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Quarta – Feira Manhã : 9,00 às 12,00 horas

Quarta-Feira Tarde : 14,00 às 17,00 horas

CURSO DE CORTE DE COSTURA – METÓDO CENTESIMAL

Quarta-Feira Noite : 19,00 às 22,00 horas

CURSO DE PATCHWORK

Sexta-Feira Manhã : 9,00 às 12,00 horas

CURSO DE PATCHWORK

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Gabriela e Fernanda

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Reportagem revela que PF investiga denúncia antecipada pelo ‘JB’

JB online

Matéria trouxe à tona a suspeita de que Limírio teria usado esquema de Cachoeira

A Polícia Federal investiga os fortes indícios de que o empresário Marcelo Limírio se beneficiou do esquema do bicheiro-empresárioCarlinhos Cachoeira para comprar o Hotel Nacional, em 2009. A denúncia da ligação entre Limírio e Cachoeira foram trazidas à tona pelo Jornal do Brasil no último dia 16 de abril, na reportagem “Hotel Nacional: as digitais de Carlinhos Cachoeira no Rio de Janeiro”.

Desativada desde 1995, a construção foi leiloada pelo Ministério da Fazenda através da Superintendência de Seguros Privados (Susep) em 2009. Naquela ocasião, o empresário Marcelo Limírio arrematou o hotel por R$ 84,9 milhões, R$ 33 milhões a menos do que o lance inicial do leilão anterior, no qual não houve lance.

Principal acionista individual do grupo Hypermarcas, Marcelo Limírio é sócio direto tanto de Carlinhos Cachoeira quanto de Demóstenes. O contraventor e o empresário são sócios pela empresa ICF, responsável por fornecer testes para laboratórios. Entre eles, está o Vitapan, que pertence a Cachoeira. Já o senador Demóstenes é sócio de Limírio numa universidade em Contagem, Minas Gerais.

Contrato da “Nova Faculdade” revela relação de Demóstenes com Marcelo LimírioDenominada “Nova Faculdade”, a instituição de ensino é dividida entre três cotistas, dois dos quais são Limírio (60% do empreendimento) e Demóstenes (20%). O empresário foi até bem generoso com o senador, deixando que ele parcelasse em 25 vezes o investimento de R$ 200 mil na empresa.

Com campanha financiada por Limírio, Vergílio não assinou pedido de CPI para investigar Cachoeira

A proximidade de Limírio com Cachoeira e Demóstenes coloca outro político na roda: o deputado federal Armando Vergílio (PSD-GO). Ele era o superintendente da Susep em 2009, mesmo ano no qual o órgão leiloou o Hotel Nacional por duas vezes, baixando seu preço de R$ 118 milhões para R$ 84 milhões em função da falta de compradores na primeira tentativa de venda.

Meses após a venda, Vergílio deixaria a Susep para se candidatar à Câmara Federal e um dos seus principais doadores foi a SS Comércio de Cosméticos, que contribuiu com R$ 100 mil através de uma doação eletrônica. A Hypermarcas, a mesma da qual Limírio é o principal acionista, adquiriu naquela ocasião algumas das linhas de produto da SS Comércio de Cosméticos por R$ 25 milhões. Vergílio concorreu pelo cargo de deputado federal justamente no estado no qual a quadrilha de Cachoeira exercia maior controle: Goiás.

Retificação (17/04): a Hypermarcas informou que não comprou a SS Comércio de Cosméticos, apenas adquiriu algumas de suas linhas de produtos.

Além das digitais de Limírio, a lista de doadores de Armando Vergílio revela nomes curiosos. Ex-superintendente de um órgão cujo objetivo é controlar e fiscalizar o mercado de seguro, previdência privada aberta e capitalização, o deputado federal recebeu uma série de doações que atuam na área. Entre seus principais doadores estão a Porto Seguro (R$300 mil), Banco Pottencial (R$ 200 mil), Itaú Unibanco (R$ 100 mil), Liderança Capitalização (R$ 100 mil) e GPS Corretora de Seguros (R$ 100 mil). Como era integrante do PMN na época das eleições, Vergílio ainda recebeu, através do comitê financeiro único do partido, doações da Alvorada Cartões (R$ 200 mil) e Liderança Capitalização (R$ 200 mil). No total, o deputado federal recebeu R$ 1,2 milhão em recursos de empresas da mesma área que ele fiscalizava nos tempos de Susep.

