Evaldo Augusto Torres Alves /editor
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Política

Serra diz que quebra revela "jogo sujo" de petista


Serra diz que quebra revela "jogo sujo" de petistas

Tucano atribui caso à equipe de Dilma e defende que ela responda por isso

Campanha da petista e presidente do partido não comentam o caso; Corregedor da Receita é chamado para depor

da FSP

José Serra, candidato do PSDB à Presidência, afirmou ontem que as quebras de sigilos fiscais no caso do dossiê contra o também tucano Eduardo Jorge foram um "crime contra a democracia".
Serra apontou a campanha da candidata petista Dilma Rousseff como a responsável e disse que ela deve uma "explicação ao país".
"É um crime contra a democracia, e a Dilma Rousseff deve uma explicação ao país, porque isso foi feito pela campanha dela", disse, em Natal. "Isso foi feito por causa de campanha eleitoral, jogo sujo de campanha."
Segundo o tucano, o dossiê era "previsível", pois "o pessoal do PT faz espionagem, faz coisas gravíssimas". "Foi pura espionagem para encontrar armas eleitorais."
Em defesa do PT, o deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP) negou envolvimento de Dilma nas quebras de sigilo. "Você já viu a nossa campanha baixar o nível? Quem baixa o nível é o Serra."
Em Brasília, o presidente do PSDB, Sérgio Guerra, disse que o PT vai adotar a tradicional postura de negar envolvimento com a violação. "Dilma vai dizer que não sabia, nem o PT nem a campanha. No final, vão encontrar um culpado qualquer."
Em São Paulo, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou que "existe no governo uma tendência a acobertar esses fatos".
A oposição marcou para terça-feira da próxima semana, no Senado, o depoimento do corregedor da Receita Federal, Antonio Costa D'Ávila Carvalho, para explicar a violação de dados do Imposto de Renda dos tucanos. Por ser convite, ele não é obrigado a comparecer.
* (JOÃO CARLOS MAGALHÃES, GABRIELA GUERREIRO, MÁRCIO FALCÃO e BRENO COSTA)


Violação de sigilo na Receita atingiu mais três ..


Violação de sigilo na Receita atingiu mais três tucanos

do Estadão

A Receita Federal vasculhou, em sequência e num mesmo dia, os dados fiscais sigilosos do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge, e de mais três pessoas ligadas ao comando do partido. A operação foi revelada ontem à tarde, com exclusividade, pelo portal estadão.com.br.

Até então, sabia-se que apenas os dados de Eduardo Jorge haviam sido alvo de acesso e vazamento, com a finalidade de municiar um dossiê para uso da campanha da candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff. As consultas ocorreram num intervalo de 15 minutos e atingiram outros três nomes vinculados à direção tucana. No dia 8 de outubro de 2009, servidores do Fisco abriram, a partir do mesmo computador, os dados sigilosos de Eduardo Jorge e de Luiz Carlos Mendonça de Barros, Ricardo Sérgio de Oliveira e Gregório Marin Preciado.

Essa revelação enfraquece a versão de acesso funcional aos dados de Eduardo Jorge e dá munição para a oposição acusar o governo de abrir sigilo sem motivação interna, mas com objetivos políticos para fabricar dossiês na campanha eleitoral. Mendonça é ex-ministro das Comunicações do governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, Ricardo Sérgio foi diretor do Banco do Brasil na gestão tucana e Preciado é casado com uma prima de José Serra.

Os nomes deles estão no processo aberto pela corregedoria da Receita para saber quem abriu os dados de Eduardo Jorge e por que foram acessados em terminais da Delegacia da Receita Federal em Mauá (SP). O conteúdo das declarações de renda do vice-presidente do PSDB foi parar num dossiê que passou pelas mãos de integrantes do comitê de campanha da candidata do PT à Presidência. Em junho, o jornalista Luiz Lanzetta teve de deixar a campanha petista por envolvimento no episódio.

Até o momento, o processo aberto pela Receita pouco avançou para descobrir e, dependendo da conclusão, punir quem acessou os dados fiscais de Eduardo Jorge e dos outros três personagens ligados ao PSDB. Em depoimento à Receita, a servidora Antonia Neves Silva alegou que repassou a senha a outras duas colegas de trabalho, e nega envolvimento na consulta às declarações de renda. As outras duas funcionárias, Ana Maria e Adeilda, também afirmam que não são responsáveis por abrir esses dados fiscais. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

O que espera a oposição para ...
O que espera a oposição para fazer com Dilma o que fez Mário Covas com Maluf?

Surpreendido pela mudança de tom no discurso de Mário Covas, que decidira transformar o segundo turno da eleição de 1998 numa disputa essencialmente política, Paulo Maluf tentou retomar a ofensiva durante o debate na TV Globo. “É uma falácia, é uma mentira, não é verdade que se gerou emprego neste Estado”, endureceu na réplica a uma resposta do governador de São Paulo que tentava a reeleição. Covas precisou de meio minuto para devolver o adversário às cordas. “Se há alguém aqui que pode ser qualificado de mentiroso, não sou eu”, começou a tréplica que, em seguida, estimulou o eleitorado a comparar o histórico e o caráter dos participantes do duelo.

O jornalista Carlos Nascimento avisou que era hora de Covas formular uma pergunta quando Maluf estava ainda grogue. Primeiro, o candidato do PSDB informou que não fora fácil encontrar o programa de governo do oponente do PDS. Feita a ressalva, contou que não conseguira entender o significado de um dos itens incluídos na parte que tratava da política cultural. E pediu a Maluf (aos 5 minutos e 20 segundos do vídeo abaixo) que traduzisse em língua de gente o seguinte palavrório: “Adoção de uma vertente social em complemento às vertentes patrimonialistas e de fomento dominantes”.

