural. Como se na oscilação entre um e outro polo houvesse espaços para acomodações sem a eliminação de quaisquer deles. Não que graças a isso se houvesse formado propriamente uma "democracia racial", pois a desigualdade, a crueldade e a violência entre senhores e escravos não é negada. A despeito delas, contudo, Gilberto encontra formas de mostrar que era assim, mas não seria bem assim. Dialética com uma contradição principal, mas que não se resolvia pela fusão total nem pela superação de ambos polos, se não que se arrastava oscilando e provocando pequenas mutações em cada um dos polos.

Preconceito e mobilidade

O último capítulo do livro dá continuidade à análise do papel do negro na família patriarcal. É nele que GF oferece maior flanco para a crítica. Sem negar as condições sociais, econômicas e mesmo ambientais que levaram à formação da sociedade patriarcal com todos os seus males, insiste na menor vigência de preconceitos e maior existência de formas de mobilidade social na sociedade patriarcal brasileira. Os casamentos inter-raciais, o concubinato, inclusive entre padres e mulheres negras e mulatas, a maior proximidade física entre as raças, a menor vigência de preconceitos e a existência de formas de mobilidade social abrandariam a dureza da sociedade escravocrata. Começa por afirmar uma estranha tendência "genuinamente portuguesa e brasileira, que foi sempre no sentido de favorecer o mais possível a ascensão social do negro" (CG&S, p. 503). Isso em um parágrafo no qual desmerece a crítica feita a partir de documentos que mostraram ter existido traços de discriminação racial na Colônia. Para se contrapor à menção a uma lei que declarou infames os portugueses que se ligassem a caboclas, apoiou-se em outra disposição, famosa, do Marquês de Pombal, que falava em dar incentivos aos colonos portugueses que tivessem filhos com as "tapes" para incentivar o povoamento da Amazônia. Embora, no caso se tratasse exclusivamente de mulheres indígenas, GF aproveita a opinião de Pombal para criticar alguns autores que faziam "do tipo mais complacente e plástico do europeu - os portugueses - um exclusivista feroz, cheio de preconceitos de raça, que nunca teve o mesmo grau elevado dos outros" (CG&S, p. 503).

No embalo de ver condições menos difíceis para a vida de negros e mulatos no Brasil patriarcal, nosso autor não para aí:

"muito menino brasileiro deve ter tido por seu primeiro herói, não nenhum médico, oficial de marinha ou bacharel branco, mas um escravo acrobata que viu executando piruetas difíceis nos circos. (...) E felizes dos meninos que aprenderam a ler e escrever com professores negros, doces e bons. Devem ter sofrido menos que os outros alunos de padres, frades, "professores pecuniários', mestres régios (...) (CG&S, p. 505) e segue numa reconstrução imaginária do que poderia haver ocorrido.

Noutra página, com seu estilo peculiar, referindo-se ao tratamento vigente nos colégios, ao contrário, fala do "sadismo criado no Brasil pela escravidão e pelo abuso do negro" (CG&S, p. 507). Assim como se refere a "negras e mulatas degradadas pela escravidão" e na "degradação das raças atrasadas pelo domínio da adiantada." (p. 515)

Também se refere à existência de preconceitos contra os filhos de mestiços e desvantagens a que se submetiam, levando muitos deles a terem um complexo de inferioridade. Mas, acrescenta isso "mesmo no Brasil, país tão favorável ao mulato." (CG&S, p. 537).

Compreendem-se as dificuldades dos sociólogos da "escola paulista" em aceitar afirmações desse tipo, apresentadas sem maiores esforços para demonstrar sequer sua plausibilidade. Na verdade Gilberto Freyre neste capítulo se esmera em mostrar as condições especiais que teriam caracterizado a relação entre negro e brancos. E cai em uma emboscada: termina por assumir, abertamente posições preconceituosas. Assim, referindo-se com entusiasmo à "atividade patriarcal dos padres", embora exercidas em "condições morais desfavoráveis", afirma tratar-se de

"(...) contribuição de um elemento social e eugenicamente superior. Homens das melhores famílias e da mais alta capacidade intelectual. Indivíduos educados e alimentados como nenhuma outra classe, em geral transmitiram aos descendentes brancos, e mesmo mestiços, essa superioridade ancestral e de vantagens sociais." (CG&S, p. 535).

Freyre se refere a essa suposta "superioridade eugênica" mais de uma vez. Louva a reprodução pelos padres de filhos e netos de "qualidades superiores", assim como escolhe ao arbítrio exemplos de mestiços que no passado e até à sua época teriam chegado ao topo das elites literárias, profissionais e políticas. Isso mostraria a mobilidade social existente e, subliminarmente, insinua, como consequência, a pouca eficácia dos preconceitos, quando os havia.

Não é de espantar, pois, que também com referência aos judeus tanto em Casa Grande & Senzala como em outros escritos, nosso autor tenha distribuído qualificativos não isentos de preconceitos. Não me vou referir a eles por desnecessário: o livro de Sílvia Cortez Silva, Tempos de Casa Grande, publicado este ano, documenta largamente traços de anti-semitismo de Gilberto Freyre. Daí a considerar GF racista e ou mesmo anti-semita vai distância: seu estilo oscilante e seu prazer de gosto duvidoso de distribuir epítetos raciais não se limitavam aos judeus. Isto não os justifica, mas é preciso colocá-los no sentido geral da obra e não isoladamente.

A desagregação da ordem patriarcal

Não farei referências minuciosas aos demais volumes da trilogia famosa, Sobrados e Mucambos e Ordem e Progresso, porque já alonguei demais o texto para esta conferência. Mas não posso deixar de aludir a que é neles que se vê com mais nitidez o aspecto nostálgico da reconstrução que Freyre fez da formação patriarcal do Brasil. É também em SeM que fala mais abertamente da mobilidade democratizadora das relações sociais. Mesmo sublinhando a continuidade desses processos, ele acha, entretanto, que a ruptura da ordem patriarcal teve efeitos antes negativos do que positivos no equilíbrio dos contrários. A urbanização alterou as antigas formas de acomodação social:

" (...) o equilíbrio entre brancos de sobrados e pretos, caboclos e pardos livres de mucambos não seria o mesmo que entre brancos das velhas casas-grandes e os negros das senzalas" (SeM, p. 270).

