Evaldo Augusto Torres Alves /editor
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Política

Rapidinhas


ARROGÂNCIA DA CANDIDATA

Petista cancela caminhada após confusão em feira

Em corpo a corpo, militantes, comerciantes e jornalistas trocaram empurrões; presidente do PT criticou imprensa

Dilma provoca Serra e diz que não discutirá política agrária porque "há diferença entre quem faz e quem fala"

MÁRCIO FALCÃO
da FSP

Em uma caminhada tumultuada ontem nos arredores de Brasília, a candidata Dilma Rousseff (PT) provocou o rival José Serra (PSDB) afirmando que não discutiria política agrária com o tucano porque "há uma diferença entre quem faz e quem fala durante a eleição".
Dilma visitou a Feira dos Produtores de Vicente Pires. O evento foi marcado pela confusão entre militantes, comerciantes, consumidores, seguranças e jornalistas e motivou o cancelamento de uma caminhada que a petista faria hoje em outra cidade-satélite de Brasília.
Após sugerir aos militantes que peçam votos de casa em casa, a petista tentou circular pela feira, mas encontrou dificuldades. Dilma ficou menos de 15 minutos no local, sempre cercada pelos seguranças.
A candidata visitou barracas de frutas e temperos. Houve empurra-empurra. A desorganização irritou o presidente do PT, José Eduardo Dutra. "Eu falei que não era para entrar [na feira]", disse.
Depois, Dutra reclamou da imprensa no Twitter. "Impossível fazer campanha em feira, com dezenas de fotógrafos e cinegrafistas", disse. Desde o início oficial da campanha, no mês passado, Dilma tem optado por fazer campanha em carro aberto.
Alguns feirantes reclamaram do tumulto. "Eu tive que expulsar militante, gente que eu nunca vi na vida de dentro da minha loja. Só espantaram meus clientes. Isso só reforçou meu voto no Serra", disse o advogado Wilian Nuves, 28, proprietário de um açougue. Nunes bateu boca com a servidora Cecília Vitorina, 40, que defendeu a presença de Dilma.
A petista provocou Serra ao defender avanços do governo Lula na política agrária. Ela apontou o assentamento de 570 mil famílias e a determinação em lei de que 30% da merenda escolar fossem comprados de pequenos agricultores.
"Essa não é uma discussão que vou fazer com meu adversário. Essa faço com os agricultores e assentados. Eles sabem que fizemos uma política pró-agricultor. Há uma diferença entre quem faz e quem fala durante a eleição. O nosso governo fez", disse.
Dilma afirmou que houve um aumento do crédito para a agricultura familiar, passando de R$ 2,2 bilhões, no ano-safra 2001/2002, para R$ 16 bilhões, em 2010-2011. A candidata prometeu ainda criar um setor na Caixa Econômica Federal para investir em habitação rural.




CANDIDATA DETESTA À IMPRENSA

DILMA FAZ CRÍTICAS À IMPRENSA

da FSP

Para a petista, reportagem de "O Globo" sobre irregularidades no Dnit poderia ter uso eleitoral. Sobre suposta lavagem de dinheiro de Roseana Sarney (PMDB) revelada por "O Estado de S. Paulo", Dilma disse não opinar com base em "acusação de jornal".




VALE, VALE TUDO....

"Faz-tudo" de Lula em SP influencia nomeações

Discreta, assessora emplaca diretores em agências e marido na Infraero

Acompanhar presidente em viagens ao exterior e triar currículos estão entre as tarefas da chefe do gabinete paulistano