O velho alquimista fugiu da resposta, contornou o tema, viajou por paragens distantes, garantiu que ninguém na história de São Paulo fizera tanto pela cultura e repetiu que Covas mentia. Irritantemente sereno, Covas ponderou que Maluf poderia acusá-lo do que quisesse, desde que desvendasse o enigma. Releu em voz alta o item indecifrável e insistiu na resposta. Maluf acabou na lona.

Por que José Serra não faz com Dilma Rousseff o que fez Covas com Maluf? A sucessora que Lula inventou, como sabem até os móveis da Casa Civil, não tem compromisso com a verdade. Pilhada em flagrante ao encomendar um dossiê contra Fernando Henrique e Ruth Cardoso, transformou a fábrica de papelórios malandros em “banco de dados”. Pilhada em flagrante intercedendo por José Sarney na Receita Federal, ainda faz de conta que não conversou com Lina Vieira. Depois de inventar um diploma de doutorado, anuncia de meia em meia hora uma obra fantasma do PAC. O que espera Serra para reprisar a pancada desferida por Covas?

E o que espera a oposição para exigir de Dilma a imediata tradução dos palavrórios que vem despejando há muitos meses? Ao prometer “a ampliação do mercado de trabalho com o uso de tecnologia moderna”, por exemplo, assim resumiu a fórmula do milagre: “Vamos ter uma política de conteúdo nacional que vai depender da nossa capacidade de internalizar e transformar essa demanda em empregos brasileiros e tecnologia nacional”. Por que está animada com o pré-sal?, perguntou-lhe um jornalista. Resposta: “A grande questão do pré-sal é o fato de que são recursos que nós sabemos onde estão. São de alta qualidade”.

Qual será, enfim, a marca principal de um possível governo Dilma Rousseff?, quis saber outro repórter. Dilma devolveu de bate-pronto: “Nós trocamos o pneu do carro com ele andando. Eu não vou precisar de trocar o pneu do carro com ele andando. Se eu elencar uma porção de ’se’ para você, poderia ser feito mais no governo Lula: ’se’ a gente tivesse encontrado um projeto, nós não encontramos; ’se’ o Brasil tivesse uma experiência de crescimento, não tinha; Então, tem uma quantidade de ’se’ que não vale a pena a gente tratar”.

O que Dilma quis dizer com isso? Por que Serra não exige que traduza o que nem ela entende? É o que deve fazer qualquer candidato disposto a ganhar, mais que um debate, a eleição presidencial.




Serra cobra mais estrutura na campanha
Serra cobra mais estrutura na campanha

Tucano convoca coordenadores e obtém garantia de investimento de R$ 20 milhões para triplicar produção de material de divulgação

Ana Paula Scinocca, Julia Duailibi
do Estadão


Material extra. Parttido vai dar R$ 20 milhões para triplicar a produção de banners e santinhos

O candidato do PSDB à Presidência, José Serra, resolveu entrar em campo e cobrar diretamente de seus auxiliares e do comando do partido mais infraestrutura e melhor distribuição do material de divulgação da campanha.

Além de convocar o coordenador da campanha, senador Sérgio Guerra (PE), para uma reunião anteontem à noite, em São Paulo, Serra chamou José Henrique Reis Lobo, da área financeira administrativa, e Sérgio Kobayashi, de infraestrutura.

De acordo com relatos da reunião, Serra queria saber o porquê de algumas regiões não estarem recebendo material de campanha. Uma das reclamações de aliados é de que o dinheiro para a produção de material não está sendo liberado pela área administrativa. O presidenciável tem ouvido reclamações de aliados em suas viagens aos Estados.

O encontro serviu para os tucanos definirem mais ações para conter o avanço da candidata governista, Dilma Rousseff. Uma das medidas a serem adotadas é "colar" os candidatos nos Estados ao presidenciável. Ficou acertado que cerca de R$ 20 milhões serão gastos com a produção de itens para a divulgação, como banners e santinhos.

Guerra disse ontem que a produção de material para a campanha de Serra será "triplicada" e enviada aos Estados com mais agilidade. "A prioridade é abastecer todos os Estados."

No domingo, o partido já havia convocado uma reunião da área administrativa e de infraestrutura com o setor de arrecadação. O objetivo era tentar articular melhor as áreas. Depois da reunião entre as partes, Serra convocou os três tucanos para o encontro de anteontem.

O coordenador político da campanha de Serra comentou a ofensiva do partido para conter o avanço de Dilma em São Paulo. No Estado, segundo o Instituto Datafolha, a vantagem de Serra caiu pela metade entre julho e o início de agosto. Passou para 7 pontos porcentuais.

Outra ação definida é a agenda política em conjunto com o candidato do PSDB ao governo paulista, Geraldo Alckmin. Está programado para a próxima semana um encontro que pretende reunir 450 prefeitos em São Paulo.

Estratégia. Apesar da desvantagem nas pesquisas, toda a estratégia dos tucanos tem na mira empurrar a disputa para o segundo turno. De acordo com as últimas pesquisas de intenção de votos, se a eleição fosse hoje, Dilma venceria no primeiro turno.

"Em 2006 a diferença nas pesquisas nessa altura do jogo era ainda maior", declarou ontem um importante integrante do comando da campanha.

Há quatro anos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva era o favorito para ser reeleito em primeiro turno, mas o então candidato tucano Geraldo Alckmin acabou conseguindo carimbar seu passaporte para a segunda etapa da disputa.

