Evaldo Augusto Torres Alves /editor
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Política

PMDB reivindica dividir poder ''meio a meio''

A 42 dias da eleição, PMDB reivindica dividir poder ''meio a meio'' com PT
Em caso de vitória de Dilma, partido de Temer deixaria de agir como 'convidado', passando a atuar como um dos 'donos da casa'

João Domingos e Christiane Samarco
do Estadão

Poder dividido "meio a meio". Assento no Planalto, entre os "ministros da casa", e no Conselho Político que assessora o presidente da República. Henrique Meirelles na equipe econômica. Ministérios de "porteira fechada", os cargos de sempre nas estatais e postos de comando nas vedetes do petróleo, a Petrobrás e a Petro-Sal. Senado e Câmara sob seu comando.


Com a campanha eleitoral em curso e ainda a 42 dias da abertura das urnas, é com essa precisão cirúrgica, alimentada pela liderança nas pesquisas da candidata aliada, Dilma Rousseff (PT), que o PMDB já define as regras de ocupação do poder. Como presidente do partido, deputado Michel Temer (SP), no posto de vice da chapa presidencial, o PMDB estima o tamanho da cota futura de poder baseado no argumento de que agora, se Dilma ganhar, o partido não é mais "um convidado", mas na verdade um dos "donos da casa", o Palácio do Planalto.

A diferença entre "convidado" e "dono da casa" deriva do fato, como explicam os peemedebistas, de que, um governo Dilma seria fruto da coalizão do PT com o PMDB, e não de simples aliança construída depois da vitória - o que aconteceu, por exemplo, nos governos Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) e Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010).

Núcleo. Por isso é que o partido, na condição de sócio-proprietário, já dá como certa a presença de um representante no núcleo político do Palácio do Planalto. "Fomos o primeiro partido a assinar com o presidente Lula um compromisso de união política pela democracia, liberdade de imprensa e de opinião, respeito aos direitos humanos e aos movimentos sociais. Com Lula e com Dilma voltamos a ser o velho MDB, que combateu a ditadura", diz Moreira Franco, escalado para coordenar o programa de governo da candidata petista pelo lado do PMDB.

Depois de passar por uma das vice-presidências da Caixa Econômica Federal e assumir um lugar na coordenação da campanha presidencial, Moreira Franco sonha com um ministério: o das Cidades, que tentou criar na gestão Fernando Henrique Cardoso e só viu a proposta se concretizar no governo de Lula.

Como o partido conseguiu seis ministérios após aderir formalmente ao segundo governo Lula (2007-2010), passando a comandar orçamento superior a R$ 100 bilhões, o cenário pretendido na hipótese de vitoriosa a chapa PT-PMDB supera, em muito, as cifras e o atual espaço de poder.

A legenda, agora, quer assento no Palácio do Planalto, com participação garantida no núcleo da tradicional reunião das 9 horas com o presidente da República, e quer também ministérios em que os postos-chave não sejam divididos com outros aliados - a tal "porteira fechada". Além das estatais e da Petrobrás e da futura Petro-Sal, o partido lembra que é candidato a também ratear poder nas agências reguladoras.

Pré-acerto. Em matéria de cargos, o PMDB já tem até pré-acerto para fincar um pé na área econômica do futuro governo. O passaporte para o Ministério da Fazenda ou do Planejamento é o atual presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que se filiou ao partido em setembro passado, a pedido do presidente Lula. Também foi Lula quem deu a Meirelles a carta de garantia de que, se vitoriosa a chapa de Dilma, seu lugar na equipe ministerial está garantido.

No fim de março, quando Meirelles já não tinha expectativas de se tornar o vice de Dilma, Lula o chamou ao Centro Cultural Banco do Brasil, sede provisória do governo. "O PMDB não abre mão de Michel Temer. Então, peço que fique no Banco Central", disse Lula ao presidente do BC. Meirelles concordou em ficar, mas, em troca, o PMDB goiano arrancou de Lula e Dilma a promessa de que o atual responsável pela política de juros terá lugar no primeiro escalão do eventual governo da petista.

Além de Meirelles, outro nome que o PMDB dá como certo numa pasta específica é o do senador Edison Lobão (MA) à frente de Minas e Energia. Lobão conseguiu a proeza de conquistar Dilma, depois de chegar desacreditado a uma área com a qual tinha pouca intimidade, na condição de afilhado do presidente do Senado, José Sarney (AP).