RUBENS VALENTE
da FSP

Praticamente anônima, uma funcionária do governo federal exerce há sete anos considerável influência na gestão Luiz Inácio Lula da Silva. Trata-se de Rosemary Nóvoa de Noronha, a "faz-tudo" da Presidência da República em São Paulo.
Rose, como é chamada, é presença constante (e discreta) nas comitivas presidenciais mundo afora. Emplacou diretores em agências reguladoras e o marido numa assessoria especial da Infraero.
Entre suas raras aparições públicas, estão duas fotografias numa revista de celebridades, identificada só pelo nome, sem o cargo que ocupa -um dos mais estratégicos da administração direta federal e que lhe rende R$ 11.179 mensais brutos.
Rose trabalha ao lado do gabinete de vidros blindados onde Lula despacha quando está na capital paulista, no 3º andar do prédio da Previ, na esquina da rua Augusta com a avenida Paulista. Ali funciona a sede paulistana do Banco do Brasil. Chefe do gabinete regional da Presidência da República, Rose secretaria Lula e o acompanha em viagens internacionais.
Rose conheceu Lula nos anos 90, trabalhando com o então presidente nacional do PT, José Dirceu, a quem assessorou por 12 anos. Começou no governo federal em fevereiro de 2003, como assessora especial do gabinete regional. Passou a chefe da unidade em 2005.
Rodou o mundo a serviço do Planalto em pelo menos 17 viagens entre 2005 e 2010 (ao todo, R$ 45 mil em diárias), a países da América Latina, Oriente Médio, África e Europa. Costuma integrar o Escav (escalão avançado), equipe que prepara a chegada de Lula. Rose circula com extrema reserva -a Folha não localizou uma única foto dela nesses eventos.
Um petista graduado de São Paulo conta que ela faz "uma triagem" de currículos de candidatos a cargos de segundo e terceiro escalões.
A discrição começou a ficar comprometida quando Rose apoiou nomeações para diretorias de duas agências reguladoras, tornando-se foco de notas na imprensa.
Em março, o advogado Rubens Carlos Vieira, procurador da Fazenda Nacional e ex-corregedor da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), foi indicado por Lula e tomou posse como diretor na área de regulação econômica da Anac.
Seu irmão, Paulo Rodrigues Vieira, também advogado e ex-ouvidor da Antaq (Agência Nacional de Transportes Aquaviários), foi indicado para uma diretoria da Ana (Agência Nacional de Águas). Ambos contaram com o apoio de Rose.
A nomeação de Paulo foi conturbada. Em dezembro de 2009, o Senado rejeitou, por 26 votos a 5, o nome encaminhado por Lula. Em abril, o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), recolocou o nome em votação, mesmo após um parecer contrário a um recurso. Num lance incomum no Senado, a nomeação acabou aprovada.
José Cláudio de Noronha, marido de Rose, ocupa um cargo de assessoria especial na administração regional da Infraero em São Paulo.
Em 2006, no escândalo dos gastos com cartões de crédito corporativos, o nome dela estava na lista de 65 servidores que fizeram saques para pagamento de despesas da Presidência. Autorizada por lei, Rose havia sacado R$ 2,1 mil com seu cartão.
O deputado Indio da Costa (DEM-RJ), hoje candidato a vice-presidente na chapa de José Serra (PSDB), e o senador Alvaro Dias (PSDB-PR) pediram a convocação de Rose para depor na CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) criada para investigar o uso dos cartões corporativos. Os pedidos foram negados pela comissão.

OUTRO LADO
Procurados pela Folha, José Dirceu e os irmãos Vieira e José Cláudio Noronha não quiseram fazer nenhum comentário sobre ela.
A assessoria de imprensa do Palácio do Planalto chegou a informar que o secretário particular de Lula, Gilberto Carvalho, iria responder às perguntas da reportagem, mas ao longo de três semanas nenhuma resposta foi encaminhada. Rose também não quis falar.





Dois minutos bastam para desmontar Dilma


Dois minutos bastam para mostrar quem foi, como é e o que quer fazer Dilma Rousseff

Na sessão de 24 de fevereiro, o deputado britânico Nigel Farage resolveu dizer o que acha do belga Herman Van Rompuy, presidente do Parlamento Europeu. Se foi ou não excessivamente rude, se recorreu ou não a argumentos discutíveis, isso é secundário. O que importa é que transmitiu, num curto espaço de tempo, um recado claríssimo. Na opinião do parlamentar inglês, Van Rompuy menospreza o conceito de nação, ignora os fundamentos da democracia moderna, tenta reduzir a Grécia a um protetorado da União Europeia, é desprovido de carisma e representa um “não-país”.

Depois do debate na Band e da entrevista ao Jornal Nacional, o ex-governador José Serra afirmou que o tempo reservado às respostas dos candidatos é curto demais. Em dois minutos, é verdade, ninguém consegue resumir o que fará nas áreas da saúde, da educação ou da segurança pública. Mas é tempo de sobra para revelar o que pensa sobre questões ainda mais relevantes para milhões de eleitores.

Farage precisou de 2 minutos e 8 segundos para traçar o perfil de Van Rompuy. Serra não precisa de mais que isso para dizer aos espectadores, por exemplo, quem foi Dilma Rousseff. Ou como é Dilma Rousseff. Ou o que fará Dilma Rousseff. Se esse tempo basta, o espaço aberto pelo horário eleitoral gratuito é uma eternidade. Serra sabe ser objetivo. O que falta é esquecer palpite de marqueteiro, compreender que a democracia corre perigo e, para abrir os olhos dos brasileiros, mostrar as coisas como as coisas são


Roseana só regularizou acordo

Vamos assaltar a Nação?