Aliança política

Antes da eclosão das denúncias da Operação Monte Carlo, o senador Demóstenes Torres era um dos favoritos para disputar a prefeitura de Goiânia. No entanto, uma possível ida para o Supremo Tribunal Federal, cogitada algumas semanas antes da revelação de suas ligações com Cachoeira, afastava essa possibilidade. Nesse momento, um dos nomes ventilados para a disputa foi o de Armando Vergílio, que recebeu o sinal verde do senador para a candidatura, segundo jornais locais. Em contrapartida, Vergílio foi um dos poucos deputados que não assinaram o pedido de abertura da CPI de Cachoeira.

Quebra de sigilo

De acordo com reportagem da “Época”, a Justiça autorizou a quebra de sigilo bancário de todos os investigados por suspeita de desvio de recursos da Interunion Capitalização (antiga proprietária do Hotel Nacional) e até lavagem de dinheiro. Marcelo Limírio também já foi convocado a prestar esclarecimentos à CPI do Cachoeira.

Leia trecho da reportagem:

- O leilão foi remarcado várias vezes sem que o hotel fosse vendido. A última tentativa malsucedida, em 4 de novembro de 2009, estabeleceu um preço mínimo de R$ 118,5 milhões, com o pagamento mínimo de R$ 100 milhões praticamente à vista. No leilão seguinte, um mês e meio depois, o preço foi para R$ 85 milhões, com o pagamento inicial de R$ 21 milhões. Nessas condições bem mais amigáveis, foi arrematado por Limírio.(…) A queda de preço ocorreu com a aprovação da Superintendência de Seguros Privados, a Susep, órgão federal que fiscaliza 25% do mercado financeiro nacional – cujo comando, uma indicação política, vem sendo disputado pelo PT e pelo PTB desde o governo Lula. Na ocasião do leilão, o superintendente da Susep era o deputado federal Armando Vergílio, do PSD de Goiás, cujo padrinho é o deputado federal Jovair Arantes, do mesmo Estado. Líder do PTB na Câmara dos Deputados, Arantes é citado na Operação Monte Carlo da Polícia Federal, que deu origem à CPI do Cachoeira.

- Foram contratados dois leiloeiros, um em São Paulo e o outro no Rio de Janeiro, para o leilão do Hotel Nacional. O de São Paulo era Luiz Fernando Sodré Santoro, suplente do senador Mozarildo Cavalcanti (PTB-RR). Outra empresa, de propriedade da mulher de Santoro, ainda entrou no negócio. Junto, o casal recebeu R$ 3,85 milhões.

- A Polícia Federal investiga também a contratação do escritório de advocacia Mattos, Rodeguer Neto, Victoria, de São Paulo, por R$ 2,76 milhões, num processo do qual já participavam três escritórios de advocacia. Segundo ex-acionistas da Interunion Capitalização, a contratação teve como efeito apenas “arruinar o patrimônio alheio”.

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Crise contamina economia do País via crédito externo

do Estadão

A crise global chega ao Brasil pelo corte abrupto das concessões de crédito aos tomadores brasileiros, visível desde o final do mês passado. Depois dos empréstimos de US$ 800 milhões a duas companhias, em abril, nenhuma nova operação foi fechada, segundo o jornal Valor.

A corrida aos bancos gregos, com saques de US$ 75 bilhões, desde 2010 – e sua chegada, ainda que limitada (caso do espanhol Bankia), a outros países -, obriga as instituições a adotarem a política de rédea curta. Tampouco os tomadores brasileiros saíram a mercado, nos últimos dias, para não se expor a tentativa frustrada.

Se a crise é o principal motivo pelo qual os bancos reduziram a oferta de crédito, isso não quer dizer que o Brasil deva manter inalterada a cobrança de IOF para operações com prazo de até cinco anos, que eleva custos e cria desinteresse entre tomadores e credores.

O aumento do risco de crédito é um terceiro elemento negativo, decorrente da alta do dólar. Esta pode tornar mais caras as operações, pois não se sabe quanto valerá o dólar na hora da quitação. Uma deterioração da qualidade do empréstimo implica custo mais alto, mesmo que, de modo geral, o País continue sendo visto como atraente para instituições financeiras e investidores externos.

Como as empresas brasileiras estão, em geral, capitalizadas, a contaminação externa só será ameaçadora se afetar muito os planos de investimento – e, assim, ameaçar o ritmo de crescimento, que continua em desaceleração: o Índice de Atividade Econômica do Banco Central recuou 0,35% entre fevereiro e março.

“A expectativa é de que a janela (externa) possa se abrir para empresas de primeira linha em algumas semanas, mas talvez sejam janelas curtas”, previu um diretor do banco HSBC, Alexei Ramizov.