Como recorda Brasílio Salum Jr. em resumo crítico de SeM, a ideia de patriarcalismo não se resumia à família ampliada, gravitando ao redor das casas grandes, mas era um conceito que abrangia "um complexo de elementos econômicos, sociais e políticos em que ressalta, mais que todos, o escravismo." (in Dantas Mota, L, org., Introdução ao Brasil: um banquete no trópico, São Paulo, Senac, 2ª. ed., 2002, p. 332).

Rompida a coesão social da senzala, os pretos e mulatos livres, passaram a viver e se organizar nos mucambos de forma distinta. A urbanização veio junto com a industrialização e esta reforçou o processo migratório que se iniciara desde a lei do Ventre Livre. Daí por diante, como Freyre escreve em Ordem e Progresso, a gravitação da sociedade brasileira se deslocou "do Oriente para o Ocidente". A civilização que se formara durante três séculos, civilização "agrária, agrícola e que absorvera, como seus, costumes orientais", isto é mouriscos e africanos, alguns destes também orientalizados, passa a sofrer os efeitos da europeização, ocidentaliza-se. Perde muito do "que nos era próprio

Nem gregos nem troianos


Nem gregos nem troianos

Dora Kramer
do Estadão

Definitivamente, o governo do presidente Luiz Inácio da Silva caminha para um final melancólico em matéria de política externa.


Foi chamado de ingênuo pelo governo dos Estados Unidos por cair na conversa de Mahmoud Ahmadinejad; admoestado pela oposição cubana por causa de suas ironias e indiferença em relação aos dissidentes da ditadura castrista; condenado pelo presidente da Colômbia que considerou "deplorável" sua posição sobre o conflito com a Venezuela; menosprezado pelo amigo iraniano para quem os apelos de Lula em favor da mulher condenada à morte por adultério são frutos de falta de informação.

Isso em pouquíssimo tempo, convenhamos, representa uma conjunção de repreensões públicas bastante significativas e contrastantes com a quase unanimidade de 80% de aprovação no âmbito interno.

Dirão os que se indignam com o fato haver no Brasil quem se manifeste em oposição a tão adorado presidente, que o mundo conspira, exercita o preconceito das elites, ou quem sabe, é tucano?

Não, o mundo apenas está tomando contato com o Lula real, em contraposição ao herói da resistência que nunca existiu a não ser na fantasia romântica alimentada por falta de informação e açodamento na expiação de culpas ancestrais.

Como o senso crítico mundo afora e os critérios para avaliação de governantes são mais rígidos que os vigentes no Brasil, Lula foi perdendo o charme na proporção que iam crescendo suas impropriedades em âmbito internacional.

Entrou errado numa seara delicada, a dos direitos humanos. Sem capacidade pessoal para avaliar conexões mais elaboradas e sem disciplina nem paciência de ouvir quem poderia lhe ensinar, achando que da mesma maneira que as coisas dão certo aqui podem dar certo de toda parte, o presidente pôs os pés pelas mãos.

Agora propõe à ONU que evite censurar países violadores dos direitos humanos, argumentando que a denúncia pública e dura de atrocidades não é eficaz.

Como se a política de boa vizinhança do Brasil com ditaduras tivesse rendido algum avanço ou benefício para as populações desses países.

Como se alguma ditadura entendesse a linguagem do diálogo e da negociação. Opressor que se preze - e os amigos do governo Lula são convictos no ramo - não dialoga, oprime.

Só afrouxa o torniquete quando é da conveniência do próprio regime opressor fazer alguma concessão.

Essa proposta encaminhada pelo Itamaraty à ONU pretende que o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas mude seus critérios de funcionamento e passe a adotar os parâmetros do governo Lula.

Se a ONU aceitasse, de uma hora para outra o governo brasileiro teria "lavado" seus procedimento que não seria mais condenado nem condenável. Passaria a ser o modelo de correção.

Se essa hipótese já soaria fora de cogitação em outros tempos, hoje que Lula perde o glamour e a credibilidade no exterior, soa absurda.

Revisão. José Serra não sossegou - fez de tudo e mais um pouco enquanto não conseguiu que Fernando Gabeira fosse candidato ao governo do Rio em aliança com a candidatura presidencial do PSDB.

Hoje o partido - com a concordância do próprio - avalia que foi um erro. A começar pela candidatura de Marina Silva a presidente até as rusgas internas provocadas pela resistência do PV à companhia do DEM, a coligação rendeu m ais problemas que soluções.

Na interpretação dos tucanos paulistas, quem escolheu um candidato a vice no Rio em outro partido saberia escolher um candidato ao governo no PSDB.

Fundamento. O que é mais importante, o nome das coisas ou o que as coisas realmente são? Partindo do princípio de que a designação não altera o significado de nada, o sentido é o que importa.

Por tanto, não interessa se o nome é dossiê, banco de dados ou carta anônima. A boçalidade da intenção é a mesma: pressionar alguém a curvar-se à vontade de outrem mediante ameaça de exposição da intimidade seja ela lícita ou ilícita, falsa ou verdadeira, tanto faz.

Uma plástica no Mercosul
Uma plástica no Mercosul

NOTAS & INFORMAÇÕES
DO eSTADÃO

O Mercosul é uma caricatura de união aduaneira, com barreiras comerciais entre os países-membros e uma Tarifa Externa Comum (TEC) cheia de exceções, mas sua imagem está um pouco mais apresentável depois da reunião de ministros e presidentes em San Juan, na Argentina. Depois de seis anos de impasses, o bloco terá finalmente o seu Código Aduaneiro, com normas, papéis e procedimentos comuns aos quatro sócios - Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Além disso, os governos concordaram em eliminar uma velha aberração - a dupla cobrança do imposto alfandegário. Quando um produto entra no Mercosul por um país e é reexportado para outro, os dois cobram o tributo. Essa distorção tem sido um dos obstáculos a um acordo de livre comércio com a União Europeia.