A dupla Sarney e o líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros (AL), deve manter na administração Dilma a influência que teve na gestão Lula. O atual presidente não se esquece de que no Maranhão tem 97% de aprovação dos eleitores, maior até do que no Amazonas - onde, em 2006, saiu das urnas com 1 milhão de votos de vantagem sobre o tucano Geraldo Alckmin, com voto de apenas 176 mil eleitores.

Bancada. O líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN), quer resolver seu futuro dentro do próprio Congresso. A cúpula do partido já negocia com o PT do líder Cândido Vaccarezza (SP) sua indicação para substituir Temer na presidência da Casa.

"Se formos vitoriosos na eleição, vamos pleitear a presidência da Câmara no primeiro biênio do próximo governo, tendo ou não a maior bancada", antecipa o deputado Eduardo Cunha (RJ).

O partido considera "justo e razoável" que o PMDB mantenha a cadeira de Temer em sistema de rodízio com o PT, pelo qual caberá a Vaccarezza o comando da Câmara no segundo biênio da futura administração. Como em fim de governo é sempre mais difícil manter a coesão da base, ter a presidência da Câmara nas mãos de um petista nos últimos dois anos daria mais segurança ao eventual governo Dilma. No Senado, a regra que vale é a da maior bancada indicar o presidente.

O PMDB conta com o sucesso nas urnas como condição única para fazer o sucessor de Sarney, independentemente da presidência da Câmara. O argumento é que o senador peemedebista teria direito a uma reeleição.

Dirigentes do partido também lembram que, tal como diria Lula, "nunca antes neste país" o PMDB foi aliado de primeira hora em uma campanha. No novo cenário, a legenda se recusa a apadrinhar indicações como a de José Gomes Temporão, que Lula nomeou ministro da Saúde na cota do PMDB. Um peemedebista da cúpula diz que, nesse caso, seu partido nem padrinho foi: "Servimos de barriga de aluguel para o PT, e isso não admitiremos mais."


Pós-Serra


FERNANDO DE BARROS E SILVA

Pós-Serra

SÃO PAULO - Nos últimos oito anos, José Serra foi o líder da oposição no país. A afirmação soa um pouco estranha. Talvez porque Serra não tenha sido nem propriamente um líder nem exatamente de oposição. O figurino do anti-Lula não lhe cai bem. Sua liderança tampouco foi incontrastável nesse período.
Em 2002, boicotado internamente, perdeu para Lula. Em 2006, apesar do mensalão, desistiu na última hora de disputar o Planalto, transferindo a Alckmin a tarefa solitária de amargar uma nova derrota. Em 2010, governador, voltou a submeter o partido ao seu roteiro. Não deu a Aécio a chance das prévias. Mas ficou sem o mineiro como vice.
A combinação das qualidades e dos defeitos de Serra desenha com grande nitidez os limites do que ele é e pode ser como político. De certa maneira, Serra é melhor e pior do que ele mesmo. A se confirmar o naufrágio anunciado da sua candidatura, deve-se perguntar -e agora, o que será da oposição?
Da forma com que se insinua a vitória de Dilma, deixa de ser evidente que a política continuará a se organizar segundo o padrão das últimas quatro eleições. A polarização entre PT e PSDB pode estar conhecendo o seu último capítulo.
Em parte, o futuro da oposição depende do desempenho do candidato de Aécio em Minas. Se Anastasia vencer, Aécio será o herdeiro da massa falida do PSDB. Caso contrário, sairá das urnas como senador, mas muito enfraquecido.
Vitoriosos, sobrarão apenas Alckmin e, provavelmente, Beto Richa no Paraná. É um quadro jovem e em ascensão, mas seu Estado pesa pouco politicamente.
Diante do rolo compressor governista país afora e no Congresso, o cenário que se desenha para o PSDB pós-Serra pode ser de ruína. Lembra um pouco aquele personagem de Paulo Emílio Salles Gomes, que olhava para trás e dizia: "Meus sonhos juvenis de suprema elegância, poder e cultura tinham se reduzido a um nível bem paulista". Pensando bem, talvez nem isso.

PSDB faz reunião para discutir finanças ...