A ida de Alckmin ao segundo turno, porém, foi atribuída basicamente à divulgação do dossiê dos aloprados. O material tinha José Serra como alvo preferencial. Na época ele era candidato ao governo paulista. A elaboração do dossiê - que os tucanos atribuíram aos petistas - acabou respingando na campanha presidencial.



Receita vasculhou sigilos de mais 3 pessoas ...
Receita vasculhou sigilos de mais 3 pessoas ligadas a Serra e FHC

Investigação revela que Luiz Carlos Mendonça de Barros, Ricardo Sérgio de Oliveira e Gregório Marin Preciado também tiveram sigilos quebrados

Leandro Colon e Rui Nogueira
do Estadão

Investigação interna da Receita Federal revela que acessos suspeitos aos sigilos fiscais de adversários do PT foram além do manuseio dos dados do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge. Os documentos mostram que, no mesmo dia, de um mesmo computador e em sequência, servidores do Fisco abriram os dados sigilosos de Eduardo Jorge e de mais três pessoas ligadas ao alto comando do PSDB. São elas: Luiz Carlos Mendonça de Barros, Ricardo Sérgio de Oliveira e Gregório Marin Preciado.

O Estado teve acesso a informações do processo aberto pela Corregedoria da Receita para saber quem acessou e por que os dados de Eduardo Jorge foram abertos em terminais da delegacia da Receita Federal em Mauá (SP). Essas informações foram parar num dossiê que teria sido montado por integrantes do comitê de campanha da candidata à Presidência Dilma Rousseff (PT). A oposição acusa funcionários do governo de violarem os sigilos fiscais de tucanos para fabricar dossiês na campanha eleitoral.

Os dados da investigação revelam que as declarações de renda de Eduardo Jorge e dos outros três tucanos foram acessadas do mesmo computador, por uma única senha, entre 12h27 e 12h43 do dia 8 de outubro do ano passado. O terminal usado foi a da servidora Adeilda Ferreira Leão dos Santos. A senha era de Antonia Aparecida Rodrigues dos Santos Neves Silva. Às 12h27, foi aberta a declaração de renda de 2009 de Mendonça de Barros, ex-ministro das Comunicações do governo de Fernando Henrique Cardoso. Três minutos depois, às 12h30, acessaram os dados do empresário Gregorio Marin Preciado, casado com uma prima de José Serra. Às 12h31, a declaração de Renda de Ricardo Sérgio foi aberta. Ele é ex-diretor do Banco do Brasil no governo FHC. Às 12h43m41s daquele mesmo dia, o mesmo terminal acessou a declaração de renda de 2009 de Eduardo Jorge. Quatorze segundos depois, os dados referentes a 2008 foram abertos por um servidor da Receita.

Os nomes dos tucanos foram destacados pela própria investigação da Receita Federal, como "contribuintes que despertaram interesse na apuração". O trabalho de apuração da Receita compreendeu os acessos ocorridos naquela delegacia entre 3 de agosto e 7 de dezembro de 2009. Em depoimento à corregedoria da Receita, as duas funcionárias negam envolvimento na abertura desses dados. Dona da senha usada, Antonia Aparecida alega que repassou o código a outras duas colegas e que não sabe quem fez essas consultas.

Cristina segue versão light do chavismo
Cristina segue versão light do chavismo

Para analistas, presidente argentina age com menos contundência que o venezuelano em sua guerra à mídia

Amplo apoio popular de Chávez e classe média argentina são outros fatores de diferenciação entre os governantes

GUSTAVO HENNEMANN
DE BUENOS AIRES /FSP

A guerra entre o governo de Cristina Kirchner e os jornais "Clarín" e "La Nación" aponta para a aplicação, na Argentina, de uma versão "light" do modelo de intervenção sobre a mídia e a economia implementadas na Venezuela pelo presidente Hugo Chávez.
Na avaliação de analistas ouvidos pela Folha, os governantes dos dois países não têm uma base de apoio semelhante e usam ferramentas distintas para implementar seus projetos.
Chávez, tem uma força política muito maior e, por isso, toma decisões contrárias à liberdade de imprensa de forma mais "aberta, autoritária e contundente" que o governo Kirchner, avalia o analista da Universidade Torcuato Di Tella, Sergio Berensztein.
"Chávez tem o apoio de uma militância popular e da inteligência cubana, enquanto os Kirchner são apoiados por uma minoria", afirma Berensztein.
Para o analista, a democracia é mais forte na Argentina e, principalmente, sua classe média é "extremamente antiautoritária".
Mas ele acredita que a intimidação da mídia independente pode levar o país aum "autoritarismo populista" que elevará a tensão social.
Para o cientista político Julio Burdman, da Universidade de Belgrano, o governo de Cristina deixa claro sua intenção ao agir contra os meios de comunicação social -usando concessões públicas e disputas acionárias para pressioná-las-, mas não abandona as regras democráticas, como a Venezuela.
"Na Argentina, há uma guerra explícita contra atores concretos, como o grupo Clarín, mas não podemos dizer que há ameaças à liberdade de expressão dos jornalistas, diretamente sobre o conteúdo publicado", diz.

ECONOMIA
Quanto às medidas econômicas tomadas pelos dois governos, Burdman vê uma estatização sem critérios e generalizada na Venezuela, enquanto Cristina optou por reestatizar empresas de setores públicos e estratégicos, como a Aerolineas, os fundos previdenciários e a companhia de saneamento básico.
"Enquanto Chávez sai estatizando hotéis e joalherias, com a intenção de estabelecer o socialismo, o governo Kirchner nunca estatizou algo que já não tivesse sido do Estado antes, e não quer abandonar o sistema de mercado", diz Burdman.
Sobre a recente intensificação dos ataques da presidente à imprensa local, Berensztein afirma que o objetivo imediato é fragilizar os meios independentes para as eleições do próximo ano.
Anteontem, Cristina acusou os jornais "Clarín" e "La Nación" de comprarem suas partes na empresa de papel-jornal Papel Prensa, em 1976, com a ajuda do regime militar argentino.
Ambos os veículos foram denunciados por crimes contra a humanidade.

