Evaldo Augusto Torres Alves /editor
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Política

Horário eleitoral sem graça

HELIO DE LA PEÑA
na FSP


Deixar o humor de fora do processo eleitoral não eleva o nível das campanhas, não esclarece o povo e não torna os políticos mais respeitáveis

"E se a gente fizesse um jingle dizendo que agora o Lula está apoiando o Collor, e que o Collor apoia a Dilma?". Essa ideia poderia ter surgido numa reunião do "Casseta", do "Pânico" ou do "CQC".
Mas não, o jingle existe e faz parte da campanha eleitoral de 2010.
Segundo as novas regras do TSE, os humoristas estão proibidos de fazer piadas sobre os candidatos.
Mas eles podem. O que é isso?
Reserva de mercado?
A lei eleitoral nº 9.504/97 impede que emissoras de rádio e TV utilizem "trucagem, montagem ou outro recurso de áudio ou vídeo que de qualquer forma degradem ou ridicularizem candidato, partido ou coligação".
A intenção era manter o debate eleitoral em bom nível, coibindo os candidatos de produzir propagandas que, ao invés de propostas, apresentem retratos grosseiros e caricatos de seus adversários. E o que nós, humoristas, temos a ver com isso?
Ao estender o rigor da lei aos programas humorísticos, ficamos proibidos de abordar um dos temas mais importantes da vida pública neste ano. Não podemos por o dedo nesta ferida, a população não pode rir da política, tem que levá-la mais a sério que os próprios políticos.
A impressão que temos é que os candidatos são uns pobres indefesos, vítimas das piadas. Os políticos brasileiros estão protegidos por uma legislação absurda e exagerada. É como se os coitados estivessem sofrendo de "bullying" praticado pelos humoristas.
Eles estão quase aparecendo nas propagandas eleitorais acompanhados dos pais para que não zoemos com eles. Não podemos criticá-los ou receberemos uma advertência na caderneta. Completamente diferente do que ocorre nos Estados Unidos, por exemplo.
A última campanha presidencial foi marcada pelo humor e pelo deboche. A comediante Tina Fey ganhou as páginas da imprensa mundial fazendo uma hilária imitação da Sarah Palin, candidata a vice na chapa de John McCain.
A própria Sarah fez uma participação no programa "Saturday Night Live" e não atribui sua derrota a esse fato. Ela tem certeza de que o público sabia que se tratava apenas de um programa de humor e que nada do que fosse falado ali era para ser levado a sério.
Deixar o humor de fora do processo eleitoral não eleva o nível das campanhas, não esclarece a população e não torna nossos políticos mais respeitáveis. Pelo contrário, enfraquece o debate, tira a corrida presidencial das conversas nas esquinas e nos cafés das empresas.
Impede o candidato de rir de si mesmo e, quem sabe, corrigir o rumo de sua campanha. Não estamos lutando pelo direito de difamar ou ferir a honra de ninguém, mas amordaçar nossos candidatos Dilmandona, José Careca e Magrina da Silva é um gol contra a democracia.
Impedir que a Sabrina Sato convença os presidenciáveis a dançar o "Rebolation", proibir que o "CQC" utilize recursos gráficos para nos fazer rir dos políticos é patético. Definitivamente, não é esta a forma de conscientizar o eleitorado da importância do pleito.
O público conhece os programas humorísticos e sabe quais são suas propostas. Cabe ao políticos apresentar as suas com seriedade, de forma que o povo não as confunda com as dos humoristas.



*HELIO DE LA PEÑA é humorista do "Casseta & Planeta", exibido pela TV Globo.


Cabral, ao lado de Lula, chama rapaz de otário e s
Em vídeo Cabral, ao lado de Lula, chama rapaz de otário e sacana

Governador do Rio teria prometido um notebook ao rapaz por ofensas

do Estadão

Em um vídeo postado no site Youtube, o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, aparece, ao lado do presidente Lula, discutindo e xingando um rapaz identificado na gravação como Leandro. Segundo o site do blogueiro Ricardo Gama, que diz ter publicado o vídeo, o fato ocorreu no Complexo do Manguinho, zona norte do Rio, no ano passado.

Na gravação Leandro conversa com Lula sobre a utilização de uma piscina que o complexo de prédios que estava sendo inaugurado teria. O rapaz diz ao presidente "A gente não pode entrar na piscina", Cabral intervém e indaga "Por quê?", ao que o menino retruca "Porque não abre para a população". Depois de um corte na gravação, Lula conversa com Cabral e se diz preocupado com o prejuízo político causado se a imprensa descubra a impossibilidade de uso da piscina.

Depois de outra edição na filmagem, o rapaz reclama do barulho que o Caveirão (veículo usado pela polícia do Rio) faz em sua rua. Cabral então pergunta, "E o tráfico?", Leandro responde, "na minha rua não" e Cabral retruca, "Não tem nego de metralhadora não? Então deixa de ser otário, discurso de otário". Em trecho adiante o governador diz ao menino, "bota essa inteligência toda para estudar, o sacana!".

Segundo o Blog de Ricardo Gama, Cabral teria prometido um notebook ao rapaz, por isso Leandro vai a eventos em que está presente o governador, para cobrar o computador. Em outro vídeo postado, a ex-governadora do Rio, Benedita da Silva, confirma que estava presente quando Cabral prometeu o notebook ao menino.