Roseana só regularizou acordo pouco antes da intervenção no Banco Santos

Leandro Colon
do Estadão

Ponte. Documentos do Banco Santos indicam que Roseana simulou empréstimo para lavar dinheiro Documentos obtidos pelo Estado mostram que o empréstimo de R$ 4,5 milhões concedido pelo Banco Santos a Roseana Sarney e seu marido, Jorge Murad, foi regularizado no Brasil poucos dias antes da intervenção judicial na instituição bancária, em 12 de novembro de 2004.


O dinheiro foi liberado no dia 29 de julho daquele ano, mas só em 5 de novembro - uma semana antes da quebra do banco e da decretação da intervenção da Justiça - as garantias foram registradas, conforme certidões reprográficas obtidas pela reportagem no livro 2.820 do 16 Cartório de Notas de São Paulo. Ou seja, quando o Banco Santos liberou o empréstimo em julho não havia formalização de fiança bancária.

O Estado revelou ontem que esse empréstimo teria sido simulado para ser uma ponte para a governadora do Maranhão e seu marido movimentarem dólares que tinham no exterior. Documentos que estão nos arquivos do Banco Santos indicam que, no dia 3 de agosto de 2004, cinco dias após a liberação dos recursos no Brasil, eles transferiram US$ 1,5 milhão para Edemar Cid Ferreira, então dono do banco, por meio de um banco suíço. Esse "pré-pagamento" - expressão usada nos próprios papéis - justificaria então a ausência de garantias de pagamento no Brasil.

Só que, três meses depois, o banco passou a viver o risco de intervenção e abertura de sua caixa-preta. O registro das garantias do empréstimo, às vésperas da tomada judicial do banco, evitou qualquer questionamento por parte das autoridades brasileiras quanto à transação.

Naquele período, o senador José Sarney (PMDB) envolveu-se em outra polêmica ao sacar R$ 2,2 milhões do Banco Santos um dia antes da intervenção. Sarney negou, na época, ter recebido informação privilegiada. Sua família e Edemar cultivam uma amizade de mais de 30 anos.

Esquema. Para regularizar o empréstimo, Roseana e Murad registraram e assinaram, de próprio punho, hipotecas de imóveis pessoais e salas dos shoppings que teriam comprado com o dinheiro do Banco Santos em nome da Bel-Sul Participações, uma das empresas da família. De acordo com o contrato, eles deveriam adquirir, com os R$ 4,5 milhões, ações em dois shoppings, um em São Luís e outro no Rio. As ações pertenciam à empresa Participa Empreendimentos, que tem como sócio Miguel Ethel Sobrinho, amigo da família Sarney. Ele foi presidente da Caixa no governo de José Sarney e conselheiro da fundação que leva o nome do senador.

E-mails obtidos pelo Estado, e que também estão nos arquivos do Banco Santos, revelam uma tentativa de inflar os valores dos imóveis contidos na hipoteca dada como garantia do empréstimo. "O ponto mais relevante alterado foi o valor dos imóveis oferecidos em hipoteca", diz mensagem eletrônica enviada por um diretor jurídico a outros funcionários do banco às 10h02 do dia 22 de setembro de 2004. "Indicamos que a garantia hipotecária oferecida era de mais de 130% do valor do crédito, ou seja, em torno de R$ 6 milhões, de maneira que indiquei que cada imóvel era avaliado em R$ 3 milhões", informa o funcionário na conversa.

Arquivo. Um memorando interno "confidencial", elaborado um dia depois pelo departamento jurídico, dá detalhes do acerto entre Edemar, Roseana e Murad. Procurado pela reportagem em São Paulo, o administrador judicial do Banco Santos, Vânio Aguiar, confirmou que esses papéis estão nos arquivos oficiais da instituição bancária.

Segundo o relatório, "em contrapartida à concessão do crédito no Brasil, a Bel-Sul (empresa administrada por Jorge Murad) efetuou o pré-pagamento ao grupo, no exterior, do montante equivalente ao crédito recebido". "No dia 3 de agosto foi confirmado o recebimento do montante equivalente no exterior", relata o documento. O mesmo relatório cita as parcelas que deveriam ser pagas no Brasil, com uma ressalva: "O cronograma acima deverá ser observado pelo grupo na devolução à Bel-Sul, no Brasil, dos montantes lá indicados", o que indica que havia um acordo para Roseana e Murad quitarem o empréstimo, mas receberem de volta os recursos de Edemar.