Uma doutrina por trás da censura
Uma doutrina por trás da censura

Eugênio Bucci
do Estadão

Na semana passada, um tribunal venezuelano proibiu os jornais do país de publicarem fotografias de vítimas de assassinatos. O fato foi noticiado no Brasil com bastante destaque, mas os fundamentos que estão por trás da medida não foram bem explicados. O assunto merece menos alarmismo e um pouco mais de atenção.

O episódio é sintoma da precoce degeneração de uma doutrina que subordinou a comunicação social aos ditames da segurança da pátria e que, levada ao extremo, vem conferindo ao Estado a função de zelar pela qualidade do jornalismo. A censura às fotos, em si, é patética e caricata, mas a doutrina que a inspira ainda preocupa.

Por certo, já se tornou ocioso protestar contra o autoritarismo de Hugo Chávez, que sucumbe aos seus defeitos ao ritmo que se distancia de suas promessas; em nome de aspirações coletivas, muitas delas legítimas, o governante montou para si mesmo um regime avesso às críticas e à renovação, adepto de militarismos e do culto à personalidade, que vai gerando infelicidade, medo e fracassos. Não há muito que fazer em relação a isso, a não ser lamentar. Mas a origem e os desdobramentos daquela doutrina autoritária, que ainda ilude entusiastas em todo o continente, isso é preciso entender com mais profundidade. É preciso aprender com a experiência, enfim.

A pedra angular dessa doutrina pode ser lida na Constituição da República Bolivariana da Venezuela, de 1999. O artigo 58, sob o disfarce de condenar expressamente a censura, veio para consagrar as razões mesmas da censura. Uma contradição involuntária do legislador apressado? Não: o artigo 58 é isso mesmo, um truque para autorizar a intervenção do Estado na imprensa.

Diz o texto: "(...) Toda persona tiene derecho a la información oportuna, veraz e imparcial, sin censura, de acuerdo con los principios de esta Constitución, así como a la réplica y rectificación cuando se vea afectada directamente por informaciones inexactas o agraviantes. (...)"

À primeira leitura, tudo bem. Além de repelir a censura, esse artigo enaltece o direito de todos à informação "oportuna, veraz e imparcial". Nada nessa ideia parece impróprio, nada parece errado.

Nada a não ser aquilo que o artigo não diz que diz. Com seu palavreado épico, valente, próprio de uma Constituição que se propõe a "refundar" uma República "protagônica", o texto contém uma armadilha essencial. Ao afirmar o direito de todos à informação "oportuna, veraz e imparcial", lança suspeitas sobre o direito que todas as pessoas também têm às informações que, na opinião das autoridades, talvez sejam de veracidade duvidosa, inoportunas e nem tão imparciais assim. Com sua malícia retórica, a Constituição venezuelana põe no ar uma dúvida: quem é que vai dizer se a informação é "oportuna, veraz e imparcial"? O juiz? O Poder Executivo? A polícia?

A tradição democrática ensina que isso não é papel do Estado. A célebre Primeira Emenda à Constituição dos Estados Unidos, que impediu os congressistas de legislarem contra a liberdade de imprensa, data de 1791. A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, da França, com sua defesa da livre comunicação das ideias como um dos direitos "mais preciosos" do homem, é de 1789. Naquela época, tanto na América como na Europa, praticamente inexistiam jornais equilibrados, desapaixonados, imparciais, oportunos, etc. Na América, havia publicações abertamente militantes, partidárias, que não hesitavam em recorrer à calúnia sanguinária. Em Paris, os filósofos e seus devezenquandários não redigiam noticiários isentos; empenhavam-se no proselitismo e na apologia do novo regime, que celebrava o individualismo, a propriedade privada e a guilhotina.

A História ensina que, nos Estados Unidos e na França, a conquista da liberdade de imprensa não veio para premiar jornalistas bem comportados, mas para garantir ao cidadão o direito de dizer o que bem entende, no tempo que quiser. A liberdade não foi o coroamento da ética jornalística, mas o seu pré-requisito: a ética de imprensa só se pode desenvolver em liberdade. Com o tempo, o jornalismo melhorou, ao menos um pouco, e a democracia se aperfeiçoou, estabelecendo formas de punir os excessos e os abusos da liberdade. Mas, atenção, o julgamento e a punição dos erros ocorrem depois que os erros são publicados; o direito fundamental que todos temos de publicar aquilo que pensamos não pode ser violado, não pode sofrer cerceamentos por antecipação.

O artigo 58 da Constituição Bolivariana é contra essa conquista da humanidade - que veio com o liberalismo, é verdade, mas se firmou como direito de todas as pessoas, sejam elas de direita ou de esquerda, tanto faz. O artigo 58 esconde a conquista desse direito universal. As pessoas não têm direito apenas à informação "oportuna, veraz e imparcial", mas também a notícias que, na opinião das autoridades, talvez não atendam a esses requisitos. Elas têm o direito de ler publicações que juram ter entrevistado duendes e extraterrestres, ou panfletos declaradamente parciais, principistas e inoportunos. Não pode caber ao Estado - por nenhum dos seus três Poderes - dizer se a informação é ou não é "veraz" ou "imparcial". Cabe a cada cidadão julgar isso por si mesmo, isso sim.