PSDB faz reunião para discutir finanças da campanha

do Estadão

O resultado da última pesquisa de intenção de voto, que mostrou ampliação da vantagem da candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, em relação ao tucano José Serra, acendeu o sinal vermelho no comitê do PSDB. Os tucanos resolveram convocar uma reunião de emergência na noite de ontem. Na pauta estava a discussão sobre a estratégia de comunicação, a infraestrutura e coordenação política nos Estados e, principalmente, a aplicação dos recursos da campanha.

O encontro ocorreu na noite de ontem no Hotel Hyatt, em São Paulo. Participaram os principais nomes da coordenação da campanha de Serra. A convocação da reunião foi feita após a divulgação de pesquisa Datafolha no sábado, que mostrou a candidata do PT com vantagem de 17 pontos porcentuais em relação ao tucano. De acordo com o levantamento, Dilma venceria Serra no primeiro turno.


Como resposta imediata aos números negativos, os tucanos resolveram calibrar o discurso, a agenda e a estratégia para fazer frente ao crescimento da adversária. Outra discussão foi sobre o uso dos recursos: embora neguem problemas de arrecadação, membros da coordenação afirmam que o dinheiro não está sendo liberado pelo diretório nacional nem pela tesouraria da campanha para arcar com despesas do dia a dia. Para tratar desse ponto, foi chamado o vice-presidente executivo do partido, Eduardo Jorge.

Depois da reunião, os tucanos disseram que a arrecadação está dentro do previsto e o montante de R$ 3,6 milhões, divulgado como total arrecadado até início do mês, ainda não incluía valores do diretório nacional que deveriam ser repassados para a campanha.

Gravação

Serra não participou da reunião com o núcleo duro da campanha. Ele tinha marcado, para a noite de ontem, gravação da rodada dos programas que irão ao ar na televisão nesta semana. Os coordenadores da campanha queriam discutir também os rumos da campanha na TV, mas deixaram o encontro para hoje. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.


Lula e Cabral, vídeo revelador
Lula e Cabral, vídeo revelador

Carlos Alberto Di Franco
do Estadão

Autor e personagem de um vídeo que tomou conta da internet, em que é chamado de "otário" e "sacana" pelo governador Sérgio Cabral, além de ouvir do presidente Lula que tênis é "esporte da burguesia", o estudante Leandro dos Santos, morador de um barraco na Favela Nelson Mandela, no Rio de Janeiro, não tinha ideia da repercussão da gravação. O episódio foi reproduzido por Italo Nogueira, repórter do jornal Folha de S.Paulo e pode ser conferido pelo amigo leitor em http://www.youtube.com/watch?v=KOKS_apCwzA. O jovem, xingado por Cabral e ironizado por Lula, desnudou as duas caras dos homens públicos: o rosto amável e as palavras medidas diante das câmeras e o desprezo debochado na vida real.


Segundo Nogueira, o estudante abordou o governador e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em dezembro do ano passado, após a inauguração de obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) em Manguinhos. Primeiro, o rapaz reclama da ausência de uma quadra de tênis no local e Lula diz que isso é "esporte da burguesia". O presidente, então, pergunta por que ele "não treina natação". Ao ouvir que a piscina fica fechada, Lula dirige-se a Cabral: "O dia que a imprensa vier aí e vir isso fechado, o prejuízo político é infinitamente maior do que colocar dois guardas aí." O comentário de Lula é revelador. O que interessa não é o bem-estar dos pobres, mas o eventual arranhão na sua imagem.

Em seguida, Leandro reclama do barulho do "Caveirão", o blindado da Polícia Militar, em sua rua. Cabral interrompe-o e pergunta: "Lá não tem tráfico, não?" Quando o jovem diz que não, o governador rebate: "Deixa de ser otário, está fazendo discurso de otário."

Otário, sacana e burguês - três carimbadas no rosto de um jovem favelado que teve a coragem de exercer a cidadania e de questionar governantes carregados de arrogância e armados de ironia cruel, mas que diante dos holofotes da mídia se apresentam como paladinos da luta contra qualquer tipo de discriminação. Uma imagem grita mais que mil palavras. O vídeo está bombando na internet e causa irado constrangimento.

Nós, jornalistas, devemos refletir a respeito desse episódio. Ele revelou o que nossas pautas não costumam contar. Mostrou a face verdadeira, o rosto sem maquiagens, a alma desprovida do botox do marketing. E é exatamente isso que devemos fazer.