Ontem, o Estado publicou troca de e-mails entre Edemar e sua ex-secretária, Vera Lucia Rodrigues da Silva, em que ela comunica o pagamento efetuado no exterior logo após a liberação dos recursos à família Sarney no Brasil. Ela cita uma mulher de nome Esther, do banco suíço UBS. Trata-se de Esther Kanzig, diretora do banco suíço UBS em Zurique.

O Banco Santos não tinha aval legal para atuar no exterior e, segundo as investigações sobre sua falência, Edemar usava offshores laranjas para receber recursos fora do Brasil.


Dilma afirma que só se manifesta após ver documentos

A candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff, disse ontem que só depois de conhecer os documentos do Banco Santos sobre a operação que permitiram à sua aliada política, a governadora do Maranhão, Roseana Sarney, e seu marido Jorge Murad, resgatar US$ 1,5 milhão depositados na Suíça, é que se manifestará sobre o fato.
Dilma alegou que não pode se basear em "acusações de jornais". "Eu tenho de ver as provas e aí, sim, eu me manifesto", alegou, ao falar na Feira do Produtor, na localidade de Vicente Pires, a cerca de 20 quilômetros do centro de Brasília.
Rodeada por candidatos e simpatizantes, a candidata citou o combate à lavagem de dinheiro entre as políticas do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva que serão mantidas, no caso de ela ser eleita.
Dilma sugeriu que, ao publicarem reportagens sobre lavagem de dinheiro, os órgãos de imprensa informem também que, ao contrário do que acontecia antes, o combate tem sido intenso no País. / ROSA COSTA


Dilma tira votos de Serra nas capitais
Sangria de tucano nas principais cidades é decisiva para consolidação de vantagem da petista, aponta Datafolha

Serra teve queda em 6 capitais, o que ajuda a explicar virada de Dilma; em SP, dianteira também está ameaçada

SILVIO NAVARRO/CÁTIA SEABRA
da FSP

A queda de José Serra (PSDB) em seis das sete capitais onde o Datafolha realizou a última pesquisa ajuda a explicar a virada de Dilma Rousseff (PT) na disputa pela Presidência. As sete capitais concentram 15% do eleitorado, ou 20,3 milhões de eleitores. Nos últimos 20 dias, o tucano passou a ter a dianteira ameaçada até em São Paulo, seu reduto eleitoral e onde o PSDB exerce forte influência na gestão municipal.
Dilma subiu três pontos na capital paulista em relação ao levantamento anterior, passando de 34% para 37%. Ele oscilou um ponto positivamente -tem 40%.

QUEDA EM BH
Os índices apontam que, hoje, os dois estão tecnicamente empatados na cidade, no limite da margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
A queda mais acentuada de Serra ocorreu em Belo Horizonte, onde perdeu nove pontos -tem 32%. A capital mineira também registrou virada de Dilma, com 34%. Em Salvador, o tucano tem seu pior índice -16%, ante 48% da petista.
No Estado de São Paulo, Serra perdeu três pontos nas últimas semanas -tem 41%-, sinal de que a queda ocorreu no interior, onde o PT faz forte campanha contra o preço dos pedágios. Dilma ganhou quatro pontos no maior colégio eleitoral do país e marca 34%.
O comando da campanha de Serra diagnosticou risco de queda na capital há 20 dias. Desde então, o candidato concentra a agenda em bairros da periferia, como Heliópolis, onde visitou programa habitacional. A campanha avalia que foi essa a faixa em que Dilma cresceu, na esteira da popularidade de Lula. "O que ela tem agora não é por ela", diz o governador Alberto Goldman.
Ontem, em visita à Bienal do Livro, Serra negou que vá intensificar agenda em SP ou fazer qualquer alteração em sua estratégia.