Quando um veículo jornalístico, livre de ingerências governamentais, assume compromisso com a informação "oportuna, veraz e imparcial", isso até pode ser uma boa notícia (se não for puro fingimento). Agora, quando o Congresso Nacional aprova na sua Lei Maior a separação doutrinária entre a informação "oportuna, veraz e imparcial" e as outras informações, aí a notícia é tenebrosa. E dá no que vem dando.

A lei não melhora o jornalismo, mas pode piorá-lo, assim como pode embrutecer o Estado e infernizar a vida em sociedade. A Venezuela que o diga.


*JORNALISTA, É PROFESSOR DA ECA-USP

A arma do papel-jornal
A arma do papel-jornal

NOTAS & INFORMAÇÕES
do Estadão

Do vasto arsenal de formas de arrocho da mídia ao alcance dos governos autocráticos e populistas na América Latina, a Argentina de Cristina Kirchner parece ter escolhido a variante de um antigo estratagema adotado nos seus tempos áureos pela "ditadura perfeita", como o ensaísta mexicano Octavio Paz certa vez definiu o sistema político em seu país, com fachada democrática, resultados eleitorais forjados, corrupção endêmica e controle total do Estado pelo Partido Revolucionário Institucional, o notório PRI.

Para consolidar o seu poder, exercido de 1929 a 2000, o PRI teve o estalo de acabar com a liberdade de imprensa mediante um recurso mais sutil e menos truculento na aparência do que o empastelamento das redações e a prisão ou assassínio de jornalistas - algo entre a força bruta e a criação de conselhos tutelares da atividade informativa, como há quem queira adotar no Brasil. O governo decretou o monopólio da importação de papel-jornal, criando a famosa PIPSA - Produtora y Importadora de Papeles S.A. - e estabeleceu cotas do insumo para cada jornal, conforme o grau de sua docilidade aos ditadores-eleitos de turno.

Esse é o caminho por onde a presidente argentina acaba de enveredar, ao anunciar na terça-feira o projeto de lei que considerará de "interesse nacional" a produção e o comércio de papel-jornal, com a instituição de um marco regulatório para as suas operações. Na realidade, a medida - concebida para o governo se apropriar do setor - tem um único alvo. Trata-se da empresa Papel Prensa, que fabrica 75% do insumo usado no país e abastece 170 diários. O controle acionário da companhia é compartilhado por dois jornais, Clarín (49%) e La Nación (22,49%), e pelo Estado argentino (27,46%). O restante pertence a pequenos investidores.

Dos dois jornais - originalmente havia um terceiro, La Razón, que quebrou -, ambos independentes e críticos do kirchnerismo, a fúria da Casa Rosada de há muito se abateu em primeiro lugar sobre o Clarín. A contar de setembro do ano passado, a intimidação contra o grupo que edita o periódico incluiu a razzia em sua sede e nas residências de seus diretores por 200 agentes da Receita Federal; a interrupção da distribuição do diário por um boicote de caminhoneiros orquestrado pelo sindicato de extração peronista e, como tal, alinhado com o governo; e o cancelamento da licença outorgada à empresa para vender serviços de internet.

A ofensiva liberticida não se limitou à proposta que se destina, numa etapa subsequente, à estatização da Papel Prensa. Há mais de um ano, aliás, que os dois jornais vêm denunciando o intento da presidente. Outra ponta da tenaz por ela empunhada foi o anúncio de que pedirá à Justiça uma investigação sobre a compra da empresa, nos anos 1970, sob a ditadura militar argentina, portanto. O objetivo alegado é caracterizar os "crimes contra a humanidade" que os seus acionistas privados teriam cometido ao supostamente contar com a ajuda do regime para adquirir a Papel Prensa da família Graiver, que a controlava, por uma fração de seu valor de mercado.

A própria Cristina Kirchner apresentou, numa audiência televisada, o que seria o fundamento da acusação: um relatório de 400 páginas, cuja fidedignidade pode ser julgada pela afirmação de que o clã - que passou a ser chefiado pela matriarca Lidia Papaleo, depois de enviuvar do poderoso banqueiro David Graiver - foi praticamente obrigado pelos militares, até com a tortura de alguns de seus integrantes, a se desfazer da empresa. A alegação peca por anacronismo. O negócio se consumou em novembro de 1976. A tortura dos membros da família, acusada de gerir as finanças da organização de luta armada Montoneros, ocorreu 6 meses depois.

O historiador argentino Marcelo Larraquy chama a atenção para um detalhe do caso: desde a redemocratização do país, há 27 anos, é a primeira vez que se levantam dúvidas sobre a legitimidade da transação. Segundo o Clarín e o La Nación, Lidia Papaleo foi cooptada pelo governo para "inventar uma história" a fim de anular a compra da papelera. Desse modo, o controle efetivo do suprimento de papel de imprensa na Argentina ficaria com o casal Cristina e Nestor Kirchner. Ele pretende voltar à Casa Rosada em 2011.

Rapidinhas


Tucanos armam ofensiva pró-Serra em SP para impedir avanço de Dilma

Contra-ataque político aos petistas prevê demonstração de força no Estado, com realização de encontro com 450 prefeitos na semana que vem

Julia Duailibi, Ana Paula Scinocca
do Estadão

A coordenação da campanha do presidenciável do PSDB, José Serra, preparou uma ofensiva política para fazer frente ao crescimento da adversária Dilma Rousseff (PT) nas últimas pesquisas de intenção de voto.

O contra-ataque político dos tucanos prevê demonstração de força no Estado de São Paulo, onde foi articulado encontro com 450 prefeitos paulistas na semana que vem, e a exibição de depoimentos de apoio a Serra no horário eleitoral gratuito na TV, gravados por "estrelas" do PSDB.