Durante anos o assunto esteve na pauta. Resolvê-lo tornou-se quase uma questão de honra para cada chefe de governo ao assumir a presidência temporária do bloco. A presidente Cristina Kirchner pode inscrever esse feito em seu currículo. A maior dificuldade foi certamente convencer o presidente paraguaio, Fernando Lugo. Como o Paraguai não tem litoral, produtos importados por mar só chegam ao país depois de passar por um porto brasileiro ou argentino.

Esse imposto é importante para o Paraguai, mas o acordo inclui uma repartição do tributo cobrado na primeira operação. Além disso, a mudança será gradual, entre 2012 e 2014.


A eliminação de problemas como esse poderá ajudar, mas não garantirá o acordo com a União Europeia. A negociação ficou emperrada durante anos e foi retomada recentemente. Divergências entre Brasil e Argentina sobre a abertura do mercado para bens industriais dificultaram o entendimento com os europeus. Segundo o chanceler Celso Amorim, o Mercosul está preparado para ofertas mais ousadas e o avanço depende agora da União Europeia. É melhor ver as cartas sobre a mesa antes de formar um juízo sobre o assunto

Sem um acordo sequer com países do mundo rico, o Mercosul continua dando prioridade à chamada agenda Sul-Sul. A reunião em San Juan serviu para a assinatura de um acordo de livre comércio com o Egito, o segundo com um parceiro de fora da América do Sul. O primeiro foi com Israel. As duas iniciativas podem ter algum aspecto positivo, mas nenhuma acrescenta grandes benefícios ao comércio exterior do Brasil e de seus sócios sul-americanos. Mais provavelmente o novo acordo abrirá oportunidades no sentido oposto - para exportadores egípcios e indústrias turcas eventualmente instaladas no Egito.

O resto da conferência pouco ou nada se desviou da rotina de um bloco atolado em problemas internos, movido mais pela retórica do que por ações efetivas de cooperação. Foram aprovados investimentos com recursos do fundo comum de integração, destinados principalmente a obras de infraestrutura. Os documentos assinados por ministros e presidentes tratam de alguns assuntos costumeiros, como o direito da Argentina sobre as Ilhas Malvinas, Geórgia e Sandwich. Condenou-se como ilegítima a pretensão do Reino Unido de explorar petróleo na região.

O comunicado principal, com 42 itens, trata de assuntos tão variados quanto o G-20, a ação da Corte Penal Internacional, as políticas migratórias do mundo rico, o bloqueio comercial a Cuba e as mudanças climáticas.

O presidente venezuelano, Hugo Chávez, não apareceu para mostrar seu desagrado diante da omissão do velho amigo Néstor Kirchner, secretário-geral da Unasur. Kirchner faltou a uma reunião em Quito e deixou, portanto, de mostrar seu apoio a Chávez em sua nova briga com o governo colombiano.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva mostrou mais uma vez seu estranho senso de oportunidade, falando a favor do Irã na frente do chanceler Héctor Timmerman, primeiro judeu a chefiar o Ministério de Relações Exteriores da Argentina. O governo argentino continua cobrando explicações do governo iraniano, suspeito de participação no atentado - com 85 mortes - à Associação Mutual Israelita Argentina. Além do constrangimento, a presidente Cristina Kirchner ainda teve de enfrentar perguntas incômodas da imprensa.

Como serão as conferências do Mercosul sem Lula?


Venezuela em crise


Editorial da Folha de São Paulo

Venezuela em crise
A empresa de petróleo venezuelana PDVSA anunciou anteontem uma queda de 53% nos lucros relativos ao ano de 2009, em comparação com 2008. No mesmo período, o faturamento da companhia, de US$ 74,9 bilhões, registrou declínio de 41%.
O anúncio do mau desempenho da estatal, a grande fonte de recursos da Venezuela e do governo de Hugo Chávez, ocorre em meio a previsões sombrias para a economia do país. De acordo com a Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe), o PIB venezuelano deverá encolher 3% neste ano, enquanto o da maioria dos emergentes crescerá.
O quadro é agravado pela expectativa de que a inflação alcance a casa dos 40%, índice impensável no Brasil, que já foi "viciado" em inflação, e bem acima do verificado em economias menos equilibradas da região.
Pesquisas de opinião indicam que mais de 50% dos venezuelanos veem Chávez como responsável pela deterioração das condições econômicas. E já superam 40% os que dizem ter mais confiança na oposição.
Em que pesem as exortações à diversificação da estrutura produtiva, a Venezuela mantém-se dependente do petróleo, que representa cerca de 90% das divisas. Há quem sustente que a situação da companhia é pior do que sugerem os números divulgados pelo governo. Transformada em cabide de emprego e financiadora de projetos assistencialistas, a estatal sofre com a carência de pessoal qualificado e com a baixa capacidade de investimento.
Não é a primeira vez que Chávez enfrenta percalços na economia. A diferença é que agora parece improvável uma nova onda de alta exorbitante do petróleo, que possa lhe servir de tábua de salvação. Não se pode dizer que os dias do chavismo no poder estejam contados, mas é muito provável que as eleições parlamentares de setembro exponham um forte desgaste político do líder bolivariano.