Minas, claro enigma

FERNANDO DE BARROS E SILVA da FSP

Minas, claro enigma

SÃO PAULO - Vários analistas têm destacado que as eleições deste ano tendem a ser marcadas pela continuidade, a começar pelo favoritismo de Dilma Rousseff. A mais recente rodada de pesquisas do Datafolha reforça essa percepção.
Em São Paulo, Geraldo Alckmin ampliou ainda mais sua distância oceânica sobre Aloizio Mercadante (54% a 16%). Só um cataclisma pode ameaçar a reeleição em primeiro turno de Sérgio Cabral (PMDB), no Rio, e de Eduardo Campos (PSB), em Pernambuco. Cid Gomes (PSB), no Ceará, e Jaques Wagner (PT), na Bahia, também lideram e podem a liquidar a fatura em 3 de outubro.
Dos atuais governadores, a tucana Yeda Crusius, no Rio Grande do Sul, é a exceção à regra e caminha convicta para o cadafalso.
A grande incógnita desta eleição está em Minas Gerais. Apoiado pelo PT, o ex-ministro Hélio Costa (PMDB) sustenta 43% das intenções de voto. O atual governador, Antonio Anastasia (PSDB), tem só 17%. Mas ninguém, ainda, ousa dizer que as coisas estão decididas na terra de Drummond. O pupilo de Aécio Neves vai subir nas pesquisas -isso é barbada. A questão é saber se subirá o suficiente (ou a tempo) para bater o candidato de Lula numa disputa plebiscitária, em que não há terceiro nome.
Para complicar as coisas, Dilma ultrapassou Serra no Estado (41% a 34%). E já há petistas graúdos cochichando que Aécio só poderá ter êxito se estimular o voto "Dilmasia". Se a aliança com Costa, impingida ao PT mineiro por Lula, havia empurrado Aécio para perto de Serra, agora, com o favoritismo de Dilma e o aperto de Anastasia, as coisas novamente se complicam.
Uma parte do PT estaria disposta a ajudar "na moita" o candidato tucano, desde que Aécio, também "na moita", desse a mão ao petista Fernando Pimentel, rifando o aliado Itamar Franco para o Senado.
Numa eleição tão previsível país afora, Minas vai se firmando como território das interrogações, do enigma, das negaças.

Dia dos Pais, a filha e... o custo Brasil

Dia dos Pais, a filha e... o custo Brasil

Carlos Alberto Sardenberg
do Estadão

Dia desses, num shopping em São Paulo, entrei numa loja de roupas, franquia de marca internacional, à procura de uma malha de lã, tipo cardigã. Tinha uma, bem bacana. O preço, não: quase R$ 500. Desisti.

Pouco depois, no Dia dos Pais, ganho de minha filha exatamente aquele cardigã. Uma alegria, claro, mas, sabe como é, um pai se preocupa se a filha é gastadeira. Saia-justa: não se pode reclamar do preço de um presente que se ganha. Mas que os R$ 500 por um casaco eram um absurdo, disso não havia dúvida.

Conversa daqui, conversa dali, o dilema se resolveu. Ela comprara o cardigã em Santiago, no Chile, na mesma franquia, também num shopping chique. O preço? Na casa dos R$ 200. Agora, sim, o presente ficara melhor.

De quebra, uma lição sobre o custo Brasil. A etiqueta do casaco mostra a origem - fabricado no Uruguai - e dá o endereço dos importadores no Chile, na Argentina e... no Brasil. Ou seja, é a mesmíssima malha, que sai, aqui, pelo dobro do preço chileno.

Como se explica? Basicamente, impostos. Aqui, de cada R$ 100 produzidos, cerca de R$ 35 vão para o governo na forma de impostos, taxas e contribuições. No Chile a carga tributária é de apenas 22% do Produto Interno Bruto (PIB). Lá, uma economia aberta, o imposto de importação, por exemplo, fica em torno dos 6%, o que eleva o grau de competição interna.

Aqui, o setor têxtil é um dos protegidos com alíquotas de importação elevadas. Mas o curioso dessa história é que a etiqueta do tal casaco informa ter sido produzido no Uruguai. Ora, este país pertence ao Mercosul, de modo que pelo menos o imposto de importação não deveria existir.

Ou seja, falta aqui uma apuração melhor desse comércio, que fico devendo ao leitor e à leitora.

Uma hipótese: talvez o produto não seja propriamente uruguaio, mas fabricado em algum país asiático - Vietnã, por exemplo, hoje um grande centro têxtil - e apenas nacionalizado ali no Uruguai.

A ver. Mas fica o registro desse enorme custo Brasil. E mais uma demonstração das consequências do protecionismo e de economias fechadas: exceto no caso de indústrias nascentes, em certas circunstâncias, a proteção à fabricação local leva a produtos de pior qualidade e mais caros. Uma conta para o consumidor.

Os meus lucros. Do presidente Lula, no dia 9 de agosto: "Todo mundo se lembra da quebradeira dos bancos brasileiros e do prejuízo que eles deram aos cofres públicos. Então quero que eles tenham lucro... por isso fico feliz. Fico feliz com a Caixa também, porque 15 ou 20 anos atrás esses bancos (públicos) só apareciam nos jornais como bancos deficitários - e hoje eles estão tendo lucros."