Debate sem debate



ELIANE CANTANHÊDE
da FSP

Debate sem debate

BRASÍLIA - José Serra, Dilma Rousseff e Marina Silva deveriam acender uma vela à TV Globo, que transmitiu a emocionante semifinal da Copa Libertadores no mesmo horário do insosso primeiro debate dos presidenciáveis na Band. O jogo teve 32 pontos no Ibope, enquanto o debate ficou em míseros 2,9. Sorte dos debatedores.
Entre mortos e feridos, ninguém se salvou -a exceção foi Plínio de Arruda Sampaio, porque investiu bem e tudo o que viesse seria lucro. Ele estava visivelmente se divertindo, enquanto os outros mal conseguiam se mover dentro do gesso imposto por pesquisas, marqueteiros, conveniências.
Serra ficou divagando sobre programinhas e não provocou o confronto. Dilma estreou a arriscada estratégia de se livrar da sombra de Lula e ganhar contornos próprios. Marina foi Marina, comovente ao falar da própria biografia, mas não convincente para governar o país. Naquele trio, ninguém tinha a ganhar com ibope alto, a não ser constrangimento.O fiasco de público escamoteou o fiasco de desempenho.
Mas, se ninguém ganhou, alguém ganhou. Explica-se: o empate técnico cristaliza a eleição como está. É ruim para Serra e Marina, mas é bom para Dilma. Eles precisam fazer gol. Ela só precisa não levar. O time e o tempo a mais de propaganda gratuita fazem o resto.
A comparação mais gritante foi com o charme intelectual de Fernando Henrique, o carisma e empatia de Lula e o talento de Mário Covas -que, numa pernada, desestabilizou a ascensão de Guilherme Afif Domingos em 1989. Nenhum dos dois nem chegou ao segundo turno, é verdade, mas Covas entrou para a história dos debates.
Sem FHC, sem Lula, sem tipos como Covas e sem confronto de ideias e de qualificação, para quê debate? Mais valem os 50 segundos diários no "Jornal Nacional" do que mil debates sem debate.

Precisamos de vices?

Precisamos de vices?


Renato Janine Ribeiro
do Estadão

Será que precisamos de vice-presidente, vice-governador, vice-prefeito? A dificuldade na escolha dos vices de Dilma Rousseff e José Serra suscita essa pergunta. Um vice pode tornar-se presidente: dos sete presidentes civis eleitos desde 1950, quatro não terminaram o mandato, tarefa que foi repassada a seus vices - Café Filho, João Goulart, José Sarney e Itamar Franco. Desses quatro vices, aliás, os dois primeiros foram depostos. Pode, então, um vice ser escolhido sem muito cuidado? Mais que isso, um vice é útil, é necessário?

Os regimes democráticos, hoje, dividem-se em presidencialistas, a maioria deles no continente americano, e parlamentaristas, estes especialmente na Europa, na Oceania, na Índia e no Japão. No parlamentarismo, como diz o nome, quem compõe o governo é o Parlamento - e por isso mesmo ele pode ser dissolvido quando necessário, convocando-se novas eleições. Assim, no regime parlamentar o deputado não é eleito para um mandato fixo, mas máximo, que pode ser abreviado pela dissolução do Parlamento. O bom no parlamentarismo é que a dissolução do Legislativo, longe de ser um problema, é muitas vezes uma solução. O que no presidencialismo seria um golpe de Estado, traumático, é no governo de Gabinete uma saída institucional regular. Ora, neste regime o chefe de Estado não importa muito. Pode ser um rei. Pode ser um presidente com funções quase cerimoniais. Se ele renunciar ou falecer, será sucedido por outro, que começará um novo mandato inteiro. Não se precisa de vice. E nada disso constitui problema.

Já o presidencialismo é bem diferente. Ele exige um equilíbrio entre o presidente e o Parlamento, ambos eleitos, mas com poderes distintos e que se contrapõem, justamente para que não haja nem tirania nem desgoverno. Todos os mandatos são fixos. O Parlamento não pode ser dissolvido. Sabe-se quando uma legislatura começa e quando terminará. É bom que o mandato presidencial coincida, em certa medida, com o legislativo, mas o decisivo é que ele seja, também, um mandato fixo. Para isso ocorrer, a figura do vice é quase indispensável. Assim, se o presidente (ou o governador ou o prefeito) morrer, renunciar ou for destituído, o vice completará seu mandato. Caso iniciasse um novo mandato integral, perder-se-ia o equilíbrio entre os dois Poderes eleitos. Daí a importância do vice. Além disso, ele deve ser eleito, dado que pode vir a exercer o cargo mais importante do país (ou Estado ou município). Um vice nomeado, como na Venezuela, pode substituir, não pode suceder.

Mas o vice traz problemas.

Primeiro: é frequente ele ser uma figura apenas decorativa. O titular não lhe confia papéis importantes. Ele é um zero que pode, de um momento para o outro, tornar-se tudo. Vejamos os nomes acima. Em 1950, Café Filho foi uma escolha quase fortuita. Em 1960, Goulart elegeu-se vice de Jânio Quadros porque este disputou a Presidência tendo dois candidatos a vice (na época, eram eleições separadas, sem vinculação de chapa). A opinião pública, que em 1985 apoiou Tancredo Neves para sairmos da ditadura, tolerou o nome de Sarney como vice, mas nunca o aceitaria como candidato ao cargo titular. Itamar Franco, que foi o mais providencial dos vices que nosso país já teve, estava semirrompido com o titular, Fernando Collor, já no começo de seu governo, e talvez desde a campanha de 1989. Assim, um político é neutralizado, quase liquidado e, de repente, adquire o maior poder do País, por mera obra do acaso. Isso é bom?