Irã deixa "adúltera" mais perto da morte por apedr
Irã deixa "adúltera" mais perto da morte por apedrejamento

Organização que lidera campanha para soltar iraniana diz que juiz rejeita recurso pela reabertura do processo

Presa em 2006, mulher é símbolo de campanha mundial contra prática, abandonada na maioria dos países muçulmanos

GABRIELA MANZINI
da FSP

Pivô de campanha internacional contra o Irã, Sakineh Ashtiani, condenada a morrer apedrejada pelo "crime" de adultério, perdeu outra batalha ante a Justiça do país ontem, segundo o Comitê Internacional contra Apedrejamento (Icas, em inglês).
Em nota, a organização informou que, numa audiência realizada ontem, a Corte Suprema de Teerã rejeitou a reabertura do processo e deu andamento ao pedido do procurador da cidade de Tabriz (onde Sakineh e a família viviam) para que a mulher seja executada.
Conforme a organização, a Suprema Corte do país decidirá na semana que vem se confirma ou suspende a execução. Para a ativista iraniana Mina Ahadi, chefe da Icas que vive em exílio na Alemanha, a notícia é "um claro sinal" de que a Justiça iraniana serve de "ferramenta política de opressão do regime".
Não está confirmado se as comunicações mencionam a forma de execução.

ADVOGADO
Sob forte pressão das autoridades iranianas, o advogado de Sakineh, Mohammad Mostafaei, fugiu do país no dia 28. Por terra, ele foi ilegalmente à vizinha Turquia, onde foi detido.
Dias antes da fuga, Mostafaei teve a mulher e o cunhado presos. Ele mesmo foi interrogado. Liberado, falou em seu blog do medo de ser preso e, ao ser reconvocado, desapareceu. Ontem, do presídio em que está, em Istambul, o advogado entrou com um pedido de asilo perante a ONU e o governo turco. Seus defensores esperam que, asilado, ele possa ir à Europa.
Em Brasília, a Câmara dos Deputados aprovou ontem uma moção pedindo ao Irã que liberte Sakineh.

Ahmadinejad escapa de atentado
Ahmadinejad escapa de atentado antes de comício no Irã, afirma agência

TV Estatal iraniana nega que presidente tenha sofrido atentado em Hamadan


Ahmadinejad cumprimenta iranianos em Hamadan

Foto: Stringer/Reuters


TEERÃ - O presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, sobreviveu a um ataque com um explosivo caseiro lançado contra o comboio de carros de sua comitiva durante uma visita à cidade de Hamadan, no oeste do Irã, afirmou uma fonte de seu gabinete à agência Reuters na manhã desta quarta-feira, 4.

Minutos mais tarde, a TV estatal iraniana Press TV negou que o atentado tenha acontecido e culpou a imprensa ocidental pelos boatos. " Algumas organizações de mídia estrangeira publicaram que uma granada explodiu perto do comboio do presidente Ahmadinejad durante sua visita a Hamadan. "Fontes da presidência negam que este ataque tenha acontecido", reportou a Press TV.

A fonte disse que o comboio de Ahmadinejad foi atacado quando ele deixava o aeroporto de Hamadan para discursar em um estádio esportivo local e que o presidente não se feriu, mas outras pessoas ficaram machucadas na explosão. Uma pessoa foi presa, disse a fonte na Presidência. Nenhum grupo assumiu de imediato a responsabilidade pelo atentado.

Ahmadinejad, político populista de linha-dura, acumulou inimigos em círculos reformistas e conservadores na República Islâmica, bem como no exterior. A TV Al-Arabiya, com sede em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, informou que um agressor foi detido depois de lançar a bomba contra a comitiva do presidente iraniano.

Citando fontes próprias, a emissora afirmou que a bomba atingiu um carro que levava jornalistas e membros da equipe do governo.

Ahmadinejad apareceu depois ao vivo na TV iraniana, em um estádio de Hamadan. Parecia bem e não mencionou o ataque.

Na segunda-feira, durante um discurso para iranianos que vivem no exterior, Ahmadinejad afirmou acreditar ser alvo de um plano israelense para assassiná-lo. "Os estúpidos sionistas contrataram mercenários para me assassinar", declarou.


Rapidinhas


Serra e Marina veem risco de caos aéreo

Tucano culpa governo por superlotação de aeroportos e verde diz ver ameaça à realização de Copa e Olimpíada

Candidatos aproveitam série de cancelamentos de voos da empresa Gol para atacar gestão do setor pelo governo Lula

BERNARDO MELLO FRANCO/BRENO COSTA
FSP

Os presidenciáveis José Serra (PSDB) e Marina Silva (PV) disseram ver risco de novo colapso nos aeroportos e acusaram o governo de falhas na gestão do setor aéreo.
As críticas foram feitas um dias após a companhia Gol cancelar 102 voos, causando tumulto nos aeroportos
Serra chegou a dizer que o problema envolvendo a Gol é uma "questão de regulamentação e de fiscalização", mas centrou seu discurso em problemas de infraestrutura dos aeroportos em geral.
"Oito anos é tempo suficiente para reformar todos os aeroportos do Brasil com o pé nas costas", disse o tucano, em resposta à declaração da adversária Dilma Rousseff (PT) na véspera. Dilma afirmou que "não se resolve tudo em oito anos".
Defendendo o governo FHC, Serra disse que a superlotação dos terminais começou nesta década e "nada foi feito para enfrentá-la, fora planos e anúncios".
Marina afirmou que o país não tem planos de infraestrutura e defendeu parcerias com a iniciativa privada na gestão dos aeroportos.
"Se considerarmos que vamos ter Olimpíada e Copa no país, a tendência é que o colapso possa aumentar", disse, de manhã, em São Paulo.
À tarde, ela foi a Brasília apoiar, no Senado, o aumento da licença-maternidade.