Foi fechada ontem uma agenda conjunta entre Serra e o candidato tucano ao governo de São Paulo, Geraldo Alckmin, com o objetivo de projetar a candidatura presidencial no Estado. Tucanos querem fazer uma frente no maior colégio eleitoral do País, impedindo o avanço de Dilma.

Para o encontro, no dia 1.º, foram convidados 450 prefeitos, inclusive os que são de partidos da base de apoio de Dilma Rousseff, como o PMDB - em São Paulo a legenda apoia o PSDB.

A expectativa é de que, pelo menos, 300 representantes de municípios paulistas apareçam no evento, no Credicard Hall, na zona sul paulistana. Também foram convidados vice-prefeitos e vereadores. Tucanos disseram que colocarão na entrada do encontro contadores de pessoas para ter ideia precisa de quais aliados compareceram à reunião.

No fim de semana, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva marcou presença em comícios do PT na Grande São Paulo. No Estado governado pelo PSDB há 16 anos, tentou "vender" sua candidata à Presidência e Aloizio Mercadante, que disputa o Palácio dos Bandeirantes pelo PT.

Pesquisas de intenção de voto mostram diminuição da vantagem de Serra no Estado. Segundo o Instituto Datafolha, caiu pela metade sua dianteira em relação a Dilma em São Paulo, entre julho e o início de agosto. Passou de 14 para 7 pontos porcentuais.

Mensagens. Parte da ofensiva política, os programas de Serra na televisão começarão a exibir mensagens de apoio de políticos com projeção nacional, gravadas especialmente para o candidato do PSDB. Também foram enviadas aos Estados cenas de Serra pedindo votos para deputados.

Já foram gravadas mensagens de apoio do ex-prefeito Beto Richa, candidato pelo PSDB ao governo do Paraná e líder das pesquisas em seu Estado, e de Simão Jatene, tucano que disputa o governo do Pará. Haverá também mensagem de Alckmin.

Hoje, Aécio Neves, candidato ao Senado por Minas, grava seu depoimento. Na realidade, Aécio já havia gravado mensagem, mas os marqueteiros de Serra preferiram regravar em estúdio para melhorar a qualidade. Depois da gravação, o mineiro deve se encontrar com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

"O objetivo é mostrar a que viemos. Mostrar o entorno da candidatura dele (Serra), assim como fizemos em 10 de abril", afirmou um dos coordenadores da campanha, ao mencionar o encontro nacional em Brasília no qual Serra se lançou à Presidência.

Em viagem ao Rio Grande do Sul, o presidente do PSDB, Sérgio Guerra, começou a colocar em campo o que chamou de "sacudida e realinhamento". Disse que a campanha nacional será "colada" nas disputas estaduais.

"Estamos conversando com a Yeda para dar uma colada nas duas campanhas e o movimento suprapartidário tem de ganhar escala, ter mais escala operacional", disse Guerra, ao fim de encontros com integrantes do Movimento Suprapartidário Gaúchos com Serra e com a governadora Yeda Crusius. Apesar das declarações de Guerra, líderes do PSDB nacional são contra colar no Estado Serra à imagem de Yeda, que amarga um terceiro lugar nas pesquisas locais.

Os integrantes do comitê suprapartidário apresentaram a Guerra uma série de pedidos para ajustar a campanha. Reclamaram da falta de material e de informações. As agendas de Serra no Estado, quase sempre marcadas na última hora e alteradas a qualquer momento, já impediram que seus aliados se mobilizassem para recebê-lo.

Comunicação. A estratégia da equipe de comunicação, que não deverá ter mudanças bruscas, é aumentar críticas a Dilma e PT gradativamente. Sairá momentaneamente a favela construída em estúdio - e criticada pelos aliados - para a entrada de um escritório onde Serra despacha. A camisa com mangas dobradas será substituída pela gravata. O novo cenário será exibido nos próximos dias e, ao poucos, as duas propostas serão alternadas no programa da TV.

Uma das áreas que podem apresentar mudanças é a internet. No fim de semana, Ravi Singh, um indiano que atuou na campanha vitoriosa de Juan Manuel Santos à Presidência da Colômbia, reuniu-se com integrantes da campanha tucana. Singh, da empresa Election Mall Tecnologies, fez uma proposta inicial ao PSDB, rejeitada pela sigla por enquanto.
* COLABOROU ELDER OGLIARI

Reunião
O encontro entre o marqueteiro da campanha tucana, Luiz Gonzalez, e o presidente do PSDB, Sérgio Guerra, que estava previsto para segunda-feira e foi adiado, deve ocorrer hoje



Coligação de Hélio Costa ameaça blogueiro tucano de prisão

O blog Amigos do Anastasia já foi tirado do ar a mando da coligação 'Todos juntos por Minas'

Eduardo Kattah e Marcelo Portela
do Estadão

BELO HORIZONTE - Em uma campanha que caminha cada vez mais para o acirramento entre as candidaturas do peemedebista Hélio Costa e do tucano Antonio Anastasia, o ex-ministro das Comunicações declarou verdadeira guerra ao presidente do PSDB Jovem de Belo Horizonte, Gabriel Sousa Marques de Azevedo, de 24 anos. Criador do blog Amigos do Anastasia - já retirado do ar por ordem judicial -, em apoio à candidatura à reeleição do governador, Azevedo teve a prisão pedida por advogados da coligação "Todos Juntos por Minas" (PMDB, PT, PCdoB e PRB) em uma representação encaminhada ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE).