Segundo: o vice muitas vezes apenas agrega apoio eleitoral. Ele não é da confiança do titular. Foi o caso de Orestes Quércia, vice de Franco Montoro, na eleição para governador de São Paulo em 1982. Ou comparemos os três vices de José Serra. Seu vice-prefeito, Gilberto Kassab, praticamente lhe foi imposto, mas mostrou-se leal a ele - embora, na sua reeleição, tenha agravado o racha entre as duas principais lideranças tucanas paulistas, o ex-governador Geraldo Alckmin e o próprio Serra. Seu vice no governo, Alberto Goldman, foi o nome certo, tanto que foi seu secretário de Estado e hoje dá continuidade ao que ele fez - só que não somou votos. Finalmente, seu candidato a vice-presidente, Índio da Costa, é um desconhecido.

Parece que quem é leal não traz votos e quem soma votos traz problemas. Para ter os minutos do PMDB Dilma precisa de Michel Temer, para ter o tempo do DEM Serra necessita de Índio - mas eles são apenas um complemento da candidatura principal. Seria bom para o País ter como presidente da República alguém cujo principal trunfo foram alguns minutos na televisão?

O que fazer, então? Suprimir o vice exigiria novas eleições, o que, por sinal, não é impossível: poderiam ser eleições diretas, se a vacância se der nos dois primeiros anos de mandato, ou indiretas, nos últimos. As novas eleições teriam de ser realizadas com rapidez - mas em qualquer regime parlamentarista um pleito é convocado com 30 ou 40 dias de antecedência. Temos uma Justiça Eleitoral enorme, cara - e mais lenta que os órgãos eleitorais de qualquer país europeu. Ela poderia ser mais ágil. Mas, mesmo assim, um sistema desses deixaria ao acaso - a morte, a renúncia - o poder de desorganizar todo o equilíbrio entre os Poderes, que é essencial no presidencialismo. Morre ou renuncia o presidente, e muda por completo o Poder Executivo.

A saída menos ruim talvez seja manter as coisas como estão. Tem funcionado bem a ideia de dar ao vice um cargo de ministro ou de secretário. Assim, ele não é esterilizado. Claro que, se o titular se desentender com o vice, como sucedeu com a prefeita Luiza Erundina ou com o presidente Collor, haverá problemas. E por isso mesmo temos de avaliar bem se o vice merece nosso voto. Porque estamos votando, sempre, em dois nomes, e o reserva pode virar titular. Precisamos conhecer o que pensam. Afinal, se têm tanta chance de assumir o cargo, precisamos conhecê-los e levar em conta as alianças que representam na hora de votar. Isso a imprensa deveria cobrar.


*PROFESSOR TITULAR DE ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA DA USP



No macio azul do mar

Sem sobressaltos, sem lances espetaculares, sem arroubos

emocionantes, sem movimentos bruscos. Um arroz com feijão bem feito parece ser a receita predileta da campanha petista

DORA KRAMER
do Estadão

O alto comando da campanha de Dilma Rous­seff, aquele residente um andar abaixo do ocupado pelo presidente Luiz Inácio da Silva, gostou do debate realizado pela TV Ban­dei­rantes não só porque a candidata sobreviveu sem ferimentos graves.

O que agradou mesmo foi o clima “morninho”, como definiu menos de 24 horas depois um mandachuva da equipe.

“Para nós está bom assim, o rio correndo para o mar. Se continuar no mesmo ritmo a eleição está ganha.”

Quer dizer, sem sobressaltos, sem lances espetaculares, sem arroubos emocionantes, sem movimentos bruscos. Um arroz com feijão bem feito parece ser a receita predileta da campanha petista, cujo coordenador em tela acha que já esgotou sua cota de tiros no pé.

“Demos todos os que tínhamos direito.” Por exemplo, o registro na Justiça Eleitoral do documento “A grande transformação” aprovado em congresso do PT, como programa de governo, com restrições à liberdade de imprensa e violações ao direito de propriedade entre outros pontos eivados daquele modo todo especial que o PT tem de espantar eleitor em seus momentos xiitas.

Justo com Dilma, que não pode, segundo avaliação interna, dar margem a interpretações de que se eleita fará um governo marcadamente de esquerda. “Se Lula não pôde, ela muito menos. Não terá espaço para concessões à esquerda.”

Pelo mesmo raciocínio do quanto mais frio melhor, boa parte do estoque de tiros no pé foi gasta nos primeiros 15 dias depois que Dilma deixou o ministério.

Ela vestiu o figurino de combate, “acreditou” no papel e saiu de pau e pedra para cima do então pré-candidato do PSDB, José Serra. Respondia a tudo, polemizava, fazia frases (“lobo em pele de cordeiro”), brigava sozinha, perdia o em­­bate para si e o tucano só fazendo pose de bom moço.

Não falava mal de Lula e chegou a espalhar pânico nas hostes inimigas. “Ele estava assustadoramente perfeito.”

O que foi assim tão perfeito? A atitude amena, que deixava os petistas na difícil situação de precisar criticar um adversário que elogiava o presidente. Foi na época em que Dilma repetia que Serra era ambíguo sobre ser ou não oposição. “Era um rebate fraco, nada convincente.”

De acordo com a análise do comando petista, as coisas melhoraram depois que a candidata parou de responder a José Serra e ao mesmo tempo o tucano endureceu o discurso.

Na campanha governista o que se diz é que quanto mais oposicionista Serra se mostrar, melhor para Dilma.

Isso tanto pode ser a mais pura verdade como pode ser também um truque para levar o oponente para o lado que mais interessa.

