
Serra diz que fuga de debates é 'física e de ideias'
CAROLINA FREITAS
do Estadão
O candidato do PSDB à Presidência da República, José Serra, disse hoje ver uma "fuga do debate" na disputa eleitoral deste ano. Em uma referência indireta à sua adversária Dilma Rousseff, do PT, o tucano afirmou: "Há uma fuga do debate não apenas física, mas também de ideias." Dilma tem recusado convites para debates em veículos de comunicação.
Segundo Serra, está "difícil" debater temas de governo. "Não se debatem temas. Hoje tem um mecanismo que é uma central de boatos, que espalha coisas, e uma atitude de ofendido quando você diz alguma coisa que todo mundo sabe que é verdade", afirmou, após ser sabatinado na Rede Record, em São Paulo.
Serra voltou a classificar-se como um político de esquerda, em resposta a petistas que o chamaram de integrante da "direita troglodita". "Uma coisa é certa: quem se acha de esquerda tem de ser defensor irrestrito dos direitos humanos. Eu não teria confiado no Ahmadinejad", disse, em referência ao presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, que recebeu apoio do governo brasileiro diante da comunidade internacional.
Apesar da polêmica em torno do rótulo de "direita", Serra disse não se incomodar com ele. "Não incomoda nem ''desincomoda''. É apenas gente que não tem o que dizer, é de direita e inventa factoides." O tucano lembrou ainda dos componentes do que tem chamado de "tripé maldito" da economia para distinguir a direita e a esquerda. "Defender o maior juro real do mundo não é ser de esquerda, defender a menor taxa de investimento governamental do mundo não é ser de esquerda, defender a maior carga tributária do mundo em desenvolvimento também não é ser de esquerda."
Sem-terra
Crítico do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Serra disse que em um eventual governo tucano faria novos assentamentos e atuaria para aumentar a produtividade dos que já existem. "Hoje você tem muitos assentamentos cujos proprietários vivem de cesta básica." Questionado sobre como trataria o MST caso se eleja presidente, o candidato respondeu: "Como um movimento político que tem toda a liberdade para expor suas ideias e para se organizar. Agora, eu não vou subsidiar com recurso dos contribuintes, como é feito hoje."
ELIANE CANTANHÊDE
da FSP
Força e desequilíbrio
BRASÍLIA - Álvaro Uribe passa o governo da Colômbia no próximo dia 7 para seu sucessor, Juan Manuel Santos, e esperou os últimos dias de mandato para dizer ao presidente Lula poucas e boas engasgadas na sua garganta contra a posição enviesada do Brasil no conflito entre Colômbia e Venezuela, entre Uribe e Hugo Chávez, entre direita e esquerda do continente.
Ao tentar minimizar a crise entre os dois países, Lula a reduziu a um "conflito verbal". Uribe reagiu "deplorando" essa posição, pois o que conta é "a ameaça que a presença de terroristas das Farc representa para a Colômbia e o continente".
Foi uma cacetada no Brasil, que toma partido no conflito, a ponto de Lula falar com Chávez e não com Uribe quando, de um lado, a Colômbia mostrou o que seriam provas documentais de que a Venezuela abriga narcoguerrilheiros colombianos e, de outro, a Venezuela rompeu relações com o vizinho.
Ok. A Colômbia é dependente dos EUA, botou tropas americanas dentro do continente e acobertou paramilitares criminosos. Mas a Venezuela não é uma maravilha nos quesitos democracia, economia e área social. O governo Lula deveria ter sido mais equilibrado e menos ideológico na relação com duas nações vizinhas e amigas do Brasil.
Venezuela e Colômbia têm uma fronteira de 2.200 quilômetros, e o comércio bilateral é decisivo para ambas. Exemplo: o segundo destino das exportações colombianas é a Venezuela, só atrás dos EUA. Com o bloqueio comercial, o total de vendas caiu de cerca de US$ 8 bilhões em 2008 para a expectativa de apenas US$ 2 bilhões no final deste ano. Assim, o desemprego na Colômbia bate em 14%.