Em site, Netinho oferece ingressos a eleitores

Jogo retirado do ar tinha como prêmio direito de participar de atividades com o candidato

DANIELA LIMA
FSP

O vereador Netinho de Paula (PC do B-SP), que concorre ao Senado na chapa do PT, até ontem oferecia ingressos "como reconhecimento" à participação de eleitores em um jogo virtual disponível em seu site. Pela prática, o candidato corre o risco de ter seu registro cassado por compra de votos.
Por meio de um quiz -jogo de perguntas e respostas-, o site oferecia ao eleitor "o direito de participar de atividade política ou show com Netinho de Paula". Bastava acertar as perguntas. Ao menos uma pessoa foi premiada.
A assessoria do candidato admitiu que o site oferecia ingressos a eleitores, mas argumentou que a premiação foi ao ar sem seu aval ou da coordenação da campanha.
"A empresa que faz o site fez isso sem nos comunicar. Assim que soubemos, tiramos do ar. Netinho não tem shows agendados até o fim da eleição", informou a assessoria do candidato.
O site ficou fora do ar por volta das 13h de ontem, e permaneceu assim até o fechamento desta edição.
Procurado pela Folha, o ex-presidente STF (Supremo Tribunal Federal) e do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) Carlos Velloso disse que, em tese, a premiação no site contraria a legislação eleitoral, pode configurar compra de votos e é passível de punição.
Para que a Justiça avalie o caso é preciso que um partido ou o Ministério Público apresente denúncia. Se for constatado crime eleitoral, o candidato pode ser punido com a cassação do registro, além de outras penas.




Serra critica falta de investimentos em aeroportos

CAROLINA FREITAS
do Estadão

O candidato do PSDB à Presidência, José Serra, rebateu hoje sua adversária na disputa eleitoral, Dilma Rousseff (PT), e acusou o governo federal de, por falta de investimentos, ter causado um "colapso" nos aeroportos brasileiros. "Não se fez nada em oito anos. Isto é tempo suficiente para reformar todos os aeroportos do Brasil com o pé nas costas", disse o tucano, na capital paulista. "Dos 20 principais aeroportos do Brasil, 19 estão em colapso, congestionados e afogados. Isso tem reflexo no tempo de espera dos passageiros", afirmou.

Ontem Dilma defendeu a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e afirmou que por muito tempo não houve investimentos nos aeroportos brasileiros. "Conseguimos recuperar vários aeroportos, mas, em oito anos, você não faz tudo." Serra ironizou a tentativa de Dilma de responsabilizar os governos anteriores pelos problemas nos aeroportos. "Brincadeira, né?!", respondeu. "Não faz sentido esperar o final do governo para dizer que a culpa é dos oito anos anteriores. No governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), foram feitos novos aeroportos em pelo menos 10 Estados. A superlotação ocorreu nesta década e nada foi feito para enfrentá-la, fora planos e anúncios."

Serra falou sobre a situação dos aeroportos ao ser questionado sobre o grande número de voos atrasados da companhia aérea Gol nos últimos dias. O tucano disse que os problemas com a companhia aérea eram questão de regulamentação, fiscalização e punição, a serem feitas pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).

Arrecadação

O candidato do PSDB admitiu preocupação com o fato de sua campanha ter arrecadado menos recursos até agora que a das adversárias Dilma Rousseff (PT) e Marina Silva (PV). "Preocupa", disse, ao ser questionado. "Mas eu espero que os recursos entrem." Na primeira prestação de contas da campanha ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), feita hoje, o PSDB declarou arrecadação de R$ 3,7 milhões, enquanto o PV afirmou ter arrecadado R$ 4,65 milhões e o PT, R$ 11,6 milhões.

O candidato reiterou que não mudará a rotina nos dias que antecedem o primeiro debate eleitoral deste ano, às 22 horas de quinta-feira na TV Bandeirantes. "Todo debate é importante dentro de uma campanha. Nada é decisivo, mas tudo pesa." Serra negou que se considere mais preparado que os adversários para o evento. "Seria muita pretensão minha."

Gabeira

O último compromisso de campanha de Serra hoje em Heliópolis, na zona sul da capital paulista, foi a visita a um Ambulatório Médico de Especialidades (AME). O tucano contou com a companhia do candidato do PV ao governo do Rio de Janeiro, Fernando Gabeira. Questionado, Serra evitou comentar sobre um possível atrito entre tucanos e o PV no Rio de Janeiro, por conta de um repasse de recursos que teriam sido prometidos pelo PSDB à campanha de Gabeira. "Eu não estou por dentro da campanha do Rio, mas tem muita fofoca e mentiras em jornais sobre esta história."





Lula leva um pontapé de Ahmadinejad


AUGUSTO NUNES
VEJA

O amigo iraniano responde com um pontapé ao recado carinhoso do palanqueiro

Em maio, durante a chanchada protagonizada pelo presidentes do Irã, do Brasil e da Turquia, Mahmoud Ahmadinejad resumiu os motivos que o fizeram associar-se ao clube dos amigos de infância de Lula. “Gostaria de agradecer mais uma vez ao meu grande amigo pela perspectiva independente e muito otimista que ele tem para as relações mundiais com base na justiça e na amizade”. Sempre que o filhote mais perigoso dos aiatolás fala em justiça e amizade, deve-se deduzir que o estoque de urânio enriquecido acrescentou algumas toneladas. Lula acredita.

Neste sábado, durante o comício em Curitiba, Lula aproveitou o caso de Sakineh Muhammadi Astiani para, simultaneamente, posar de misericordioso, caçar votos para Dilma Rousseff e festejar o caso passional entre Brasília a Teerã. “Já que minha candidata é uma mulher eu queria fazer um apelo a meu amigo Ahmadinejad, ao líder supremo do Irã e ao governo do Irã”, caprichou na redundância. “Se vale a minha amizade e o carinho que eu tenho pelo presidente do Irã e pelo povo iraniano, se essa mulher está causando incômodo, nós a receberíamos no Brasil de bom grado”.

Três dias depois de endossar o apedrejamento, o palanqueiro desconfiou de que seria mais lucrativo eleitoralmente candidatar-se a hospedeiro de Sakineh. Excitado pelos aplausos, o animador de auditório foi em frente. “A traição lá tem um tipo de pena que é enterrar a mulher viva e deixar a cabeça para fora para o povo jogar pedra”, resumiu a introdução da piada: “Fico imaginando se um dia tivesse um país do mundo que se o homem trair fosse apedrejado. Eu queria saber quem é que ia gritar: atire a primeira pedra aquele que não traiu”, terminou a frase cantarolando.