Em resumo, o ambiente favorece a manutenção de um dólar forte, defendido pela Fazenda. Mas a correspondência é o real mais fraco. E essa é uma forma de contágio da crise do euro sobre a América Latina, alerta o analista Christian Lawrence, do Rabobank. “O real, o peso chileno e o peso mexicano continuam sendo moedas de risco, sujeitas à aversão”, disse ele à correspondente do Estado em Londres, Daniela Milanese.

Há pouco a fazer com vistas à retomada do crédito externo, salvo a manutenção de uma condução econômica sensata e correções tópicas, por exemplo, na área tributária. A disposição de investimento das empresas depende não só de recursos, mas da confiança em que os objetivos da política econômica são sustentáveis

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A mulher, a ciência e o coco

João Ubaldo Ribeiro
do Estadão

Sim, cativante leitora, gentil leitor, fiquei devendo algumas explicações, depois da deplorável barafunda de assuntos com que os tenho vitimado, nos últimos domingos. Mas, apesar de tudo, creio que acabei esclarecendo mais ou menos a questão da gordura do coco e discorrendo um pouco sobre a inconstância do que nos apresentam como perenes e irretorquíveis verdades científicas. Não cheguei, contudo, a dizer direito o que via nisso de relevante para as mulheres. Hoje essa grave lacuna, como é destino de todas as lacunas, será preenchida.

No domingo passado, escrevi que havia novidades científicas para as mulheres, relacionadas com o coco. Disse também que não sabia se era caso de as mulheres desconfiarem de mais esse achado científico. De minha parte, creio que sim – e não somente porque os achados vivem se contradizendo, mas porque minhas contemporâneas sofreram bastante, por causa da verdade científica. A maioria das queridas leitoras, todas na flor da idade, talvez não possa recordar o tempo em que a gente se referia às mulheres, a sério, como “o sexo frágil” ou “o belo sexo” e as considerava umas instintivas mais ou menos destituídas de real inteligência. Claro que essa maneira de ver se originava na ciência vigente. Sem achar que estavam ofendendo ninguém, os homens e muitas mulheres repetiam uma porção de besteiras sobre as mulheres, nenhuma delas abertamente desmentidas pela ciência e algumas até confirmadas.

As besteiras se estendiam sobre todas as áreas, inclusive aquela em que o óleo de coco está ganhando destaque, ou seja a tensão pré-menstrual. Pois é, a cada dia aparece uma matéria em algum jornal ou noticiário, anunciando essa maravilha. Desconheço a posologia e não estou receitando nada, mas li que, num porcentual altíssimo, as mulheres que sofrem de TPM ficam curadas ingerindo óleo de coco diariamente, do qual já existem não sei quantas marcas em circulação. Espero que as sofredoras fiquem boas mesmo, mas, como disse domingo passado, tenho algumas lembranças do progresso da ciência e do conhecimento comum sobre a questão, que talvez devam ser ponderadas.

No começo, não havia menstruação. Ou seja, não se falava nisso na presença de homem algum, a não ser o médico, a cujos consultórios as mulheres só iam acompanhadas. Geralmente eram os homens que tinham irmãs que começavam a revelar aos outros a existência desse estranho fenômeno, encarado por muitos com ceticismo. Os mais sofisticados pegavam anúncios de Modess na revista O Cruzeiro, em que apareciam misteriosas mensagens cifradas, dirigidas às mulheres e mencionando “as antiquadas toalhinhas”. Mas não se mostrava nem a toalhinha, nem o secretíssimo produto anunciado. Havia grandes discussões masculinas sobre o que seriam as antiquadas toalhinhas e até hoje não faço delas uma ideia clara. Neném, um amigo de infância, certa vez abriu um pacote de Modess para ver como era e o descreveu como “um travesseiro de gato”, o que não contribuiu muito para o entendimento. E a moça não ficava menstruada, ficava “incomodada”, ou até “doente”.

O conhecimento comum e o conhecimento científico sobre o assunto, tanto quanto eu saiba, diferiam apenas na terminologia. Em Itaparica, não se usava a expressão na presença de alguém do sexo oposto, mas a menstruação era designada como “boi”, em falas como “acho que o boi dela chegou, você precisa ver como o feijão está salgado e mal catado”, “ele disse que vai casar com ela e eu retruquei que não tinha nada contra, só fiz lembrar que a família dela tem os bois mais brabos da ilha e ele que se precate, porque vai tomar porrada todo mês”. Quando eu era menino e ficava na quitanda de Bambano para ouvir as conversas dos adultos, a finada Lindaura, de finado Cartésio (nomes mudados por uma questão de discrição), às vezes passava batendo os tamancos e assoprando forte e Bambano comentava que “compadre Cartésio hoje vai se ver, espere só ela abrir a cancela e soltar esse boi”. E de fato, quando sentia que o boi de Lindaura estava perto, Cartésio sempre arranjava uma viagenzinha de negócios a Salinas e ficava por lá até ele acalmar.