Como distinguir? Im­­pos­sí­­vel, melhor mudar de assunto.

Falar, por exemplo, sobre a expectativa em relação ao programa do horário eleitoral que estreia daqui a dez dias.

O centro dessa questão obviamente é o presidente Lu­­la. A campanha quer dosar sua participação. Nem tanto que faça a candidata desaparecer nem tão pouco que não seja suficiente para dar uma deslanchada nas pesquisas.

Mas Lula em qualquer dose não é bom?

Depende.

O QG petista cita o exemplo recente da campanha para a prefeitura de Belo Horizonte. Tanto o então governador Aécio Neves e o então prefeito Fernando Pimentel apareceram na propaganda que o candidato Márcio Lacerda sumiu. Por pouco não perdeu a eleição.

Portanto, overdose de Lula nem pensar. São 45 dias de programas. Será feito um teste: dependendo do resultado nas primeiras duas semanas, a participação do presidente aumenta ou diminui.

Retomando aquela ideia do início de que a “eleição está ganha” se tudo transcorrer em ambiente morno – o que contraria o argumento de que a agressividade da oposição favorece Dilma –, vamos conferir as contas em relação à possibilidade de vitória no primeiro turno.

Há dois tipos de avaliação. A da maioria, mais otimista, aposta em 50% de chance. A do nosso interlocutor, porta-voz dos prudentes, cai para 5%.

Cálculo de gato escaldado, lembrando que em 2002 e 2006 as pesquisas indicavam vitória de Lula no primeiro turno e nas duas vezes a eleição foi decidida no segundo.

Temente a água fria, não se ilude facilmente: “Eleição en­­gana muito a gente.”

Reviravolta histórica

RUBENS RICUPERO
da FSP

Reviravolta histórica

No passado, o intercâmbio não se limitava a comércio: os valores e as aspirações também vinham de fora

NO ANO PASSADO, a China se tornou pela primeira vez o maior mercado do Brasil, superando os EUA, que ocupavam essa posição há quase 150 anos. O mercado chinês foi também o primeiro destino das vendas do Mercosul e do Chile, o segundo para a Argentina e o Peru.
Isso não se deve somente aos efeitos da crise financeira sobre a demanda dos EUA. A tendência é clara em toda a primeira década do século. Durante esses dez anos, o comércio China-América Latina foi o de maior crescimento em cotejo com outras regiões nas exportações e nas importações, aumentando ao dobro da taxa média mundial.
É melancólico como o intercâmbio brasileiro-americano perdeu importância relativa nos últimos cem anos. Em 1905/06, o Brasil era o sexto maior parceiro bilateral dos EUA, após o Reino Unido, a Alemanha, a França, o Canadá e Cuba (açúcar). Chegamos a ser os terceiros fornecedores dos ianques nos tempos em que nem se sonhava com Japão, China, Coreia e outros asiáticos.
Já em 1870 os americanos nos compravam quatro vezes mais do que nos vendiam. O saldo acumulado pelo Brasil com os EUA cresceu de 1867 a 1905 a ponto de atingir cifras astronômicas se corrigidas com os valores de hoje. Em 1912, ano da morte do barão do Rio Branco, os EUA absorviam 36% das vendas brasileiras, ao passo que o segundo, o Reino Unido, recebia só 15%.
Embora não se possa falar em causa e efeito, o fato é que o apogeu da aproximação política Brasil-EUA, a fase da chamada "aliança não-escrita", coincidiu com o ápice das relações econômico-comerciais. Desde aquela época, a porcentagem das vendas aos EUA em comparação com o resto do mundo foi caindo, primeiro para oscilar entre 20% e 24%, mais recentemente para algo em torno de 17/18%, desconsiderando 2009, quando desabou a 10%.
Os EUA têm sido, ao lado da América Latina, os únicos grandes mercados para exportações brasileiras de alta tecnologia, sendo os maiores compradores da Embraer, por exemplo. As transnacionais americanas no Brasil direcionaram em geral maior parcela da produção local ao mercado da matriz do que transnacionais de outras origens.
Em contraste, o mercado chinês só compra commodities do Brasil e outros latinos, reservando aos vizinhos asiáticos o papel de supridores de insumos industriais de alto valor agregado. Criou-se situação duplamente preocupante devido à dependência excessiva do mercado chinês e ao caráter assimétrico da troca de commodities por manufaturas cada vez mais sofisticadas.
No passado, os principais parceiros comerciais ou financeiros do Brasil eram os EUA, o Reino Unido, os europeus, países da mesma tradição histórico-cultural. O intercâmbio não se limitava a mercadorias: valores e aspirações em democracia e direitos humanos vinham das revoluções francesa e americana, do parlamentarismo inglês.
Nunca tivemos a experiência de comércio exterior dissociado de fortes vínculos culturais e políticos. O desafio de definir uma política para a China passa por integração comercial menos assimétrica e pelo enriquecimento em conteúdo de uma relação que não deve ser reduzida à dimensão mercantil.