Venezuela e Colômbia têm uma dependência mútua, como Santos, o presidente eleito, compreende bem. Basta empurrar um para o outro, o que o Brasil tem força de sobra para fazer. Ou teria, se não tivesse optado por um dos lados e desperdiçado toda essa força
FERNANDO DE BARROS E SILVA
da FSP
Educação e demagogia
SÃO PAULO - O candidato petista ao governo de São Paulo, Aloizio Mercadante, precisa esclarecer melhor suas propostas para a educação: se eleito, pretende ou não acabar com o sistema de progressão continuada no ensino público?
Na sabatina realizada pela Folha, o senador foi enfático: "Vamos acabar imediatamente com a aprovação automática. Vai ter avaliação". Questionado se isso significava o fim da progressão continuada (que não reprova o aluno ano a ano, mas ao final de um ciclo), tergiversou: "Avaliar não é para reprovar. O que acontece na aprovação automática? Você finge que não reprovou, mas a vida vai reprovar". A frase de efeito é boa, mas a pergunta ficou sem resposta.
Quem implantou o sistema de progressão continuada em São Paulo foi o educador Paulo Freire, insuspeito de "tucanismo", quando secretário de Luiza Erundina. Mário Covas adotou o modelo no Estado em 1995. O desafio daquela época era, fundamentalmente, colocar (e manter) a criança na escola. As taxas de repetência e de evasão escolar eram alarmantes.
Hoje, ao menos no ensino fundamental, as crianças estão na escola. O que é um avanço. Mas a escola é ruim e as crianças aprendem pouco. O que é um problema sério. Os tucanos, há 16 anos no poder, têm óbvia responsabilidade sobre isso.
A "culpa", no entanto, não é da progressão continuada. Reprovar mais não é sinônimo de elevar o nível do ensino. Pode, dizem especialistas, significar o contrário. Estudos mostram que o aluno repetente aprende menos, e não mais que seus colegas; que a reprovação pode ser fator de "deseducação", além de estímulo à exclusão social.
Cerca de 85% dos alunos do ensino fundamental e médio do Estado (mais de 4 milhões de pessoas) estão na rede pública. A escola privada (o nosso mundinho de elite) forma 15% dos jovens. O desafio é imenso. Menos empáfia tucana e menos demagogia petista seriam um bom ponto de partida para SP.
Aécio e Anastasia escondem Serra em material de campanha
RODRIGO VIZEU
da FSP
O candidato do PSDB à Presidência, José Serra, tem aparecido de forma tímida no material de campanha do ex-governador Aécio Neves e do governador Antonio Anastasia, seus aliados tucanos em Minas Gerais.
A reportagem pediu cartazes, adesivos e santinhos em quatro comitês da campanha de Anastasia em Belo Horizonte. Em três deles, nada existia com a foto de Serra.
No último deles, só após pedido específico de algo com o candidato presidencial, foram entregues adesivos com o rosto de Serra -acompanhado apenas dos nomes dos tucanos mineiros.
Além do "Serra solitário", único material obtido com a imagem do candidato, foram pegos outros dez modelos diferentes da campanha de Anastasia. Apenas cinco deles tinham Serra, mas só o nome dele nos cantos e em tamanho reduzido.
Os materiais mais populares nas ruas de BH são os adesivos só com Anastasia, candidato à reeleição, ou dele acompanhado apenas de Aécio e Itamar Franco (PPS), candidatos ao Senado.
DILMA
A situação contrasta com a farta exposição de Dilma Rousseff (PT) no material de campanha de Hélio Costa (PMDB) ao governo mineiro.
No comitê do peemedebista, a reportagem obteve seis tipos de impressos, todos com referências a Dilma -quatro deles com a imagem da petista acompanhada de seus aliados mineiros. Há ainda distribuição de material produzido pela campanha nacional do PT.
Anteontem, em visita a BH, Serra disse não considerar "grave" sua menor exposição. "É uma coisa que se corrige com enorme facilidade", disse. Ele disse ver "pleno empenho" de Aécio em sua campanha presidencial.
A campanha de Aécio e Anastasia informou que produz até 20% do material sem Serra para atender aos partidos da coligação que não apoiam o tucano para presidente, como PR, PDT e PSB.