Era mais ou menos o que a ciência dizia, com outras palavras. Questão de personalidade da vítima de bois brabos, histeria. Quando a infeliz se queixava de cólicas que a deixavam rolando na cama, o médico, como eu vi acontecer, só faltava dar uma risadinha de condescendência para com o eterno feminino (sim, havia também o eterno feminino) e explicava que as cólicas eram psicológicas. “Está tudo em sua cabecinha”, dizia o médico a uma paciente que evidentemente não tinha dor nenhuma na cabeça, mas na barriga mesmo.

Agora, ao que parece, as cólicas não são mais psicológicas e a ciência reconhece a existência da TPM. Segundo me contam, entidades científicas questionam essa existência, mas outras não só a aceitam, como ainda acharam algo pior, chamado Transtorno Disfórico Pré-Menstrual. Pela descrição, a mulher nas vascas do TDPM é capaz de metralhar a vizinhança ou jogar o gato no liquidificador. Óleo de coco nela, atual palavra de ordem. Como eu disse antes, espero que dê certo mesmo e, a julgar pelo material que me mandaram depois que falei nele, deveremos entrar em breve na Era do Coco. Aliás, lá na ilha já entramos, com resultados ainda duvidosos, o que dá pra rir dá pra chorar e até cheiro bom tem sua hora. Um toureiro (marido ou amancebado com mulher de boi brabo) lá do Bar de Espanha se ofereceu para um teste e, de fato, o boi da sua dele santa esposa amansou muito, depois que ela passou a tomar leite de coco várias vezes por dia.

- Mas eu suspendi o tratamento – disse ele. – Muito antes um boi brabo do que o sujeito ir deitar e achar que está dormindo com uma moqueca.

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Sobre a Comissão da Verdade

Celso Lafer
do Estadão

A Comissão Nacional da Verdade, cujos qualificados membros foram empossados na semana passada, insere-se no âmbito do que se denomina justiça de transição, que diz respeito aos modos como, na passagem de regimes autoritários para a democracia, uma sociedade lida com um passado de repressão e violência. Comissões de Verdade são uma instância ad hoc com objetivo básico de apurar, num prazo determinado (dois anos no caso desta), fatos sobre graves violações de direitos humanos. Partem do pressuposto de que podem oferecer mais benefícios para a consolidação da vida democrática de uma sociedade do que a judicialização de processos políticos.

A Comissão da Verdade não é o marco zero da justiça de transição no Brasil. Tem como antecedentes a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos, do governo Fernando Henrique Cardoso, bem-sucedida experiência de reparação aos familiares de mortos e desaparecidos entre 1961 e 1985, e a Comissão de Anistia, que desde o governo Lula propicia medidas indenizatórias de reparação a pessoas atingidas por atos arbitrários cometidos antes da promulgação da Constituição de 1988.

A Comissão da Verdade deverá examinar e esclarecer graves violações de direitos humanos a fim de efetivar um direito à memória e à verdade histórica. Suas atividades não terão caráter jurisdicional ou punitivo. Ou seja, ela nem pune, pois não é justiça de transição retributiva (em consonância com a Lei da Anistia de 1979, que o STF considerou válida), nem indeniza, até porque da justiça de transição de reparação trataram as duas comissões acima mencionadas. Seu foco recairá sobre as circunstâncias que cercaram a vigência do regime autoritário e deverá cumprir papel de relevo para a afirmação dos valores democráticos, que é a sua razão de ser.

No que diz respeito à função da justiça, lembro que a comissão poderá receber testemunhos. A amplitude desses testemunhos lhe permitirá fazer uma justiça asseguradora das múltiplas vozes do sofrimento das vítimas e de seus familiares, a quem restituirá institucionalmente dignidade, por obra, para falar com Hannah Arendt, do poder redentor da narrativa e da diferença entre o descrever e o ouvir.

O papel da comissão não se confunde com o da anistia. Anistia, palavra de origem grega, significa esquecimento e tem proximidade semântica, e não apenas fonética, com amnésia. A anistia coloca-se desde Atenas, depois da vitória da democracia sobre a sangrenta oligarquia dos 30, sob o signo da utilidade política de apaziguamento das tensões de uma sociedade, e não sob o signo da verdade. Não é um perdão. É um esquecimento, juridicamente comandado, de atos cometidos de natureza penal. Esse esquecimento comandado, que alcança atos do governo e dos que a ele resistiram, foi, nesses termos, juridicamente reconhecido como válido pelo STF. Não exclui, no entanto, a afirmação de um direito de titularidade coletiva da cidadania brasileira, a memória da verdade factual de graves violações de direitos humanos. Para assegurar este direito a comissão foi criada.