Lula afirma que, "como cristão", é contra pena


CASO SAKINEH
da FSP

Lula afirma que, "como cristão", é contra pena de apedrejamento

DA ENVIADA A BOGOTÁ - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ontem que, "como cristão", não considera correto que um Estado condene uma pessoa à morte, em referência ao caso da viúva iraniana Sakineh Ashtiani, condenada à morte por apedrejamento por adultério.
Lula pediu que o Irã cancele a pena a que Sakineh foi submetida, mas disse que não pode virar "um apelador" e que as regras dos outros países devem ser respeitadas.
"Como ser humano, como cristão que eu sou, eu não posso imaginar alguém ser morto apedrejado por traição. Eu não consigo imaginar. Por isso que eu fiz o pedido de que, se tivesse condições de mandá-la para o Brasil, nós a receberíamos de braços abertos."
O presidente considerou, no entanto, que esse tipo de questão é "muito delicada", já que é preciso levar em conta a legislação e a soberania de cada país.
"Agora mesmo a Síria liberou quatro brasileiros [acusados de tráfico de drogas], mas sempre com cuidado, porque, se daqui a pouco todo mundo começa a pedir para eu liberar, vai ser uma...", afirmou Lula, sem completar a frase.
Há cerca de dez dias, quando questionado sobre o caso Sakineh, Lula disse que não poderia se intrometer e pedir o tempo todo pela libertação de presos porque senão viraria "uma avacalhação".
Ontem, seguiu o raciocínio dizendo que, se usar seu cargo para apelar, os presidentes perderão autoridade. (SI)


Mulher condenada à morte ...
Mulher condenada à morte por apedrejamento acusa Irã de mentir

Em entrevista excluisiva ao The Guardian, Sakineh diz que foi condenada por ser mulher

do Estadão

LONDRES - A iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani, condenada à morte por apedrejamento, acusou o Governo de seu país de mentir para poder executá-la em segredo.

Divulgação

Iraniana, que havia sido acusada de assassinato, espera execução por adultério


Segundo as autoridades iranianas, Sakineh, de 43 anos, foi condenada por tentativa de assassinato do marido e adultério, mas ela nega as acusações em declarações enviadas ao diário britânico "The Guardian" por meio de um intermediário que, de acordo com o jornal, não pode ser identificado por motivos de segurança.

"Eles mentem. Estão envergonhados pela atenção internacional dada ao meu caso, realizam manobras de distração e tentam confundir os veículos de comunicação para poder me matar em segredo", afirmou a iraniana.

"Me declararam culpada de adultério, mas me absolveram da acusação de assassinato. O homem que matou meu marido foi identificado e preso, mas não foi condenado à morte", disse Sakineh.

O homem acusado, cuja identidade não se conhece, não corre perigo de execução porque o filho de Sakineh o perdoou.

"A resposta é muito simples. É porque sou uma mulher e acham que podem fazer o que querem com as mulheres neste país. Para eles, o adultério é pior que o assassinato, mas não todos os adultérios: um homem adúltero pode acabar na prisão, mas para as adúlteras significa o fim do mundo".

"Tudo isto ocorre porque vivo em um país onde as mulheres não têm direito a se divorciar de seus maridos e são privadas de seus direitos fundamentais", protesta Sakineh.

A iraniana teme que a fuga de seu ex-advogado, Mohammad Mostafaei, deixou-a mais vulnerável.

"Queriam se livrar do meu advogado para poder me acusar do que quisessem sem encontrar oposição de sua parte. Se não tivesse sido por ele, já teriam matado me pedradas", diz.

Mostafei defendeu-a gratuitamente e conseguiu chamar a atenção do mundo sobre seu caso, mas fugiu para a Turquia quando as autoridades iranianas emitiram uma ordem de busca e captura contra si.

A esposa do advogado está detida na prisão iraniana de Evin sem acusações.

Sobre sua vida na prisão, Sakineh disse que é maltratada diariamente por seus carcereiros.

"Suas palavras, o jeito que me olham - uma mulher adúltera que deveria ser apedrejada -, é como se me apedrejassem até a morte todos os dias".