Campanhas milionárias, promessas surrealistas e imagens produzidas fazem parte da estratégia de alguns candidatos. O marketing, ferramenta importante para a transmissão da verdade, pode ser transformado em instrumento de mistificação. Estamos assistindo à morte da política e ao advento da era da inconsistência. Os programas eleitorais vendem uma bela embalagem, mas, de fato, são paupérrimos na discussão das ideias. Nós, jornalistas, somos (ou deveríamos ser) o contraponto a essa tendência. Cabe-nos a missão de rasgar a embalagem e desnudar os candidatos. Só nós, estou certo, podemos minorar os efeitos perniciosos de um espetáculo audiovisual que, certamente, não contribui para o fortalecimento de uma democracia verdadeira e amadurecida.

Por isso, uma cobertura de qualidade é, antes de mais nada, uma questão de foco. É preciso declarar guerra ao jornalismo declaratório e assumir, efetivamente, a agenda do cidadão. É preciso cobrir a fundo as questões que influenciam o dia a dia das pessoas. É importante fixar a atenção não nos marqueteiros e em suas estratégias de imagem, mas na consistência dos programas de governo.

O nosso papel é ouvir as pessoas, conhecer suas queixas, identificar suas carências e cobrar soluções dos candidatos. Não se pode permitir que as assessorias de comunicação dos políticos definam o que deve ou não ser coberto. O centro do debate tem de ser o cidadão, as políticas públicas, não mais o político. O jornalismo de registro, pobre e simplificador, repercute o Brasil oficial, mas oculta a verdadeira dimensão do País real.

Dilma Rousseff, por exemplo, diz que vai fazer o trem-bala. Baita declaração. Mas é viável? Como vai contornar a muralha da Serra das Araras? E as infinitas desapropriações? Ninguém fala disso. O que fica é o efeito: "Vou fazer o trem-bala." Ou: "Sou contra o aborto", mas considero o aborto "um problema de saúde pública." Afinal, é a favor ou é contra? Quer ampliar os casos previstos na legislação ou deixar como está? "Sou contra a censura." Beleza. Então, como explicar sua assinatura no 3.º Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3)? Como explicar as sucessivas maquiagens nos seus planos de governo? "Sou contra qualquer ditadura." Ótimo. Mas como explicar as declarações de apoio de Hugo Chávez à "amiga Dilma"? E José Serra, é a favor ou contra a independência do Banco Central?

Nosso papel, embora com civilidade e respeito, não é registrar, mas questionar. Willian Bonner, âncora do Jornal Nacional, fez a sua parte com notável profissionalismo. O PT errou quando insultava Sarney, Collor e Renan Calheiros ou errou depois ao se aliar a eles? "Antes o PT não tinha experiência, amadureceu no governo", respondeu Dilma. A candidata, sem a blindagem imediata do marketing, mostrou sua concepção de política: um jogo pragmático e sem nenhum tipo de baliza ética. Para ela, ser "maduro" é juntar-se ao que há de pior. Cobrada sobre o resultado fraco no crescimento econômico se comparado com outros emergentes, culpou a "herança maldita" do governo Fernando Henrique. Ainda não passou pela cabeça da candidata culpar Pedro Álvares Cabral pelo gargalo na infraestrutura. Mas chegaremos lá. O telespectador, sem contrabando opinativo, tira suas conclusões.

O jornalismo de qualidade, firme e independente, é rastreador da verdade. Não é nosso papel embalar candidatos, mas mostrar suas contradições. É preciso incomodar. Jornalismo cor-de-rosa não faz bem à democracia.