A natureza da verdade que cabe à comissão apurar não é a verdade jurídica proveniente da judicialização de processos políticos. É, para recorrer novamente a Arendt, a verdade factual dos fatos e eventos, que é a verdade da política. Esta se caracteriza porque o seu oposto não é o erro, a ilusão ou a opinião, mas sim a falsidade da ocultação ou a mentira na manipulação dos fatos. Por isso seus modos de asserção não são os de evidência da verdade racional, mas o desvendamento dos fatos pelo testemunho e pelo acesso à informação escondida. Seu papel é, assim, e esta é a função principal da comissão, o de impedir o esquecimento por apagamento de rastros da violação de direitos humanos.

Para tanto ela deverá indicar as maléficas consequências, para a vida política democrática, do criptopoder, tanto no Estado quanto na sociedade, que age na sombra, porque tanto se oculta quanto oculta, isto é, esconde, pelo sigilo, o que fez em matéria de violência e violação de direitos humanos. Realçará, assim, a comissão, a validade do princípio de transparência do poder, que é constitutivo de um regime democrático.

A verdade factual a ser buscada com objetividade e imparcialidade pela comissão deverá ser uma contribuição para a História. Não é, no entanto, a História. O seu papel é constituir um local de memória da verdade factual da violação dos direitos humanos no Brasil no período que lhe incumbe averiguar, representativo de uma institucionalizada vontade de memória coletiva cidadã dos males dessa violação. Mas a memória não é História, pois escolhe, seleciona e é vivida no presente, com a preocupação do futuro.

A memória da repressão e o direito à verdade do sofrimento de suas vítimas são tanto uma comprovação de que não se manda impunemente quanto um componente indiscutível do que caracterizou o regime autoritário no Brasil. Este, no entanto, tem outros aspectos e escrever e interpretar sua história requer tomar em conjunto outras facetas do período, na coerência narrativa de uma síntese do heterogêneo. O que estou querendo dizer é que a avaliação histórica do período e de suas circunstâncias é uma indagação que passa por pesquisas e reflexões que não têm a característica da coisa julgada da verdade jurídica num processo penal. Explico-me com dois exemplos: o período do Estado Novo de Getúlio Vargas e a gestão presidencial de Floriano Peixoto foram períodos de significativas violações dos direitos humanos. Têm, no entanto, outras dimensões que a História vem examinando e avaliando de maneira mais ou menos positiva.

Em síntese, a factualidade para a qual contribuirá a Comissão da Verdade é o limite da liberdade de interpretação. Porém a realidade histórica é esquiva. Por ser humana, é equívoca e inesgotável, como observou Raymond Aron ao tratar dos limites da objetividade histórica.

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Senado desbanca Câmara e é mais favorável a Dilma

Votos dos senadores passam a integrar o Basômetro, ferramenta desenvolvida pelo Estadão Dados para acompanhar o Congresso

do Estadão

Maior dor de cabeça de Luiz Inácio Lula da Silva durante sua gestão, o Senado está cada vez mais dilmista. A taxa média de governismo dos senadores cresceu em 2012 na mesma proporção que diminuiu a adesão dos deputados federais ao governo de Dilma Rousseff. Hoje, o Senado é mais governista do que a Câmara. É o que revela nova funcionalidade do Basômetro, ferramenta online de avaliação do Congresso desenvolvida pelo Estadão Dados. Os votos nominais dos senadores na atual legislatura foram incorporados pelo Basômetro.

Em 13 votações abertas ocorridas no Senado em 2012, o governo conseguiu em média 84% dos votos. Na Câmara, no mesmo período, ocorreram 18 votações nominais e o governo obteve um resultado pior em 10 pontos porcentuais: capturou “apenas” 74% dos votos dos deputados, em média. Em 2011 a situação era inversa. A taxa de governismo de 2011 no Senado foi de 78%, enquanto a da Câmara ficou em 80%.

Essa maré mansa para Dilma no Senado resultou em apenas uma derrota do governo entre os senadores. E mesmo assim foi em uma votação secreta (portanto, não incluída no Basômetro pois não é possível identificar os autores dos votos), aquela que rejeitou a recondução de Bernardo Figueiredo para o comando da Agência Nacional de Transporte Terrestre (ANTT). Ao mesmo tempo, Dilma perdeu cinco votações na Câmara.

Mudança. O que mudou no comportamento dos senadores? Quem ficou mais governista?