Explicando a história: grandes bancos privados brasileiros quebraram por causa do fim da inflação. Viviam de inflação. Como? Aplicando no overnight, em títulos do governo, o dinheiro que ficava parado nas contas dos clientes, um dia apenas que fosse. Ou, então, pagando juros de 10 na aplicação do cliente e recebendo 20 no mesmo dinheiro aplicado pelo banco. Era tão rentável que os bancos brasileiros nessa época nem cobravam tarifas.

Eliminada a inflação, o truque acabou e muitos bancos não conseguiram se reinventar e sobreviver. Para evitar uma quebradeira generalizada dos clientes, pessoas e empresas, o governo FHC criou dois programas de resgate das instituições: o Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional (Proer), para os bancos privados; e o Programa de Incentivo à Redução do Setor Público Estadual na Atividade Bancária (Proes), para os estatais.

Os donos perderam seus bancos. O governo os assumiu, liquidou alguns, passou outros para a frente e arcou com um prejuízo para sanear essas contas e impedir um colapso do sistema financeiro.

No caso dos bancos estatais o problema foi ainda maior. Havia o vício da inflação, mas, acima disso, o uso político das instituições - ou seja, o governo de plantão mandando a instituição emprestar, sem cobrar, para os amigos e correligionários. E, também, com os bancos públicos financiando enormes investimentos do próprio governo, que se revelaram inviáveis. Ou pararam pelo caminho ou não deram o retorno para ressarcir o banco.

Assim, por exemplo, quebrou o velho Banespa, que acabou privatizado.

Mas a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil também estavam quebrados. Não apenas davam prejuízo, como disse Lula, mas davam um enorme prejuízo.

Foram salvos pelo governo FHC, que, primeiro, colocou nos dois bancos um monte de dinheiro dos contribuintes para recapitalizar as instituições. E, depois, promoveu uma reforma completa no sistema de administração, preparando os bancos para a fase de expansão e de lucros.

Muita gente na época - inclusive este colunista - achava que o melhor seria privatizar um maior número de bancos estatais, federais e estaduais, ficando o governo com uma ou duas instituições de fomento. A tese: bancos públicos, mais cedo ou mais tarde, acabam sendo usados politicamente.

Mas prevaleceu a tese de manter aqueles gigantes financeiros estatais. É curiosa a história: apesar disso, Lula e, atualmente, Dilma Rousseff acusam o governo FHC de tentar privatizar os bancões. E mais: na época, Lula atacou os programas que sanearam os bancos.

Hoje, sem nenhum constrangimento e sem nenhuma revisão, simplesmente diz que no tempo dos outros os bancos davam prejuízo; na era Lula, olha só, só lucros. Êta nóis!

Editorial da Folha de São Paulo
Editorial da Folha de São Paulo


Trilho e asfalto

Se já não é fácil abrir mão de velhos hábitos, que dirá dos comportamentos compulsivos. A população de São Paulo e seus representantes políticos, por décadas adeptos de carros, avenidas, túneis e viadutos, tem se convencido em anos recentes da necessidade de aumentar os investimentos em transporte público -sobretudo no metrô.
Mas o tributo retórico pago a soluções de transporte mais racionais ainda não encontra respaldo no gasto realizado pelo poder público. Um levantamento feito pela Folha constatou desembolsos superiores a R$ 13 bilhões nas dez principais obras viárias da Grande São Paulo, na última década.
Estima-se que no mesmo período o metrô tenha recebido cerca de R$ 12 bilhões -investimento usado para construir e equipar 30 km de novas linhas. Com tal quantia, foi possível aumentar a velocidade média de expansão do serviço, de toda forma ainda tímida e insuficiente para atender às necessidades da metrópole.
Seria no mínimo irrealista pleitear a interrupção de todas as obras viárias na cidade e a transferência de seus recursos para a ampliação da rede de transporte coletivo sobre trilhos. Há gastos com estradas e avenidas que precisam ser feitos, inclusive para tornar mais racional o fluxo de veículos coletivos da cidade.
É o caso do Rodoanel, que consumiu aproximadamente metade do total despendido nas principais obras viárias da última década. Sua construção, que deveria, na realidade, ter sido realizada em décadas anteriores, é fundamental para o bom funcionamento de São Paulo.
Mas não deixa de ser ilustrativo utilizar o gasto com obras viárias como parâmetro para aquilatar o investimento em trens e no metrô. A comparação ajuda a mensurar a distância entre o discurso político e a necessária ampliação do transporte público de qualidade na capital paulista.
Sem interromper gastos necessários com o transporte rodoviário -sobretudo em soluções coletivas, como os corredores de ônibus-, é preciso expandir o dispêndio com trilhos, estações e trens nos próximos anos.
Torná-lo proporcionalmente maior do que os investimentos em novas avenidas e viadutos deveria ser um objetivo a ser perseguido pelo poder público.