*DOUTOR EM COMUNICAÇÃO, É PROFESSOR DE ÉTICA E DIRETOR DO MASTER EM JORNALISMO




O vice ainda fala alguma coisa




Latinos e chineses
Editorial da Folha de São Paulo

Latinos e chineses

Como primeiro elo de integração internacional, a América Latina sempre desempenha papel relevante nas relações econômicas do Brasil. Historicamente, o comércio regional absorve parcela importante das exportações do país, oscilando em torno de 20%, com forte concentração em produtos manufaturados.
Entre 2005 e meados deste ano, considerando-se apenas manufaturas, as vendas brasileiras para a região cresceram, em termos absolutos, 35%, atingindo US$ 34 bilhões (cerca de R$ 60 bilhões). Como o Brasil, as economias latino-americanas enriqueceram com o crescimento asiático e o aumento da demanda por commodities -o que tem reflexos positivos no próprio comércio regional.
A prosperidade latino-americana poderia no entanto ser mais dinâmica. E a presença brasileira também. Ajudariam nesse sentido relações diplomáticas menos suscetíveis a questões ideológicas e mais concentradas na exploração dos aspectos complementares das diversas economias. O Brasil precisa ser mais ambicioso e agressivo na disputa pelos mercados.
No caso do Mercosul houve nos últimos anos evidente retrocesso, com a proliferação de distorções comerciais e barreiras unilaterais. É claro, para quem quiser ver, que a assimetria entre os membros impede o funcionamento do atual status de união aduaneira. Cumpre enfrentar indefinições e ambiguidades para que o bloco possa de fato impulsionar as trocas, em vez de embaraçá-las num emaranhado de cláusulas e exceções.
Há, além disso, um novo fator a considerar -a ameaça chinesa. A presença do país asiático cresce exponencialmente na América Latina. No mesmo período de 2005 a meados deste ano, em que as vendas brasileiras de manufaturados subiram 35%, as chinesas triplicaram, passando de US$ 19 bilhões para US$ 54 bilhões.
É preciso portanto não se acomodar diante de resultados positivos. O Brasil, que tem dificuldades para vender manufaturados a outros países, está perdendo espaço para os chineses num mercado vizinho e tradicional.

Ahmadinejad apresenta avião não tripulado
Ahmadinejad apresenta avião não tripulado iraniano

Aeronave consegue transportar mísseis e fazer missões de espionagem a 900 km/h, mas não alcança Israel

da FSP

O Irã apresentou ontem o seu primeiro "drone" (avião não tripulado) de fabricação nacional, construído com o objetivo de ser um "embaixador da morte" para os inimigos do país persa, segundo disse o presidente Mahmoud Ahmadinejad.
O lançamento é uma resposta às crescentes ameaças de ataque americano ou israelense contra instalações nucleares iranianas -que Teerã diz ter fins científicos e energéticos, não militares.
Batizado de Karrar, que significa "atacante" em persa, o avião foi apresentado numa cerimônia militar transmitida pela TV estatal, que também exibiu imagens do aparelho decolando durante um suposto teste.
A aeronave, que coloca o Irã dentro de um seleto grupo de países capazes de produzir aviões não tripulados, ao lado de Israel, França e EUA, tem quatro metros de comprimento, voa a 900 km/h e pode carregar vários tipos de mísseis ou ser usada em missões de espionagem.
Seu alcance é de 1.000 km, insuficiente para alvejar Israel, mas o bastante para atingir alvos dos EUA no golfo Pérsico ou no Afeganistão.
Os dados sobre o avião foram divulgados por Teerã e não puderam ser verificados.

DEFESA
Em discurso na cerimônia, Ahmadinejad disse que o Karrar pretende "manter o inimigo paralisado em suas bases" e repetiu que o arsenal iraniano visa a apenas reforçar a capacidade defensiva do Irã. "Nunca seremos os primeiros a atacar", disse.
"EUA e Israel dizem que todas as opções estão sobre a mesa. Pois nós dizemos o mesmo", acrescentou.
O Karrar foi apresentado como a mais recente proeza tecnológica do Irã, que foi obrigado a desenvolver seus próprios submarinos, lanchas de alta velocidade, tanques e mísseis após ter sido submetido pelos EUA a um embargo sobre importação de armas -o cerco militar foi apoiado por outras potências ocidentais.
O programa nuclear também é tido como um símbolo de independência e de resistência às adversidades impostas pelas potências ocidentais ao Irã, submetido a sanções econômicas da ONU e de vários países.
Anteontem, o Irã, que já possui boa capacidade de enriquecer urânio, inaugurou sua primeira usina atômica, em mais um passo rumo ao domínio completo do ciclo de produção nuclear.
Israel, que possui arsenal nuclear fora dos tratados internacionais, disse que a usina é "totalmente inaceitável" e cobrou maior pressão internacional contra o Irã.
Apesar da retórica inflamada, Ahmadinejad disse à TV Al Jazeera, do Qatar, que o Irã está disposto a reatar laços com os EUA, rompidos desde os anos 1980. "É muito melhor ter a amizade do Irã do que sua hostilidade", disse o presidente.

Rapidinhas


ELIANE CANTANHÊDE da FSP

Acabou. E daí?