Com exceção do PSB e do PMDB, todos os maiores partidos ficaram mais governistas em 2012, ao menos por enquanto. Até os senadores de oposição votaram mais parecido com o líder do governo neste ano. A proporção dos votos governistas do PSDB teve o maior crescimento proporcional entre todos os grandes partidos, de 33% para 54%. Com os do DEM aconteceu a mesma coisa: o governismo bateu em 59% até agora. Ou seja, na média, os senadores dos dois principais partidos de oposição votaram mais com do que contra o governo neste ano.

Mais cotado presidenciável do PSDB à sucessão de Dilma, Aécio Neves votou duas vezes mais com a presidente do que contra ela em 2012: 8 a favor e apenas 4 contra – taxa de governismo de 67%. Foi uma mudança radical de comportamento em relação a 2011, quando o senador mineiro votou apenas 35% das vezes junto com o governo.

Aécio não foi o único que migrou para a metade governista do Senado – mesmo que provisoriamente – em 2012. O líder do PSDB, Álvaro Dias, votou 58% das vezes junto com o líder de Dilma. O presidente do DEM, senador José Agripino, teve a mesma mudança de comportamento de Aécio, com praticamente as mesmas taxas de governismo.

Mas ninguém bate o PSD em 2012. Os dois senadores do partido registraram 100% de votos com o governo este ano. Foram 7 votos a favor de Kátia Abreu e 8 de Petecão, mas nenhum contra. Foi um movimento oposto ao de seus colegas de legenda na Câmara, que votaram mais vezes com a oposição em 2012.

A proporção de senadores no “núcleo duro” do governo chegou a 54% em 2012. Ou seja, a maioria do Senado votou 90% das vezes ou mais com o Planalto este ano.
* JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO, AMANDA ROSSI, TCHA-TCHO e DANIEL BRAMATTI

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‘Cosa Nostra’

DORA KRAMER
do Estadão

O que é a máfia?

Uma organização de alicerces criminosos que se sofistica, investe na formação de “quadros”, infiltra-se nas instituições para conferir feição legal aos seus negócios. Ao longo do tempo senta praça no Estado mediante cooptação de agentes públicos e privados permeáveis aos atrativos da corrupção.

O que parece ser a rede montada sob a coordenação de Carlos Augusto de Almeida Ramos?

Pelos fatos já revelados, justamente uma organização originada na operação ilegal de bingos e caça-níqueis que se aperfeiçoou investindo em atividades de natureza lícita enquanto ampliava seus tentáculos formando relações e firmando contaminações na polícia, no Judiciário, no Ministério Público, no Executivo e, com especial desenvoltura, no Legislativo.

As gravações já conhecidas feitas pela Polícia Federal no curso das operações Vegas e Monte Carlo mostram a montagem de uma estrutura que já contava com a participação de parlamentares para influir até nas emendas ao Orçamento da União.

Previa a “compra” de um partido, articulava a eleição do senador Demóstenes Torres para a Prefeitura de Goiânia, incentivava sua aproximação com o governo federal na esperança de um dia vê-lo como ministro da Justiça. Infiltrou “agente” na Controladoria-Geral da União, usou de espionagem para monitorar investigações do Tribunal de Contas da União e contou com informantes no alto escalão da polícia.

É com esse cenário de contorno nitidamente mafioso que a CPMI “do Cachoeira” se depara. Seu trabalho é revelar à sociedade o que fazia essa organização, quem participava dela, como trabalhava e por que conseguiu crescer.

Ainda não dá para dizer se a comissão soçobrou de vez ou se há chance de prosperar, mas uma coisa é evidente: perde fôlego, patina e vive um momento ruim.

Já gastou quase um dos seis meses previstos para as investigações e até agora o que se viu foi dispersão e perda de tempo com discussões sobre convocações de um jornalista, do procurador-geral da República e de sigilos de documentos.

Adiam-se depoimentos, restringem-se alvos de investigações, mas, vá lá, pode ser parte da estratégia que venha a se revelar acertada adiante.

Não contribui para a seriedade dos trabalhos um deputado do PT (Cândido Vaccarezza) passar um recibo – literalmente por escrito – de que há na CPMI possibilidade de oferta de proteção, enviando mensagem por celular a um governador do PMDB (Sérgio Cabral Filho) para tranquilizá-lo quanto a uma possível convocação.

Muito menos nos termos utilizados. A frase “você é nosso e nós somos teu”, além de um atentado idiomático, remete à existência de uma “coisa nossa” cuja natureza não se sabe exatamente qual seja.

Há uma expectativa de que o deputado venha a ser questionado ou deixe espontaneamente a comissão. Dúvida fica se a ideia seria preservar a confiabilidade da CPMI ou apenas salvar temporariamente as aparências.