A medida e outras representações judiciais da campanha adversária foram repudiadas e classificadas como tentativas de censura na internet pelos tucanos - que chegaram a divulgar um "manifesto de repúdio à censura." A repercussão negativa do pedido de prisão levou Costa a recuar publicamente, atribuindo à sua assessoria jurídica a "atitude excessiva". Em nota ele anunciou na noite de anteontem (23) que ao tomar ciência do procedimento "determinou o seu cancelamento".

Na semana passada, o TRE atendeu pedido dos advogados da coligação e concedeu liminar para que fosse retirado do blog um link de acesso a um vídeo que mostra um panfleto da Central Única dos Trabalhadores (CUT) nas eleições de 1990 onde o peemedebista e o ex-presidente Fernando Collor de Mello aparecem juntos. No dia 19, os advogados encaminharam ofício ao juiz Antônio Carlos Cruvinel argumentando que "resta evidente que não existe nenhum interesse do representado" em cumprir a medida e solicitaram a prisão do presidente do PSDB Jovem de BH.

"Isso é um desconhecimento de um ex-ministro das Comunicações de como funciona a internet. É espantoso para quem tentou ser governador duas vezes e está tentando pela terceira vez, desconhecer o conceito de liberdade", disse ontem (24) Azevedo ao Estado. "Porque eu sou militante eu não posso me expressar? Ou seja, há uma lei diferente para os militantes. De duas uma, ou ele realmente não controla a campanha dele ou os advogados dele são aloprados."

Estudante dos cursos de direito e jornalismo em universidades privadas da capital mineira, Azevedo também ocupa o cargo de secretário de comunicação da Juventude do PSDB nacional.

No início de julho, a Justiça Eleitoral já havia determinado que fosse retirada do blog criado por ele uma animação em que Costa aparecia pilotando uma nave espacial, numa sugestão de que o candidato do PMDB seria um extraterrestre chegando em Minas.

"Guerrilha"

A campanha de Costa divulgou comunicado nesta terça-feira, 24, no qual classifica Azevedo como "a cara visível do esquema de guerrilha do PSDB na internet", que seria responsável por produzir e divulgar, "de modo apócrifo, material que denigre com mentiras a imagem do senador Hélio Costa".

O jovem garante que não é autor de nenhum dos vídeos alvos de interpelação e não descumpriu as decisões judiciais. Alegou ainda que foi obrigado a retirar mensagens postadas no seu twitter pessoal. Mas promete manter a artilharia contra a candidatura adversária. "Agora, já que ele me processou por vídeos que eu não fiz, vou fazer vídeos que eu produzo, assino e falo", afirmou.

Na página do site da "Turma do Chapéu", grupo formado por jovens de classe média e alta de Belo Horizonte ligados à juventude do PSDB, ele postou um vídeo de sua autoria, intitulado "Santa Ceia?", que mostra uma reunião de caciques peemedebistas - entre eles o ex-governador Newton Cardoso -, relacionando-os com notícias publicadas em jornais e sugerindo que Costa está cercado de políticos acusados de irregularidades. "Me processa por esse vídeo!", desafiou.

Após o primeiro processo, Azevedo passou a frequentar eventos da campanha do peemedebista. Na sabatina com o candidato realizada pelo jornal Folha de S. Paulo, no dia 11 último, o jovem dirigente tucano e outros apoiadores causaram tensão entre os assessores de Costa. Azevedo provocou o peemedebista na saída, afirmando que o placar estava 1 a 0 para o candidato.

Chapéu

O presidente do PSDB jovem de BH garante que não é remunerado e exerce os cargos no partido de forma "totalmente voluntária". Sobre a "Turma do Chapéu", diz que foi uma ideia de jovens profissionais e estudantes de diversas áreas, que resolveram "fazer a diferença nessa eleição, compreendendo que a internet é um canal para fazer política".




No horário eleitoral, Serra liga Dilma ao mensalão e a Dirceu

"Olha quem tá querendo voltar", diz locutor, ao exibir a imagem do ex-ministro ao lado da candidata petista

Propaganda também usa Antonio Palocci, que mantém boa relação com presidenciável; PT cita FHC no rádio

da FSP

Pela primeira vez no horário eleitoral, a campanha de José Serra (PSDB) mencionou ontem o mensalão, associando a adversária Dilma Rousseff (PT), líder nas pesquisas, ao ex-ministro José Dirceu, um dos réus do processo resultante do maior escândalo do governo Lula.
Na propaganda de Serra na TV, enquanto eram exibidas reportagens sobre o caso, um locutor leu um texto com ataques à candidata.
"A Dilma tá se achando. A eleição nem começou e já tem briga dela com o Lula. O povo nem votou e ela já tá escolhendo os ministros. E olha quem tá querendo voltar: Zé Dirceu, o mesmo do mensalão. Palocci [Antonio Palocci, ex-ministro da Fazenda]. O Brasil não merece isso."
No fim, foi mostrada foto de Dilma ao lado de Dirceu.
A suposta disputa entre Lula e Dilma -pela indicação de novo ministro do STF (Supremo Tribunal Federal)- foi tema de reportagem da revista "Veja".
Os marqueteiros cuidaram de não ligar Serra diretamente à investida. Por isso o ataque veio no fim do programa, logo após surgir na tela a vinheta "Serra, presidente do Brasil", criando a impressão de que o espaço do tucano já havia acabado.
Segundo um estrategista da campanha tucana, a alusão ao mensalão já estava prevista. Sua manutenção, porém, dependerá do resultado de pesquisas qualitativas com grupos de eleitores.
A rápida citação a Palocci, com quem Serra e outros tucanos mantêm relação cordial, foi analisada por um integrante da campanha tucana como "de bom tamanho".
Serra tem reclamado da pressão para mudanças no programa de TV e manifestou contrariedade com a reunião programada para hoje entre o ex-governador Aécio Neves, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o presidente nacional do PSDB, Sérgio Guerra. Avalia que é uma agenda negativa.
O programa de Dilma no rádio fez comparações entre os governos Lula e FHC. Foram lidas notícias com dados negativos da gestão FHC e positivos do governo Lula.