BRASÍLIA - Vem mudança partidária por aí. Uma mudança que já se desenha há anos, mas se torna premente a cada dia que passa da campanha e a cada ponto que Dilma escala rumo ao Planalto. A base lulista está excessivamente inchada, e a liga da oposição, muito esgarçada.
Lula pegou o bonde do governo FHC andando, botou o PMDB e a maior parte dos partidos dentro, foi acomodando interesses e dando o rumo. Mas Dilma não tem o mesmo perfil político nem psicológico. Lula é Lula, Dilma é Dilma. No bolsão de apostas, ninguém crê que, se ela for eleita, o casamento com o PMDB possa sobreviver ao mandato. O partido vai lhe dar muito mais trabalho do que PSDB e DEM juntos.
Aliás, você já notou como Sarney, Renan, Jader e até mesmo o vice, Michel Temer, andam sumidos na campanha nacional?
Do lado da oposição, só se fala em novo partido. Não há mais como conviver com as velhas picuinhas, disputas e traições. Muito menos depois de três derrotas sucessivas. Se Serra ganhasse, todos dariam um jeito de se acomodar e de ampliar as bases de apoio. Mas deve perder, e os ratos já começam a pular do barco. Como o navio Lula/ Dilma está com superlotação, pode ter muito rato morrendo afogado.
Serra, 68, é o último fundador do PSDB com força presidenciável. Ele mantém peso e voz na oposição, mas o futuro está em Alckmin, sólido em São Paulo, Aécio, que deve sobressair no Senado, e Beto Richa, que desponta como alternativa. Esse será o eixo da reciclagem, com a maioria do PPS e boa parte do DEM (bem aceito pelos três).
Esse freio de arrumação dos dois lados será possível porque o(a) futuro(a) presidente(a) não precisará tão fortemente do Congresso como seus antecessores. As duas grandes reformas que faltam, a política e a tributária, não dependem de um governo, mas de um amplo acordo nacional. Ou tem acordo, ou simplesmente não saem. Passados os embates de campanha, Dilma e Serra terão muito o que conversar.



Vantagem de Dilma faz Lula exigir ofensiva em SP

Presidente cobra "fatos políticos" para alavancar campanha de Mercadante

Em comício no ABC, candidata petista diz que eleição não está ganha e tenta estimular a militância da sigla

ANA FLOR/EVANDRO SPINELLI
da FSP

A pesquisa Datafolha que mostra Dilma Rousseff (PT) com 47% das intenções de voto contra 30% de José Serra (PSDB) permitirá ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva se dedicar à campanha eleitoral em São Paulo -o maior temor dos tucanos.
Já na sexta à noite, em discurso em Osasco, Lula anunciou que sua prioridade na eleição é o Estado, governado há 16 anos pelo PSDB.
Ele cobrou da coordenação da campanha de Aloizio Mercadante a criação de "fatos políticos" para conquistar um triunfo no maior colégio eleitoral do país.
Apesar disso, em outro comício, realizado ontem em Mauá (SP), Dilma Rousseff minimizou a pesquisa e tentou estimular a militância.
"Pesquisa não ganha eleição para ninguém. Ganha uma eleição o povo votando no dia 3 de outubro", disse. "O que garante é a gente trabalhar de hoje até o dia 3, batalhar muito, perder muita voz e conversar com o povo."
Em discurso, a ex-ministra voltou a falar sobre o assunto: "Não podemos achar que o jogo acabou. Um bom jogador tem de jogar a partida inteira", disse. No entanto, pela primeira vez Dilma citou a perspectiva de triunfar no primeiro turno da eleição.
Lula disse acreditar que a ex-ministra tem menos votos entre as mulheres por preconceito, e elogiou a candidata. "Se eu tivesse um filho, e não tivesse a Marisa, eu dava para ela [Dilma] cuidar", disse Lula, ao falar da confiança que tem em Dilma.
Lula pediu que, até amanhã, a campanha de Mercadante crie uma lista de temas políticos para atacar a gestão tucana. No discurso, o presidente citou o primeiro deles: os pedágios. Disse que os valores cobrados nas estradas paulistas são "um roubo".
Na noite de sexta, Lula conversou com Mercadante, com o prefeito de Osasco, Emídio de Souza, coordenador da campanha ao governo do Estado, e com o presidente do PT-SP, Edinho Silva.