Rapidinhas


Serra se atrasa e é barrado em santuário na Bahia por Jair Stangler

Míriam Hermes
no Estadão / Agência A Tarde

BOM JESUS DA LAPA (BA) – Candidato à Presidência da República pelo PSDB, José Serra visitou a cidade de Bom Jesus da Lapa nesta sexta-feira, 6, no dia mais movimentado da romaria que este ano deve reunir cerca de 450 mil pessoas. Acompanhado do candidato a governador da Bahia pelo DEM, Paulo Souto e grande comitiva de políticos, Serra fez uma caminhada por ruas próximas ao santuário, justamente no horário que as pessoas aguardavam a passagem da procissão com a imagem do Bom Jesus, ponto alto dos festejos que tem 319 anos de tradição.
Na sua passagem, alguns romeiros mais radicais gritaram os nomes de Lula (e não de Dilma) e de Marina Silva (PV), deixando claro que não aprovaram a visita do candidato. Porém, ele foi simpático e, para desespero dos seus assessores que estavam contando os minutos para chegar ao santuário, várias vezes deixou a comitiva para falar com pessoas nas calçadas. “Fiquei surpresa, mas achei legal. Eu já tinha estado com eles (a comitiva) em Itabuna”, disse a advogada Ana Maria Muniz. Serra também entrou em uma farmácia, onde perguntou ao balconista Rafael Richard “se vendíamos muito genérico”, revelou o funcionário, que também disse não esperar por esta visita.
Apesar do plano de entrar no santuário de pedra calcária, a comitiva foi barrada pela administração do templo naquele horário, “porque foi dito que viriam às 16h, mas já são 16h45 e a procissão precisa sair”, disse enérgico o padre Casimiro Malolepszy. Serra polidamente acatou e saiu pela lateral, subindo pela escadaria da torre em estilo medieval construída ao lado da gruta, de onde acenou para os romeiros.
‘Agora é momento de oração’
“Acho que ele veio na hora errada, porque agora é um momento de oração e não de campanha política”, afirmou a romeira Maria Helena Pimentel, acrescentando que “um político deveria saber a hora certa de estar em cada lugar e esta não é a hora dele estar aqui porque está atrapalhando um evento que acontece de ano em ano”. Por outro lado, quando percebeu quem causava aquele alvoroço, o romeiro Alfredo Alcântara, se alegrou e fez questão de encostar e levar uma foto de recordação. “Vou levar para meu filho. Acho que ele vai gostar”, disse contente.
Serra que se disse católico, mas de pouca frequência a igreja, afirmou que iria pedir à Santa Rita (que não tem nenhum altar no local), “que me dê forças na presidência, para ajudar a juventude do Brasil”. Ele destacou duas preocupações fundamentais: o combate às drogas e o seu tratamento, “pois existem poucas iniciativas públicas neste sentido”, bem como a profissionalização técnica dos jovens “para que tenham acesso ao mercado de trabalho”.
Parceria
Ao criticar o sistema de escoamento da produção agrícola baiana “que no momento tem de sair pelos portos de Sauípe, Santos e Paranaguá, pois Salvador tem um dos piores portos do Brasil”, o candidato disse que planeja melhorar o sistema, para que a produção estadual seja exportada por um porto no próprio estado. Citou também as estradas e aeroportos, “porque a produção deve ser incentivada, dentre outras coisas, pela sua importância na geração de empregos”.
Também criticou a anunciada Ferrovia Leste Oeste, obra do PAC, que é apontada pelo governo do PT como solução para o escoamento da produção do oeste do estado. “Se falou muito, com excesso de propaganda, mas não houveram avanços. Vamos resolver as pendências ambientais, e fazer acontecer. Minha marca é tirar as coisas do papel”. Os recursos, disse, devem vir de uma parceria entre a União, o estado e a iniciativa privada.
Aproveitando o momento, o presidenciável do PSDB disse que pretende implementar projetos em locais de grandes romarias “como Bom Jesus da lapa, Aparecida do Norte (SP) e Juazeiro do Norte (CE), que precisam de ações para melhorar a estrutura e qualificar os moradores para melhore receber os romeiros. Não existe um programa nacional neste sentido”, alfinetou.



Voz revela nervosismo de candidatos no 1º debate
GUSTAVO URIBE
do Estadão

Um debate eleitoral não é feito apenas de promessas e bate-bocas. Na arena eletrônica, a imagem é um recurso valioso para atrair o voto dos indecisos e garantir o apoio de eleitores já simpáticos a alguma das candidaturas. Neste desafio, os candidatos contam com uma força-tarefa de consultores e marqueteiros que atuam para evitar erros diante das câmeras. O resultado, contudo, nem sempre sai como o programado. A pedido da Agência Estado, três especialistas em voz e imagem assistiram ao debate da TV Bandeirantes, realizado na noite de ontem, com os presidenciáveis. Eles identificaram momentos de nervosismo e observaram que as roupas usadas no evento dizem muito da estratégia de campanha de cada candidato.

O início do debate, na avaliação dos especialistas, foi marcado por hesitação e falas mais contidas. Na exposição de suas propostas para as áreas de saúde, educação e segurança pública, Dilma Rousseff (PT) exagerou nas muletas verbais ("ah", eh"), José Serra (PSDB) piscou mais do que o normal, e a voz de Marina Silva (PV) falhou em mais de uma oportunidade. O fonoaudiólogo Leonardo Lopes, especialista em voz, observou que nos dois minutos de exposição a que tinha direito, o candidato do PSDB interrompeu a fala para engolir saliva em quatro oportunidades. "Um sinal de que estava bastante ansioso." A professora Mônica Grando, especialista em comunicação verbal, destacou que nos primeiros minutos da sua resposta, Dilma gaguejou e chegou a demonstrar problemas na respiração, "o que revelou que estava bastante insegura."

No decorrer do debate, o nervosismo inicial deu lugar a momentos de maior firmeza verbal. Mônica observou que a voz da candidata do PT tornou-se mais suave, enquanto a de Serra ganhou firmeza e objetividade. Ambos os candidatos, vez por outra, no entanto, mostraram-se inseguros, principalmente quando listavam números e estatísticas. "A fluência verbal era interrompida, como se estivessem recuperando os dados na mente."

Nestes momentos, de acordo com Leonardo Lopes, Serra movia mais rapidamente as mãos e aumentava a velocidade da fala, ao mesmo tempo em que a petista repetia palavras e falava mais alto do que o normal. "Dilma também tinha um olhar disperso, não sabia se olhava para a câmera ou para os papéis que carregava."

Os momentos de maior hesitação na voz da candidata do PT, de acordo com Mônica, foram notados quando ela debatia com o seu principal adversário na corrida eleitoral, o tucano José Serra. De acordo com a especialista, a voz da candidata ficou bastante imprecisa e com sinais de insegurança, principalmente quando discutiram sobre os mutirões de saúde e as Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae). Nestes temas, Mônica observou maior tranquilidade na voz de Serra, apesar do tucano ter exagerado em alguns momentos, adotando um tom mais enérgico. A especialista ressaltou ainda que a voz de Dilma denotava sinais de maior tranquilidade quando respondia a perguntas sobre educação.