O sorriso do animador ordenou ao auditório que achasse aquilo engraçado. Os devotos riram da brincadeira macabra. Enquanto um lado do rosto de Dilma Rousseff se deslumbrava com o humor do Mestre, o outro reverenciava o monumento à clemência. “A atitude do presidente tem uma importância significativa para todas as mulheres “, recitou. “Mais uma vez, Lula pregou o diálogo”. Faltou combinar com os aiatolás, descobriram nesta terça-feira o dono do circo e a trapezista.

Ao saber da discurseira em Curitiba, Ahmadinejad escalou para a resposta um certo Ramin Mehmanparast, porta-voz da chancelaria iraniana. “Até onde sabemos, Da Silva é uma pessoa muito humana e emotiva, que provavelmente não recebeu informações suficientes sobre o caso”, disse o funcionário do terceiro escalão. Referindo-se ao destinatário do recado pelo sobrenome, prometeu que o governo iraniano vai explicar a Lula que Sakineh é “uma criminosa condenada”.

De onde menos se espera é que não vem nada mesmo, comprovou a reação subalterna. Em vez de solidarizar-se altivamente com Sakineh, e reiterar a disposição de cumprir a promessa esboçada no palanque, começou a preparar a rendição. Num dos intervalos da reunião de cúpula do Mercosul em San Juan, na Argentina, primeiro fingiu enxergar um afago no que foi uma cotovelada: “Eu fico feliz que o ministro do Irã tenha percebido que eu sou um homem emocional. Eu sou muito emocional”. Em seguida, desqualificou o que havia chamado de “apelo”: “Eu não fiz um pedido formal de asilo. Eu fiz um pedido mais humanitário”.

A trajetória errática do falatório denunciou o constrangimento provocado pela ríspida mensagem de Ahmadinejad. Começou batendo no cravo: “Pelo que se fala na imprensa, ou ela vai morrer apedrejada ou enforcada, ou seja, nenhuma das duas mortes é humanamente aceitável. Obviamente, se houver disposição do Irã em conversar, nós teremos imenso prazer em conversar e, se for o caso, trazer essa mulher para o Brasil”.

E então bateu na ferradura: “Sobre a questão dos direitos humanos no Irã, eu não conheço profundamente como funciona o Irã, o que sei é que cada país tem a sua lei, tem a sua Constituição, a sua religião. E nós precisamos, concordando ou não, aprender a respeitar o procedimento de cada país. Acho que, se nós aprendêssemos a respeitar a soberania de cada país, seria muito melhor”. Nem mesmo um campeão da hipocrisia se atreveria a chamar Ahmadinajad de “amigo querido” se soubesse como funcionam as coisas no Irã. Muito menos ousaria defender a preservação de códigos medievais e inacreditavelmente sórdidos.

Caso queira saber o que faz o bom companheiro, basta ao presidente conferir os dois vídeos alojados na seção História em Imagens. As cenas fortíssimas podem ultrapassar os limites do suportável. Lula merece ser obrigado a vê-las e dizer o que acha. Se não ficar espantado, estará provado que, se o monarca de cordão carnavalesco tivesse sido imperador, mandaria prender quem se opusesse às leis que pretendiam eternizar a escravidão. Como só chegou ao poder muito mais tarde, os homens lúcidos daqueles tempos escaparam do que sobrou para os brasileiros deste começo de século.

Para Serra,debate da quinta-feira não será decisiv



Para Serra, debate da quinta-feira não será decisivo

André Mascarenhas
do Estadão

O candidato do PSDB à Presidência da República, José Serra, disse hoje que o primeiro debate com seus principais adversários, na próxima quinta-feira, 5, será importante, mas não decisivo para o resultado da eleição. Para o tucano, o fato de ser o primeiro enfrentamento provavelmente chamará a atenção do eleitor e ajudará a compor um quadro mais coeso no momento da escolha. “É uma peça importante numa campanha, para efeito de exposição de ideias e para efeito de comparação”. Questionado se está mais preparado do que sua adversária petista, Dilma Rousseff, ele afirmou que caberá às pessoas julgar.

Serra dá entrevista em frente a AME de Heliópolis. Foto: Ernesto Rodrigues/AE
O tucano também comentou o caos dos últimos dois dias nos aeroportos, provocado pelos atrasos e cancelamentos de voos da Gol. Serra aproveitou a oportunidade para criticar a falta de investimentos nos aeroportos brasileiros, mas atribuiu o problema pontual à ausência de regulamentação e fiscalização no setor.
“Aí é a questão da regulamentação,da Anac, da fiscalização e da punição quando as companhias cometem excessos”, disse. Antes, o candidato havia criticado a falta de investimentos do governo federal em aeroportos no País, tecla em que tem batido ao longo da campanha. “Dos 20 maiores aeroportos do Brasil, 19 estão em colapso”, disse. “Na prática, nos últimos anos, não se fez nada em matéria aeroportuária”, continuou.
Pé nas costas
O tucano aproveitou para alfinetar o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. ”Oito anos é tempo suficiente para reformar todos os aeroportos do Brasil com os pés nas costas”, disse, em referência aos dois mandatos do presidente. Ele também elogiou o governo de seu colega de partido, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Segundo o tucano, FHC promoveu obras em aeroportos de “pelo menos 10 Estados”.
Serra fez as declarações após visitar obras do governo Estadual na favela de Heliópolis, na zona sul de São Paulo. Segundo o ex-governador de São Paulo, os investimentos em habitação, asfaltamento de ruas, saneamento básico e iluminação mudaram a cara da comunidade. “Heliópolis era a maior favela do Brasil. Quando eu cheguei na prefeitura, começamos a transformar Heliópolis num bairro”, disse o tucano em coletiva de imprensa em frente ao Ambulatório Médico de Especialidades (AME) do bairro. Antes, o tucano visitou uma escola técnica (Etec) construída pelo governo estadual e unidades do CDHU na região.