De qualquer modo, a questão essencial permanece. A CPMI deslancha ou desanda?

Na segunda hipótese, o Congresso terá perdido a chance de reabilitação desse instrumento tão debilitado nos últimos tempos e pior: compactuado com a máfia que se propôs a investigar e preferencialmente desmontar.

Azedume. Quando Cândido Vaccarezza avisou ao governador Sérgio Cabral Filho que a relação do PT com o PMDB iria “azedar” na CPMI, o fez depois da tentativa frustrada de obter apoio dos pemedebistas para aprovar a convocação do jornalista Policarpo Júnior, da revista Veja.

O petista enviou vários torpedos pressionando parte da cúpula do PMDB que estava reunida naquele mesmo dia (quinta-feira) e avaliava que o partido não deveria ceder por dois motivos: para não perder o discurso de defesa da liberdade de imprensa e porque não tinha razão para comprar briga alheia.

Mais especificamente de Lula em nome de quem, na interpretação dos pemedebistas, Vaccarezza estaria atuando.

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Seca a CPI do Cachoeira

NOTAS & INFORMAÇÕES
do Estadão

Sem, talvez, o grosseiro erro de concordância da mensagem do deputado petista por São Paulo Cândido Vaccarezza ao governador fluminense Sérgio Cabral, pode-se apostar que um certo número de integrantes da CPI do Cachoeira poderia tranquilizar nos mesmos termos qualquer figurão da política ou dos negócios ameaçado de se tornar alvo do inquérito parlamentar das duas Casas do Congresso sobre as relações do bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, com agentes públicos e privados. Em plena sessão do colegiado, na quinta-feira, um cinegrafista flagrou o inadvertido ex-líder do governo na Câmara escrevendo ao peemedebista Cabral no celular: “A relação com o PMDB vai azedar na CPI. Mas não se preocupe, você é nosso e nós somos teu (sic)”.

A convicção de que Vaccarezza está longe de deter, entre os seus pares, o monopólio da proteção a possíveis protagonistas da trama da qual Cachoeira é o pivô ganhou força com as decisões tomadas naquela mesma sessão pelo relator da investigação, deputado Odair Cunha, do PT de Minas Gerais – com o apoio tácito ou explícito de setores da oposição -, secando a CPI. Como se temia, ele blindou os governadores de Goiás, o tucano Marconi Perillo; o do Distrito Federal, o petista Agnelo Queiroz; e o do Rio, o já citado Cabral, contra tentativas de apurar o envolvimento deles, ou com Cachoeira, ou com o dono da construtora Delta, Fernando Cavendish, de cuja empresa o contraventor seria “sócio oculto”, no dizer do Ministério Público. Foram igualmente poupados de convocação para depor ou da quebra dos seus sigilos o empresário, a empreiteira sediada no Rio e três deputados da turma de Cachoeira.

Para que não se dissesse que melhor faria a CPI se, para todos os efeitos, desse os trâmites por findos, o relator aprovou 51 convocações e 40 quebras de sigilo fiscal, bancário e telefônico. Os visados são familiares, operadores e cupinchas do batoteiro; o ex-diretor da Delta no Centro-Oeste, Cláudio Abreu, preso em 25 de abril; as filiais da companhia em Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins e Distrito Federal; o tesoureiro da campanha de Perillo e porta-voz do seu governo, Jayme Rincon; e o ex-chefe de gabinete de Agnelo Queiroz, Cláudio Monteiro. Quanto aos dois outros governadores, acertaram-se os partidos que são “teu” como diria Vaccarezza. Em vez de Cavendish, um ex-preposto. Em vez da Delta matriz, as suas distantes filiais. “Falta de indícios”, a mentirosa justificativa que raros membros da CPI rejeitaram. Citem-se, por justiça, os senadores Pedro Taques, do PDT de Mato Grosso, e Randolfe Rodrigues, do PSOL do Amapá.

Contrariamente ao que o dono da Delta quis fazer crer, os nexos da cúpula da empresa com o bicheiro foram constatados em pelo menos 22 telefonemas interceptados pela Polícia Federal. E o nome de Cavendish aparece em conversas de Cachoeira com o senador Demóstenes Torres, enredado em negócios com as duas pontas da linha. Sem investigar o empreiteiro, que certa vez proclamou que, “se botar 30 milhões na mão de um político”, seria convidado “pra coisa pra …”, aí sim não se chegará aos eventuais malfeitos do governador do Estado onde a Delta, em cinco anos da gestão Cabral, fechou contratos no valor de R$ 1,49 bilhão. O que é notório é a proximidade entre ambos, incluindo cenas de esbórnia explícita em Paris. À falta de provas objetivas, sobrevive a palavra de Cabral de que não mistura governo e amizades, não obstante o prestimoso Vaccarezza ter achado necessário acalmá-lo com a lembrança de que ele é “nosso”.