CAETANO
A página oficial da candidata petista na internet colocou como um dos destaques um quadro com o título "Vitória no primeiro turno", ao lado de gráficos com os resultados das últimas pesquisas.
Já no programa de Marina Silva (PV) o destaque foi um depoimento do cantor e compositor Caetano Veloso, que pediu votos para ela. "Juntos, vamos levar Marina para o segundo turno."



"Pior do que tá não fica" é verdade, diz Tiririca

Candidato à Câmara pelo PR, humorista admite não conhecer a função de deputado

FERNANDO GALLO
DE SÃO PAULO

Francisco Everaldo Oliveira Silva, o palhaço Tiririca, 45, provoca risos e indignação por debochar do que faz um deputado desde que a campanha começou na TV.
Com o slogan "Vote Tiririca, pior que tá não fica", ele vai às urnas para tentar uma vaga como deputado federal por São Paulo. É a grande aposta do PR, tanto que ganhou o número de mais fácil memorização: 2222.

Folha - Quais são as suas propostas de campanha?
Tiririca - Tô trabalhando pelos nordestinos, pelas crianças e desfavorecidos.

Mas tem algum projeto concreto que você queira levar para a Câmara?
De cabeça, assim, não dá pra falar. Mas tem uma equipe trabalhando por trás. A gente tem os projetos que tão elaborados, tá tudo beleza.

Sabe o que o PR propõe, como se situa na política?
Cara, com sinceridade, ainda não me liguei nisso aí. O meu foco é nessa coisa da candidatura, e de correr atrás. Caso seja eleito, aí a gente vai ver.

Na propaganda eleitoral você diz que não sabe o que faz um deputado. É piada?
Eu fiz mais na piada. Porque é esse lance mesmo do Tiririca.

Mas o Francisco sabe o que faz um deputado?
Com certeza. Estudei para esse lance, conversei muito com a minha mãe. Eu sei que elabora as leis e faz vários projetos acontecerem, né?

O que você conhece sobre a atividade de deputado?
Pra te falar a verdade, não conheço nada. Mas tando lá vou passar a conhecer.

Até agora você não conhece nada sobre a Câmara?
Não, nada.

O slogan "pior do que tá não fica" é um deboche?
Não. É a realidade. Pior do que tá não fica.

Você pretende se vestir de Tiririca na Câmara?
Não, de maneira alguma.

Teme ser tratado com deboche?
Não, cara. Tô entrando de cabeça, de coração. Tô querendo fazer alguma coisa. Mesmo porque eu sou bem resolvido na minha profissão. Tenho minha vida feita.

Em quem votou para deputado na última eleição?
Nunca votei. Sempre justifiquei meu voto.





Eleição sem política
MARCO ANTONIO VILLA da FSP

Eleição sem política


Como um aluno relapso, a oposição faltou justo na hora da prova, a eleição

GANHAR ELEIÇÃO é uma possibilidade, fazer política é um imperativo. O Brasil poderá com esta campanha inaugurar uma nova forma de pleito presidencial: sem debate, sem polêmica, sem divergência e sem oposição.
Nas últimas cinco eleições tivemos disputa em três delas. Mas disputa mesmo, só em 1989. Em 1994 e 1998, FHC venceu Lula facilmente, as duas no primeiro turno.
Em 2002 e 2006, Lula foi como franco favorito para o segundo turno. Eu esperava que teríamos uma eleição diferente em 2010: sem Lula e com oposição que transformasse o pleito em um momento de amplo debate nacional.
Rotundo equívoco. Lula é candidatíssimo, aparece mais que Dilma. E pior: a oposição não apareceu ao encontro marcado. Como um aluno relapso, faltou justamente no momento da avaliação, a eleição.
Na República Velha, a oposição concorria sabendo que o resultado seria fraudado. Era o momento de, ao menos, marcar posição e acumular forças para um novo embate. Agora -e de forma surpreendente- nem isso está ocorrendo. Confesso que a cada dia que assisto ao horário eleitoral fico mais estarrecido.
Este triste panorama terá efeito direto sobre o Legislativo. Tudo indica que o futuro Congresso será muito mais governista que o atual. E também com um número expressivo de "deputados cacarecos", o maior da história recente, produto direto da inexistência do debate político.
A despolitização abre campo para que ex-jogadores de futebol, comediantes, cantores e celebridades instantâneas sejam considerados puxadores de votos para partidos de todos os matizes.
Outro efeito nefasto da despolitização é a permanência (e até ampliação) dos representantes dos oligarcas. Quase todos os sobrenomes que simbolizam o que há de pior na política brasileira estão apoiando a candidata oficial. São espertos. Tratam Lula como se fosse um dos seus. E, por incrível que pareça, ele acabou se transformando em uma espécie de "capo" dessas famílias.
Parodiando Sílvio Romero, no célebre discurso de recepção a Euclides da Cunha na ABL, Lula chegou "à suprema degradação de retrogradar, dando, de novo, um sentido histórico às oligarquias locais e outorgando-lhes nova função política e social".
A apatia política tem preço. E muito alto para o país. A fuga da oposição do debate, o medo do enfrentamento, a recusa de se opor, pode abrir caminho para um longo domínio do Estado por parte de um bloco conservador, sem espírito republicano, com tinturas caudilhistas e desejos de impor sua vontade à força.

*MARCO ANTONIO VILLA é professor do Departamento de Ciências Sociais da UFSCar


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