Serra visita escola em favela inaugurada em seu governo

CAROLINA FREITAS
do Estadão

Candidato do PSDB à Presidência, o ex-governador de São Paulo José Serra passou a tarde de hoje na Favela de Heliópolis, na zona sudeste da capital. O tucano visitou duas obras que se tornaram bandeiras de seu governo: uma escola técnica (Etec) e um Ambulatório Médico de Especialidades (AME), inaugurados no ano passado pelo próprio Serra. A escola foi aberta em setembro e a unidade de saúde, em dezembro.

Acompanhado por dezenas de cabos eleitorais de candidatos a deputado estadual por sua coligação, Serra caminhou meio quarteirão de seu carro até a Etec. Ao entrar no pátio da instituição, a equipe de campanha pediu que os cabos eleitorais baixassem as placas e parassem de distribuir panfletos e adesivos. "Senão é crime eleitoral", gritava um homem.

No mesmo terreno funciona uma escola municipal de educação infantil (Emei). As crianças foram até as escadarias do prédio e, de longe, entoaram um coro: "Serra, Serra, Serra." O candidato acenou para elas. Tudo era captado por um microfone de lapela colocado na camisa de Serra assim que ele desembarcou em Heliópolis, além de ser filmado e fotografado pela equipe de campanha.

Quando Serra se aproximava do prédio da Etec, foi abordado por uma pessoa que o elogiou e gritou: "Serra presidente!" Correligionários aplaudiram e o candidato imediatamente deu meia-volta: "Vamos embora senão vão dizer que estamos fazendo comício", disse. A lei eleitoral proíbe a propaganda eleitoral em bens que pertençam ao poder público ou cujo uso dependa de cessão ou permissão dele.

Serra concedeu entrevista para jornalistas no pátio do AME de Heliópolis, mas entrou acompanhado por não mais que dez correligionários no prédio do ambulatório. "Vocês não podem entrar senão vão dizer que estou fazendo campanha", disse aos jornalistas. Cabos eleitorais esperaram do lado de fora da grade, gritando o nome dos candidatos a deputado estadual e de Serra.

Se eleito presidente, o tucano pretende levar o exemplo de Heliópolis para outras comunidades pelo País. "Transformar favelas em bairros, é o que eu quero fazer com todo o Brasil", disse. "É um projeto para todas as áreas pobres das grandes cidades".