VIRADA
Lula afirmou que suas participações na campanha no Estado, por meio da TV e de comícios, não são suficientes para virar a disputa. Segundo ele, é preciso "fatos políticos" para atacar os tucanos.
Mais tarde, ele criticou abertamente o discurso de se levar a disputa de São Paulo para o segundo turno. Ele cobrou que se defenda uma vitória no primeiro turno.
Com a vitória de Dilma no primeiro turno aparentemente encaminhada, tucanos temem que Lula se dedique a transferir seu prestígio para Mercadante, ameaçando a vitória até agora aparentemente fácil de Alckmin.
Além de São Paulo, Lula pretende concentrar sua participação na reta final da campanha em Minas Gerais, onde o pleito, apesar da vantagem do candidato lulista, Hélio Costa (PMDB), é considerado bastante acirrado.
Em São Paulo, segundo o último levantamento do Datafolha, Alckmin aparece com 54% das intenções contra 16% de Mercadante.
Uma maior participação de Lula na campanha do petista Aloizio Mercadante ao governo era a maior preocupação de tucanos ontem.
As campanhas não sabem avaliar o impacto que a nova estratégia petista pode ter na eleição em São Paulo.




PRESIDENTE 40 ELEIÇÕES 2010

Nova queda desanima aliados de Serra

Tucanos aumentam pressão por mudanças no programa de TV; senadora diz que só desiste "no último minuto"

"Isso impacta a gente", afirma Marisa Serrano; tucanos dizem esperar "fato novo", e candidato não comenta resultado

da FSP

A disparada da presidenciável Dilma Rousseff (PT) na pesquisa Datafolha divulgada ontem abalou aliados e dirigentes da campanha de José Serra (PSDB).
O clima de desânimo marcou as reações dos tucanos, que agora dizem esperar um "fato novo" para levar a eleição ao segundo turno.
"Isso impacta a gente. Não é fácil, mas só podemos desistir no último minuto", disse a senadora Marisa Serrano (PSDB-MS). "É ruim esperar o imponderável, mas precisamos lutar até o fim."
O resultado ampliou a pressão por mudanças na propaganda eleitoral de Serra, que tem tentado colar sua imagem à de Lula.
"A estratégia do bom-mocismo está errada", disse o senador Alvaro Dias (PSDB-PR), que defende uma linha mais agressiva na TV. "Oposição só substitui quem está no poder quando é crítica."
"Temos que mudar o programa para mostrar que o PSDB e seus aliados construíram tudo que está aí", reforçou o presidente do PTB, Roberto Jefferson.
O ex-prefeito do Rio Cesar Maia (DEM) defendeu que a oposição se concentre agora na disputa pelo Senado. "Queremos evitar que aconteça o que ocorreu na Venezuela", disse, referindo-se a um eventual governo Dilma com ampla maioria na Casa.
O coordenador da campanha tucana, Sérgio Guerra, afirmou que já esperava o crescimento da petista, "talvez não desse tamanho". Ele defendeu a linha adotada na TV: "O caminho é manter o que está definido. Nossa estratégia de comunicação não pode ser errática".
No Rio, Serra não quis comentar a pesquisa. Disse que a invasão de um hotel em São Conrado reforça a necessidade de o governo federal atuar na segurança e afirmou que a ocupação policial de favelas é "positiva, mas insuficiente" para conter a violência.




Na TV, tucano usa disfarce em ataques à adversária

Final de programa de Serra é usado para alertar eleitor sobre peça do PT

PSDB ainda exibiu uma entrevista com eleitor que dizia não conseguir saber o que Dilma queria dizer ao falar