Por fim, sem investigar a Delta, aí sim não se chegará às eventuais traficâncias que poderiam ter sido providenciais para torná-la a maior executora do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Desde 2003, nenhuma firma de nenhum ramo recebe tanto do governo federal. Só no ano passado, ela faturou R$ 862,4 milhões por obras em 20 Estados. As irregularidades descobertas nos respectivos contratos montam a R$ 632 milhões. A Delta está para ser considerada “inidônea” pela Controladoria-Geral da União. Em 2010, doou R$ 2,3 milhões, divididos praticamente ao meio, ao PT e ao PMDB.

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Aliança dá favoritismo a ex-membro da Irmandade

Fotouh, que conseguiu unir setores da esquerda laica e os radicais salafistas, posa como pós-islâmico, mas defende a sharia como marco legal do Egito

Roberto Simon, Enviado Especial, Cairo
do Estadão

CAIRO – Dezenas de milhares de pessoas com camisetas e bandeiras laranjas ocuparam nesta sexta-feira, 18, a pequena Ilha de Zamalek, região do Cairo onde o Rio Nilo se divide em dois, para ver um dos últimos comícios de Abdel Moneim Abou Fotouh.

Asmaa Waguih/Reuters

Partidários de Fotouh fazem campanha no Cairo
Candidato às eleições presidenciais de terça e quarta-feira, Fotouh costurou uma aliança improvável: recebeu apoio tanto de setores da esquerda laica quanto dos salafistas, os ultrarradicais islâmicos. Essa mistura fez dele o favorito na disputa entre os veteranos da Praça Tahrir.

A visão da multidão laranja andando pelas ruas causava estranheza entre moradores da capital egípcia. “Nunca tinha visto um comício assim organizado, com cartazes e alto-falantes, que não fosse do PND”, disse ao Estado o segurança de rua Heni Nasr, de 34 anos, referindo-se ao extinto Partido Nacional Democrático, do ex-ditador Hosni Mubarak. Até fevereiro de 2011, quando o antigo regime ruiu, o PND reunia multidões para demonstrar sua legitimidade e caráter popular. Hoje, o prédio do partido, na Praça Tahrir, está queimado e vazio.

Nasr conta que viveu os dias de luta na praça contra as forças do ditador. “Cheguei a ficar ferido na perna”, completa. Mas surpreende ao anunciar sua escolha de candidato: Amr Moussa, o homem que foi ministro de Mubarak por mais de dez anos. O vigia argumenta que Fotouh é um político islâmico, formado nos quadros da Irmandade Muçulmana, com a qual rompeu “apenas” para se candidatar. “O pior que pode acontecer é termos um presidente radical islâmico”, afirma. Questionado sobre a contradição de votar no ex-ministro do ditador que ele lutou para derrubar (e lhe feriu a perna), ele rebate: “Moussa discordava de Mubarak e sempre foi contra Israel. Além do mais, ele sabe que, se sair da linha, terá de lidar com a Praça Tahrir”.

Os sinais emitidos por Fotouh são de fato contraditórios. Setores laicos que o apoiam afirmam que ele é “pós-islâmico”, alguém capaz de unir grupos tão distintos quanto os que depuseram Mubarak. Mas, no único debate na TV, entre ele e Moussa, Fotouh repetiu várias vezes que a sharia (lei corânica) deve ser o marco legal do novo Egito e prometeu um “Estado democrático com a sharia acima de tudo”.

Ontem, na manifestação em Zamalek, a esmagadora maioria das mulheres usava o véu que esconde os cabelos. Mas não havia partidárias de Fotouh com o niqab – que deixa apenas os olhos de fora –, tampouco militantes dos ultrarradicais salafistas, facilmente identificáveis pelas barbas espessas e as túnicas longas.

O temor de setores laicos do Egito com os grupos islâmicos cresceu desde o fim do ano passado, quando as eleições legislativas deram mais de 70% do Parlamento aos religiosos e ultrarreligiosos. Mas pesquisas indicam que a popularidade desses partidos está declinando, justamente porque eles passaram a ter as responsabilidades que o poder político traz. Uma sondagem divulgada esta semana pelo Instituto Gallup mostra que, em fevereiro, 63% dos egípcios diziam “apoiar” a irmandade. Em abril, o número caiu para 42%. No mesmo período, os salafistas foram de 37% para 25%.

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