General dos EUA admite adiar saída do Afeganistão
General dos EUA admite adiar saída do Afeganistão

Petraeus diz que "seria prematuro" dizer agora se prazo poderá ser cumprido

Obama anunciou início da retirada para junho de 2011, mas general fala em esforço gradual para vencer a guerra

ANDREA MURTA
DE WASHINGTON/FSP

Nas primeiras entrevistas desde que assumiu em junho o comando direto das tropas dos EUA no Afeganistão, o general David Petraeus afirmou ontem que só agora "a luta vai começar de verdade" e indicou que pode adiar o início da retirada das tropas americanas do país.
O prazo anunciado pelo presidente Barack Obama para começar a saída de forças do país é junho de 2011. Mas, para o general, "seria prematuro fazer qualquer avaliação agora sobre se vamos ou não poder fazer uma transição" nesta data.
Petraeus já havia deixado tal possibilidade em aberto antes, mas não como comandante em campo no Afeganistão. Ontem, em falas à TV NBC e aos jornais "Washington Post" e "New York Times", disse que não foi ao país "supervisionar uma saída honrosa".
Segundo ele, pela primeira vez após nove anos de guerra, "ao final de agosto e em setembro teremos a capacidade correta".
"Vamos ter funcionando aquilo pelo qual trabalhamos há um ano e meio", afirmou, referindo-se ao aumento do número de soldados (cerca de 100 mil atualmente) e ao investimento na estratégia de contrainsurgência, que prevê engajamento com a população civil, reconstrução do país e investidas contra os extremistas.

VIRANDO O JOGO
Petraeus avaliou que a estratégia para vencer a guerra é "fundamentalmente sólida", uma conclusão a que chegou após acompanhar operações e viajar até lugares remotos do Afeganistão.
As entrevistas são um esforço de relações públicas, num momento em que o apoio à guerra caiu tremendamente nos EUA.
Um dos sinais positivos que o general ressaltou foi ter conseguido o apoio do presidente afegão, Hamid Karzai, à criação de grupos armados para proteger bairros. Petraeus disse crer que tais grupos poderão infligir sérias dificuldades ao Taleban.
O general tem o desafio de mostrar resultados em seis meses a um ano, se quer ter a chance de manter sua estratégia -e o grosso de suas tropas- no país.
Mas ele advertiu contra expectativas de vitórias rápidas e reafirmou que o comprometimento com o país é de longo prazo.
"É um esforço gradual e deliberado. Não há montanha para tomar e bandeira para hastear proclamando vitória. É só trabalho duro."


Mortes de soldados estrangeiros passam de 2.000
Mortes de soldados estrangeiros passam de 2.000 no Afeganistão

Americanos correspondem a mais de 60% das baixas, número problemático para Obama

SAYED SALAHUDDIN
REUTERS/Estadão

CABUL- O número total de mortes de soldados estrangeiros no Afeganistão ultrapassou os 2.000 no domingo, de acordo com dados não oficiais, com os norte-americanos respondendo por mais de 60 por cento das baixas. O total, entretanto, é bem inferior ao número crescente de mortes civis.

As mortes de um norte-americano, um australiano e um britânico anunciadas nos dois últimos dias elevou o total para 2.002 desde que o Taleban foi tirado do poder no final de 2001 por forças afegãs apoiadas pelos Estados Unidos.

O total equivale a menos da metade das baixas sofridas durante os sete anos da guerra do Iraque, mas é significativo. Os aliados da Otan, como a Holanda, estão se retirando da aliança no Afeganistão e outros países estão reavaliando sua contribuição futura.

Também é um número problemático para o presidente dos EUA, Barack Obama, que prometeu fazer uma revisão estratégica em dezembro, depois das eleições parlamentares, nas quais o Partido Democrata poderá enfrentar uma derrota diante de um público cada vez mais preocupado.

As disputas sobre a guerra no Afeganistão já derrubaram o governo holandês em fevereiro e o presidente alemão em maio e, com as dúvidas crescentes do público quanto à guerra nos EUA, os líderes norte-americanos buscam reduzir as expectativas sobre os resultados do conflito.