O vencedor do debate no quesito postura verbal, na avaliação dos especialistas, foi o candidato Plínio de Arruda Sampaio (PSOL). Leonardo Lopes apontou que em nenhum momento o socialista demonstrou sinais de nervosismo ou ansiedade na voz. Mônica confessou ter ficado surpresa com o desempenho de Plínio. "Ele tem o dom da retórica. A voz dele era suave, mas ao mesmo tempo firme, o que é bastante difícil de conseguir." Os dois especialistas disseram ainda que Marina Silva demonstrou segurança ao fazer perguntas aos outros candidatos, mas tropeçava nas palavras quando replicava. "A fala dela ficava instável, apresentando até falhas", notou Lopes.

''Basicão'' e ''Romântica''

Nenhuma peça de roupa usada pelos candidatos no debate na TV Bandeirantes foi vestida por acaso. A consultora de imagem Sabina Donadelli observou que o estilo adotado pelo candidato José Serra, por exemplo, é comum dos homens que querem mostrar uma imagem mais tradicional. "Ele usou o basicão: camisa azul e gravata vermelha." A especialista em moda alertou, contudo, que o traje não é o mais recomendável para alguém cujo discurso é de mudança. "Dá a impressão de clássico, com cara de ultrapassado." Donadelli recomendou ao presidenciável camisas brancas e paletós com cortes mais modernos, explorando uma vertente mais esporte.

As peças utilizadas pela candidata do PT, de acordo com Sabina, são as que reúnem mais estratégias de marketing em um único vestuário. A especialista observou que a equipe de Dilma tentou imprimir um tom mais maternal. A petista vestia um blazer creme de tweed com gola redonda e um colar de pérolas. Donadelli observou que as formas arredondadas são típicas dos guarda-roupas de mulheres com aura de protetoras, como professoras e mães. "Tem a ver com a área de educação, com uma postura de mãe."



Após ser destaque em debate, Plínio se compara a Obama


FERNANDO GALLO/UIRÁ MACHADO
da FSP

Destaque entre os presidenciáveis no debate da Bandeirantes, Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) começou ontem a ser reconhecido nas ruas e viu sua candidatura ganhar a internet.
Citado em sites de notícias e no Twitter, Plínio se comparou ao presidente dos EUA.
"É o efeito Obama. A televisão é um perigo. Estou sendo reconhecido na rua. É incrível", afirmou.
O candidato, que em geral não tem a agenda acompanhada pela imprensa, teve ontem dia de popstar. Acordou às 7h para conceder uma entrevista e não parou mais.
Fez corpo a corpo no centro de São Paulo -onde gravou imagens para o programa de TV- e passou o dia ao telefone. À noite, apareceu no "Jornal Nacional" pela primeira vez na campanha.
Sua atuação no debate gerou brincadeiras no Twitter. Uma delas do humorista Danilo Gentili, repórter do "CQC", da Band. "Ei @plinio dearruda depois me ajuda a escrever umas piadas de político. Aquela do Serra hipocondríaco foi muito boa!"
Em enquete feita com 29 cientistas políticos no 7º Encontro da ABCP (Associação Brasileira de Ciência Política) sobre o desempenho dos candidatos, 13 disseram que houve empate.
Outros 7 falaram que Plínio foi o vencedor, e 5 que José Serra foi o candidato de destaque. Dilma Rousseff (PT) e Marina Silva (PV) tiveram duas menções cada.
"A campanha está despolitizada. Quando o destaque é um candidato que não tem chances, o prejudicado é quem corre atrás", diz Fernando Abrucio, da FGV.




Dilma deve evitar citar Lula em debates

Estratégia, que já foi utilizada no embate de anteontem, é tentar reforçar que a petista atuou no comando do país

Avaliação do PT é que 1º debate terá "efeito nulo" na campanha e que, apesar de nervosa, ela cumpriu o objetivo

ANA FLOR/VALDO CRUZ
da FSP

A estratégia da petista Dilma Rousseff de escassear citações ao presidente Lula em suas falas -no debate de anteontem à noite ele apareceu pela primeira vez apenas no terceiro bloco, em meio a uma pergunta a José Serra (PSDB) -deve se tornar regra nos próximos embates.
A tentativa é reforçar que Dilma atuou no comando do país -por isso ela usou à exaustão "nosso governo". Sempre que se referia à gestão federal como "nós", reforçava o antagonismo entre o governo atual e o governo "deles", isto é, dos tucanos.
Lula apareceu nas considerações finais da petista: "Tive a honra de coordenar a equipe de ministros do presidente Lula".
A tática foi definida durante a preparação da candidata para o debate.
Ao utilizar "nós" para falar de ações do governo, Dilma buscou antagonizar o projeto atual, que diz representar, com o de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), do qual Serra foi ministro.
Ontem, em São Paulo, Dilma voltou a martelar que seu adversário foge da administração FHC. "O governo Fernando Henrique é herança e patrimônio dele [Serra]."

EFEITO NULO
Apesar de reconhecer tropeços iniciais da candidata, a avaliação da equipe de Dilma é que o primeiro debate presidencial terá "efeito nulo" sobre a campanha.
Segundo definição de um dos coordenadores da campanha, Dilma jogou pelo empate na sua primeira experiência e atingiu seu objetivo.
Após o debate, a sensação entre os assessores da petista foi de "alívio".
Para avaliar o resultado do debate, o marqueteiro de Dilma, João Santana, montou núcleos de pesquisas qualitativas em dez capitais, com grupos diferentes de eleitores -de serristas, dilmistas e indecisos- que acompanharam o evento do início ao fim.
A equipe de Dilma trabalha agora para que ela chegue chegue "afiada" ao último deles, o da Globo, que tem mais audiência.
O objetivo é reforçar a necessidade de "passar sua mensagem" em um ou dois minutos, com raciocínio fechado e menos nervosismo.