ANTERIOR  1  2  3  4  5  6  7  8  9  10  11  12  13  14  15  16  17  18  19  20  21  22  23  24  25  26  27  28  29  30  31  32  33  34  35  36  37  38  39  40  41  42  43  44  45  46  47  48  49  50  51  52  53  54  55  56  57  58  59  60  61  62  63  64  65  66  67  68  69  70  71  72  73  74  75  76  77  78  79  80  81  82  83  84  85  86  87  88  89  90  91  92  93  94  95  96  97  98  99  100  101  102  103  104  105  106  107  108  109  110  111  112  113  114  115  116  117  118  119  120  121  122  123  124  125  126  127  128  129  130  131  132  133  134  135  136  137  138  139  140  141  142  143  144  145  146  147  148  149  150  151  152  153  154  155  156  157  158  159  160  161  162  163  164  165  166  167  168  169  170  171  172  173  174  175  176  177  178  179  180  181  182  183  184  185  186  187  188  189  190  191  192  193  194  195  196  197  198  199  200  201  202  203  204  205  206  207  208  209  210  211  212  213  214  215  216  217  218  219  220  221  222  223  224  225  226  227  228  229  230  231  232  233  234  235  236  237  238  239  240  241  242  243  244  245  246  247  248  249  250  251  252  253  254  255  256  257  258  259  260  261  262  263  264  265  266  267  268  269  270  271  272  273  274  275  276  277  278  279  280  281  282  283  284  285  286  287  288  289  290  291  292  293  294  295  296  297  298  299  300  301  302  303  304  305  306  307  308  309  310  311  312  313  314  315  316  317  318  319  320  321  322  323  324  325  326  327  328  329  330  331  332  333  334  335  336  337  338  339  340  341  342  343  344  345  346  347  348  349  350  351  352  353  354  355  356  357  358  359  360  361  362  363  364  365  366  367  368  369  370  371  372  373  374  375  376  377  378  379  380  381  382  383  384  385  386  387  388  389  390  391  392  393  394  395  396  397  398  399  400  401  402  403  404  405  406  407  408  409  410  411  412  413  414  415  416  417  418  419  420  421  422  423  424  425  426  427  428  429  430  431  432  433  434  435  436  437  438  439  440  441  442  443  444  445  446  447  448  449  450  451  452  453  454  455  456  457  458  459  460  461  462  463  464  465  466  467  468  469  470  471  472  473  474  475  476  477  478  479  480  481  482  483  484  485  486  487  488  489  490  491  492  493  494  495  496  497  498  499  500  501  502  503  504  505  506  507  508  509  510  511  512  513  514  515  516  517  518  519  520  521  522  523  524  525  526  527  528  529  530  531  532  533  534  535  536  537  538  539  540  541  542  543  544  545  546  547  548  549  550  551  552  553  554  555  556  557  558  559  560  561  562  563  564  565  566  567  568  569  570  571  572  573  574  575  576  577  578  579  580  581  582  583  584  585  586  587  588  589  590  591  592  593  594  595  596  597  598  599  600  601  602  603  604  605  606  607  608  609  610  611  612  613  614  615  616  617  618  619  620  621  622  623  624  625  626  627  628  629  630  631  632  633  634  635  636  637  638  639  640  641  642  643  644  645  646  647  648  649  650  651  652  653  654  655  656  657  658  659  660  661  662  663  664  665  666  667  668  669  670  671  672  673  674  675  676  677  678  679  680  681  682  683  684  685  686  687  688  689  690  691  692  693  694  695  696  697  698  699  700  701  702  703  704  705  706  707  708  709  710  711  712  713  714  715  716  717  718  719  720  721  722  723  724  725  726  727  728  729  730  731  732  733  734  735  736  737  738  739  740  741  742  743  744  745  746  747  748  749  750  751  752  753  754  755  756  757  758  759  760  761  762  763  764  765  766  767  768  769  770  771  772  773  774  775  776  777  778  779  780  781  782  783  784  785  786  787  788  789  790  791  792  793  794  795  796  797  798  799  800  801  802  803  804  805  806  807  808  809  810  811  812  813  814  815  816  817  818  819  820  821  822  823  824  825  826  827  828  829  830  831  832  833  834  835  836  837  838  839  840  841  842  843  844  845  846  847  848  849  850  851  852  853  854  855  856  857  858  859  860  861  862  863  864  865  866  867  868  869  870  871  872  873  874  875  876  877  878  879  880  881  882  883  884  885  886  887  888  889  890  891  892  893  894  895  896  897  898  899  900  901  902  903  904  905  906  907  908  909  910  911  912  913  914  915  916  917  918  919  920  921  922  923  924  925  926  927  928  929  930  931  932  933  934  935  936  937  938  939  940  941  942  943  944  945  946  947  948  949  950  951  952  953  954  955  956  957  958  959  960  961  962  963  964  965  966  967  968  969  970  971  972  973  974  975  976  977  978  979  980  981  982  983  984  985  986  987  988  989  990  991  992  993  994  995  996  997  998  999  1000  1001  1002  1003  1004  1005  1006  1007  1008  1009  1010  1011  1012  1013  1014  1015  1016  1017  1018  1019  1020  1021  1022  1023  1024  1025  1026  1027  1028  1029  1030  1031  1032  1033  1034  1035  1036  1037  1038  1039  1040  1041  1042  1043  1044  1045  1046  1047  1048  1049  1050  1051  1052  1053  1054  1055  1056  1057  1058  1059  1060  1061  1062  1063  1064  1065  1066  1067  1068  1069  1070  1071  1072  1073  1074  1075  1076  1077  1078  1079  1080  1081  1082  1083  1084  1085  1086  1087  1088  1089  1090  1091  1092  1093  1094  1095  1096  1097  1098  1099  1100  1101  1102  1103  1104  1105  1106  1107  1108  1109  1110  1111  1112  1113  1114  1115  1116  1117  1118  1119  1120  1121  1122  1123  1124  1125  1126  1127  1128  1129  1130  1131  1132  1133  1134  1135  1136  1137  1138  1139  1140  1141  1142  1143  1144  1145  1146  1147  1148  1149  1150  1151  1152  1153  1154  1155  1156  1157  1158  1159  1160  1161  1162  1163  1164  1165  1166  1167  1168  1169  1170  1171  1172  1173  1174  1175  1176  1177  1178  1179  1180  1181  1182  1183  1184  1185  1186  1187  1188  1189  1190  1191  1192  1193  1194  1195  1196  1197  1198  1199  1200  1201  1202  1203  1204  1205  1206  1207  1208  1209  1210  1211  1212  1213  1214  1215  1216  1217  1218  1219  1220  1221  1222  1223  1224  1225  1226  1227  1228  1229  1230  1231  1232  1233  1234  1235  1236  1237  1238  1239  1240  1241  1242  1243  1244  1245  1246  1247  1248  1249  1250  1251  1252  1253  1254  1255  1256  1257  1258  1259  1260  1261  1262  1263  1264  1265  1266  1267  1268  1269  1270  1271  1272  1273  1274  1275  1276  1277  1278  1279  1280  1281  1282  1283  1284  1285  1286  1287  1288  1289  1290  1291  1292  1293  1294  1295  1296  1297  1298  1299  1300  1301  1302  1303  1304  1305  1306  1307  1308  1309  1310  1311  1312  1313  1314  1315  1316  1317  1318  1319  1320  1321  1322  1323  1324  1325  1326  1327  1328  1329  1330  1331  1332  1333  1334  1335  1336  1337  1338  1339  1340  1341  1342  1343  1344  1345  1346  1347  1348  1349  1350  1351  1352  1353  1354  1355  1356  1357  1358  1359  1360  1361  1362  1363  1364  1365  1366  1367  1368  1369  1370  1371  1372  1373  1374  1375  1376  1377  1378  1379  1380  1381  1382  1383  1384  1385  1386  1387  1388  1389  1390  1391  1392  1393  1394  1395  1396  1397  1398  1399  1400  1401  1402  1403  1404  1405  1406  1407  1408  1409  1410  1411  1412  1413  1414  1415  1416  1417  1418  1419  1420  1421  1422  1423  1424  1425  1426  1427  1428  1429  1430  1431  1432  1433  1434  1435  1436  1437  1438  1439  1440  1441  1442  1443  1444  1445  1446  1447  1448  1449  1450  1451  1452  1453  1454  1455  1456  1457  1458  1459  1460  1461  1462  1463  1464  1465  1466  1467  1468  1469  1470  1471  1472  1473  1474  1475  1476  1477  1478  1479  1480  1481  1482  1483  1484  1485  1486  1487  1488  1489  1490  1491  1492  1493  1494  1495  1496  1497  1498  1499  1500  1501  1502  1503  1504  1505  1506  1507  1508  1509  1510  1511  1512  1513  1514  1515  1516  1517  1518  1519  1520  1521  1522  1523  1524  1525  1526  1527  1528  1529  1530  1531  1532  1533  1534  1535  1536  1537  1538  1539  1540  1541  1542  1543  1544  1545  1546  1547  1548  1549  1550  1551  1552  1553  1554  1555  1556  1557  1558  1559  1560  1561  1562  1563  1564  1565  1566  1567  1568  1569  1570  1571  1572  1573  1574  PRÓXIMA