De acordo com o www.iCasualties.org, um site independente que monitora a morte de soldados, 2002 soldados foram mortos desde 2001, 1,226 deles americanos. As baixas fatais britânicas chegam aos 331, com os 445 restantes divididos entre os outros 44 parceiros da Otan da Força Internacional de Assistência para Segurança.

Muitos soldados estrangeiros ficaram feridos no conflito que Obama descreveu como uma guerra necessária.


Recaída da economia mundial

Recaída da economia mundial

NOTAS & INFORMAÇÕES
do Estadão

Os sinais vitais da economia mundial voltaram a piorar, realimentando o temor de uma nova recessão, com pesado custo para todos os países. Esse desastre quase certamente será evitado, mas a recuperação global deverá ser mais lenta e penosa do que se imaginava, com desemprego elevado por muitos anos e perda de impulso no comércio internacional. As novidades mais preocupantes, agora, vêm dos Estados Unidos e da China. A economia americana estava na dianteira do mundo rico, bem à frente da Europa na reativação, mas começou a perder vigor e a piora do quadro foi reconhecida na semana que passou pelo Federal Reserve (Fed). "O consumo se mantém achatado pelo alto desemprego, pelo modesto crescimento da renda, pela má saúde do mercado habitacional e pelo crédito apertado", segundo a nota distribuída depois da última decisão sobre política monetária.

A China se mantém como líder do crescimento mundial, mas dá sinais de arrefecimento depois da expansão, no primeiro semestre, de 11,1% ao ano. Além disso, esperava-se da economia chinesa um novo papel, mais favorável ao crescimento mundial. Seu dinamismo deveria depender mais do mercado interno, movido pelo aumento do consumo e por investimentos na infraestrutura. Seria a contrapartida do ajuste promovido nas economias normalmente deficitárias, como a americana. A nova divisão de papéis funcionou durante algum tempo. As importações chinesas cresceram mais velozmente que as importações durante meses, mas a tendência parece haver mudado.

Em julho as exportações da China, US$ 145,5 bilhões, foram 38,1% maiores que as de um ano antes. As importações, US$ 116,8 bilhões, ficaram 22,7% acima das de julho de 2009. O superávit comercial voltou a crescer e a combinação do novo jogo internacional, proposto pelo Grupo dos 20, parece ter sido esquecida pelo menos por algum tempo.

Da economia americana, a maior do mundo, não se esperava, até o começo do ano, muita ajuda para a recuperação global. Mas esperava-se uma contribuição considerável das economias emergentes, principalmente da chinesa, já promovida a número dois do mundo segundo novas estimativas divulgadas há poucos dias em Pequim.

A primeira surpresa durou alguns meses: houve sinais de reanimação no mercado americano e os Estados Unidos, se continuassem nesse rumo, poderiam injetar algum vigor no resto do mundo. Essa expectativa já está abandonada. A segunda surpresa foi o rápido retorno do comércio exterior da China à velha trajetória de acumulação de superávits. Se não houver uma nova correção de rumo, a ajuda chinesa à economia mundial também será menor do que havia sido no primeiro semestre deste ano.

Na Europa o quadro permanece quase tão ruim quanto era há poucos meses. Bancos da Grécia, de Portugal e da Itália voltaram a tomar empréstimos do Banco Central Europeu (BCE), confirmando dificuldades para operar no mercado. Os testes de estresse realizados com 91 bancos da Europa deram resultados positivos para mais de 80, mas isso parece ter sido insuficiente para restabelecer a confiança.

Outros indicadores da região continuam fracos. Em junho a produção industrial na zona do euro foi 8,2% maior que a de um ano antes, mas 0,1% menor que a do mês anterior. A produção de bens de capital cresceu, mas a de bens de consumo duráveis e a de bens intermediários diminuíram, indicando cautela das famílias. Do primeiro para o segundo trimestre o PIB da área cresceu 1%, mas quase dois terços dessa expansão resultaram do crescimento excepcional da Alemanha, 2,2%. Os demais países continuam derrapando.

Nos 27 países da União Europeia - sendo 16 da zona do euro - a produção da indústria ficou estável em junho. O crescimento do PIB britânico será menor do que se previa, segundo o Banco Central da Inglaterra.

O desemprego permanece elevado em todo o mundo rico. O número de trabalhadores em busca do auxílio-desemprego voltou a subir nos Estados Unidos na primeira semana de agosto.

Como dissemos no início deste editorial, não há desastre à vista. Mas esse quadro só deverá mudar lentamente, nos próximos anos.

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