Social-democrata, mas nem tanto

Social-democrata, mas nem tanto

Ricardo Vélez Rodríguez
do Estadão

Afirma o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em entrevista sobre o seu mais recente livro (No poder, o PT virou social-democrata - O Globo, 1.º de agosto de 2010), que falta debate político nestas eleições. Considera ele que os candidatos ficaram presos aos marqueteiros e, portanto, aos índices oscilantes de Ibope. Concordo. A atual campanha sofre de um marasmo de bom comportamento, imposto em parte pela esdrúxula legislação eleitoral para as comunicações, que impede que críticas se façam, pela mídia, aos políticos de plantão e aos candidatos.


O marasmo decorre, de outro lado, do excessivo pudor do candidato da oposição à Presidência para pôr o dedo na ferida dos descaminhos do governo Lula. Felizmente, após a indicação do deputado federal Índio da Costa para vice na chapa oposicionista, explicações começaram a ser cobradas da candidata oficial e o discurso de José Serra revestiu-se de caráter mais incisivo.

Os partidos da base aliada e o governo têm sabido explorar, por sua vez, os obstáculos que a Lei Eleitoral coloca ao debate livre das ideias, usando e abusando da ampla gama de recursos para impedir que ele ocorra. É tanto o melindre com o cipoal de disposições que uma espécie de censura prévia se instalou na mídia, como mecanismo autoimposto pelos comunicadores que não querem ter problemas com a Justiça. Apesar de tudo isso, jornais continuam a informar, corajosamente, à sociedade. Lembremos que O Estado de S. Paulo está já há mais de um ano sob censura, pelo fato de ter informado sobre as non sanctas atuações de um filho do presidente do Senado.

Na entrevista, o ex-presidente exagerou na sua benevolência para com o PT, considerado por ele um partido social-democrata. Ora, aqui começam as minhas discrepâncias com o autor. Em primeiro lugar, lembremos que a essência da social-democracia (segundo os pensadores que definiram os seus contornos, notadamente Edward Bernstein, Norberto Bobbio e Anthony Giddens) consiste em três pontos: reconhecimento da economia de mercado, reconhecimento das instituições do governo representativo e valorização do papel do Estado como incentivador da economia e das políticas públicas na área social.

Se levarmos em consideração os programas de governo emanados dos quadros petistas, bem como as decisões tomadas pelos gestores oficiais da economia brasileira, poderemos perceber, claramente, os seus preconceitos com relação à economia de mercado, passando a defender um patrimonialismo econômico puxado pelo Estado empresário. O cerne da questão consiste no conjunto de medidas tomadas para fazer do BNDES a grande locomotiva do desenvolvimento financiado com recursos públicos, que são aplicados sem controle da sociedade e favorecendo setores empresariais amigos do rei, fato que levou a jornalista Miriam Leitão (Lendo o passado, O Globo, 1.º de agosto de 2010) a prever tempos difíceis de volta da corrente inflacionária, de forma semelhante a como ela emergiu do último ciclo autoritário, puxada pela locomotiva sem controle da gastança oficial.

De outro lado, a falta de claridade em face da utilização de recursos da Caixa Econômica Federal na capitalização da Petrobrás, fato noticiado amplamente pelos jornais, deixa um rastro de sombras sobre a lisura na utilização desses recursos. Tudo foi feito de afogadilho, para garantir as obras do pré-sal, sem que tivesse mediado um debate aberto no Congresso Nacional a esse respeito.

Isso para não falar da escancarada generosidade do atual governo com as organizações sindicais e os mal chamados "movimentos sociais", com repasses milionários de recursos públicos para todos eles, sem que tivesse sido garantida a prestação de contas à sociedade, por meio do Tribunal de Contas da União. E isso para não falar, também, da compulsão estatizante que anima a criação de mais empresas pelo governo.

Ora, cabe indagar se essas medidas são típicas políticas públicas de uma agremiação social-democrata ou se não estamos em face de um socialismo predatório como os do século 20, que instaura a burocracia estatal como gestora da economia, de costas para a defesa dos interesses dos cidadãos, beneficiando apenas uma minoria de empresários espertos e de amigos que se chegaram à sombra do Estado, e deixando ao relento o grosso da sociedade. Esses fatos revelam um típico empreendimento de índole patrimonialista, que põe os recursos públicos a serviço do enriquecimento de uma parcela da população, com feroz punição tributária e inflacionária sobre a restante.

No que tange às instituições do governo representativo, se analisarmos a atuação do presidente da República e dos seus partidos da base aliada, notadamente do PT, veremos que tudo tem sido feito para descaracterizar a representação, desvalorizando sistematicamente o Congresso, bem como o livre funcionamento da oposição e a legislação eleitoral. Começando por esta última, impressiona a desfaçatez com que o presidente atual faz campanha em prol da sua candidata, utilizando claramente a maquinaria oficial e alegando que o faz apenas "nas horas vagas". O Legislativo, por seu lado, durante o longo consulado lulista ficou literalmente emperrado com a discussão de medidas provisórias com que o Executivo o entulhou.

Longe estamos, com certeza, do ideário social-democrata, que preza as instituições do governo representativo e o respeito, pelo Executivo, à legislação vigente. O PT, em conclusão, contrariando a opinião de Fernando Henrique Cardoso, não é tão social-democrata como o ex-presidente acha.

É mais uma agremiação a serviço do velho socialismo estatizante e patrimonialista.


*COORDENADOR DO CENTRO DE PESQUISAS ESTRATÉGICAS DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA

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