da FSP

Em queda livre segundo o último Datafolha e sob pressão de aliados para que adote um tom mais agressivo, o candidato José Serra (PSDB) partiu para o ataque contra a adversária Dilma Rousseff (PT) em seu programa na TV, ontem à noite.
Porém usou um artifício para tentar descolar as críticas de seu próprio programa. O ataque veio nos 25 segundos finais do espaço destinado a Serra, fazendo parecer que o bloco da candidatura tucana já havia acabado.
Centrado na educação, o programa seguia o padrão dos anteriores, com a exibição de realizações de Serra quando governador de SP e promessas para a área, até aparecer na tela a vinheta "Serra, presidente do Brasil", dando a impressão de que o programa tinha terminado.
Em seguida, sem qualquer identificação na tela a não ser uma rápida aparição, em letras minúsculas, do nome da coligação de Serra, um apresentador alerta os espectadores e diz que o programa de Dilma é uma ficção.
"Daqui a pouco você vai ver o programa da Dilma. O filme é uma coisa, e a vida real é outra. Você que precisou de um hospital público e não foi atendido, você que mora numa favela e não vê nem sinal de governo, você que tem medo de sair de casa porque a segurança está péssima. Você sabe, essa é a realidade dos fatos, e não o que a Dilma está falando. Veja o filme e pense nisso", diz.
No início do programa, o depoimento de um eleitor de Serra também havia atacado a petista. "A Dilma fala, enrola, enrola e enrola, e a gente não sabe o que ela quer dizer", afirma o eleitor.
O programa da petista mostrou realizações do governo Lula, como o PAC e o Luz para Todos. (BC







Amor e ataque
JANIO DE FREITAS da FSP

Amor e ataque

Só coincidência ou não, entrou a fase incisiva de Serra e começaram a sua queda e a subida de Dilma


A rebeldia de José Serra contra a mais nova regra eleitoral brasileira foi esmagada, depressa e com dor. Formulada pelo publicitário e marqueteiro Duda Mendonça, na primeira eleição presidencial de Lula, em 2002, é simples e convicta: "Agressividade não ganha eleição". Verdade apenas circunstancial, como atestam o passado mais distante e Fernando Collor no pós-ditadura contra Lula mesmo, consagrou-se com a derrota do próprio José Serra para o construído Lulinha Paz e Amor.
Apesar do resultado até agora, há um mérito na rebeldia de Serra. Parte da linha de ataque, que marca uma segunda fase, vem do seu temperamento sempre contundente e irritadiço, com o efeito positivo de mostrar o candidato mais tal qual é, de fato, do que fabricado por técnicas publicitárias.
Mas o impulso de Serra para ceder à sua tendência não foi solitário. À sua volta no PSDB (o aliado DEM ele jamais ouviu nem olhou), muitos cobravam-lhe palavras e atitudes diretas e firmes de oposicionista. Fernando Henrique não deixou de fazê-lo até em público, várias vezes.
Em favor do marqueteiro de Serra, Luz Gonzalez, ficam indícios de que não compartilhou da elevação de tom e teor das manifestações do candidato. A Folha informou que no debate promovido pelo jornal e o UOL, por exemplo, Serra recebeu de Gonzalez o pedido para que atenuasse suas investidas contra Dilma Rousseff, àquela altura havendo já, também, algumas crispações voltadas para Marina Silva.
Curioso é que as cobranças da cúpula peessedebista evoluíram quando Serra estava na liderança, com Lula e Dilma batalhando por uma ascensão que não ganhava embalo ameaçador. Quando, portanto, Serrinha Paz e Amor, sorrisos e ares de simpatia jamais suspeitados nele, sobrepunha-se à inércia política e à falta de mensagem de Serra. Só coincidência ou não, entrou a fase incisiva e começaram a sua queda e a subida de Dilma.
Entre atento e distraído, como convém diante do programa eleitoral, o espectador vê surgir na tela o rosto de Serra debruçado sobre o de Lula, como em um comentário confidente, e a legenda "Dois líderes experientes". É propaganda de Serra ou do líder cuja experiência indica Dilma para manter a situação de tranquilidade, crescimento econômico e aumento do consumo de que o eleitorado desfruta em plena disputa eleitoral? Assim é a mistura de oposicionismo direto e firme, em relação a Dilma e ao governo, e de afagos nos 77% de eleitorado aprovador de Lula. Serrinha Amor e Ataque.
A Lula só falta ver Dilma vitoriosa no primeiro turno para a confirmação de suas antecipações e da tática audaciosa, e por certo tempo desrespeitosa, que adotou para uma sucessão bem ao seu gosto. Não seria justo deduzir daí que a situação de Dilma é obra exclusiva de Lula. Mais do que contrariar a expectativa da oposição de que suas aparições de campanha seriam desastrosas, Dilma tem se saído bem, sobretudo se considerado que sua estreia eleitoral ocorre já em disputa para a Presidência. Nos espantosos 17 pontos de vantagem que o Datafolha lhe confere, Dilma tem a sua quota de conquista. E Serra, a de contribuição.

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